Comunicado a Druidistas sobre a situaçom actual em relaçom ao “coronavirus”

A fortaleza dumha comunidade, o civismo dumha sociedade, revela-se quando os tempos nom som fáceis, e nada abana mais os alicerces do nosso ser individual e colectivo que o perigo percebido sobre a nossa própria saúde.
Aliás, aí revela-se tamém a dignidade pessoal de cada um e umha de nós.

As epidemias, pandemias ou crises de saúde pública nom som nada novo. Nom somos as primeiras nem seremos as últimas em defrontar algo como isto agora do “coronavirus” (COVID-19). Mesmo com toda a sua seriedade (que abofé a tem), nem é comparável a outros contextos passados.
E ainda assim, nos dias que vivemos de comunicaçom e informaçom instantânea, podemos assistir a um evento global a tempo real à vez que podemos calibrar, bem ou mal, as reacçons próprias e alheias.

Deste modo, a mesma tecnologia que nos comunica tamém fai com que o tal vírus se propague mais rapidamente, e com ele a possível paranoia. Ora bem, o alarme é justificado polas características da própria doença que nom imos entrar a analisar pois nom nos corresponde, fazendo desde já um chamamento a atendermos as recomendaçons das autoridades sanitárias.

Contudo, voltando ao efeito sobre nós, sim podemos reivindicar mais do que nunca que é precisamente agora quando tudo aquilo que defendemos como Druidistas (crentes na religiom druídica) ou amantes da cultura celta é válido; nom só válido, é fundamental.
Mais do que nunca as “Nove Regras de Conduta” devem ser observadas à risca, primando a solidariedade e a protecçom do grupo sobre o egoísmo, velando pola justiça e com o sentidinho a guiar.

Assim, desde a IDG fazemos um especial chamado a:

  • Ficar na casa agás casos de verdadeira necessidade.
  • Cuidar da higiene com um frequente lavado de maos, uso de desinfectantes, etc, ajudando assim tamém a cuidar de toda pessoa com a que encontremos e proteger os grupos de risco.
  • Nom comprar de forma absurda e indiscriminada nem comida nem outros bens, pois nem vai haver escassez nem se aguarda que vaia haver.
    Arrasando lojas e supermercados só estamos colocando ainda mais pressom sobre quem lá trabalha arriscando o seu bem-estar por nós e privando desses alimentos e bens a outras pessoas.
  • Assistir na distância a pessoas com condiçons psicológicas várias. Umha mensagem ou um telefonema podem ser um bálsamo.
  • Cuidar das nossas mascotes e animais, sabendo que nem podem contagiar-se do vírus nem podem transmiti-lo. Som simples espectadores inocentes neste remoinho.
  • Aproveitar a situaçom para focarmos no realmente essencial na nossa vida e recuperarmos o cerne da nossa coexom. Pode nom haver contacto físico durante uns dias mas certamente pode haver muito calor humano.
  • Aproveitar a situaçom para educar as crianças e jovens nestes valores todos. Este é um caldeiro de forja.

É certo que medramos e fumos educados numha sociedade capitalista doente que no geral só nos ensinou a pensar em nós mesmas, ou em nós primeiro, mas se tantas vezes enchemos a boca com mudarmos esse sistema, a mudança bem pode começar aqui, neste intre, com o nosso agir a cada momento.

Se falharmos quando fai falta, falhamos na essência, falharemos sempre, e nom haverá ritual nem bons propósitos em dias de luz e festa que elimine essa desonra. Lembrade, só temos medo “ao céu cair sobre as nossas cabeças”… e o céu continua fixo lá acima!

Ficade com calma, pois nisto estamos todos e todas e isto passará. Haverá tempo de revisar que fijo cada quem mais à frente, nomeadamente algumhas personalidades políticas claramente confundidas e irresponsáveis, e nom esqueceremos os abusos de poder. A doença nom deveria afectar à nossa memória futura.

Como religiosos confiamos no Deus Endovélico /|\ e na sua ajuda e inspiraçom sobre todos esses homens e mulheres do mundo da medicina que trabalham connosco e para nós. Força!
E força tamém para todas aquelas pessoas que mantenhem os demais serviços básicos em marcha. Bem haja!

Finalmente, indicar que o próximo grande encontro da IDG do festival de Maios (Beltaine) em Pitões das Júnias (Montalegre), que ia ser anunciado para o primeiro fim de semana de Maio, fica adiado. Celebraremos umha juntança quando isto acabar. Iremos informando.

Nunca choveu que nom escampara.

