Aí vem o Maio!

Os “tótemes vegetais” dos Maios, representando a Natureza, sempre alegres e imaginativos, misturando tradiçom ancestral e modernidade numha linha – aqui sim – sem quebras.

Os Maios (Beltaine) som chegados. A terceira grande celebraçom religiosa do ano a seguir o Magusto (Samhain) e o Entroido (Imbolc) começa esta noite, no passo do 30 de Abril ao 1 de Maio.

Venhem aí os Lumes de Bel (Bel-tené) – o Formoso, o Belo, o Luminoso – e assoma a cabeça a Coca do Val, sabendo que chega já de forma definitiva a consagraçom da Primavera (tradicionalmente era, de facto, o começo do Verám).

Este ano, aliás, teremos a fortuna de nos encontrar mais umha vez na já sétima ediçom das Jornadas Galaico-Portuguesas (dias 26 e 27 em Pitões das Júnias, Montalegre).

Nom é casual que seja precisamente agora, neste mês, quando proliferam por todo o País tantas “festas da primavera”, já que tratamos com umha autêntica festividade cujos ecos perduram na nossa terra desde o Neolítico.

Como o Magusto (Samhain), os Maios suponhem um trânsito, o outro fito da divisom da Roda do Ano em duas partes, onde a mudança esta vez acontece desde a metade escura do ano cara a luminosa, de Giamos a Samos. Retoma o lume guardado por Druidas e Druidesas o seu simbolismo fulcral, leva-se o gado até ele para a sua purificaçom e saltam homens e mulheres por riba na procura da fertilidade. Regressam a casa depois dum duro inverno fora os moços do Cório (como os irlandeses Fianna), para celebrarem estas datas com o resto do seu Clã.

Se na Seitura (Lugnasad) preparamos-nos com lume à futura chegada da escuridom, aqui chamamos definitivamente à luz que nom para de caminhar cara nós. Invoca-se o bem-estar, os gromos e o calor no rito de Alumiar o Pam, para que a Natureza nom se esqueça de nós e dos nossos esforços:

Alumeia o pam
Alumeia-o bem
Alumeia o pam
para o ano que vem

Alumeia o pai
cada gram um toledám
Alumeia o filho
cada gram um pam de trigo
Alumeia a nai
cada gram um toledám
Alumeia a filha
cada gram um pam de trigo

Como na Seitura, é tamém bom momento para casamentos e unions, para desfrutar da sexualidade. É o grande festival da fecundidade, do esplendor da natureza, da fartura, das crianças. É umha festa de reconstruçom e renovaçom. Assim, elabora-se o Maio, umha figura inteiramente vegetal – se calhar com algum ovo que a Lebre já cedeu a pedido de Brigantia depois do equinócio  – que representa e centraliza a Natureza, ou umha árvore se se quer, que será passeada por moços e moças; mesmo pode-se vestir umha criança como tal. É a árvore, pois, que indica a chegada sem falho da vida e da luz durante meio ano, em torno à qual todas e todos cantam e dançam em círculos enquanto o Cório bate as suas espadas junto da Coca, espinha do Mundo:

Ergue-te Maio
que tanto dormi-che
que passou o Inverno
e tu nom o vi-che

De acordo com a tradiçom galaica celebramos os Maios desde a noite do 30 de Abril, quando (de forma simbólica) apanhavam-se frutos da terra nos campos alumiados por fachos cujas cinzas serviam depois de adubo, até o significativo dia 1 de Maio. Apanham-se ainda as gestas que ham guardar as casas (e veículos) desde o abrente do dia 1, umha vez colocadas nas portas de forma bem visível. Depois da juntança de luita da manhã tentaremos percorrer o caminho cara um santuário natural para acabarmos de confecionar o Maio, acender os lumes, jantar e, em definitiva, desfrutar da alegre proteçom de Bel que, anovado, viaja arredor do Sol no seu carro de cavalos. Temos ainda a ajuda de Nábia nos nossos cânticos com o repenique das suas águas, precisas para limpar as feridas. A tríade fecha-se com a Deusa Íccona Loimina – embora sempre com um pensamento de agradecimento para Brigantia – por se tiver a bem ajudar na abertura de novos caminhos, Ela que sabe e pode protegê-lo.

