Archive for the ‘Crença’ Category

Alvorada da Terra, no equinócio de Primavera

Não é estranho

O animal desta época, a Lebre, não o é por casualidade. Símbolo de fertilidade, é a encarregada de cuidar do ovo (fruto do ventre – i mbolg) pois Brigantia começa já a ficar cansa…

Esta manhã o Sol detém-se sobre as nossas cabeças, toma fôlegos por um intre na sua viagem enquanto equilibra luzes e trevas. Às 11:29 (norte do Minho; 10:29 no sul) tem lugar o Equinócio de Primavera, quando depois de finalmente alcançar à escuridão na sua corrida, o dia dura tanto como a noite.

É o que muitos e muitas denominam Alban Eilir, “A Luz da Terra”, Mean Earraigh, “Meia Primavera”, ou Alban Talamonos, “O Amencer da Terra”; Ostara nos cultos germânicos e wiccanos, o início do ano astrológico para outros. Nos chamamos-lhe A (Festa da) Alvorada da Terra.

É um dos quatro grandes eventos astronómicos que intercalam as quatro grandes celebrações completando a Roda do Ano.

Continuamos assim o caminho indicado no Entroido (Imbolc). Vai resultando evidente que a chegada dos Maios (Beltaine) e imparável. A natureza cumpre os seus ciclos mais uma vez, por muito que muitos teimem em ignorá-la e daná-la. Por fim vai agromando a vida por toda parte; é óbvio e palpável. Activa-se a fertilidade e maravilhamos-nos de como a planta sabe quando tem que medrar, quando tem que sair do ovo protegido por uma lebre, simbolismo do que significavam os frutos “no ventre” (i mbolg) da Deusa Brigantia, que não parou de sorrir desde o Entroido.

Renovam-se desta forma as intenções do Entroido: continua a preparação, cuidado e sementado da terra, mas esta já reverdesce. Pode-se pôr outra vez a casa em ordem e continuarmos a limpeza, também interior, porque com esta luz podemos ver melhor todo recanto escuro, em toda parte, e não deixarmos nada sem arranjar.

Bom Equinócio de Primavera então. Recebide a acougante Alban Eilir num agarimoso abraço. Empregade bem o tempo da Mean Earraigh. Espreguiçade-vos com o Alban Talamonos. Acordade com a terra.

 

Dizem que não falam as plantas, nem as fontes, nem os pássaros,

nem a onda com os seus rumores, nem com o seu brilho os astros,

dizem-no, mas não é certo, pois sempre quando eu passo,

de mim murmuram exclamam:

Aí vai a tola sonhando

com a eterna primavera da vida e dos campos

e já bem cedo, bem cedo, terá os cabelos canos,

e vê tremendo, aterecida, que cobre a giada o prado.

 

Hai brancas na minha cabeça, hai nos prados giada,

mas eu prossigo sonhando, pobre, incurável sonâmbula

com a eterna primavera da vida que se apaga

e a perene frescura dos campos e as almas,

ainda que os uns esgotam-se e ainda que as outras abrassam.

 

Astros e fontes e flores, não murmuredes dos meus sonhos,

sem eles, como admirarvos nem como viver sem eles?

(Rosalia de Castro, 1884)

pagan_easter

No Dia da Mulher

druidesa

“O Visco”. Gravura de Druidesa mostrando o visco cortado, a planta mais sagrada. Virginie Demont-Breton (1895).

[recuperamos um texto publicado anteriormente, mas sempre válido]

No Dia Internacional da Mulher (Trabalhadora) – 8 de Março – a IDG acode ao seu chamado social nesta importante data, apoiando o que nela se honra e reivindica, como é a luta pela igualdade das mulheres, os seus direitos plenos e empoderamento na sociedade actual, lembrando e criticando o seu silenciamento secular.

Por desgraça, a institucionalização desta ocasião tende a ocultar muitos dos problemas reais por trás duma cortina de falsa “equiparação” ou “avanços”. Abofé que alguns sim se têm produzido na nossa sociedade, mas não sem grande esforço e sacrifício, até da vida, e longe ainda duma situação ideal. Fica muito, aliás, no caminho à frente, por isso apelamos à constante vigilância contra a violência machista, discriminação laboral, controlo do corpo, segregação nos estudos e desportos… e tantas outras chagas que continuam a afectar, limitar e empobrecer a vida das mulheres galaicas e do mundo.

Contudo, e com diversos eventos acontecendo no país, não podemos deixar de achar interessante e significativo que esta data se encontre ainda baixo a influência do Entroido (Imbolc), e portanto de Brigantia, a Deusa vitoriosa, aquela que estende ou retira a soberania, o poder, à sua vontade. No Druidismo Galaico acreditamos, como exemplifica a sua figura, que toda mulher é (deve ser!) livre nas suas escolhas, igual que Brigantia: ferreira e guerreira, soberana e sanadora, nai (só) se quiser. Deixemos pois que esta grande Deusa possa nos ajudar, recordando o papel fulcral da mulher nas antigas sociedades célticas, as mais avançadas neste aspecto na sua época.

Neste dia, a IDG ratifica de entre os Nove Compromissos Druídicos o Compromisso com a Humanidade, o Compromisso com a Independência e o Compromisso com a Liberdade, e evoca de entre as Nove Virtudes célticas a virtude da Justiça.

Bom dia então, irmãs, com mais um passo cara um futuro melhor.

 

Nota: Na nossa tradição a mulher pode atingir o grau sacerdotal máximo de Durvate (Druidesa), seguindo o mesmo processo que qualquer homem.

Racham as cores do Entroido com Brigantia

Cruz de Brigantia, representando em verdade a Cruz Solar.

Cruz de Brigantia, representando em verdade a Cruz Solar.

No 1 de Fevereiro chega a segunda das quatro grandes celebrações do ano, o Entroido (Imbolc), uma celebração de esperança e alegria fortemente vencelhada à Deusa Brigantia (Brighid ou Bride), a Deusa vitoriosa, representante-mor da soberania feminina, exemplo perfeito das trindades druídicas na sua própria figura.

Na tradição galaica disque o Entroido começa já o 1 de Janeiro (passados os fastos da Noite Nai), e ainda que é certo que nalguns lugares já levam dias preparando e até celebrando, será durante esta próxima época depois do 1 de Fevereiro na que se desenvolva em todas partes este festival percebido como estímulo do crescimento, o acordar da terra, da preparação dessa terra no seu encontro com a primavera, da fertilidade.

