O Solstício de Verám e a Noite dos Lumes

O Solstício de Verám, o dia mais longo e a noite mais curta do ano, cumpre desta vez a sua passagem astronómica na tardinha do 21 de Junho (17:54 a norte do Minho, 16:54 a sul).
Ora bem, na nossa tradiçom a festa da Noite dos Lumes (Alban Hefin, Mean Sámhraidh ou Dia do Meio-Verám), terá lugar como sempre na grande e especial noite do 23 ao 24 de Junho.

Esta aparente disparidade de datas tem a ver com o costume celta de celebrar durante 3 dias, ou que determinados eventos durassem 3 dias. Assim, na noite do 23 celebramos o fim dum breve ciclo que abre em poucas horas (desde o ponto de vista astronómico), e fecha sem problema na noite do 23-24. Há um balanço claro com o Solstício de Inverno e a Noite Nai.

Nom sendo umha das quatro celebraçons religiosas principais do ano seguindo a Roda do Ano, é sem dúvida umha das mais sentidas popularmente entre as quatro denominas “menores” (solstícios/equinócios). É umha ocasiom de alegria e convívio e assim deve ser sentida.
Contudo, como Druidistas é tamém importante fazer saber a quem quiser ouvir a verdadeira origem e motivos reais desta data, em forma de reparaçom e dignificaçom pola sua banalizaçom crescente.

É assim a celebraçom do trânsito ao verám que nos levará cara umha nova Seitura (Lugnasad), umha mudança de estaçom e um novo lento caminho cara Giamos, a metade escura. Vai rematando a época dos Maios (Beltaine) e tudo arde numha êxtase festiva.
Por isso, mais do que nunca, o lume em forma de cacharelas comunitárias viram elemento fulcral alumiando a meia-noite, dissipando as trevas e criando um perfeito dia sem fim, um último berro de luz, poder e fertilidade. Decoram-se os chaos com flores, enchem-se as ruas de elementos vegetais, despedindo aos poucos ao bom do brilhante Bel, dando as boas vindas ao luminoso Lugus, que em nada completará a sua entrada.

Junto do Magusto e os Maios esta é a terceira das denominadas noites mágicas do ano, onde disque as meigas andam à solta. É bom momento entom para apanharmos ervas mencinheiras assim como banhar-nos no mar e até recolher a Flor da I-áuga (o primeiro reflexo do Sol na superfície das fontes), com a permissom das Xanas de Nábia no novo abrente, cousas todas que ham centrar os rituais para as nossas sanaçons e purificaçons.

Como cada ano, preparade-vos logo para acender e cuidar o lume do vosso Clan, umha fogueira tam alta e brilhante que dea luz às próprias estrelas, lume que depois haverá que saltar para eliminar todo mal.
Preparade-vos para partilhar a comida e recuperar forças antes de apanhar as ervas e água mágicas, para tomar o banho de mar na noite que é dia, e aguardar ainda assim pelo raiar do Sol que lembrará que sempre há voltar 🙂

Noite dos Lumes, alegre / menina, vai-te lavar

apanharás água do pássaro / antes de que o Sol raiar

Irás arrente do dia / a água fresca catar

da água do passarinho / que saúde che há de dar

Corre menina, vai-te lavar / lá na fonte te hás de lavar

e a fresca água desta alborada / cor de cereixa che tem que dar

Se arraiar, se arrairá / todas as meigas levará;

já arraiou, já arraiou / todas as meigas levou.

Uma tradição bem antiga e profundamente enraizada, embora a maioria da gente a conheça com um nome falso
Umha tradiçom bem antiga e profundamente enraizada na nossa cultura, embora a maioria da gente a conheça com um nome falso.

 

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Ergue-te Maio!

Os “tótemes vegetais” dos Maios, representando a Natureza, sempre alegres e imaginativos, misturando tradiçom ancestral e modernidade numha linha – aqui sim – sem quebras.

Os Maios (Beltaine) som chegados. A terceira grande celebraçom religiosa do ano a seguir o Magusto (Samhain) e o Entroido (Imbolc) começa esta noite, no passo do 30 de Abril ao 1 de Maio.