Irmandade Druídica Galaica

PS. A IDG fica “aberta” por via telemática (redes sociais ou correio-e) para qualquer consulta, pedido de ajuda, acompanhamento espiritual, etc.

Entroido de Brigantia, calor de inverno

Ousilhão (Vinhais, Bragança), 2018. Foto de A. Marín retirada dum perfil público Facebook.

No 1 de Fevereiro formaliza-se a segunda das quatro grandes celebraçons do ano celta, o Entroido (Imbolc), umha celebraçom de esperança e alegria fortemente vencelhada à Deusa Brigantia (Brighid ou Bride), a Deusa vitoriosa, principal representante da soberania feminina, exemplo perfeito das trindades druídicas na sua própria figura.

Na tradiçom galaica disque o Entroido (Entruido ou Entrudo) começou já o 1 de Janeiro (passados os fastos da Noite Nai) e ainda que é certo que nalguns lugares já levam dias preparando e até celebrando, será durante esta próxima época depois do 1 de Fevereiro na que se desenvolva em todas partes este festival percebido como purificaçom da terra e primeiro estímulo do crescimento, a preparaçom limiar da terra no futuro encontro com a primavera.

Vai-se cumprindo o anunciado triunfo sobre a escuridade que começou com o Ano Novo celta no Magusto (Samhain – 1 Novembro), num inverno que se bem ainda nom rematou tamém nom é quem de nos vencer quando bate mais duro, e Brigantia ajuda-nos com os seus atributos e ferramentas.

É o momento entom para a regeneraçom, para ajudarmos a terra, colocar os assuntos da casa em ordem, mesmo de fazer umha grande limpeza, fazer planos e “plantar” ideias. Muitos animais parem nestas datas e mesmo pode ser considerada como a festa dos bebés. Já diz o refraneiro galego que “no 2 de Fevereiro casam os passarinhos“.

Lembra-se, aliás, que o Rei ha renovar os votos com a Terra, na uniom de soberanos, o pacto sagrado entre o Ser Humano e as Deidades da mao de Brigantia. Como diz o antropólogo R. Quintia:

“[O Entroido galego é o] que melhor conserva o significado simbólico das vodas rituais que se celebravam em toda Europa no final de ciclo festivo da Invernia e a essência das sociedades de moços solteiros [Córios]”

A Deusa Brigantia – A Alta, A Elevada, A Tríplice Chama, Senhora da Soberania, portadora da água, da luz e Deusa do Fogo – toma três aspectos: como Lume da Inspiraçom (patrona da poesia, artes, filosofia e profecia), como Lume do Lar (patrona da medicina e fertilidade, de pastoras a agricultoras, protectora da casa com ajuda da Deusa Trebaruna) e como Lume da Forja (patrona da metalurgia, ferraria e artes marciais, grande guerreira).

A alegria
A alegria do Entroido tradicional: as cores racham o frio. Chama-se por Brigantia, chama-se por Bel. Venhem os Córios e vai-se afugentando a época escura.

A Soberana guia o Entroido com os seus atributos positivos e fai que, precisamente, acedamos a umha nova época. Eis a raiz da palavra Entroido, entrar, umha entrada a um tempo alegre que em muitos lugares começa já pouco depois de passado o Solstício de Inverno, mas nada a ver com o “carnavalesco” grosseiro, completamente alheio à nossa tradiçom. Brigantia assegura assim este trânsito e garante a promessa de renascença feita no solstício. Ela será quem acorde depois o refulgente Deus Bel.

O ano já há tempo que começou, mas agora Brigantia e o ciclo da natureza começam a nos premiar de forma especial pola nossa resiliência. Tudo vira em torno ao Imbolc a partir destes momentos (do velho céltico i mbolg, “no saco” ou “na barriga”), este embigo da vida. Alviscamos a sua luz e ficamos confiantes: há que chegar ainda, mas já estamos quase. É tempo de alçarmos a cabeça e rirmos! 🙂

E na dança do teu mirar
Vejo castros, vejo o mar…
E nos beiços do teu Imbolc
Vejo a arder a lua, vejo gear o sol

Mileth (com grafia adaptada; reproduzido com permissom)

Tripla Deusa Brigantia, Senhora do Entroido (Imbolc). Detentora do fogo pois é protectora (entre outras) das ferreiras que forjam as armas, das poetas que apresentam lumes cerimoniais, e das sanadoras que facilitam o lume do lar. Brigantia fornece tamém pola criança nascente.