Vai-se cumprindo o anunciado triunfo sobre a escuridade que começou com o ano novo no Magusto (Samhain), num inverno que se bem ainda não rematou também não é quem de nos vencer quando bate mais duro.

É o momento então para ajudarmos a terra, colocar os assuntos da casa em ordem, mesmo de fazer uma grande limpeza, fazer planos e “plantar” ideias. Muitos animais parem nestas datas e mesmo pode ser considerada como a festa dos bebés. Já diz o refraneiro galego que “no 2 de Fevereiro casam os passarinhos“. Lembra-se, aliás, que o Rei hã renovar os votos com a Terra, na união de soberanos, o pacto sagrado entre o Ser Humano e as Deidades da mão de Brigantia. Como diz o antropólogo R. Quintia:

“[O Entroido galego é o] que melhor conserva o significado simbólico das vodas rituais que se celebravam em toda Europa no final de ciclo festivo da Invernia e a essência das sociedades de moços solteiros [Córios]”

A Deusa Brigantia – A Alta, A Elevada, A Tríplice Chama, Senhora da Soberania, portadora da luz e Deusa do Fogo – toma três aspectos: como Lume da Inspiração (patrona da poesia, artes, filosofia e profecia), como Lume do Lar (patrona da medicina e fertilidade, de pastoras a agricultoras, protectora da casa com ajuda da Deusa Trebaruna) e como Lume da Forja (patrona da metalurgia, ferraria e artes marciais, grande guerreira).

A alegria

A alegria do Entroido tradicional: as cores racham o frio. Chama-se por Brigantia, chama-se por Bel. Vêm os Córios e vai-se afugentando a época escura.

A Soberana guia o Entroido com os seus atributos positivos e fai que, precisamente, acedamos a uma nova época. Eis a raiz da palavra Entroido (ou Entrudo), uma entrada a um tempo alegre que em muitos lugares começa já pouco depois de passado o Solstício de Inverno, mas nada a ver com o “carnavalesco” grosseiro, completamente alheio à nossa tradição [1][2][3][4]. Brigantia assegura então este trânsito e garante a promessa de renascença feita no solstício. Ela será quem acorde o refulgente Deus Bel, que já espreguiça.

O ano já há tempo que começou, mas só agora Brigantia e o ciclo da natureza começam a nos premiar de forma especial pela nossa resiliência. Tudo vira em torno ao Imbolc a partir destes momentos (do velho céltico i mbolg, “no saco” ou “na barriga”), este embigo da vida. Alviscamos a sua luz e ficamos confiantes: há que chegar ainda, mas já estamos quase. É tempo de alçarmos a cabeça e rirmos! 🙂

O orvalho alimenta tua alma,
O lume novo arreda o inverno,
Da terra brota o teu corpo,
esperta mística do ermo.

Relíquia que futura terra fertiliza,
Sobre ira que leda brua na brisa,
Morre o serão aos nossos olhos,
Renasce Brígida no crisálido sonho.

E na dança do teu mirar
Vejo castros, vejo o mar…
E nos beiços do teu Imbolc
Vejo a arder a lua, vejo gear o sol…

Esperta! No que foi dourado chão,
Esperta! onde tornou gélida a mão,
Voltam as folhas no alto a sombrear,
A verde ultraje da cíclica fraga-nai.

Mileth (com grafia adaptada; reproduzido com permissão)

Tripla Deusa Brigantia, Senhora do Entroido (Imbolc). Detentora do fogo pois é protectora (entre outras) das ferreiras que forjam as armas, das poetas que apresentam lumes cerimoniais, e das sanadoras que facilitam o lume do lar. Brigantia fornece também pela criança nascente.

 

As cores

Abre-se o verde, racham as cores. Vai frio, mas também luz. Foto: R. Quintia (Facebook)

 

As Deidades Galaicas

carvalho_quercusrobur_portacal

À sombra do carvalho tudo fica mais claro

Não se pode falar de “panteão” no mundo celta tal e como é comumente entendido, isto é, com relações estritas entre Deidades com funções específicas ou equivalências directas com panteões doutras religiões. De facto, diferentes tradições célticas apresentam variantes entre Deidades, ainda que as principais são comuns apesar de terem por vezes nomes ou epítetos diferentes.

A forma de entender as nossas Deidades deve ser fluída e flexível. São Deidades que cobrem uma série de funções intercomplementares, onde há uma hierarquia mas não um enfrontamento ou conflito de opostos (como noutras religiões), mesmo nos casos onde as responsabilidades são partilhadas. Algumas Deidades podem ser, em verdade, triplas, multifacetadas. De haver uma possível contradição esta é sempre só aparente, seguramente derivada da pouca familiaridade com o sistema de pensamento e cosmovisão céltica.

O facto é que a maioria de nós crescemos numa sociedade onde o divino disque é misericordioso, amoroso e que exige às crentes sujeição às suas regras em troca da concessão da sua ajuda e apoio. No entanto, na nossa crença devemos atravessar uma porta que exige sacrifício, demolir paredes velhas para começarmos a entender o que o mundo é e qual é o nosso lugar nele. Embora as Deidades nos “acariciem” com boa intenção, o seu toque derruba esses muros que nos rodeiam e que nos impedem entender, e este pode ser um sentimento estranho e até desconcertante. Compreendermos-lhes e compreenderem-nos leva tempo, mas depois tudo adquire sentido pleno.

Desta maneira, apresentamos aqui uma introdução muito resumida e simplificada aos Deuses e Deusas da nossa tradição galaica, feita a partir de dados objectivos conhecidos através da investigação académica mas, sendo a Irmandade Druídica Galaica uma entidade religiosa, feita também em base a interpretações religiosas autónomas.

Lembramos, aliás, a nossa crença na existência individual e específica de cada uma Delas, que não são criações nem hipóstase duma Deidade superior. Assim, as Divindades não estão submetidas a outro Deus/a ou energia consciente superior a Eles/as. Do mesmo jeito, todas Elas são igualmente respeitadas, pelo que são e pelo que representam.

 

Deidades Primeiras
Presentes pelo que sabemos desde o inefável impulso original não-inteligente, causa primeira e matriz de vida. São as mais antigas e poderosas mas também as aparentemente mais reservadas.

 

Imagem do Deus Larouco encontrada na sua serra.

