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As Deidades Galaicas

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À sombra do carvalho tudo fica mais claro

Não se pode falar de “panteão” no mundo celta tal e como é comumente entendido, isto é, com relações estritas entre Deidades com funções específicas ou equivalências directas com panteões doutras religiões. De facto, diferentes tradições célticas apresentam variantes entre Deidades, ainda que as principais são comuns apesar de terem por vezes nomes ou epítetos diferentes.

A forma de entender as nossas Deidades deve ser fluída e flexível. São Deidades que cobrem uma série de funções intercomplementares, onde há uma hierarquia mas não um enfrontamento ou conflito de opostos (como noutras religiões), mesmo nos casos onde as responsabilidades são partilhadas. Algumas Deidades podem ser, em verdade, triplas, multifacetadas. De haver uma possível contradição esta é sempre só aparente, seguramente derivada da pouca familiaridade com o sistema de pensamento e cosmovisão céltica.

O facto é que a maioria de nós crescemos numa sociedade onde o divino disque é misericordioso, amoroso e que exige às crentes sujeição às suas regras em troca da concessão da sua ajuda e apoio. No entanto, na nossa crença devemos atravessar uma porta que exige sacrifício, demolir paredes velhas para começarmos a entender o que o mundo é e qual é o nosso lugar nele. Embora as Deidades nos “acariciem” com boa intenção, o seu toque derruba esses muros que nos rodeiam e que nos impedem entender, e este pode ser um sentimento estranho e até desconcertante. Compreendermos-lhes e compreenderem-nos leva tempo, mas depois tudo adquire sentido pleno.

Desta maneira, apresentamos aqui uma introdução muito resumida e simplificada aos Deuses e Deusas da nossa tradição galaica, feita a partir de dados objectivos conhecidos através da investigação académica mas, sendo a Irmandade Druídica Galaica uma entidade religiosa, feita também em base a interpretações religiosas autónomas.

Lembramos, aliás, a nossa crença na existência individual e específica de cada uma Delas, que não são criações nem hipóstase duma Deidade superior. Assim, as Divindades não estão submetidas a outro Deus/a ou energia consciente superior a Eles/as. Do mesmo jeito, todas Elas são igualmente respeitadas, pelo que são e pelo que representam.

 

Deidades Primeiras
Presentes pelo que sabemos desde o inefável impulso original não-inteligente, causa primeira e matriz de vida. São as mais antigas e poderosas mas também as aparentemente mais reservadas.

 

Imagem do Deus Larouco encontrada na sua serra.

Imagem do Deus Larouco encontrada na sua serra

Larouco (Crouga) /|\
O Grande Deus, o Pai de Todos, o Bom Deus, o protetor da tribo. Senhor do Conhecimento, da ordem social e dos contratos. Patrão das pessoas sábias e docentes. Possui uma força imensa e está associado à abundância e generosidade da terra.
Os seus grandíssimos poderes representam-se pela enorme maça que porta na sua mão, assim como a sua masculinidade é representada pelo seu grande membro sexual. É guardião também do pote da fartura, de onde surge todo bem e toda Magia. Tudo Nele e com Ele é massivo.
Na tradição galaica está fortemente vencelhado à montanha sagrada do mesmo nome na Serra do Gerês, onde toma residência. Contudo, a sua presença noutros picos pode ser sentida e adquire, nesse caso, o nome de Crouga (como o Crom Cruach da tradição irlandesa). É dizer, Larouco é o nome que lhe damos quando falamos do Deus como tal – até fisicamente – sendo Crouga o seu espírito, a sua presença imaterial longe da sua montanha existente em toda anta ou lugar elevado de poder.
No pan-celtismo é considerado irmão de Bandua-Cosso e consorte de Anu. Recebe os nomes de An Dagda na Irlanda e Sucellus na Gália.
Celebramo-lo principalmente na época do Solstício de Inverno-Noite Nai (21-25 de Dezembro).

 

A "Moura da Pena Furada" (Coirós), representando a Sheela na Gig mais antiga da Europa que, achamos, é uma forma de representar a Deusa Anu

A “Moura da Pena Furada” (Coirós), ou a Sheela na Gig mais antiga da Europa que, achamos, é uma forma de representar a Deusa Anu

Anu /|\
A Grande Nai, A Nobre, A Boa, origem da luz e do dia. É Senhora da Literatura e Senhora e patrona das criaturas invisíveis, dos mouros e das mouras, de todos os seres místicos e de poder.
Por vezes é consorte de Larouco, mas só quando Ela escolhe, como indica a sua residência na  Pena de Anamão da mesma Serra do Gerês: perto, mas separados, como bons e velhos amigos e vizinhos que partilham conversa, experiências e confiança.
Ambos formam um duo peculiar, mas isto não deve ser nunca confundido com ideias posteriores e alheias à nossa tradição como a separação estrita em dous sexos, a dicotomia masculino-feminino, ou assuntos similares. Anu e Larouco podem ser complementares, mas são livres e autónomos em todo momento, e Anu estabelece o início do princípio de independência e Soberania Feminina do que a sua descendente Brigantia será Senhora.
Noutro exemplo, Larouco pode ser Senhor da Magia, mas Anu é a Senhora dos que usam e põem em práctica essa Magia. Uma cousa sem a outra não teria sentido, mas ainda assim são diferentes e cada um manda o que manda, onde Ela decide quem e como.
Recebe os nomes de Dôn em Gales (onde apresenta importantes conotações astronómicas em relação às constelações de Cassiopeia, Corona Borealis e até a Via Láctea) e de Danu ou Dana na Irlanda, onde é a Deusa Nai de todos os Tuatha Dé Dannan.
Celebramo-la principalmente na época do Solstício de Inverno-Noite Nai (21-25 de Dezembro).

 

Deidades de Poder
Antergas figuras de incomensurável autoridade que tentam pôr ordem e mostram virtudes para quem quiser ver e ouvir. Mestres para quem quiser aprender.

 

Tripla deusa Brigantia, portadora da Luz, detentora do fogo pois é patrona, entre outros, dos ferreiros que forjam as armas que hão defender a tribo, dos poetas - Bardos - que apresentam lumes cerimoniais e inspiração, e dos sanadores, que facilitam o lume do lar e o bem-estar.