Os Maios som umha dessas celebraçons populares que mostram à perfeiçom a continuidade duns costumes e crenças desde a mais remota antiguidade até dia de hoje. Pode que perderam parte do seu significado original e outros foram acrescentados, pode que a maioria da gente nom saiba o que está a suceder realmente, mas a tradiçom tem estas cousas: o fundo perdura, apesar de todas as tentativas de o ocultar ou deturpar.

Bel está presente, a Natureza está presente, o “axis mundi” está presente, os Córios estám presentes e rodam no sentido da vida, a fertilidade e a alegria estám presentes, o sentimento de melhora e proteçom está presente, e milhares contemplam isto tudo e participam nas ruas da Galécia do século XXI. Estamos no mundo e, como sempre figemos, cantamos e dançamos.

Amanhã (1 de Maio) é dia de presença nas ruas, por justiça e por festa. Amanhã o País inteiro tinge-se de cor num berro senlheiro. E para quem nom conhecera esta festa, eis umha introduçom… 😉

As datas de culto, aliás, estendem-se até o dia três e a época dos Maios durante o mês todo, mas neste caso som actividades principalmente pessoais e privadas.

Beltaine, os Lumes de Bel, umha grande e alegre festa em todas as terras célticas

 

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As Deidades Galaicas

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À sombra do carvalho tudo fica mais claro

Nom se pode falar de “panteom” no mundo celta tal e como é comumente entendido, isto é, com relaçons estritas entre Deidades com funçons específicas ou equivalências directas com panteons doutras religions. De facto, diferentes tradiçons célticas apresentam algumhas variantes entre Deidades, ainda que as principais som comuns apesar de terem por vezes nomes ou epítetos diferentes.

A forma de entender as nossas Deidades deve ser fluída e flexível. Som Deidades que cobrem umha série de funçons intercomplementares, onde há umha hierarquia mas nom um confronto ou conflito de opostos (como noutras religions), mesmo nos casos onde as responsabilidades som partilhadas. Algumhas Deidades podem ser, em verdade, triplas, multifacetadas. De haver umha possível contradiçom esta é sempre só aparente, derivada da pouca familiaridade com o sistema de pensamento e cosmovisom céltica.

O facto é que a maioria de nós crescemos numha sociedade onde o divino disque é misericordioso, amoroso e que exige às crentes sujeiçom às suas regras em troca da concessom da sua ajuda e apoio. No entanto, na nossa crença devemos atravessar umha porta que exige sacrifício, demolir paredes velhas para começarmos a entender o que o mundo é e qual é o nosso lugar nele. Embora as Deidades nos “acariciem” com boa intençom, o seu toque derruba esses muros que nos rodeiam e que nos impedem entender, e este pode ser um sentimento estranho e até desconcertante. Compreendermos-lhes e compreenderem-nos leva tempo, mas depois tudo adquire sentido pleno.

Desta maneira, apresentamos aqui umha introduçom muito resumida e simplificada aos Deuses e Deusas da nossa tradição galaica, feita a partir de dados objectivos conhecidos através da investigaçom académica mas, sendo a Irmandade Druídica Galaica umha entidade religiosa, feita tamém em base a interpretaçons autónomas.

Lembramos, aliás, a nossa crença na existência individual e específica de cada umha Delas, que nom som criaçons nem hipóstase dumha Deidade superior. Assim, as Divindades nom estám submetidas a outro Deus/a ou energia consciente superior a Eles/as. Do mesmo jeito, todas Elas som igualmente respeitadas, polo que som e polo que representam.

 

Deidades Primeiras
Presentes polo que sabemos desde o inefável impulso original nom-inteligente, causa primeira e matriz de vida. Som as mais antigas e poderosas mas tamém as aparentemente mais reservadas.

