Recuperação parcial do Facho de Donom

Réplicas das aras a serem repostas.

Réplicas das aras a serem repostas. Na da esquerda pode-se ler Deo Lari Bero Breo (Deus Lar [das Ánimas] da Alta Casa).

O famoso santuário do Deus Berobreo – um dos principais lugares de peregrinação da Galiza na antiguidade – vai saindo do seu abandono. É uma boa notícia numa época onde a destruição do nosso património e outros assuntos desafortunados pareceriam ser já o habitual, embora houvera pequenos acenos de alegria.

Nomeadamente, foram colocadas réplicas de três das lindas aras que lá estiveram numa altura. Estamos a falar do Facho de Donom, na comarca do Morraço, na costa sul-oeste da Galiza, onde foram achadas umas 174 aras com dedicações a Berobreo, o que fai com que seja a deidade nativa com maior número de ex-votos da Península Ibérica. Muitas delas tinham oferendas rituais.

Porém, isto não é de estranhar tendo em conta o que Berobreo representa: é o Deus dos mortos, quem te acolhe no trânsito com um sorriso e sempre de braços abertos. Ele comunica o aqui e o Além e o seu nome não significa outra cousa senão “Senhor da Alta Casa (dos Mortos)”, que também aparece como Vestio Alonieco (“O Hospedeiro do Além” ou “Hospedeiro Alimentador”), lembrando neste delicado momento, e com mais sentido que nunca, um elemento absolutamente fundamental da cultura céltica: a hospitalidade. É como Donn (“Rico em Hóspedes”) na Irlanda, o chefe dos (galaicos) Filhos de Mil, o nome que recebe lá e quem disse antes de morrer “à minha casa viredes todos depois da vossa morte”.

Berobreo

Representação de Berobreo, sob o epíteto Vestio Alonieco, encontrado em 1944 em Louriçám (Co. Ponte Vedra). Agora em “exibição” no Museu Provincial.

O Facho é uma atalaia privilegiada, cara o mar, pois a água é sempre lugar de encontro e de trânsito cara o Além; no oceano mora o Senhor dos Mortos. Desde aí podemos divisar as Ilhas Cies e Ons a um lado e outro (ilhas, a paragem de almas onde ficamos temporariamente cegos – não está permitido ver – já que aprenderíamos o caminho a esse Além), onde imos todos e todas quando a vida neste mundo remata e desde onde, confiados, embarcamos outra vez da sua mão até o destino final. Berobreo está no paraíso das Cies e Ons, aonde podemos chegar desde o promontório da praia da Lançada, está nos outos cantís de Teixido olhando a Irlanda ao norte, mas… a sua casa é Donom.

Já em Outubro, tinha-se recuperado a zona do bem-intencionado ainda que errado costume dos visitantes erguerem milhadoiros, isto é, pequenos montes de pedras marcando o seu passo mas que, em realidade, o que fazem é erosionar, danar e misturar os restos que lá se encontram e criar uma paisagem irreal e descontextualizada. Propõe-se agora a criação dum centro de interpretação e um certo controlo sobre as visitas, o que imediatamente fai-nos lembrar o Projecto Nemeton de protecção dos lugares sagrados (assinado pela IDG e outras associações), no que usamos daquela uma imagem do santuário como representativa.

Santuário do Facho de Donom, consagrado ao deus Berobreo

Alto do santuário do Facho de Donom (Co. Morraço).

O primeiro uso conhecido do Santuário do Facho de Donom estima-se entre os séculos X e IX AEC, a finais da Idade do Bronze, e pode-se encontrar também um castro do S. IV AEC (Berobriga) e ainda uma construção religiosa do S. IV EC. Contudo, existe com certeza muito trabalho arqueológico por fazer nesta zona declarada BIC (‘Bem de Interesse Cultural’) que só nos poderia dar ainda mais surpresas e alegrias, algo que pelo momento não é contemplado por falta de orçamento.

As autoridades políticas falam, isso sim, do “potencial turístico” do enclave, o qual não está mal pois poderia ajudar a pagar pela sua manutenção e futuros trabalhos de investigação, mas tampouco estaria de mais explicar o verdadeiro significado de tal especial ponto da nossa geografia sagrada, e protege-lo e respeita-lo em consequência.

One response to this post.

  1. Posted by Corvus Bruxo on 01/02/2015 at 07:18

    Reblogged this on Nemeton Corvus Bruxo.

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