 

As cores
Abre-se o verde, racham as cores. Vai frio, mas tamém luz. Foto: R. Quintia (Facebook)

 

Gostas da IDG? Tu podes ajudar a que este trabalho continue – Do you like the IDG? You can help us continuing our work 🙂

Noite Nai, confiança na volta da luz

O Apalpador, a tradicional figura do gigante carvoeiro que cuida das crianças e traz presentes para todos e todas.

Em breve passaremos o Solstício de Inverno (05:19 hora oficial galega do dia 22) e com ele ficaremos a um nada da Noite Nai. Eis umha das festividades menores contempladas na Roda do Ano da Druidaria e que incluem solstícios e equinócios, à parte das quatro grandes celebraçons religiosas.

Como tantas cousas aparentemente paradoxais na nossa cultura, continua o frio a sério justo quando a luz do Sol quer fazer o caminho de volta. Aparentemente paradoxais, claro, mas só para quem nom repara nos pequenos detalhes e na maravilha da Natureza.

Mais umha vez, demonstra-se que nom há súbitos finais nem mais confusom da que nós queiramos criar. Antes o contrário, nos rigores do Inverno, na noite mais longa e o dia mais curto, reparamos em que a partir de agora a luz só pode triunfar (embora ainda tenhamos que sobreviver qualquer possível perigo ou adversidade).

Parece que o tempo voara desde o Magusto e já queremos alviscar o brilho do Deus Bel nas folhas de acivro e sagrado visco branco, que ainda que está algo longe começou já decidido o seu caminho de retorno da mao da Deusa Brigantia. Ela sim terá muito trabalho em breve…

Aliás, outras tradiçons druídicas celebram esta noite mais longa do ano como sinal do eventual regresso de Bel e ainda de Lugus através de Brigantia, simbolizando a sobrevivência sobre as trevas e lenta chegada da luz. É o enraizamento e gestaçom durante três dias (21+3) do Infante Sol a partir do Ventre Materno, a escuridade da Deusa Anu (Dana ou Danu na Irlanda, Dôn em Gales).

Som as datas da Modranecht ou Matronucta (a Noite Nai), tamém do Meán Geimhridh (‘Meio Inverno’) e Lá an Dreoilín (‘Dia da Carriça’), o dia no que em Éire este pássaro é “preso”, guardado e depois libertado como sinal de continuidade, da passagem definitiva do ano anterior, pois canta sem parar tanto no verám como no inverno sem interrupçom; isto era algo que tamém se fazia na Lourençá, na comarca da Marinha, mas uns dias mais tarde. A Roda gira, a vida continua, os ciclos nom param.

Nestas datas na IDG honramos aos grandes Deus Larouco (o An Dagda irlandês), Deusa Anu (ambas Deidades primeiras e essenciais) e a sua descendente, a Deusa Brigantia.

Seja dito, já que estamos, que trânsitos como o Solstício de Inverno som momentos de extrema importância na tradiçom germânica (festividade de Yule) e nas crenças Wicca, mesmo no calendário chinês (o Dong Zhi ou “chegada do Inverno”) entre outras no mundo. Na Europa outras religions tamém empregarom e adaptarom a posteriori estas datas como marca do trânsito cara a um período de maior esplendor.

Arredor destas datas os e as Caminhantes podemos nos reunir com a nossa gente, família ou Clã (incluídos os que foram para o Além), na confiança de que o futuro sempre há acabar por destruir os gelos da fria temporada.

O Solstício astronómico é em nada, mas as celebraçons continuam. É a época do Apalpador, o gigante da tradiçom galega que virá trazer alegria e diversom às crianças. Queima-se o facho e manifesta-se a Coca numha piscadela cúmplice, deixando-se comer em forma de doce. Adornamos e alumeamos as nossas casas, magnificando o brilho da nova luz à que ajudamos a renascer.

Bom Solstício de Inverno sob a protecçom do visco e o acivro. Que corra a raposa e que cante a carriça! 🙂

 

“Meses do inverno frios
que eu amo a todo amar,
meses dos fartos rios
e o doce amor do lar.
Meses das tempestades,
metáforas da dor
que aflige as mocidades
e as vidas corta em flor.
Chegade, e trás o outono
que as folhas fai chover,
nelas deixade que o sono
eu durma do nom-ser.
E quando o sol formoso
de abril torne a sorrir,
que alumee o meu repouso,
já nom meu me afligir.”

(Rosalia de Castro, Folhas Novas, 1880).

As montanhas do Courel, desde onde desce o Apalpador (tamém chamado Pandigueiro) cada Inverno com os seus presentes e castanhas.

Gostas da IDG? Tu podes ajudar a que este trabalho continue – Do you like the IDG? You can help us continuing our work 🙂