 

Imagem do Deus Larouco encontrada na sua serra.
Imagem do Deus Larouco encontrada na sua serra

Larouco (Crouga) /|\
O Grande Deus, O Pai de Todos, O Bom Deus, o protetor da tribo, o Da Chaira (Alta). Senhor do Conhecimento, da ordem social e dos contratos. Patrom das pessoas sábias e docentes. Possui umha força imensa e está associado à abundância e generosidade da terra.
Os seus grandíssimos poderes representam-se pola enorme maça que porta na sua mao, assim como a sua masculinidade é representada polo seu grande membro sexual. É guardiám tamém do pote da fartura, de onde surge todo bem e toda Magia. Tudo Nele e com Ele é massivo.
Na tradiçom galaica está fortemente vencelhado à montanha sagrada do mesmo nome na Serra do Gerês, onde toma residência. Contudo, a sua presença noutros picos pode ser sentida e adquire, nesse caso, o nome de Crouga (como o Crom Cruach da tradição irlandesa). É dizer, Larouco é o nome que lhe damos quando falamos do Deus como tal – até fisicamente – sendo Crouga o seu espírito, a sua presença imaterial longe da sua montanha existente em toda anta ou lugar elevado de poder.
No pan-celtismo é considerado irmao de Bandua-Cosso e consorte de Anu. Recebe os nomes de An Dagda na Irlanda e Sucellus na Gália.
Celebramo-lo principalmente na época do Solstício de Inverno-Noite Nai (21-25 de Dezembro).

(Ouvir aqui a cançom dedicada ao Deus Larouco pola banda galaica Sangre Cavallum)

 

A "Moura da Pena Furada" (Coirós), representando a Sheela na Gig mais antiga da Europa que, achamos, é uma forma de representar a Deusa Anu
A “Moura da Pena Furada” (Coirós), ou a Sheela na Gig mais antiga da Europa que, achamos, é umha forma de representar a Deusa Anu

Anu /|\
A Grande Nai, A Nobre, A Boa, origem da luz e do dia. É Senhora da Literatura e Senhora e patrona das criaturas invisíveis, dos mouros e das mouras, de todos os seres místicos e de poder. Ela pode tomar a forma da Coca, quem sabe se serpe ou dragom.
Por vezes é consorte de Larouco, mas só quando Ela escolhe, como indica a sua residência na  Pena de Anamão da mesma Serra do Gerês: perto, mas separados, como bons e velhos amigos e vizinhos que partilham conversa, experiências e confiança.
Ambos formam um duo peculiar, mas isto nom deve ser nunca confundido com ideias posteriores e alheias à nossa tradiçom como a separaçom estrita em dous sexos, a dicotomia masculino-feminino, ou assuntos similares. Anu e Larouco podem ser complementares, mas som livres e autónomos em todo momento, e Anu estabelece o início do princípio de independência e Soberania Feminina do que a sua descendente Brigantia será Senhora.
Noutro exemplo, Larouco pode ser Senhor da Magia, mas Anu é a Senhora dos que usam e ponhem em práctica essa Magia. Umha cousa sem a outra nom teria sentido, mas ainda assim som diferentes e cada um manda o que manda, onde Ela decide quem e como.
Recebe os nomes de Dôn em Gales (onde apresenta importantes conotaçons astronómicas em relaçom às constelaçons de Cassiopeia, Corona Borealis e até a Via Láctea) e de Danu ou Dana na Irlanda, onde é a Deusa Nai de todos os Tuatha Dé Dannan.
Celebramo-la principalmente na época do Solstício de Inverno-Noite Nai (21-25 de Dezembro).

 

Deidades de Poder
Antergas figuras de incomensurável autoridade que tentam pôr ordem e mostram virtudes para quem quiser ver e ouvir. Mestres para quem quiser aprender.