Venhem aí os Lumes do Deus Bel (Bel-tené) – o Formoso, o Belo, o Luminoso – e assoma a cabeça a Coca do Val, sabendo que chega já de forma definitiva a consagraçom da Primavera (tradicionalmente era, de facto, o começo do Verám).

E este ano poderemos nos encontrar mais umha vez na já oitava ediçom das Jornadas Galaico-Portuguesas (dias 11 e 12 em Pitões das Júnias, Montalegre).

Nom é casual que seja precisamente agora, neste mês, quando proliferam por todo o País tantas “festas da primavera”, já que tratamos com umha autêntica festividade cujos ecos perduram na nossa terra desde o Neolítico.

Como o Magusto (Samhain), os Maios suponhem um trânsito, o outro fito da divisom da Roda do Ano em duas partes, onde a mudança esta vez acontece desde a metade escura do ano cara a luminosa, de Giamos a Samos. Retoma o lume guardado por Druidas e Druidesas o seu simbolismo fulcral, leva-se o gado até ele para a sua purificaçom e saltam homens e mulheres por riba na procura da fertilidade. Regressam a casa depois dum duro inverno fora os moços do Cório (como os irlandeses Fianna), para celebrarem estas datas com o resto do seu Clã.

Se na Seitura (Lugnasad) preparamos-nos com lume à futura chegada da escuridade, aqui chamamos definitivamente à luz que nom para de caminhar cara nós. Invoca-se o bem-estar, os gromos e o calor no rito de Alumiar o Pam, para que a Natureza nom se esqueça de nós e dos nossos esforços:

Alumeia o pam
Alumeia-o bem
Alumeia o pam
para o ano que vem

Alumeia o pai
cada gram um toledám
Alumeia o filho
cada gram um pam de trigo
Alumeia a nai
cada gram um toledám
Alumeia a filha
cada gram um pam de trigo

Como na Seitura é tamém bom momento para casamentos e unions, para desfrutar da sexualidade. É o grande festival da fecundidade, do esplendor da natureza, da fartura, das crianças. É umha festa de reconstruçom e renovaçom. Assim, elabora-se o Maio, umha figura inteiramente vegetal – se calhar com algum ovo que a Lebre já cedeu a pedido de Brigantia depois do equinócio  – que representa e centraliza a Natureza, ou umha árvore se se quer, que será passeada por moços e moças; mesmo pode-se vestir umha criança como tal. É a árvore, pois, que indica a chegada sem falho da vida e da luz durante meio ano, em torno à qual todas e todos cantam e dançam em círculos enquanto o Cório bate as suas espadas junto da Coca, espinha do Mundo:

Ergue-te Maio
que tanto dormiche
que passou o Inverno
e tu nom o viche

De acordo com a tradiçom galaica celebramos os Maios desde a noite do 30 de Abril, quando (de forma simbólica) apanhavam-se frutos da terra nos campos alumiados por fachos cujas cinzas serviam depois de adubo, até o significativo dia 1 de Maio. Apanham-se ainda as gestas que ham guardar as casas (e veículos) desde o abrente do dia 1, umha vez colocadas nas portas de forma bem visível. Depois da juntança da manhã tentaremos percorrer o caminho cara um santuário natural para acabarmos de confecionar o Maio, acender os lumes, jantar e, em definitiva, desfrutar da alegre proteçom de Bel que, anovado, viaja arredor do Sol no seu carro de cavalos. Temos ainda a ajuda da Deusa Nábia nos nossos cânticos com o repenique das suas águas, precisas para limpar as feridas. A tríade fecha-se com a Deusa Íccona Loimina – embora sempre com um pensamento de agradecimento para Brigantia – por se tiver a bem ajudar na abertura de novos caminhos, Ela que sabe e pode protegê-lo.

Os Maios som umha dessas celebraçons populares que mostram à perfeiçom a continuidade duns costumes e crenças desde a mais remota antiguidade até dia de hoje. Pode que perderam parte do seu significado original e outros foram acrescentados, pode que a maioria da gente nom saiba o que está a suceder realmente, mas a tradiçom tem estas cousas: o fundo perdura, apesar de todas as tentativas de o ocultar ou deturpar.

