Cheira a castanha de Magusto, é o Ano Novo

Senhora Cailleach no seu terceiro passo: nem moça nem adulta, mas velha rosmona e sábia, apoiada no seu sacho e vestindo o seu saio quando abrem as portas do Além, começa o ano e vai frio, vento e chuva.

A grande e mágica noite já está aqui! No trânsito do 31 de Outubro ao 1 de Novembro milhões de pessoas em todo o mundo celebram uma tradição druídica, uma festa celta, fixada já popularmente nesta data. É a Noite de Magusto, dos Calacús, de Samain (que alguns chamam de Halloween).

É a noite quando acabam de abrir de vez as portas do Além (Sídhe) para durante três dias podermos finalmente comunicar sem eivas com quem não estão graças aos corvos da deusa Reva, que voam alegres e a vontade. É o intre concreto e simbólico que marca o fim do ano e o começo dum novo, celebrando-se tanto religiosamente como com uma grande festa onde é tão importante a comunhão com os nossos devanceiros e devanceiras como o riso e a alegria. Entre hoje e amanhã são, em definitiva, os momentos mais importantes do ano para os/as Caminhantes da Drudaria.

A Roda do Ano completa uma volta inteira, marcando já sem dúvidas a entrada cara o Inverno. É o merecido descanso da Terra e a satisfação de termos não só superado mais um ano, senão de encontrar-mo-nos celebrando em Comunidade a boa disposição e coragem para seja o que for vem a seguir, sem importar o rigor da estação. Que chova! O milho já está apanhado.

Toma Bandua as suas chaves e abre as cancelas do Além, deixando passo a Berobreo e os seus. Longe já do esplendor da luz de Lug (que morre e dorme placidamente guardado pela mesma Bandua), ou da regeneração de Brigantia e posterior apoteose de Bel, é agora decididamente a quenda da Cailleach – senhora da nossa Terra – completando não só o ciclo de celebrações e deidades do nosso calendário sagrado, senão também o seu próprio. Não olha mais desde um canto, mas sim adquire o protagonismo todo quando, precisamente, deixa de ser nova e linda, quando chega ao seu aparente fim, o fim do ano, e vira em velha mas sábia. Será ela, a também senhora da noite, a que facilite o trânsito entre aqui e o Além junto a Bandua e Berobreo; será ela quem tome conta das bestas por uma temporada; será ela a que de repente cessará de lembrar-nos a perda que pode supor o passo do tempo para fazer ver que em verdade o que havia era construção, mudança, avanço, com o exemplo da sua própria e pessoal regeneração.

Irusan e os seus estão muito presentes esta ano.

Irusan e os seus estão presentes esta ano.

A Cailleach trabalha agora a Terra com o seu sacho até passado o próximo solstício. E com tanta trabalheira haverá quem pense que está a destroçar, mas realmente remexe o necessário para sementarmos quando chegue a nossa vez. Deixará por uma ocasião de rosmar das outras deidades para, como autêntica nai, estender o seu saio aconchegante sobre o Cosmos todo.

Estes dias a Galiza está em festa. Não há cidade, vila ou aldeia que não festeje e honre as suas devanceiras e devanceiros. Não há recuncho do País que não cheire a castanha assada (alimento favorito no Além) e a gente pense no Magusto. Não há lugar onde não fique acesa uma candeia. Não há janela sem calacú, as “cabeças cortadas” que protegem o lar. Não há crianças que não sintam que é noite de troula e vaiam “pedir o pão” pelas portas. E esta ano, ainda, não esqueceremos colocar o leite à porta para Irusan e os seus, muito especialmente presentes esta vez.

Hoje caem os muros etéreos e seica para-se o tempo. O mar entre mundos vira regato, quase ao alcance da simples vista. Ficamos logo nas mãos da Cailleach, na companhia dos amigos corvo e gatos e baixo o abeiro do teixo.

É tempo de Druidaria. Mais do que nunca esta é a nossa festa rachada.

Feliz Magusto! Bom Ano Novo a todos e a todas! Nós abofé que estaremos celebrando.

Baixar cartão comemorativo aqui

Baixar cartão comemorativo do Magusto 2014

Convidamos à atenta leitura deste artigo, explicando e exemplificando como esta celebração continua viva em múltiplas e variadas formas, mas sempre com o mesmo sentimento, profundamente druídico. Recomendamos, aliás, completar com este outro.

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