A Deusa Brigantia, exemplo paradigmático da trifuncionalidade céltica

Brigantia /|\
A Alta, A Elevada, Senhora da Soberania, A Tríplice Chama, portadora da luz e Deusa do Fogo e da vitória. Toma três aspectos: como Lume da Inspiração (patrona da poesia, artes, filosofia e profecia), como Lume do Lar (patrona da medicina e fertilidade, de pastoras a agricultoras, protectora da casa) e como Lume da Forja (patrona da metalurgia, ferraria e artes marciais, grande guerreira).
É patrona de todos esses aspectos assim como das alturas em geral (sejam montanhas, castros no alto ou pensamentos elevados), dos e das Durvates, gado e animais domésticos, assim como dos poços e fontes sagradas.
Todo poder deve ser regulado por Brigantia. Ela não exerce essa Soberania directamente, mas ordena sobre quem a recebe ou não, quem é digno ou digna de ser chamado “rei” ou “rainha”. Ela marca o sagrado pacto entre o ser humano e a Terra. Quem não respeitar isto não poderá ser nunca a melhor líder e as humanas teremos sempre governantes ruins. Seguramente este é um dos motivos pelo que muitos lugares da nossa Terra foram nomeados na sua honra.
Brigantia assegura o trânsito entre Inverno e Primavera e garante a promessa de renascença feita no Solstício de Inverno. Ela será quem acorde os Deuses Bel (o seu ocasional consorte) e Lugus chegado o momento, mesmo quem amamente este último se figer falta.
No pan-celtismo considera-se filha de Larouco e Anu.
Recebe o nome de Brigid na Irlanda, Brìde na Escócia e Brigindũ na Gália.
Celebramo-la na época do Solstício de Inverno-Noite Nai (21-25 de Dezembro) mas, principalmente, na sua grande festa do Entroido (Imbolc), por volta do 1 de Fevereiro.

(Ouvir aqui a canção dedicada à Deusa Brigantia pela banda galaica Mileth)

 

Lugus. Desenho em aquarela por R. Cochón.

O Deus Lugus, visto por um membro da IDG

Lugus /|\
O Luminoso, O Esplendoroso, O Radiante. É o jovem, belo, atlético e extremadamente hábil guerreiro com a sua mágica lança (O Do Longo Braço) e outras fantásticas armas. Apresenta uma triplicidade associado ao Sol, ao Céu e às Treboadas, onde comanda tronos e lôstregos.
É patrão, como Brigantia, das artes e do artesanato, mas também dos desportos, da actividade física, das criadoras e inventoras, de todos aqueles e aquelas que podem fazer surgir algo que antes não existia, da lei, da verdade e dos juramentos, dos que colocam ordem no caos e defendem os pactos e promessas feitas.
Lugus emana uma sensação de poder e eloquente sabedoria, de reconfortante e cálida calma. Ele preside e guarda o grande Oinakos (assembleia ou juntança) do verão, desfrutando à vez das competições desportivas e favorecendo o convívio e os casamentos. Em verdade, gosta de qualquer Oinakos feito com honestidade.
Recebe o nome de Lugh na Irlanda, Lley Llaw Gyffes em Gales e também Lugus na Gália.
Celebramo-lo principalmente na sua grande festa da Seitura (Lughnasadh), por volta do 1 de Agosto.

 

Figura do Deus Bandua achada no concelho de Bande

Figura do Deus Bandua achada no concelho de Bande

Bandua – Cosso /|\  
O Que Ata, O Que Une, pois com os seus laços mágicos o Deus Bandua sela as promessas e une os clãs e as pessoas. Através desses laços formalizam-se os pactos mas estabelece-se também a intercomunicação, o relacionamento, sendo tudo isto fundamental para a prosperidade de qualquer grupo. Ele fai a chamada perante uma causa comum, convocando a todos e todas sob a sua bandeira.
Bandua é patrão da eloquência e domina a magia, fazendo cumprir o dito bem apelando aos princípios fundamentais da ética céltica (Honra, Responsabilidade e Compromisso) com a sua convincente palavra, ou bem forçando com a sua atadura. Ou ambas cousas.
Mas cuidado, pois quando falemos de conflito toma o nome de Cosso, o Deus a quem têm como patrão os guerreiros e guerreiras. Então, Ele percorre sem parar os caminhos, vigilante na noite, preparado para a caça de cabeças se for preciso… Em qualquer caso, é o mais formidável e temido guerreiro e na batalha imobilizará os seus inimigos com a sua amarra invisível.
Bandua-Cosso é uma Deidade dual, tanto que por vezes pode apresentar-se como homem e outras como mulher.
No pan-celtismo é considerado irmão de Larouco. Recebe o nome de Ogma na Irlanda e Ogmios na Gália.
Bandua não tem uma data fixa para a sua celebração.

 

Escultura frequentemente utilizada para representar o Deus Bel

Talha frequentemente utilizada para mostrar o Deus Bel

Bel /|\
O Brilhante, o Refulgente, O Formoso, O Belo. O Deus da Luz e patrão da música é um dos Deuses mais antigos. Como Lugus, Bel também comanda o Sol e mais as estrelas, e ainda com maior intensidade. Nomeadamente comanda os ciclos dos dias, das luas e dos anos, fazendo girar a Roda do Ano e com ela fazendo avançar o tempo humano (a roda e o carro – no que atravessa o Céu – são alguns dos seus símbolos).
Às vezes pode aparecer acompanhado por Brigantia, a sua consorte ocasional, com quem partilha entre outras cousas o seu aprecio por fontes e poços sagrados, águas sanadoras e medicina em geral, assim como pelo lume purificador (Os Lumes de Bel).
Ele protege a Natureza e a Terra, garante o seu esplendor e fertilidade cíclica continuando o trabalho de Brigantia. O Deus Bel favorece a sexualidade e as uniões, a fartura e alegria das festas e celebrações. O seu trabalho é esforçado e a sua responsabilidade é muita, mas também é-o a alegria dos seus frutos, combinando e equilibrando esse par de dever-lecer.
Recebe o nome de Belenus na Gália, Beil na Irlanda, Bile na Escócia e Balor em Gales.
Celebramo-lo principalmente na sua grande festa dos Maios (Beltaine), por volta do 1 de Maio.