Imagem do Deus Larouco encontrada na sua serra

Larouco (Crouga) /|\
O Grande Deus, o Pai de Todos, o Bom Deus, o protetor da tribo. Senhor do Conhecimento, da ordem social e dos contratos. Patrão das pessoas sábias e docentes. Possui uma força imensa e está associado à abundância e generosidade da terra.
Os seus grandíssimos poderes representam-se pela enorme maça que porta na sua mão, assim como a sua masculinidade é representada pelo seu grande membro sexual. É guardião também do pote da fartura, de onde surge todo bem e toda Magia. Tudo Nele e com Ele é massivo.
Na tradição galaica está fortemente vencelhado à montanha sagrada do mesmo nome na Serra do Gerês, onde toma residência. Contudo, a sua presença noutros picos pode ser sentida e adquire, nesse caso, o nome de Crouga (como o Crom Cruach da tradição irlandesa). É dizer, Larouco é o nome que lhe damos quando falamos do Deus como tal – até fisicamente – sendo Crouga o seu espírito, a sua presença imaterial longe da sua montanha existente em toda anta ou lugar elevado de poder.
No pan-celtismo é considerado irmão de Bandua-Cosso e consorte de Anu. Recebe os nomes de An Dagda na Irlanda e Sucellus na Gália.
Celebramo-lo principalmente na época do Solstício de Inverno-Noite Nai (21-25 de Dezembro).

 

A "Moura da Pena Furada" (Coirós), representando a Sheela na Gig mais antiga da Europa que, achamos, é uma forma de representar a Deusa Anu

A “Moura da Pena Furada” (Coirós), ou a Sheela na Gig mais antiga da Europa que, achamos, é uma forma de representar a Deusa Anu

Anu /|\
A Grande Nai, A Nobre, A Boa, origem da luz e do dia. É Senhora da Literatura e Senhora e patrona das criaturas invisíveis, dos mouros e das mouras, de todos os seres místicos e de poder.
Por vezes é consorte de Larouco, mas só quando Ela escolhe, como indica a sua residência na  Pena de Anamão da mesma Serra do Gerês: perto, mas separados, como bons e velhos amigos e vizinhos que partilham conversa, experiências e confiança.
Ambos formam um duo peculiar, mas isto não deve ser nunca confundido com ideias posteriores e alheias à nossa tradição como a separação estrita em dous sexos, a dicotomia masculino-feminino, ou assuntos similares. Anu e Larouco podem ser complementares, mas são livres e autónomos em todo momento, e Anu estabelece o início do princípio de independência e Soberania Feminina do que a sua descendente Brigantia será Senhora.
Noutro exemplo, Larouco pode ser Senhor da Magia, mas Anu é a Senhora dos que usam e põem em práctica essa Magia. Uma cousa sem a outra não teria sentido, mas ainda assim são diferentes e cada um manda o que manda, onde Ela decide quem e como.
Recebe os nomes de Dôn em Gales (onde apresenta importantes conotações astronómicas em relação às constelações de Cassiopeia, Corona Borealis e até a Via Láctea) e de Danu ou Dana na Irlanda, onde é a Deusa Nai de todos os Tuatha Dé Dannan.
Celebramo-la principalmente na época do Solstício de Inverno-Noite Nai (21-25 de Dezembro).

 

Deidades de Poder
Antergas figuras de incomensurável autoridade que tentam pôr ordem e mostram virtudes para quem quiser ver e ouvir. Mestres para quem quiser aprender.

 

Tripla deusa Brigantia, portadora da Luz, detentora do fogo pois é patrona, entre outros, dos ferreiros que forjam as armas que hão defender a tribo, dos poetas - Bardos - que apresentam lumes cerimoniais e inspiração, e dos sanadores, que facilitam o lume do lar e o bem-estar.

A Deusa Brigantia, exemplo paradigmático da trifuncionalidade céltica

Brigantia /|\
A Alta, A Elevada, Senhora da Soberania, A Tríplice Chama, portadora da luz e Deusa do Fogo e da vitória. Toma três aspectos: como Lume da Inspiração (patrona da poesia, artes, filosofia e profecia), como Lume do Lar (patrona da medicina e fertilidade, de pastoras a agricultoras, protectora da casa) e como Lume da Forja (patrona da metalurgia, ferraria e artes marciais, grande guerreira).
É patrona de todos esses aspectos assim como das alturas em geral (sejam montanhas, castros no alto ou pensamentos elevados), dos e das Durvates, gado e animais domésticos, assim como dos poços e fontes sagradas.
Todo poder deve ser regulado por Brigantia. Ela não exerce essa Soberania directamente, mas ordena sobre quem a recebe ou não, quem é digno ou digna de ser chamado “rei” ou “rainha”. Ela marca o sagrado pacto entre o ser humano e a Terra. Quem não respeitar isto não poderá ser nunca a melhor líder e as humanas teremos sempre governantes ruins. Seguramente este é um dos motivos pelo que muitos lugares da nossa Terra foram nomeados na sua honra.
Brigantia assegura o trânsito entre Inverno e Primavera e garante a promessa de renascença feita no Solstício de Inverno. Ela será quem acorde os Deuses Bel (o seu ocasional consorte) e Lugus chegado o momento, mesmo quem amamente este último se figer falta.
No pan-celtismo considera-se filha de Larouco e Anu.
Recebe o nome de Brigid na Irlanda, Brìde na Escócia e Brigindũ na Gália.
Celebramo-la na época do Solstício de Inverno-Noite Nai (21-25 de Dezembro) mas, principalmente, na sua grande festa do Entroido (Imbolc), por volta do 1 de Fevereiro.

(Ouvir aqui a canção dedicada à Deusa Brigantia pela banda galaica Mileth)

 

Lugus. Desenho em aquarela por R. Cochón.