Bel está presente, a Natureza está presente, o “axis mundi” está presente, os Córios estám presentes e rodam no sentido da vida, a fertilidade e a alegria estám presentes, o sentimento de melhora e proteçom está presente, e milhares contemplam isto tudo e participam nas ruas da Galécia do século XXI. Estamos no mundo e, como sempre figemos, cantamos e dançamos.

Amanhã (1 de Maio) é dia de presença nas ruas, por justiça e por festa. Amanhã o País inteiro tinge-se de cor num berro senlheiro. E para quem nom conhecera esta festa, eis umha introduçom… 😉

As datas de culto, aliás, estendem-se até o dia três e a época dos Maios durante o mês todo, mas neste caso som actividades principalmente pessoais e privadas.

Beltaine, os Lumes de Bel, umha grande e alegre festa em todas as terras célticas

 

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Acouga Brigantia, salta a lebre. É a Alvorada da Terra

O animal desta época, a Lebre, nom o é por casualidade. Símbolo de fertilidade, é a encarregada de cuidar do ovo (fruto do ventre – i mbolg) pois Brigantia começa já a ficar cansa… Foto: C. Galliani.

Esta noite o Sol detém-se sobre as nossas cabeças, toma fôlegos por um intre na sua viagem enquanto equilibra luzes e trevas. Às 22:58 (norte do Minho; 21:58 no sul) tem lugar o Equinócio de Primavera, quando depois de finalmente alcançar à escuridom o dia dura tanto como a noite.

É o que muitos e muitas denominam Alban Eilir, “A Luz da Terra”, Mean Earraigh, “Meia Primavera”, ou Alban Talamonos, “O Amencer da Terra”; Ostara nos cultos germânicos e wiccanos, o início do ano astrológico para outros.

Nós chamamos-lhe A (Festa da) Alvorada da Terra e é um dos quatro  eventos astronómicos que intercalam as quatro grandes celebraçons religiosas da Roda do Ano , é dizer, o ciclo completo das oito grandes celebraçons da Druidaria combinando quatro maiores (religiosas, com começo no Magusto, em Novembro) e quatro menores (astronómicas: solstícios e equinócios).

Continuamos assim o caminho indicado no Entroido (Imbolc). Vai resultando evidente que a chegada dos Maios (Beltaine) e imparável. A Natureza cumpre os seus ciclos mais umha vez, por muito que haja quem teime em ignorá-la e daná-la. Por fim vai agromando a vida por toda parte; é óbvio e palpável.
Apesar do frio que pode perdurar, a luz e os primeiros verdes e flores nom enganam. Activa-se a fertilidade e maravilhamo-nos de como a planta sabe quando tem que medrar, quando tem que sair do ovo protegido por umha lebre, simbolismo do que significavam os frutos “no ventre” (i mbolg) da Deusa Brigantia, que nom parou de sorrir desde o Entroido.

Renovam-se desta forma as intençons desse Entroido: continua a preparaçom, cuidado e sementado da terra, mas esta já reverdece. Pode-se pôr outra vez a casa em ordem e continuarmos a limpeza, tamém interior, porque com esta luz podemos ver melhor todo recanto escuro, em toda parte, e nom deixarmos nada sem arranjar.

Bom Equinócio de Primavera entom. Recebide a acougante Alban Eilir num agarimoso abraço. Empregade bem o tempo da Mean Earraigh. Espreguiçade-vos com o Alban Talamonos. Acordade com a terra que recebe a sua Alvorada. Luz de carqueixa!

<< Dim que nom falam as plantas, nem as fontes, nem os pássaros,
nem a onda co’s seus rumores, nem c’o seu brilho os astros,
di-no, mas nom é certo, pois sempre quando eu passo,
de mim murmuram exclamam:
Aí vai a tola sonhando
co’a eterna primavera da vida e dos campos
e já bem cedo, bem cedo, terá os cabelos canos,
e vê tremendo, aterecida, que cobre a giada o prado.

Hai brancas na minha cabeça, hai nos prados giada,
mas eu prossigo sonhando, pobre, incurável sonâmbula
co’a eterna primavera da vida que se apaga
e a perene frescura dos campos e as almas,
ainda que os uns esgotam-se e ainda que as outras abrasam.

Astros e fontes e flores, nom murmuredes dos meus sonhos,
sem eles, como admirar-vos nem como viver sem eles? >>

(Rosalia de Castro, 1884)

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