 

Berobreo

Representação do Deus Berobreo encontrada em Louriçám (Ponte Vedra) sob o epíteto Vestio Alonieco

Berobreo /|\
O Da Alta Casa, O Hospedeiro, O Que Alimenta, Senhor do Mar, do Além e da Morte. Patrão da hospitalidade, Berobreo vai-te acolher, e vai-te acolher bem, de braços abertos e com amplo sorriso. Se tiveste Honra, nada temas.
Desde o alto do Facho de Donom, o seu grande santuário, ou desde qualquer península, praia, atalaia ou cabo significante como A Lançada ou Teixido, pode olhar as ilhas da nossa costa, escala prévia das almas que depois da sua peregrinação cara o solpor hão descansar um pouco. Em breve, porém, começam da sua mão a viagem à outra vida, pois Ele tem as chaves dos labirintos gravados em pedra que abrem as portas comunicantes dos mundos – em ambas direcções – e levam também até a sua residência no fundo do mar.
O Deus Berobreo conhece esses e outros caminhos pouco transitados, mas que isto não confunda ou arrepie a ninguém pois Ele é um anfitrião excepcional, de exuberante generosidade. Por certo, o mesmo demandará de uma boa ou bom celta, pois poucas cousas mais desonrosas há que ser ruim com as tuas hóspedes e visitantes, ou ser uma convidada desagradecida.
Recebe o nome de Donn na Irlanda (“O Escuro”, devanceiro directo do povo gaélico da Ilha).
Celebramo-lo principalmente na sua grande festa do Magusto (Samhain), por volta do 31 de Outubro e 1 de Novembro.

 

Nábia /|\
A Excelsa, A Coroada. A Senhora das Águas, dos lagos, lagoas, cachoeiras, rios e regatos, fontes e poços, também dos vales e partes baixas dos montes.
A melancólica Deusa Nábia é navegante e marinheira, e com a sua barca acompanha as almas que se dirigem à Alta Casa de Berobreo usando os cursos fluviais, desde o interior até a costa e, se ele o solicitar, até mais alá.
A água é vida, porém recolhe os seres mortos num ciclo contínuo. A água flui desde a coruta dos montes até o fundo do océano, e daí ao Céu à chuva e volta a começar, e com ela tudo. Nábia está presente em todo esse processo ajudando à fertilidade quando é preciso.
Mas a Deusa Nábia também recolhe nessas águas que tecem redes na terra os símbolos do pacto de Brigantia: as águas calmas aceitam oferendas humanas e testemunham os encontros e acordos com as Deidades. Nábia atende aí e, em parceria com Berobreo, fai de hospedeira e protectora do local.
O seu nome está em toda parte, seja como Návia, Návea, Ávia, Coventina, Avon, Devon, Deva, etc. De todas as Deidades, Nábia pode que seja a mais familiar e simpática com certos seres especiais associados à água, e disque gosta da cerveja e das flores.
Nábia não tem uma data fixa para a sua celebração.

(Ouvir aqui a canção dedicada à Deusa Nábia pela banda galaica Sangre Cavallum)

 

Reve /|\
O Do Páramo, O Máximo, O Das Chairas, lugar de encontro entre o alto e o baixo, limiar de mundos, onde comanda. É Senhor da Hierarquia e da Justiça, que nas suas mãos é sempre brutalmente imparcial e objectiva. Ele administra toda fortuna e riqueza de forma equânime.
A primeira vista, Reve parece a Deidade mais esquiva, fria e distante, seica mais centrada nos assuntos internos dos Deuses e Deusas que nos humanos e mundanos.
Contudo, Ele é um ponto de encontro, pois reúne características de Berobreo e Cosso, já que comanda também sobre o Além e a guerra, e ainda de Larouco, de quem está tão próximo que ocasionalmente podem ser confundidos. Recebe de Brigantia a capacidade de gerir a Soberania quando Ela não está presente, como é no caso de juízos e decisões importantes que requerem uma resolução final e inapelável.
No caso de batalha, o Deus Reve pode que supervisione o ir e vir da gente comum, decidindo implacável quem é digno de ser chamado de Herói ou Heroína e quem não.
Na antiguidade era uma das Deidades que recebia maiores honras e oferendas, especialmente na Callaecia interior, se calhar pelo temor que alguma gente sentia do seu olhar desapaixonado, embora sincero e calmo.
Recebe o nome de Morrígan na Irlanda e ainda os nomes alternativos de Reva e Reua na Galiza.
Reve não tem uma data fixa para a sua celebração.

 

Visão contemporânea da Deusa Cale e os seus atributos

Visão contemporânea da Deusa Cale e os seus atributos

Cale /|\
A Velada, A Moura, A Meiga, A Velha. A Senhora da Callaecia e encarnação mesma da granítica Terra que pisamos. Sábia Senhora da Pedra e patrona dos canteiros, plantas e árvores, animais selvagens e seres invisíveis. Amiga de Anu.
Ela tem poder sobre o clima e sobre os bosques, montes e bestas do nosso País. Ela fala com os nossos Devanceiros e Devanceiras e manda recado se figer falta. Cale é velha como o planeta, e antes de Deusa já foi moura e a mais grande das meigas e mencinheiras; talvez por isso seja a Deidade que mais conhece e melhor se relaciona com todos os seres miúdos longe dos nossos sentidos.
Apresenta-se normalmente como uma mulher de avançada idade vestida com saio e pano na cabeça (O Velo), mas isto é porque geralmente só é vista no fim do ano celta, quando já passou os estádios de juventude e madurez longe das vistas. Precisamente, é nessa época depois da Noite de Magusto quando a Deusa Cale trabalha a Terra a eito com o seu sacho até passado o Solstício. Com tanta trabalheira haverá quem pense que está a destroçar, mas realmente remexe o necessário para sementarmos quando chegue a nossa vez. É aí quando, como autêntica protectora, estende o seu saio aconchegante.
Cale colabora com Brigantia em muitos assuntos, e disque a segunda vigia de esguelho a metade luminosa do ano (Giamos) enquanto a primeira fai o mesmo com a metade escura (Samos).
Recebe o nome de Cailleach na Irlanda, Escócia e Ilha de Man.
Celebramo-la principalmente na grande festa do Magusto (Samhain), por volta do 31 de Outubro e 1 de Novembro, e é lembrada no Dia da Terra, o 25 de Julho, festa civil dedicada à Nação Galega.

 

Deidades do Comum
As Deusas e Deuses talvez mais próximos a nós, no dia a dia, na consecução dalguns grandes planos mas também dos pequenos e diários. Podem até ser um elo de comunicação com outras Deidades.