O Deus Lugus, visto por um membro da IDG

Lugus /|\
O Luminoso, O Esplendoroso, O Radiante. É o jovem, belo, atlético e extremadamente hábil guerreiro com a sua mágica lança (O Do Longo Braço) e outras fantásticas armas. Apresenta uma triplicidade associado ao Sol, ao Céu e às Treboadas, onde comanda tronos e lôstregos.
É patrão, como Brigantia, das artes e do artesanato, mas também dos desportos, da actividade física, das criadoras e inventoras, de todos aqueles e aquelas que podem fazer surgir algo que antes não existia, da lei, da verdade e dos juramentos, dos que colocam ordem no caos e defendem os pactos e promessas feitas.
Lugus emana uma sensação de poder e eloquente sabedoria, de reconfortante e cálida calma. Ele preside e guarda o grande Oinakos (assembleia ou juntança) do verão, desfrutando à vez das competições desportivas e favorecendo o convívio e os casamentos. Em verdade, gosta de qualquer Oinakos feito com honestidade.
Recebe o nome de Lugh na Irlanda, Lley Llaw Gyffes em Gales e também Lugus na Gália.
Celebramo-lo principalmente na sua grande festa da Seitura (Lughnasadh), por volta do 1 de Agosto.

 

Figura do Deus Bandua achada no concelho de Bande

Figura do Deus Bandua achada no concelho de Bande

Bandua – Cosso /|\  
O Que Ata, O Que Une, pois com os seus laços mágicos o Deus Bandua sela as promessas e une os clãs e as pessoas. Através desses laços formalizam-se os pactos mas estabelece-se também a intercomunicação, o relacionamento, sendo tudo isto fundamental para a prosperidade de qualquer grupo. Ele fai a chamada perante uma causa comum, convocando a todos e todas sob a sua bandeira.
Bandua é patrão da eloquência e domina a magia, fazendo cumprir o dito bem apelando aos princípios fundamentais da ética céltica (Honra, Responsabilidade e Compromisso) com a sua convincente palavra, ou bem forçando com a sua atadura. Ou ambas cousas.
Mas cuidado, pois quando falemos de conflito toma o nome de Cosso, o Deus a quem têm como patrão os guerreiros e guerreiras. Então, Ele percorre sem parar os caminhos, vigilante na noite, preparado para a caça de cabeças se for preciso… Em qualquer caso, é o mais formidável e temido guerreiro e na batalha imobilizará os seus inimigos com a sua amarra invisível.
Bandua-Cosso é uma Deidade dual, tanto que por vezes pode apresentar-se como homem e outras como mulher.
No pan-celtismo é considerado irmão de Larouco. Recebe o nome de Ogma na Irlanda e Ogmios na Gália.
Bandua não tem uma data fixa para a sua celebração.

 

Escultura frequentemente utilizada para representar o Deus Bel

Talha frequentemente utilizada para mostrar o Deus Bel

Bel /|\
O Brilhante, o Refulgente, O Formoso, O Belo. O Deus da Luz e patrão da música é um dos Deuses mais antigos. Como Lugus, Bel também comanda o Sol e mais as estrelas, e ainda com maior intensidade. Nomeadamente comanda os ciclos dos dias, das luas e dos anos, fazendo girar a Roda do Ano e com ela fazendo avançar o tempo humano (a roda e o carro – no que atravessa o Céu – são alguns dos seus símbolos).
Às vezes pode aparecer acompanhado por Brigantia, a sua consorte ocasional, com quem partilha entre outras cousas o seu aprecio por fontes e poços sagrados, águas sanadoras e medicina em geral, assim como pelo lume purificador (Os Lumes de Bel).
Ele protege a Natureza e a Terra, garante o seu esplendor e fertilidade cíclica continuando o trabalho de Brigantia. O Deus Bel favorece a sexualidade e as uniões, a fartura e alegria das festas e celebrações. O seu trabalho é esforçado e a sua responsabilidade é muita, mas também é-o a alegria dos seus frutos, combinando e equilibrando esse par de dever-lecer.
Recebe o nome de Belenus na Gália, Beil na Irlanda, Bile na Escócia e Balor em Gales.
Celebramo-lo principalmente na sua grande festa dos Maios (Beltaine), por volta do 1 de Maio.

 

Berobreo

Representação do Deus Berobreo encontrada em Louriçám (Ponte Vedra) sob o epíteto Vestio Alonieco

Berobreo /|\
O Da Alta Casa, O Hospedeiro, O Que Alimenta, Senhor do Mar, do Além e da Morte. Patrão da hospitalidade, Berobreo vai-te acolher, e vai-te acolher bem, de braços abertos e com amplo sorriso. Se tiveste Honra, nada temas.
Desde o alto do Facho de Donom, o seu grande santuário, ou desde qualquer península, praia, atalaia ou cabo significante como A Lançada ou Teixido, pode olhar as ilhas da nossa costa, escala prévia das almas que depois da sua peregrinação cara o solpor hão descansar um pouco. Em breve, porém, começam da sua mão a viagem à outra vida, pois Ele tem as chaves dos labirintos gravados em pedra que abrem as portas comunicantes dos mundos – em ambas direcções – e levam também até a sua residência no fundo do mar.
O Deus Berobreo conhece esses e outros caminhos pouco transitados, mas que isto não confunda ou arrepie a ninguém pois Ele é um anfitrião excepcional, de exuberante generosidade. Por certo, o mesmo demandará de uma boa ou bom celta, pois poucas cousas mais desonrosas há que ser ruim com as tuas hóspedes e visitantes, ou ser uma convidada desagradecida.
Recebe o nome de Donn na Irlanda (“O Escuro”, devanceiro directo do povo gaélico da Ilha).
Celebramo-lo principalmente na sua grande festa do Magusto (Samhain), por volta do 31 de Outubro e 1 de Novembro.

 

Nábia /|\
A Excelsa, A Coroada. A Senhora das Águas, dos lagos, lagoas, cachoeiras, rios e regatos, fontes e poços, também dos vales e partes baixas dos montes.
A melancólica Deusa Nábia é navegante e marinheira, e com a sua barca acompanha as almas que se dirigem à Alta Casa de Berobreo usando os cursos fluviais, desde o interior até a costa e, se ele o solicitar, até mais alá.
A água é vida, porém recolhe os seres mortos num ciclo contínuo. A água flui desde a coruta dos montes até o fundo do océano, e daí ao Céu à chuva e volta a começar, e com ela tudo. Nábia está presente em todo esse processo ajudando à fertilidade quando é preciso.
Mas a Deusa Nábia também recolhe nessas águas que tecem redes na terra os símbolos do pacto de Brigantia: as águas calmas aceitam oferendas humanas e testemunham os encontros e acordos com as Deidades. Nábia atende aí e, em parceria com Berobreo, fai de hospedeira e protectora do local.
O seu nome está em toda parte, seja como Návia, Návea, Ávia, Coventina, Avon, Devon, Deva, etc. De todas as Deidades, Nábia pode que seja a mais familiar e simpática com certos seres especiais associados à água, e disque gosta da cerveja e das flores.
Nábia não tem uma data fixa para a sua celebração.

