Comunicado sobre a destruição no Parque Natural e Santuário das Fragas do Eume

(baixar em .pdf >aqui<)

Passadas só umas horas após a confirmação da extinção efectiva do devastador lume florestal que vem de atacar o coração das Fragas do Eume nos últimos dias, a Irmandade Druídica Galaica lamenta a morte de todos os seres vivos neste santuário e reduto natural sem comparação.
Lembra-se que a Druidaria tem um compromisso íntimo com o ecologismo e a defesa da Natureza, único templo verdadeiro, elemento sagrado fulcral na nossa religião.

As Fragas do Eume são o último grande bosque atlântico galego, um ‘Parque Natural’ e ‘Lugar de Importância Comunitária’ supostamente protegido, um dos melhores bosques clímax da Europa que conta com autênticas e maravilhosas raridades de flora e fauna. A importância somentes biológica das Fragas do Eume é difícil de equiparar e impossível de substituir. O significado religioso para a Irmandade Druídica Galaica desta desgraça é pois análogo a um assassinato e à mais brutal profanação.

Incêndio florestal nas Fragas do Eume (1 Abril 2012)

Arderam oficialmente 370 hectares de 9.126 (extensão total do Parque), mas esta cifra é um grosseiro cálculo sobre plano que não tem em conta a geodésia da zona – entre outras considerações – o qual eleva a superfície queimada a praticamente 2.000 hectares no cerne da vida do bosque , de acordo com estimativas independentes.

Todavia, estes números não explicam os perigos que ameaçavam e continuam a ameaçar o que fica do Parque à margem do lume, um Parque rodeado do sempre interessado monocultivo do depredador eucaliptal, espécie alóctone pirófita que vinha invadindo passeninhamente o lugar de carvalhos (árvore sobranceira do Parque) e castinheiros.
Como fora assinalado por diversos colectivos, parece suspeitosamente conveniente, também, a localização da origem do incêndio na zona da Capela, onde está projectada uma exploração mineira até o de agora paralisada pela presença de tão prezado ecossistema.
Amais, o Povo Galego na rua em concentrações espontâneas e solidárias, vizinhos da zona e a totalidade de associações ambientalistas galegas (e não só) criticam a incompetência administrativa e pouca eficiência dos trabalhos de extinção do fogo, lentos e insuficientes a causa da carência de meios materiais e humanos derivados de recortes orçamentários. Ainda assim, as autoridades políticas responsáveis de tais decisões reconhecem abertamente a intencionalidade do acto, isto é, a confirmação duma acção criminal. Não é casual certamente a aparição do lume no lugar e no momento escolhido, após um período de seca e pouco antes duma anunciada mudança na climatologia que há trazer chuvas e que vem provocando ventos que avivaram as chamas.

Por estes motivos a Irmandade Druídica Galaica acredita que existe:

  • incompetência dos responsáveis políticos actuais, incapazes de resolver de forma ajeitada uma situação de crise pontual.
  • pobre dotação de meios de previsão e extinção de incêndios, sistematicamente atacados nos seus orçamentos e recursos, restando toda a sua efectividade num País onde este tipo de riscos ambientais são uma ameaça constante a dia de hoje.
  • má planificação da política florestal, gestão do ambiente e território, que favorece a percepção da Natureza não como um todo na que nos achamos inseridos/as, senão como desarticuladas ilhas verdes rodeadas de fatalidades à espera de acontecerem.
  • um tramado especulativo, com fins pecuniários, que permite e até favorece este tipo de acontecimentos.
  • falta de visão estratégica a longo prazo considerando a Natureza como uma mera fonte de recursos, não como um recurso nela mesma onde desenvolver actividades sustentáveis e mesmo rendíveis, devidamente regulamentadas e organizadas.
  • um abandono das zonas rurais por parte da população autóctone, outrora garante do cuidado e preservação do entorno; em muitos casos as e os locais encontram eivas administrativas na realização da sua vocação de preservação.
  • desleixo na procura e acusação dos responsáveis materiais.

Em consequência a Irmandade Druídica Galaica demanda:

  1. A protecção efectiva e real da Natureza, no seu sentido mais amplo.
  2. A retribuição (justiça) pelos crimes cometidos dos distintos responsáveis, sejam materiais, ideológicos ou políticos.
  3. A derrogação de todo direito, privilégio, vantagem ou benefício que grupos especulativos ou privados possam tirar desta catástrofe, nomeadamente empresas construtoras, mineiras e madeireiras.
  4. A criação e implantação imediata dum plano integral de recuperação e regeneração do Parque Natural das Fragas do Eume, tarefa com fim a séculos vista mas que precisamente por isso deve ser encetada sem demora.
  5. O desenvolvimento de medidas efectivas para a atracção e fixação de população em áreas rurais, elemento básico duma autêntica sustentabilidade plena.
  6. A eventual erradicação definitiva dos lumes florestais provocados e vigilância constante perante os acidentais.

A Irmandade Druídica Galaica sempre trabalhará e lutará, na medida das suas possibilidades, em fazer cumprir todos estes pontos, da forma e com as ferramentas que tiver ao seu dispor em cada momento. Considera-se um dever não só lógico e ético, senão consonante com os preceitos religiosos e espirituais do nosso Clã.

A Irmandade Druídica Galaica tende a mão a todas e todos aquelas e aqueles que partilhem esta maneira de entender o País e o Mundo e queiram Caminhar.

Irmandade Druídica Galaica
Galiza, 3 Abril 2012

As nove bênções do bosque sagrado
estejam agora com todas as florestas da Terra,
para o salgueiro das ribeiras
para a aveleira das rochas
para o amieiro dos pântanos
para o bidueiro das fervenças
para o mofo das sombras
para o teixo da resiliência
para o ulmeiro da aba
para o carvalho do Sol
e para todas as árvores e animais que crescem e vivem e respiram
em outeiro, vale e chaira:

Nem machado, nem serra, nem fogo há dana-los
Nem cobiça possui-los
Nem lucro reclama-los
pela graça da pisada do cervo entre nós
a força do javali correndo debaixo de nós
o poder do falcão acima de nós
e a magia do ouveio do lobo arredor de nós.

Sinte…
a paz profunda do regato que corre através das tuas raízes,
a paz profunda do ar através das tuas pólas,
a paz profunda das estrelas que brilham nas tuas folhas.
Que a gaita da floresta seja ouvida mais uma vez
em toda a viva e verde Terra.

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