 

Íccona /|\
A Da Terra, A Da Égua Branca, A Grande Égua. Senhora dos Cavalos e todos os equídeos. Senhora e protectora dos Caminhos, Viagens e Comunicações. Patrona de todos aqueles e aquelas que falam, partilham, informam, divulgam e comunicam com honestidade, assim como de todas aquelas pessoas que viajam, peregrinam ou transportam algo.
Onde não chega Nábia por água, chega Íccona por terra para guiar as almas, dacavalo, até o passo mais próximo. Ela recolhe também parte do simbolismo da Soberania de Brigantia e exemplifica a responsabilidade de lográ-la, pois a Soberania requer trabalho e sacrifício, montar durante muitas jornadas, até poder ser digno ou digna dela. A Deusa Íccona sempre está em marcha, sempre atenta e pronta para relatar, sempre cavalgando.
Íccona muitas vezes encontra-se com Bandua-Cosso, tanto nos vieiros que transitam como na palavra dada nos pactos e uniões, e conversam.
A Irmandade Druídica Galaica está consagrada desde o seu nascimento à Deusa Íccona Loimina, quem aguardamos tenha a bem considerarmo-la como a nossa patrona.
Recebe o nome de Epona na Gália, Étaín ou Édaín na Irlanda e Rhiannon em Gales.
Íccona não tem uma data fixa para a sua celebração, ainda que é sempre lembrada no 11 de Novembro, dia do aniversário da nossa Irmandade.

 

Trebaruna /|\
A Da Casa, A Da Tribo, A Do Secreto. Senhora do Fogar, do mais íntimo. Protectora do privado, das famílias e crianças, das amizades verdadeiras, do patrimônio pessoal e colectivo, do lar, dos pensamentos próprios.
Ela move-se bem nas sombras e nos recantos das casas e cidades, prudente e sagaz, como uma presença reconfortante e calmosa quando as nossas justas aspirações e trabalho esforçado topam com problemas inesperados. A Deusa Trebaruna pode que seja a Deidade mais próxima aos humanos e humanas, ou quando menos quem mais gosta de estar nas nossas casas e assistir à nossa vida cotiá.
Contudo, que ninguém se leve a engano, pois ainda que geralmente agarimosa, Trebaruna pode ser guerreira dura e implacável com quem atenta contra a tribo ou clã, com quem revela segredos sem justificação e atraiçoa confianças, com quem ataca ou desonra a amizade, o fogar ou a família querida.
A Deusa Trebaruna reconhece o valor da discrição sem por isso cair na desonestidade ou mentira, algo impensável para uma celta. Aliás, precisamente por isso despreza quem os rompe ou quebra uma promessa, igual que Bandua.
Trebaruna não tem uma data fixa para a sua celebração.

(Ouvir aqui a canção dedicada à Deusa Trebaruna pela banda lusitana Moonspell)

 

Resto de estátua romanizada de Endovélico achada na Lusitânia

Resto de estátua (romanizada) do Deus Endovélico achada na Lusitânia

Endovélico /|\
O Protector, O Muito Bom. Senhor da Medicina, Investigação, Segurança e Adivinhação, protector local de cidades, vilas e aldeias com um santuário seu presente. Patrão, como Brigantia, de médicos e  sanadoras, de investigadoras e cientistas, além de pessoas que com justiça e honestidade fomentem a paz e se dediquem a salvar, cuidar ou atender outros seres.
O Grande Sábio Endovélico gosta de ficar na casa aguardando as pessoas que requiram do seu conhecimento. Aí, igual que faria Bel, o Deus Endovélico utiliza luz e calor e toda classe de remédios para sanar, para acalmar, para assegurar humanos e animais, dos que gosta imenso.
Se for preciso, Ele acudirá ao mais alto ou ao mais baixo para continuar estudando, procurando fórmulas, encontrando soluções; é luminoso, mas o seu lar pode estar no mais profundo, agochado entre as rochas, onde pode trabalhar tranquilo e aprender o que fica no escuro e não toda a gente vê.
Uma vez é visitado, Endovélico pode escolher falar através de sonhos e intuições, indicando o que deve ser feito ou aconselhando que caminho deve seguir-se.
Endovélico não tem uma data fixa para a sua celebração.

 

As Burgas (Ourense): a Galiza é país da Europa com maior número de termas naturais, só a seguir à Hungria

As Burgas (Ourense): a Galiza é o país da Europa com maior número de termas naturais, só a seguir à Hungria

Bormánico /|\
O Que Ferve, O Borbulhador. Senhor das termas, balneários e águas curativas, assim como dos fermentos, os minerais e o subsolo. Protector e patrão de covas e passadiços, e de quem anda neles.
O Deus Bormánico partilha com Nábia comando sobre algumas águas, nomeadamente as águas quentes e aquelas que brotam com características especiais, aquelas não navegáveis ou não aptas para o trânsito de seres, mais bem com um outro uso específico como a sanação e relaxação. Partilha também, porém, capacidades sanadoras com Endovélico, com quem frequentemente departe nas suas explorações das profundezas da Terra e das pedras, minerais e metais.
Disque as suas capacidades transmutadoras favoreceram a aparição de diversas bebidas, comidas e remédios, fermentados a base de líquido e calor.
Recebe o nome de Bormanus, Moguns ou Mogunus na Gália, Grannus em diversos territórios célticos, e na Galiza e Lusitânia também é chamado Borvo ou Bormo.
Bormánico não tem uma data fixa para a sua celebração.

 

Nota final: Existem ainda um feixe de forças sutis, criaturas lendárias e seres chamados “sobrenaturais” (apesar de tal cousa não ser possível na nossa religião, onde tudo é parte do mesmo Cosmos e portanto é sempre natural, só que ainda não o conhecemos ou não o conhecemos bem), mas embora tenham um certo poder, influência e autonomia não entram na categoria de Deidades nem comandam nada se são assim expressamente proibidos por Estas.

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Honra à Terra e à Natureza.
Honra a Quem Nos Quer Mostrar e Aprender.
Honra a Quem Estivo e Ainda Há de Vir.
E Nós, No Meio, Caminhando.
/|\

O milho está apanhado… Feliz Magusto e Ano Novo!

A IDG abriu-se ao mundo no Magusto de 2011. Esta é uma imagem da nossa primeira celebração pública desta época, no primeiro Roteiro da Pantalha organizado pela querida A.C. Amigas da Cultura.

A IDG abriu-se ao mundo no Magusto de 2011. Eis uma imagem da nossa primeira celebração pública desta época, no I Roteiro da Pantalha organizado pela querida A.C. Amigas da Cultura.

Na mágica noite do dia de hoje inauguramos o Ano Novo celta. No trânsito do 31 de Outubro ao 1 de Novembro é já popular em muitas partes do mundo celebrar uma festividade eminentemente Druídica, a mais especial de todas.

Bem-vindos e bem-vindas à Noite de Magusto e o seu cheiro a castanha assada, dos sorridentes Calacús, dos Defuntos que nos falam, do gaélico Samhain ou mesmo de Halloween para que toda a gente entenda.