(Ouvir aqui a canção dedicada à Deusa Nábia pela banda galaica Sangre Cavallum)

 

Reve /|\
O Do Páramo, O Máximo, O Das Chairas, lugar de encontro entre o alto e o baixo, limiar de mundos, onde comanda. É Senhor da Hierarquia e da Justiça, que nas suas mãos é sempre brutalmente imparcial e objectiva. Ele administra toda fortuna e riqueza de forma equânime.
A primeira vista, Reve parece a Deidade mais esquiva, fria e distante, seica mais centrada nos assuntos internos dos Deuses e Deusas que nos humanos e mundanos.
Contudo, Ele é um ponto de encontro, pois reúne características de Berobreo e Cosso, já que comanda também sobre o Além e a guerra, e ainda de Larouco, de quem está tão próximo que ocasionalmente podem ser confundidos. Recebe de Brigantia a capacidade de gerir a Soberania quando Ela não está presente, como é no caso de juízos e decisões importantes que requerem uma resolução final e inapelável.
No caso de batalha, o Deus Reve pode que supervisione o ir e vir da gente comum, decidindo implacável quem é digno de ser chamado de Herói ou Heroína e quem não.
Na antiguidade era uma das Deidades que recebia maiores honras e oferendas, especialmente na Callaecia interior, se calhar pelo temor que alguma gente sentia do seu olhar desapaixonado, embora sincero e calmo.
Recebe o nome de Morrígan na Irlanda e ainda os nomes alternativos de Reva e Reua na Galiza.
Reve não tem uma data fixa para a sua celebração.

 

Visão contemporânea da Deusa Cale e os seus atributos

Visão contemporânea da Deusa Cale e os seus atributos

Cale /|\
A Velada, A Moura, A Meiga, A Velha. A Senhora da Callaecia e encarnação mesma da granítica Terra que pisamos. Sábia Senhora da Pedra e patrona dos canteiros, plantas e árvores, animais selvagens e seres invisíveis. Amiga de Anu.
Ela tem poder sobre o clima e sobre os bosques, montes e bestas do nosso País. Ela fala com os nossos Devanceiros e Devanceiras e manda recado se figer falta. Cale é velha como o planeta, e antes de Deusa já foi moura e a mais grande das meigas e mencinheiras; talvez por isso seja a Deidade que mais conhece e melhor se relaciona com todos os seres miúdos longe dos nossos sentidos.
Apresenta-se normalmente como uma mulher de avançada idade vestida com saio e pano na cabeça (O Velo), mas isto é porque geralmente só é vista no fim do ano celta, quando já passou os estádios de juventude e madurez longe das vistas. Precisamente, é nessa época depois da Noite de Magusto quando a Deusa Cale trabalha a Terra a eito com o seu sacho até passado o Solstício. Com tanta trabalheira haverá quem pense que está a destroçar, mas realmente remexe o necessário para sementarmos quando chegue a nossa vez. É aí quando, como autêntica protectora, estende o seu saio aconchegante.
Cale colabora com Brigantia em muitos assuntos, e disque a segunda vigia de esguelho a metade luminosa do ano (Giamos) enquanto a primeira fai o mesmo com a metade escura (Samos).
Recebe o nome de Cailleach na Irlanda, Escócia e Ilha de Man.
Celebramo-la principalmente na grande festa do Magusto (Samhain), por volta do 31 de Outubro e 1 de Novembro, e é lembrada no Dia da Terra, o 25 de Julho, festa civil dedicada à Nação Galega.

 

Deidades do Comum
As Deusas e Deuses talvez mais próximos a nós, no dia a dia, na consecução dalguns grandes planos mas também dos pequenos e diários. Podem até ser um elo de comunicação com outras Deidades.

 

Íccona /|\
A Da Terra, A Da Égua Branca, A Grande Égua. Senhora dos Cavalos e todos os equídeos. Senhora e protectora dos Caminhos, Viagens e Comunicações. Patrona de todos aqueles e aquelas que falam, partilham, informam, divulgam e comunicam com honestidade, assim como de todas aquelas pessoas que viajam, peregrinam ou transportam algo.
Onde não chega Nábia por água, chega Íccona por terra para guiar as almas, dacavalo, até o passo mais próximo. Ela recolhe também parte do simbolismo da Soberania de Brigantia e exemplifica a responsabilidade de lográ-la, pois a Soberania requer trabalho e sacrifício, montar durante muitas jornadas, até poder ser digno ou digna dela. A Deusa Íccona sempre está em marcha, sempre atenta e pronta para relatar, sempre cavalgando.
Íccona muitas vezes encontra-se com Bandua-Cosso, tanto nos vieiros que transitam como na palavra dada nos pactos e uniões, e conversam.
A Irmandade Druídica Galaica está consagrada desde o seu nascimento à Deusa Íccona Loimina, quem aguardamos tenha a bem considerarmo-la como a nossa patrona.
Recebe o nome de Epona na Gália, Étaín ou Édaín na Irlanda e Rhiannon em Gales.
Íccona não tem uma data fixa para a sua celebração, ainda que é sempre lembrada no 11 de Novembro, dia do aniversário da nossa Irmandade.

 

Trebaruna /|\
A Da Casa, A Da Tribo, A Do Secreto. Senhora do Fogar, do mais íntimo. Protectora do privado, das famílias e crianças, das amizades verdadeiras, do patrimônio pessoal e colectivo, do lar, dos pensamentos próprios.
Ela move-se bem nas sombras e nos recantos das casas e cidades, prudente e sagaz, como uma presença reconfortante e calmosa quando as nossas justas aspirações e trabalho esforçado topam com problemas inesperados. A Deusa Trebaruna pode que seja a Deidade mais próxima aos humanos e humanas, ou quando menos quem mais gosta de estar nas nossas casas e assistir à nossa vida cotiá.
Contudo, que ninguém se leve a engano, pois ainda que geralmente agarimosa, Trebaruna pode ser guerreira dura e implacável com quem atenta contra a tribo ou clã, com quem revela segredos sem justificação e atraiçoa confianças, com quem ataca ou desonra a amizade, o fogar ou a família querida.
A Deusa Trebaruna reconhece o valor da discrição sem por isso cair na desonestidade ou mentira, algo impensável para uma celta. Aliás, precisamente por isso despreza quem os rompe ou quebra uma promessa, igual que Bandua.
Trebaruna não tem uma data fixa para a sua celebração.

