O Corvo

Primeiro texto da série ‘Natureza Céltica‘ dedicado ao simbolismo e significado do Corvo no mundo céltico e na Druidaria, nestes nove días da Lua de Brigantia – ‘Lua Janeira’ – que começam hoje.

Os corvídeos em geral são animais a tratar com cuidado, frequentemente percebidos com uma mistura de respeito e receio. Há quem mesmo lhes tenha medo.

É certo que em ocasiões o Corvo é visto como animal associado à guerra, ao deus Bandua ou à deusa chamada Reva (na Galiza) ou Mórrígan (na Irlanda), pois é habitual que Corvos sobrevoem os campos de batalha, erigindo-se nos olhos e testemunhas das deidades. Mas também é certo que simbolizam habilidade, astúcia e inteligência. O Corvo é um transmissor, um comunicador. Mais que isso, o Corvo é o mensageiro entre o nosso mundo e o Além quando as portas entre ambos lugares estão formalmente fechadas (normalmente porque não são as datas propícias ou não se executa o rito ajeitado). Ao Corvo pode-se-lhe pedir que transmita mensagens a quem está Lá, e o Corvo pode trazer mensagens de Lá, tenhamos-lo pedido nós ou não. E o Corvo quando fai isto fai-no sem pedir nada em troca, eis uma mostra de bondade, pois longe de ser tétrico ou lúgubre o Corvo demonstra com normalidade o natural dos trânsitos entre lugares e tempos, com ida e volta, sem mais. Poderia ser negativo um animal cuja contraparte vegetal é o sabugueiro?

O Corvo no seu conhecimento – por saber como mover-se entre este mundo e o Além, por poder tratar indistintamente connosco e com aqueles que nos pensamos já ficaram atrás – indica como aprender do passado, como extrair lições desse passado mas sem apegar-se a ele. O Corvo no seu voo ri das fronteiras, das limitações e do tempo, de tudo aquilo que nos consideramos infranqueável. O Corvo fai como quer quando quer. O Corvo expressa a liberdade individual, o individualismo podem dizer alguns, pois dispõe sempre dos recursos necessários para levar à frente os seus planos sem ajuda de mais ninguém. E se alguém não gostar da sua atitude, o Corvo não se importa. Deveria importar-se com as opiniões de outros? Mais ainda, quem ousa ou a quem se lhe passaria pola cabeça amolar um Corvo?

Se fixas o seu olhar verás como o Corvo nem é mau, mas um velhinho brincalhão. É só que pode chegar aonde nós não podemos e muitas das vezes sabe mais do que nós sabemos dalgumas cousas; brinca, logo, connosco. Trata bem do Corvo, já que todo dano a um Corvo é um grave delito na Druidaria. Quem sabe, talvez assim poidas ganhar a sua confiança algum dia, mas lembra: o Corvo continuará a fazer a sua vontade quando lhe apetecer, e ele aguardará o mesmo de ti. Se algum dia um Corvo quiser falar contigo e partilhar os seus segredos… considera-te então afortunado/a, e ouve bem o que diz. A sua voz pode soar dura no princípio se não estás afeito/a, mas é só porque diz verdades.

Corvos

2 responses to this post.

  1. Posted by Blanca García Fernández-Albalát on 14/02/2012 at 23:41

    o vencellamento do cornexa a Morrígan é absolutamente probada, xa que Morrígan é a deusa da batalla e un dos seus nomes é Bobdua ” a corneja” da batalla. Non é un corvo, En cuanto ao vencellamento de Bandua a divindade que “ata” aos seguidores e aos nemigos, o camiñante, a divinidade soberana escura.. non o vexo por ningures. É probado que o corvo se vencella a Odín que é unha divinidade semellante a Bandua / Banda pero non atopei ainda a unión das divindades escuras e o corvo no horizonte celta. Para Odín Hugin e Munin os seus dous corvos eran os espias que percorrían o mundo para informarlle d todo o que acontecía, non se vencellas pois coa guerra senon coa laboura de controlo que exerce Odín coma divinidades soberana… En cuanto ao vencellamento do Corvo con Reua “a Chaira” da batalla é meramente circunstancial… nunca Macha leva con ela cornexas. A triplicidade da divinidade soberana é complicada, sendo a mesma figura, cada avatar ocúpase das suas cousas…

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  2. Muito obrigados pelo seu comentário🙂

    Neste texto – sempre poético e religioso – pretende-se só pôr em relevância a figura dos corvídeos como mensageiros e testemunhas, sábios à sua maneira (pretendemos falar de ‘corvidae’ em geral; não unicamente o corvo propriamente dito, se bem ele é a figura mais totémica).
    A sua associação, por exemplo, a algumas deidades célticas é, como se indica, muitas vezes ocasional, pontual, pois simplesmente coincidem todos nos campos de batalha como se por acaso, alguns intervindo, outros só observando (eis os corvídeos). Só a Morrígan, que em olhos da IDG é um outro nome para Reua, ou vice-versa, sim apresenta associada a Ela a figura duma gralha em mais ocasiões. Aliás, bebemos também – sempre com precaução – dalgumas fontes irlandesas para tentar compreender e completar a informação parcial que por enquanto temos dalguns epítetos galaicos.
    Seja dito outrossim que sendo um texto didáctico e introdutório pensado para um público internacional – na procura dum possível consenso com a Druidaria pan-europeia – usar o termo “corvo” é em ocasiões tradução do inglês “crow”, nome genérico mesmo do que nós chamaríamos gralhas ou “cornejas” (o inglês comum distingue “crow” de “raven” e pouco mais).

    Deixamos estes pensamentos todos para a gente reflectir.

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