É a noite quando acabam de abrir de vez as portas do Além (Sídhe) para durante esta temporada podermos finalmente comunicar sem eivas com os que não estão. É o intre concreto e simbólico que marca o fim do ano e o começo dum novo, celebrando-se com uma grande festa onde partilhamos risos, alegria e comida com os nossos Devanceiros e Devanceiras. São, em definitiva, os momentos mais importantes do ano para quem anda os vieiros da Druidaria.

A Roda do Ano completa uma volta inteira, marcando já sem dúvidas a entrada cara o Inverno. Adeus Samos, olá Giamos. É o merecido descanso da Terra e a satisfação de termos não só superado mais um ano, senão de estarmos celebrando em comunidade a boa disposição e coragem para seja o que for vem a seguir, sem importar o rigor da estação. Que chova! O milho já está apanhado.

Toma Bandua as suas chaves e abre as cancelas do Além, deixando passo a Berobreo e os seus. Longe já do esplendor da luz de Lugus (que morre e dorme placidamente guardado pelo mesmo Bandua) ou da regeneração de Brigantia e posterior apoteose de Bel, é agora decididamente a quenda da Cailleach – senhora da nossa Terra – completando não só o ciclo de celebrações e deidades do nosso calendário sagrado, senão também o seu próprio. Não olha mais desde um canto, mas sim adquire o protagonismo todo quando, precisamente, deixa de ser nova e linda, quando chega ao seu aparente fim e vira velha e sábia. Será ela, a também senhora da noite, quem facilite o trânsito entre o Aquém e o Além junto de Bandua e Berobreo; será ela quem tome conta das bestas por uma temporada; será ela a que de repente cessará de lembrar-nos a perda que pode supor o passo do tempo para fazer ver que em verdade o que havia era construção, mudança, avanço, com o exemplo da sua própria e pessoal regeneração.

A Cailleach trabalha agora a Terra com o seu sacho até passado o próximo solstício. E com tanta trabalheira haverá quem pense que está a destroçar, mas realmente remexe o necessário para sementarmos quando chegue a nossa vez. Deixará por uma ocasião de rosmar das outras Deidades para estender o seu saio aconchegante sobre o Cosmos todo.

Estes dias a Galiza está em festa. Não há cidade, vila ou aldeia que não festeje e honre as suas Devanceiras e Devanceiros. Não há recuncho do País que não cheire a castanha assada (alimento favorito no Além, como o leite) e a gente pense no Magusto. Não há lugar onde não fique acesa uma candeia. Não há crianças que não sintam que é noite de troula e vaiam “pedir o pão” (O Migalho) pelas portas. Não há janela sem calacú, as “cabeças cortadas” que protegem o lar. Trespassam-se limiares, assim que ninguém esqueça deixar a sua oferenda de leite na porta da casa para Irusan e os seus, e tomar um chisco de pão ao cruzá-la para fora.

Hoje caem os muros etéreos e seica para-se o tempo. O mar entre mundos vira regato, quase ao alcance da simples vista. Ficamos logo nas mãos da Cailleach, na companhia dos amigos corvo e gato e baixo o abeiro do teixo, aconchegando-nos ao pé do purificador lume faladoiro do novo ano.

É tempo de Druidaria. Mais do que nunca esta é a nossa festa rachada.

Feliz Magusto! Bom Ano Novo a todos e a todas! Nós abofé que estaremos celebrando! (para um seguimento da noite consultade o perfil aberto em Twitter da IDG – não é preciso ter conta para ver – onde irão aparecendo informações e fotografias do Roteiro da Pantalha).

Comida de Magusto. Deixade castanhas e leite nas portas e nos cruzamentos. Haverá quem os aproveite bem...

Comida de Magusto. Deixade castanhas e leite (sem lactosa 😉 ) nas portas e nos cruzamentos. Haverá quem os aproveite bem e guardem esses lugares por nós… Mas cuidado, esta noite é precisamente o único momento quando não se podem apanhar as castanhas!

PD. Convidamos à atenta leitura desde artigo, muito detalhado e bem documentado, e ainda deste outro, explicando e exemplificando como esta celebração continua viva em múltiplas e variadas formas, mas sempre com o mesmo sentimento profundamente druídico. Recomendamos, aliás, completar com este outro, também de interesse. Ainda, para quem poida ler em inglês, um texto explicando o relacionamento entre Magusto-Samhain-Halloween.

 

[in English] Magosto, Magusto, Samhain, Halloween… different names for the same period of time which begins with the first scent of roasted chestnuts.

On the ‘Night of the Pumpkins’ or ‘Night of the Dead’ (October 31st-1st November) – as we call it in Galicia – an ancient Celtic festival is celebrated around the world.

Despite the twists and turns of history, we know well that this is a magical time – the most important of the year – as we celebrate the end of a cycle with a grand feast, cherishing the memory of the Ancestors, all those to whom we owe living as we live, knowing what we know, being who we are.

So get ready for winter! now that the barns are full and we are certain that we’ll spend it in good company. Let the Earth take a rest, for the next thing will be the return of light and Spring.

Have a nice one and Happy New Celtic Year!

>Click here< to read more about the Magusto/Samhain/Halloween in English, or >here< to know more about the IDG.

Honra, na memória da grande batalha

Cartaz: Paco Boluda. Na parte superior aparece parte duma obra de Otto Albert Kock de 1910. Por baixo um desenho do próprio Boluda, representando a entrada a uma sauna-santuário galaico. A porta é a de Sanfins e a pedra formosa a do Alto das Eiras.

Cartaz: Paco Boluda (2016).
Na parte superior aparece parte duma obra de Otto Albert Koch de 1910. Por baixo, um desenho do próprio Boluda, representando a entrada a uma sauna-santuário galaico. A porta é a de Sanfins e a pedra formosa a do Alto das Eiras.

No estudo e recuperação da nossa religião nativa muitas vezes encontramos com o problema das fontes ou referências originais. Às vezes é pela mesma natureza da transmissão do conhecimento na nossa tradição, às vezes pela ocultação intencionada a mãos de terceiras pessoas. Às vezes é um bocado tudo.

Sabemos que houve uma infeliz quebra nessa transmissão directa da nossa tradição, embora sim ficara bem viva a nível folclórico e popular, plenamente integrada em inúmeros aspectos da cultura e psicologia galaica actual. Desconfiade, contudo, de quem pretenda afirmar uma linhagem ininterrupta; isso nunca vai ser certo.

Desde a IDG termamos na procura de vias de investigação e interpelação sérias na redescoberta da nossa história e herdança, reconstruindo o possível e interpolando o necessário, mas longe de fantasias e autocomplacências. É, por definição, um trabalho muito lento e complicado, mas abofé gratificante.