(Ouvir aqui a canção dedicada à Deusa Trebaruna pela banda lusitana Moonspell)

 

Resto de estátua romanizada de Endovélico achada na Lusitânia

Resto de estátua (romanizada) do Deus Endovélico achada na Lusitânia

Endovélico /|\
O Protector, O Muito Bom. Senhor da Medicina, Investigação, Segurança e Adivinhação, protector local de cidades, vilas e aldeias com um santuário seu presente. Patrão, como Brigantia, de médicos e  sanadoras, de investigadoras e cientistas, além de pessoas que com justiça e honestidade fomentem a paz e se dediquem a salvar, cuidar ou atender outros seres.
O Grande Sábio Endovélico gosta de ficar na casa aguardando as pessoas que requiram do seu conhecimento. Aí, igual que faria Bel, o Deus Endovélico utiliza luz e calor e toda classe de remédios para sanar, para acalmar, para assegurar humanos e animais, dos que gosta imenso.
Se for preciso, Ele acudirá ao mais alto ou ao mais baixo para continuar estudando, procurando fórmulas, encontrando soluções; é luminoso, mas o seu lar pode estar no mais profundo, agochado entre as rochas, onde pode trabalhar tranquilo e aprender o que fica no escuro e não toda a gente vê.
Uma vez é visitado, Endovélico pode escolher falar através de sonhos e intuições, indicando o que deve ser feito ou aconselhando que caminho deve seguir-se.
Endovélico não tem uma data fixa para a sua celebração.

 

As Burgas (Ourense): a Galiza é país da Europa com maior número de termas naturais, só a seguir à Hungria

As Burgas (Ourense): a Galiza é o país da Europa com maior número de termas naturais, só a seguir à Hungria

Bormánico /|\
O Que Ferve, O Borbulhador. Senhor das termas, balneários e águas curativas, assim como dos fermentos, os minerais e o subsolo. Protector e patrão de covas e passadiços, e de quem anda neles.
O Deus Bormánico partilha com Nábia comando sobre algumas águas, nomeadamente as águas quentes e aquelas que brotam com características especiais, aquelas não navegáveis ou não aptas para o trânsito de seres, mais bem com um outro uso específico como a sanação e relaxação. Partilha também, porém, capacidades sanadoras com Endovélico, com quem frequentemente departe nas suas explorações das profundezas da Terra e das pedras, minerais e metais.
Disque as suas capacidades transmutadoras favoreceram a aparição de diversas bebidas, comidas e remédios, fermentados a base de líquido e calor.
Recebe o nome de Bormanus, Moguns ou Mogunus na Gália, Grannus em diversos territórios célticos, e na Galiza e Lusitânia também é chamado Borvo ou Bormo.
Bormánico não tem uma data fixa para a sua celebração.

 

Nota final: Existem ainda um feixe de forças sutis, criaturas lendárias e seres chamados “sobrenaturais” (apesar de tal cousa não ser possível na nossa religião, onde tudo é parte do mesmo Cosmos e portanto é sempre natural, só que ainda não o conhecemos ou não o conhecemos bem), mas embora tenham um certo poder, influência e autonomia não entram na categoria de Deidades nem comandam nada se são assim expressamente proibidos por Estas.

Descarregar este documento em formato pdf > aqui (130kb) <

 

Honra à Terra e à Natureza.
Honra a Quem Nos Quer Mostrar e Aprender.
Honra a Quem Estivo e Ainda Há de Vir.
E Nós, No Meio, Caminhando.
/|\

A Noite Nai e o gonzo do Inverno

O Apalpador, a tradicional figura do gigante carvoeiro que cuida das crianças e traz presentes para todos e todas.

O Apalpador, a tradicional figura do gigante carvoeiro que cuida das crianças e traz presentes para todos e todas.

Não parece pelas temperaturas relativamente mornas e poucas chuvas deste ano, mas em poucas horas entraremos no Solstício de Inverno (11:44 hora galega do dia 21) e com ele ficaremos a um nada da Noite Nai. Eis uma das festividades menores contempladas na Druidaria e que incluem solstícios e equinócios, à parte das quatro grandes celebrações religiosas.

Como tantas cousas aparentemente paradoxais na nossa cultura, vai começar o frio a sério justo quando a luz do Sol quer fazer o caminho de volta. Aparentemente paradoxais, claro, mas só para quem não repara nos pequenos detalhes e na maravilha da Natureza.

Mais uma vez, a Natureza demonstra que não há súbitos fins nem mais confusão da que nós queiramos criar. Antes o contrário, nos rigores do Inverno, na noite mais longa e o dia mais curto, reparamos em que a partir de agora a luz só pode triunfar.

Parece que o tempo voara desde o Magusto e já queremos alviscar o brilho do Deus Bel nas folhas de acivro e visco branco, que embora estar ainda algo longe começou decidido o seu caminho de retorno da mão da Deusa Brigantia. Ela sim terá muito trabalho em breve…

Aliás, outras tradições druídicas celebram esta noite mais longa do ano como sinal do eventual regresso de Bel e ainda de Lugus através de Brigantia, simbolizando a sobrevivência sobre as trevas e lenta chegada da luz. É o enraizamento e gestação durante três dias (21+3) do Infante Sol a partir do Ventre Materno, a escuridão da Deusa Anu (Dana ou Danu na Irlanda, Dôn em Gales).

São as datas da Modranecht ou Matronucta (a Noite Nai), também do Meán Geimhridh (‘Meio Inverno’) e Lá an Dreoilín (‘Dia da Carriça’), o dia no que em Éire este pássaro é “caçado”, guardado e depois libertado como sinal de continuidade, da passagem definitiva do ano anterior, pois canta sem parar tanto no verão como no inverno sem interrupção; isto era algo que também se fazia na Lourençá, na comarca da Marinha, mas uns dias mais tarde. A Roda gira, a vida continua.

Nestas datas na IDG honramos aos grandes Deus Larouco (o An Dagda irlandês), Deusa Anu (ambas deidades primeiras e essenciais) e a sua descendente, a Deusa Brigantia.