 

Tripla deusa Brigantia, portadora da Luz, detentora do fogo pois é patrona, entre outros, dos ferreiros que forjam as armas que hão defender a tribo, dos poetas - Bardos - que apresentam lumes cerimoniais e inspiração, e dos sanadores, que facilitam o lume do lar e o bem-estar.
A Deusa Brigantia, exemplo paradigmático da trifuncionalidade céltica

Brigantia /|\
A Alta, A Elevada, Senhora da Soberania, A Tríplice Chama, portadora da luz e Deusa do Fogo e da vitória. Toma três aspectos: como Lume da Inspiraçom (patrona da poesia, artes, filosofia e profecia), como Lume do Lar (patrona da medicina e fertilidade, de pastoras a agricultoras, protectora da casa) e como Lume da Forja (patrona da metalurgia, ferraria e artes marciais, grande guerreira).
É patrona de todos esses aspectos assim como das alturas em geral (sejam montanhas, castros no alto ou pensamentos elevados), dos e das Durvates, gado e animais domésticos, assim como dos poços e fontes sagradas.
Todo poder deve ser regulado por Brigantia. Ela nom exerce essa Soberania directamente, mas ordena sobre quem a recebe ou nom, quem é digno ou digna de ser chamado “rei” ou “rainha”. Ela marca o sagrado pacto entre o ser humano e a Terra. Quem nom respeitar isto nom poderá ser nunca a melhor líder e as humanas teremos sempre governantes ruins. Seguramente este é um dos motivos polo que muitos lugares da nossa Terra foram nomeados na sua honra.
Brigantia assegura o trânsito entre Inverno e Primavera e garante a promessa de renascença feita no Solstício de Inverno. Ela será quem acorde os Deuses Bel (o seu ocasional consorte) e Lugus chegado o momento, mesmo quem amamente este último se figer falta.
No pan-celtismo considera-se filha de Larouco e Anu.
Recebe o nome de Brigid na Irlanda, Brìde na Escócia e Brigindũ na Gália.
Celebramo-la na época do Solstício de Inverno-Noite Nai (21-25 de Dezembro) mas, principalmente, na sua grande festa do Entroido (Imbolc), por volta do 1 de Fevereiro.

(Ouvir aqui a cançom dedicada à Deusa Brigantia pola banda galaica Mileth)

 

Lugus. Desenho em aquarela por R. Cochón.
O Deus Lugus, visto por um membro da IDG

Lugus /|\
O Luminoso, O Esplendoroso, O Radiante. É o jovem, belo, atlético e extremadamente hábil guerreiro com a sua mágica lança (O Do Longo Braço) e outras fantásticas armas. Apresenta umha triplicidade associado ao Sol, ao Céu e às Treboadas, onde comanda tronos e lôstregos.
É patrom, como Brigantia, das artes e do artesanato, mas tamém dos desportos, da actividade física, das criadoras e inventoras, de todos aqueles e aquelas que podem fazer surgir algo que antes nom existia, da lei, da verdade e dos juramentos, dos que colocam ordem no caos e defendem os pactos e promessas feitas.
Lugus emana umha sensaçom de poder e eloquente sabedoria, de reconfortante e cálida calma. Ele preside e guarda o grande Oinakos (assembleia ou juntança) do verám, desfrutando à vez das competiçons desportivas e favorecendo o convívio e os casamentos. Em verdade, gosta de qualquer Oinakos feito com honestidade.
Recebe o nome de Lugh na Irlanda, Lley Llaw Gyffes em Gales e tamém Lugus na Gália.
Celebramo-lo principalmente na sua grande festa da Seitura (Lughnasadh), por volta do 1 de Agosto.