Assim, é certo que também encontramos agradáveis surpresas, como uma pedaço de informação aqui ou alá que ajuda a conhecermos melhor os nossos Devanceiros e Devanceiras. É o caso do facto que podemos comemorar hoje 9 de Junho, quando teve lugar há 2153 anos (no 137 AEC) a grande batalha de proporções formidáveis – onde as galaicas lutaram até a morte pela sua liberdade contra as tropas do Império Romano na foz do rio Douro, lá na cidade de Cale (actual Porto).

Esta efeméride perfeitamente documentada acaba por desmontar falsos mitos como a alegada falta de unidade ou desorganização galaica, como se esta terra tivera sido tão só um lugar salvagem e individualista prestes a ser “civilizado”. Antes o contrário, eis aqui mais um exemplo da já sabida conexão e inter-relacionamento entre as diferentes tribos galaicas e, até, diferentes povos célticos da Europa Ocidental.

As crônicas falam de 50.000 mortos, 6.000 prisioneiros, da valentia galaica mas também da inteligência e astúcia romana… Tem que ser, pois foram escritas pelo invasor e os exageros sempre ficam épicos, mas os números e a mensagem que transmitem não eram pequenos. 

Em qualquer caso, esse foi o dia que marcou o princípio do fim duma época, mas com certeza foi também um momento fulcral na história, quando as nossas ancestrais ensinaram-nas com o seu sacrifício tingido de sangue quanto é que importa esta Terra e tudo o que há nela, e até que ponto estavam dispostas a defendê-la.

Honra aos Heróis e Heroínas, gentes sem as quais hoje não estaríamos cá nem saberíamos o que sabemos. Honra a Bandua, que lá estava activo e presente lutando do nosso lado, por ajudar-nos a lembrar agora.

A Honra é um elemento fundamental da Druidaria.

Cartaz: Paco Boluda

Cartaz: Paco Boluda (para uma edição anterior)

Bom Ano Novo neste Magusto de cheia

A Senhora Cailleach no seu terceiro passo não é nem moça nem adulta, mas velha e mais sábia, gerindo tudo o que sucede nestas datas.

A Senhora Cailleach no seu terceiro passo não é nem moça nem adulta, mas velha e mais sábia, gerindo tudo o que sucede nestas datas.

Na mágica noite do dia de hoje inauguramos o Ano Novo celta. No trânsito do 31 de Outubro ao 1 de Novembro é já popular em muitas partes do mundo celebrar uma festividade eminentemente Druídica, a mais especial de todas.

Bem-vindos e bem-vindas à Noite de Magusto e o seu cheiro a castanha assada, dos sorridentes Calacús, dos Defuntos que nos falam, do gaélico Samhain, ou mesmo de Halloween para que toda a gente entenda.

É a noite quando acabam de abrir de vez as portas do Além (Sídhe) para durante esta temporada podermos finalmente comunicar sem eivas com os que não estão graças aos corvos de Reva, que voam alegres e a vontade. É o intre concreto e simbólico que marca o fim do ano e o começo dum novo, celebrando-se com uma grande festa onde partilhamos risos, alegria e comida com os nossos Devanceiros e Devanceiras. São, em definitiva, os momentos mais importantes do ano para quem anda os vieiros da Drudaria.

A Roda do Ano completa uma volta inteira, marcando já sem dúvidas a entrada cara o Inverno. Adeus Samos, olá Giamos. É o merecido descanso da Terra e a satisfação de termos não só superado mais um ano, senão de encontrar-mo-nos celebrando em Comunidade a boa disposição e coragem para seja o que for vem a seguir, sem importar o rigor da estação. Que chova! O milho já está apanhado.

Toma Bandua as suas chaves e abre as cancelas do Além, deixando passo a Berobreo e os seus. Longe já do esplendor da luz de Lugus (que morre e dorme placidamente guardado pelo mesmo Bandua), ou da regeneração de Brigantia e posterior apoteose de Bel, é agora decididamente a quenda da Cailleach – senhora da nossa Terra – completando não só o ciclo de celebrações e deidades do nosso calendário sagrado, senão também o seu próprio. Não olha mais desde um canto, mas sim adquire o protagonismo todo quando, precisamente, deixa de ser nova e linda, quando chega ao seu aparente fim e vira em velha mas sábia. Será ela, a também senhora da noite, quem facilite o trânsito entre o Aquém e o Além junto de Bandua e Berobreo; será ela quem tome conta das bestas por uma temporada; será ela a que de repente cessará de lembrar-nos a perda que pode supor o passo do tempo para fazer ver que em verdade o que havia era construção, mudança, avanço, com o exemplo da sua própria e pessoal regeneração.

A Cailleach trabalha agora a Terra com o seu sacho até passado o próximo solstício. E com tanta trabalheira haverá quem pense que está a destroçar, mas realmente remexe o necessário para sementarmos quando chegue a nossa vez. Deixará por uma ocasião de rosmar das outras Deidades para, como autêntica nai, estender o seu saio aconchegante sobre o Cosmos todo.

Estes dias a Galiza está em festa. Não há cidade, vila ou aldeia que não festeje e honre as suas Devanceiras e Devanceiros. Não há recuncho do País que não cheire a castanha assada (alimento favorito no Além, como o leite) e a gente pense no Magusto. Não há lugar onde não fique acesa uma candeia. Não há crianças que não sintam que é noite de troula e vaiam “pedir o pão” pelas portas. Não há janela sem calacú, as “cabeças cortadas” que protegem o lar. Trespassam-se limiares, assim que ninguém esqueça deixar a sua oferenda de leite na porta da casa para Irusan e os seus, e tomar um chisco de pão ao cruzá-la para fora.

Hoje caem os muros etéreos e seica para-se o tempo. O mar entre mundos vira regato, quase ao alcance da simples vista. Ficamos logo nas mãos da Cailleach, na companhia dos amigos corvo e gato e baixo o abeiro do teixo, aconchegando-nos ao pé do purificador lume faladoiro do novo ano.

É tempo de Druidaria. Mais do que nunca esta é a nossa festa rachada.

Feliz Magusto! Bom Ano Novo a todos e a todas! Nós abofé que estaremos celebrando.

Comida de Magusto. Deixade castanhas e leite nas portas e nos cruzamentos. Haverá quem os aproveite bem...

Comida de Magusto. Deixade castanhas e leite nas portas e nos cruzamentos. Haverá quem os aproveite bem e guardem esses lugares por nós… Mas cuidado, esta noite é precisamente o único momento quando não se podem apanhar as castanhas!