Seja dito, outrossim, que trânsitos como o Solstício de Inverno são momentos de extrema importância na tradição germânica (festividade de Yule) e na religião Wicca, mesmo no calendário chinês (o Dong Zhi, ou “chegada do Inverno”) entre outras no mundo. Na Europa outras religiões também empregaram e adaptaram a posteriori estas datas como marca do trânsito cara a um período de maior esplendor.

Arredor destas datas os e as Caminhantes podemos nos reunir com a nossa gente, família ou Clã (incluídos os que foram para o Além), na confiança de que o futuro sempre há acabar por destruir os gelos da fria temporada. O Solstício astronómico é em breve, mas as celebrações continuam. É a época do Apalpador, o gigante da tradição galega que virá trazer alegria e diversão às crianças. Queima-se o facho e manifesta-se a Coca ou Tarasca numa piscadela cúmplice, deixando-se comer em forma de doce.

Bom Solstício de Inverno. Que corra a raposa e que cante a carriça! 🙂

“Meses do inverno frios
que eu amo a todo amar,
meses dos fartos rios
e o doce amor do lar.
Meses das tempestades,
metáforas da dor
que aflige as mocidades
e as vidas corta em flor.
Chegade, e trás o outono
que as folhas fai chover,
nelas deixade que o sono
eu durma do não-ser.
E quando o sol formoso
de abril torne a sorrir,
que alumee o meu repouso,
já não meu me afligir.”

(Rosalia de Castro, Folhas Novas, 1880).

apalpador_english

O milho está apanhado… Feliz Magusto e Ano Novo!

A IDG abriu-se ao mundo no Magusto de 2011. Esta é uma imagem da nossa primeira celebração pública desta época, no primeiro Roteiro da Pantalha organizado pela querida A.C. Amigas da Cultura.

A IDG abriu-se ao mundo no Magusto de 2011. Eis uma imagem da nossa primeira celebração pública desta época, no I Roteiro da Pantalha organizado pela querida A.C. Amigas da Cultura.

Na mágica noite do dia de hoje inauguramos o Ano Novo celta. No trânsito do 31 de Outubro ao 1 de Novembro é já popular em muitas partes do mundo celebrar uma festividade eminentemente Druídica, a mais especial de todas.

Bem-vindos e bem-vindas à Noite de Magusto e o seu cheiro a castanha assada, dos sorridentes Calacús, dos Defuntos que nos falam, do gaélico Samhain ou mesmo de Halloween para que toda a gente entenda.

É a noite quando acabam de abrir de vez as portas do Além (Sídhe) para durante esta temporada podermos finalmente comunicar sem eivas com os que não estão. É o intre concreto e simbólico que marca o fim do ano e o começo dum novo, celebrando-se com uma grande festa onde partilhamos risos, alegria e comida com os nossos Devanceiros e Devanceiras. São, em definitiva, os momentos mais importantes do ano para quem anda os vieiros da Druidaria.

A Roda do Ano completa uma volta inteira, marcando já sem dúvidas a entrada cara o Inverno. Adeus Samos, olá Giamos. É o merecido descanso da Terra e a satisfação de termos não só superado mais um ano, senão de estarmos celebrando em comunidade a boa disposição e coragem para seja o que for vem a seguir, sem importar o rigor da estação. Que chova! O milho já está apanhado.

Toma Bandua as suas chaves e abre as cancelas do Além, deixando passo a Berobreo e os seus. Longe já do esplendor da luz de Lugus (que morre e dorme placidamente guardado pelo mesmo Bandua) ou da regeneração de Brigantia e posterior apoteose de Bel, é agora decididamente a quenda da Cailleach – senhora da nossa Terra – completando não só o ciclo de celebrações e deidades do nosso calendário sagrado, senão também o seu próprio. Não olha mais desde um canto, mas sim adquire o protagonismo todo quando, precisamente, deixa de ser nova e linda, quando chega ao seu aparente fim e vira velha e sábia. Será ela, a também senhora da noite, quem facilite o trânsito entre o Aquém e o Além junto de Bandua e Berobreo; será ela quem tome conta das bestas por uma temporada; será ela a que de repente cessará de lembrar-nos a perda que pode supor o passo do tempo para fazer ver que em verdade o que havia era construção, mudança, avanço, com o exemplo da sua própria e pessoal regeneração.

A Cailleach trabalha agora a Terra com o seu sacho até passado o próximo solstício. E com tanta trabalheira haverá quem pense que está a destroçar, mas realmente remexe o necessário para sementarmos quando chegue a nossa vez. Deixará por uma ocasião de rosmar das outras Deidades para estender o seu saio aconchegante sobre o Cosmos todo.

Estes dias a Galiza está em festa. Não há cidade, vila ou aldeia que não festeje e honre as suas Devanceiras e Devanceiros. Não há recuncho do País que não cheire a castanha assada (alimento favorito no Além, como o leite) e a gente pense no Magusto. Não há lugar onde não fique acesa uma candeia. Não há crianças que não sintam que é noite de troula e vaiam “pedir o pão” (O Migalho) pelas portas. Não há janela sem calacú, as “cabeças cortadas” que protegem o lar. Trespassam-se limiares, assim que ninguém esqueça deixar a sua oferenda de leite na porta da casa para Irusan e os seus, e tomar um chisco de pão ao cruzá-la para fora.

Hoje caem os muros etéreos e seica para-se o tempo. O mar entre mundos vira regato, quase ao alcance da simples vista. Ficamos logo nas mãos da Cailleach, na companhia dos amigos corvo e gato e baixo o abeiro do teixo, aconchegando-nos ao pé do purificador lume faladoiro do novo ano.

É tempo de Druidaria. Mais do que nunca esta é a nossa festa rachada.

Feliz Magusto! Bom Ano Novo a todos e a todas! Nós abofé que estaremos celebrando! (para um seguimento da noite consultade o perfil aberto em Twitter da IDG – não é preciso ter conta para ver – onde irão aparecendo informações e fotografias do Roteiro da Pantalha).

Comida de Magusto. Deixade castanhas e leite nas portas e nos cruzamentos. Haverá quem os aproveite bem...

Comida de Magusto. Deixade castanhas e leite (sem lactosa 😉 ) nas portas e nos cruzamentos. Haverá quem os aproveite bem e guardem esses lugares por nós… Mas cuidado, esta noite é precisamente o único momento quando não se podem apanhar as castanhas!