Convidamos à atenta leitura deste artigo, explicando e exemplificando como esta celebração continua viva em múltiplas e variadas formas, mas sempre com o mesmo sentimento, profundamente druídico. Recomendamos, aliás, completar com este outro, também de muito interesse.

Os Córios: uma chave para compreendermos a nossa “via guerreira”

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Imagem medieval duma “banda de guerreiros”, herdança dos Córios célticos

A “via guerreira” é um elemento frequentemente citado em muitas tradições espirituais e religiosas como exemplo de superação e logro de objectivos através da tenacidade, constância e esforço pessoal. Noutros casos toma um aspecto mais literal como forma de auto-controlo, melhora física e disciplina marcial. Mas, existe algum fundamento para isto tudo no caso galaico?

Alguns autores e autoras relacionam os Córios galegos com os Fianna irlandeses, ainda que o conceito na Galiza é mais difuso por ser, precisamente, mais antigo e ter mudado mais no tempo.

Os Córios são relacionados primeiramente com um corpo de elite ou protector dos Coronos (príncipes locais). São os seus “campeões”, normalmente jovens solteiros entre 14 e 20 anos que teriam, assim, uma mecanismo para curtirem-se como guerreiros, actuando no limite da Lei. Em ocasiões poderiam actuar como uma espécie de comandos ou grupos peculiares, vivendo fora da comunidade, sempre à espera de ordens. A causa disto, e pela sua indumentária e comportamento (rostos pintados, acções nocturnas, estratégias de combate originais e confusas), poderiam ter dado lugar a outra série de nomes e legendas, como por exemplo a Sociedade do Urso ou a Estadea. À vez, estariam muito ligados à Caça Selvagem, ficando nesta altura totalmente associados à imagem dos Fianna da Irlanda.

O professor André Pena cita na sua tese doutoral (2004):

“… organizados em confrarias ou fianna, quem se acaso durante uma parte do ano actuavam localmente como polícia de fronteiras numa espécie de exército permanente, enquanto que durante outra parte do ano, saindo do seu país e penetrando nas terras dos povos vizinhos (fer tar crich=’um homem trás o território’), tal como os Lusitanos descritos por Diodoro (V, 34, 5), entre outras circunstâncias para vingar as mortes (Crith Gablach 72) e homicídios dos seus compatriotas e camaradas perpetradas pelos habitantes doutros territórios, colocavam-se fora da Lei, cometendo roubos nos países inimigos do Túath ao que eles pertenciam, fazendo-se, daquela, com uma dote ou com um pecúlio pessoal que lhe permitira (morgengabe) o acesso a um matrimónio vantajoso.”

Representação medieval dum guerreiro irlandês, membro duma Fianna

Representação medieval dum guerreiro irlandês, membro duma Fianna

Na versão galega estariam dedicados ao Deus Bandua (Ogmios ou Ogma noutras tradições), a testemunha dos juramentos, o da “magia dos laços”, o que “ata” tanto para unir a tribo como para imobilizar os inimigos. Na etimologia figura a raiz Band- da que derivaria banditus, ou bandidos/banda/bandeira. É dizer, o grupo de gente que realiza estas acções, a bandeira que lhes une.

É interessante como este sistema de organização militar há sobreviver como mínimo até a Idade Média, pois era um sistema útil para os poderes locais. De facto, a estrutura sócio-territorial céltica em geral adapta-se mas mantém-se até hoje em dia. A supervivência medieval dos Córios vem reflectida nas referências à aula comitis, embora nessa época tinham já perdido o seu significado não tanto como corpo de elite, mas sim como forma de aprendizagem, de guerreiros e guerreiras dedicadas a uma Deidade em concreto. Contudo, a estrutura fica.

Em relação a esse “endurecimento” ou treino como guerreiros, supõe-se que o Cório estava associado a duas celebrações principais: Magusto (Samhain), quando celebrariam com a comunidade para o dia a seguir partirem ao monte e desaparecerem até os Maios (Beltaine), quando poderiam voltar a se reintegrarem depois do inverno fora. É dizer, as mesmas pautas que a Fianna irlandesa, ainda que se desconhece se permaneciam aquartelados nos ráth dos nobres ou nalgum outro lugar.

Milénios de contacto, comércio, intercâmbio entre gentes que na origem conformaram o mesmo Povo não pode desaparecer na sua totalidade apesar das vicissitudes históricas posteriores. Há, de facto, uma linha de investigação permanentemente aberta e sempre frutífera entre a Galécia e a Irlanda.

Talvez, no futuro, a IDG possa abrir uma “via guerreira”, sob auspícios de Bandua e, claro está, de Brigantia (patrona das artes marciais, entre outras cousas) e ainda Reua…

Estas informações, embora originais da IDG, foram primeiramente publicadas em espanhol (com permissão) num artigo da amiga Hermandad Druida Dun Ailline.

Cheira a castanha de Magusto, é o Ano Novo

Senhora Cailleach no seu terceiro passo: nem moça nem adulta, mas velha rosmona e sábia, apoiada no seu sacho e vestindo o seu saio quando abrem as portas do Além, começa o ano e vai frio, vento e chuva.

A grande e mágica noite já está aqui! No trânsito do 31 de Outubro ao 1 de Novembro milhões de pessoas em todo o mundo celebram uma tradição druídica, uma festa celta, fixada já popularmente nesta data. É a Noite de Magusto, dos Calacús, de Samain (que alguns chamam de Halloween).

É a noite quando acabam de abrir de vez as portas do Além (Sídhe) para durante três dias podermos finalmente comunicar sem eivas com quem não estão graças aos corvos da deusa Reva, que voam alegres e a vontade. É o intre concreto e simbólico que marca o fim do ano e o começo dum novo, celebrando-se tanto religiosamente como com uma grande festa onde é tão importante a comunhão com os nossos devanceiros e devanceiras como o riso e a alegria. Entre hoje e amanhã são, em definitiva, os momentos mais importantes do ano para os/as Caminhantes da Drudaria.

A Roda do Ano completa uma volta inteira, marcando já sem dúvidas a entrada cara o Inverno. É o merecido descanso da Terra e a satisfação de termos não só superado mais um ano, senão de encontrar-mo-nos celebrando em Comunidade a boa disposição e coragem para seja o que for vem a seguir, sem importar o rigor da estação. Que chova! O milho já está apanhado.

Toma Bandua as suas chaves e abre as cancelas do Além, deixando passo a Berobreo e os seus. Longe já do esplendor da luz de Lug (que morre e dorme placidamente guardado pela mesma Bandua), ou da regeneração de Brigantia e posterior apoteose de Bel, é agora decididamente a quenda da Cailleach – senhora da nossa Terra – completando não só o ciclo de celebrações e deidades do nosso calendário sagrado, senão também o seu próprio. Não olha mais desde um canto, mas sim adquire o protagonismo todo quando, precisamente, deixa de ser nova e linda, quando chega ao seu aparente fim, o fim do ano, e vira em velha mas sábia. Será ela, a também senhora da noite, a que facilite o trânsito entre aqui e o Além junto a Bandua e Berobreo; será ela quem tome conta das bestas por uma temporada; será ela a que de repente cessará de lembrar-nos a perda que pode supor o passo do tempo para fazer ver que em verdade o que havia era construção, mudança, avanço, com o exemplo da sua própria e pessoal regeneração.

Irusan e os seus estão muito presentes esta ano.

Irusan e os seus estão presentes esta ano.

A Cailleach trabalha agora a Terra com o seu sacho até passado o próximo solstício. E com tanta trabalheira haverá quem pense que está a destroçar, mas realmente remexe o necessário para sementarmos quando chegue a nossa vez. Deixará por uma ocasião de rosmar das outras deidades para, como autêntica nai, estender o seu saio aconchegante sobre o Cosmos todo.

Estes dias a Galiza está em festa. Não há cidade, vila ou aldeia que não festeje e honre as suas devanceiras e devanceiros. Não há recuncho do País que não cheire a castanha assada (alimento favorito no Além) e a gente pense no Magusto. Não há lugar onde não fique acesa uma candeia. Não há janela sem calacú, as “cabeças cortadas” que protegem o lar. Não há crianças que não sintam que é noite de troula e vaiam “pedir o pão” pelas portas. E esta ano, ainda, não esqueceremos colocar o leite à porta para Irusan e os seus, muito especialmente presentes esta vez.

Hoje caem os muros etéreos e seica para-se o tempo. O mar entre mundos vira regato, quase ao alcance da simples vista. Ficamos logo nas mãos da Cailleach, na companhia dos amigos corvo e gatos e baixo o abeiro do teixo.

É tempo de Druidaria. Mais do que nunca esta é a nossa festa rachada.

Feliz Magusto! Bom Ano Novo a todos e a todas! Nós abofé que estaremos celebrando.

Baixar cartão comemorativo aqui

Baixar cartão comemorativo do Magusto 2014

Convidamos à atenta leitura deste artigo, explicando e exemplificando como esta celebração continua viva em múltiplas e variadas formas, mas sempre com o mesmo sentimento, profundamente druídico. Recomendamos, aliás, completar com este outro.

Bom Magusto. Feliz Ano Novo

Senhora Cailleach no seu terceiro passo: nem moça nem adulta, mas velha rosmona e sábia, apoiada no seu sacho e vestindo o seu saio quando abrem as portas do Além, começa o ano e vai frio, vento e chuva.

No trânsito do 31 de Outubro ao 1 de Novembro milhões de pessoas arredor do mundo celebram uma tradição druídica, uma festa celta, fixada já popularmente nesta data. É a Noite de Magusto, de Samain (que alguns chamam de Halloween), dos Calacús, chegou o Samónios. É a noite quando acabam de abrir de vez as portas do Além (Sídhe) para durante três dias podermos finalmente comunicar sem eivas com os/as que não estão graças aos corvos da deusa Reva, que voam alegres e a vontade. É o intre concreto e simbólico que marca o fim do ano e o começo dum novo, celebrando-se tanto religiosamente como com uma grande festa onde é tão importante a comunhão com os nossos devanceiros e devanceiras como rir e ficar ledo/a. Entre hoje e amanhã são, em definitiva, os momentos mais importantes do ano para os/as Caminhantes da Drudaria.

A Roda do Ano completa uma volta inteira, marcando já sem dúvidas a entrada cara o Inverno. É o merecido descanso da Terra e a satisfação de termos não só superado mais um ano, senão de encontrar-mo-nos celebrando em Comunidade a boa disposição e coragem para seja o que for vem a seguir, sem importar o rigor da estação.

Toma Bandua as suas chaves e abre as cancelas do Além, deixando passo a Berobreo e os seus. Longe já do esplendor da luz de Lug (que morre e dorme placidamente guardado pela mesma Bandua), ou da regeneração de Brigantia e posterior apoteose de Bel, é agora decididamente a quenda da Cailleach – senhora da nossa Terra – completando não só o ciclo de celebrações e deidades do nosso calendário sagrado, senão também o seu próprio. Não olha mais desde um canto, mas adquire o protagonismo todo quando, precisamente, deixa de ser nova e linda, quando chega ao seu aparente fim, o fim do ano, e vira em velha mas sábia. Será ela, a também senhora da noite, a que facilite o trânsito entre aqui e o Além junto a Bandua e Berobreo; será ela quem tome conta das bestas por uma temporada; será ela a que de repente cessará de lembrar-nos a perda que pode supor o passo do tempo para fazer ver que em verdade o que havia era construção, mudança, avanço, com o exemplo da sua própria e pessoal regeneração.

corvinhoA Cailleach trabalha agora a Terra com o seu sacho até passado o próximo solstício. E com tanta trabalheira haverá quem pense que está a destroçar, mas realmente remexe o necessário para sementarmos quando chegue a nossa vez. Deixará por uma ocasião de rosmar das outras deidades para, como autêntica nai, estender o seu saio aconchegante sobre o Cosmos todo.

Estes dias a Galiza está em festa. Não há cidade, vila ou aldeia que não festeje e honre as suas devanceiras e devanceiros. Não há recuncho do País que não cheire a castanha assada (alimento favorito no Além) e a gente pense no Magusto. Não há lugar onde não fique acesa uma candeia. Não há janela sem calacú, as “cabeças cortadas” que protegem o lar. Não há crianças que não sintam que é noite de troula e vaiam “pedir o pão” pelas portas.

Hoje caem os muros etéreos e seica para-se o tempo. O mar entre mundos vira regato, quase ao alcance da simples vista. Ficamos logo nas mãos da Cailleach, na companhia do amigo corvo e baixo o abeiro do teixo.

É tempo de Druidaria; mais do que nunca esta é a nossa festa rachada.

Feliz Magusto! Bom Ano Novo a todos e a todas! Nós abofé que estaremos celebrando.

Baixar cartão comemorativo aqui

Baixar cartão comemorativo do Magusto 2013

Para mais informação sobre as origens, história e outras interpretações desta celebração na Gallaecia recomenda-se a leitura deste artigo (em galego) ou um artigo em inglês publicado na revista Celtic Guide (vol. 2, issue 11, November 2013, pp. 44-45).