PD. Convidamos à atenta leitura desde artigo, muito detalhado e bem documentado, e ainda deste outro, explicando e exemplificando como esta celebração continua viva em múltiplas e variadas formas, mas sempre com o mesmo sentimento profundamente druídico. Recomendamos, aliás, completar com este outro, também de interesse. Ainda, para quem poida ler em inglês, um texto explicando o relacionamento entre Magusto-Samhain-Halloween.

 

[in English] Magosto, Magusto, Samhain, Halloween… different names for the same period of time which begins with the first scent of roasted chestnuts.

On the ‘Night of the Pumpkins’ or ‘Night of the Dead’ (October 31st-1st November) – as we call it in Galicia – an ancient Celtic festival is celebrated around the world.

Despite the twists and turns of history, we know well that this is a magical time – the most important of the year – as we celebrate the end of a cycle with a grand feast, cherishing the memory of the Ancestors, all those to whom we owe living as we live, knowing what we know, being who we are.

So get ready for winter! now that the barns are full and we are certain that we’ll spend it in good company. Let the Earth take a rest, for the next thing will be the return of light and Spring.

Have a nice one and Happy New Celtic Year!

>Click here< to read more about the Magusto/Samhain/Halloween in English, or >here< to know more about the IDG.

Magusto: the Samhain from Gallaecia

[EN] This is a revised version of a text by Hugo Da Nóbrega Dias, originally published in ‘Celtic Guide’ (Nov. 2013). It is reproduced here with permission from the author, whom we kindly thank. You can download it in pdf >here (162kB)<

[GL-PT] Esta é uma versão revisada dum texto de Hugo da Nóbrega Dias, publicado originalmente em ‘Celtic Guide’ (Nov. 2013). É reproduzido aqui com permissão do autor, a quem agradecemos gentilmente. Pode baixá-lo em pdf >aqui (162kB)<

I had always had a certain reluctance in accepting Halloween entering our lives. It is a tradition that we use to link with the USA, with the carved pumpkins and horror costumes, so popularised in the films. This all reached us when shops started to adopt Halloween paraphernalia in their decorations. They found there a new business opportunity that filled the gap between Summer and Christmas. Yet, when we were children, the night of October 31st was always known as ‘Night of the Witches’, and I remember waiting in vain until midnight in the hope of glimpsing some witch crossing the sky on her broom.

magusto_galaicoThe truth is that the way Halloween was aggressively introduced and promoted also contributed to that reluctance of mine. Plus, we already had our traditional Magusto (festivity where people gather to eat chestnuts and drink wine), which is normally celebrated from November 1st. Why would I bother with Halloween? There I was, in fact, unconsciously neglecting the lack of studies of our own traditions. It was only when I became an adult that I started to get myself interested in Celtic studies and, in the same way, in the traditions of my own region, Northern Portugal. It was with great amazement that, years later, I found an old black and white picture of an old lady with two boys, sitting on a chair holding a carved pumpkin on her knees. Before that I had only heard some reports and read some odd texts explaining an ancient tradition, linked to the rest of the Celtic world, more embedded in our culture than one might think.

As a matter of fact, north of river Minho, in the land that is nowadays known as Galiza (Galicia), this way of celebrating the night of October 31st was kept alive in some villages. The tradition of carving pumpkins is something that elders remember doing “from long time ago”. In those villages, many people thought of it as being connected to other Celtic countries, and not just to our own land, as those traditions were alive and uninterrupted for centuries.

October 31st – Samhain – was the end of the Celtic year, when the world of the dead and the world of the living would come together. People used to believe (and some still do) that the souls of the dead could walk in our world. It was the time to celebrate the new year with a big dinner, laughters, friends and family, but it was also the time to conduct religious rites that would allow us to communicate with the Beyond, and have a chat with the loved ones who are no longer among us. Hence, derived from the “headhunting” Celtic custom, skulls were to be lit up with candles, both to protect the living from the evil spirits and to illuminate the path of the good spirits. Those skulls would be left at crossroads, gates, windows or doors, marking and indicating thresholds, passageways. In time, skulls were replaced with turnips and eventually pumpkins.

Over the years, I have been collecting testimonies about a not so distant past. One of these stories happened in Ílhavo, close to Aveiro, home to sailors. In a special cultural event promoted by local authorities, residents were invited to open their houses to visitors so everybody could socialise and get to know the way these people lived. On that occasion, my most kind and hospitable hosts were people from the historic centre of the village. Then Mr. Mário told me, among many other things, about the time when he was young, 30 or 40 years ago, when people in the neighbourhood used to fill those same streets with carved pumpkins for Samhain. I was astonished. Also, in conversations with my father and mother and with other relatives – all from old Gallaecia – I found out that they all had childhood memories of carving pumpkins for the night of October 31st and that they would all gather to eat chestnuts, sausages and to drink wine. One can only imagine the number of people with similar stories to tell and share.

Thus, although the tradition of the carved pumpkins was mostly forgotten in Galicia and Northern Portugal during the 20thC, we can see that from a historical point of view the norm was to celebrate Samhain as done in other Celtic countries, or in the USA by influence of the Irish who emigrated there. Not only that, other significant elements associated to the date such as the respect and reverence for the dead, had always been present. In addition, our tradition offers something of its own, the chestnuts, allegedly said to be a favourite meal in the Beyond! Whether or not this last aspect was common in other countries is a different story. In any case, this was the moment when families and communities harvested and gathered the very last produce given by the land before winter, call it wine, pumpkins or chestnuts. This was the transition from the luminous part of the year (summer) to the dark part of the year (winter), and they celebrated it accordingly, getting ready for some harsh weather but with the confidence it would all pass in the end.

It sure is paradoxical, and somewhat ironic, that it was through commercialism that an old tradition was recovered in our country. It sure made many think we were importing yet another new foreign fad, only to discover it was ours all along. It may even annoy us now how American Halloween “twists” the “true” meaning of Irish Samhain, or Galician-Portuguese Magusto. That is however a good sign, as it evidences how we have rediscovered and accepted a part of our own beautiful ancient heritage.

*.pdf (162kB)

– A (CC) 3.0 license applies, where it is permitted to share this text if source is cited, but it is forbidden to alter, re-adapt or use it for commercial purposes.

– Aplica-se uma licença (CC) 3.0, pela qual é permitido partilhar este texto sempre que se citar a fonte, mas é proibido alterá-lo, readaptá-lo ou usá-lo com fins comerciais.

Click here for more information about the IDG in English.