 

Figura do Deus Bandua achada no concelho de Bande
Figura do Deus Bandua achada no concelho de Bande

Bandua – Cosso /|\  
O Que Ata, O Que Une, pois cos seus laços mágicos o Deus Bandua sela as promessas e une os clãs e as pessoas. Através desses laços formalizam-se os pactos mas estabelece-se tamém a intercomunicaçom, o relacionamento, sendo tudo isto fundamental para a prosperidade de qualquer grupo. Ele fai a chamada perante umha causa comum, convocando a todos e todas sob a sua bandeira.
Bandua é patrom da eloquência e domina a magia, fazendo cumprir o dito bem apelando aos princípios fundamentais da ética céltica (Honra, Responsabilidade e Compromisso) com a sua convincente palavra, ou bem forçando com a sua atadura. Ou ambas cousas.
Mas cuidado, pois quando falemos de conflito toma o nome de Cosso, o Deus a quem tenhem como patrom os guerreiros e guerreiras. Entom, Ele percorre sem parar os caminhos, vigilante na noite, preparado para a caça de cabeças se for preciso… Em qualquer caso, é o mais formidável e temido guerreiro e na batalha imobilizará os seus inimigos com a sua amarra invisível.
Bandua-Cosso é umha Deidade dual, tanto que por vezes pode apresentar-se como homem e outras como mulher.
No pan-celtismo é considerado irmao de Larouco. Recebe o nome de Ogma na Irlanda e Ogmios na Gália.
Bandua nom tem umha data fixa para a sua celebraçom.

 

Escultura frequentemente utilizada para representar o Deus Bel
Talha frequentemente utilizada para mostrar o Deus Bel

Bel /|\
O Brilhante, o Refulgente, O Formoso, O Belo. O Deus da Luz e patrom da música é um dos Deuses mais antigos. Como Lugus, Bel tamém comanda o Sol e mais as estrelas, e ainda com maior intensidade. Nomeadamente comanda os ciclos dos dias, das luas e dos anos, fazendo girar a Roda do Ano e com ela fazendo avançar o tempo humano (a roda e o carro – no que atravessa o Céu – som alguns dos seus símbolos).
Às vezes pode aparecer acompanhado por Brigantia, a sua consorte ocasional, com quem partilha entre outras cousas o seu aprecio por fontes e poços sagrados, águas sanadoras e medicina em geral, assim como polo lume purificador (Os Lumes de Bel).
Ele protege a Natureza e a Terra, garante o seu esplendor e fertilidade cíclica continuando o trabalho de Brigantia. O Deus Bel favorece a sexualidade e as unions, a fartura e alegria das festas e celebraçons. O seu trabalho é esforçado e a sua responsabilidade é muita, mas tamém é-o a alegria dos seus frutos, combinando e equilibrando esse par de dever-lecer.
Recebe o nome de Belenus na Gália, Beil na Irlanda, Bile na Escócia e Balor em Gales.
Celebramo-lo principalmente na sua grande festa dos Maios (Beltaine), por volta do 1 de Maio.

 

Berobreo
Representaçom do Deus Berobreo encontrada em Louriçám (Ponte Vedra) sob o epíteto Vestio Alonieco

Berobreo /|\
O Da Alta Casa, O Hospedeiro, O Que Alimenta, Senhor do Mar, do Além e da Morte. Patrom da hospitalidade, Berobreo vai-te acolher, e vai-te acolher bem, de braços abertos e com amplo sorriso. Se tiveste Honra, nada temas.
Desde o alto do Facho de Donom, o seu grande santuário, ou desde qualquer península, praia, atalaia ou cabo significante como A Lançada ou Teixido, pode olhar as ilhas da nossa costa, escala prévia das almas que depois da sua peregrinaçom cara o solpor ham descansar um pouco. Em breve, porém, começam da sua mao a viagem à outra vida, pois Ele tem as chaves dos labirintos gravados em pedra que abrem as portas comunicantes dos mundos – em ambas direcçons – e levam tamém até a sua residência no fundo do mar.
O Deus Berobreo conhece esses e outros caminhos pouco transitados, mas que isto nom confunda ou arrepie a ninguém pois Ele é um anfitriom excepcional, de exuberante generosidade. Por certo, o mesmo demandará dumha boa ou bom celta, pois poucas cousas mais desonrosas há que ser ruim com as tuas hóspedes e visitantes, ou ser umha convidada desagradecida.
Recebe o nome de Donn na Irlanda (“O Escuro”, devanceiro directo do povo gaélico da Ilha).
Celebramo-lo principalmente na sua grande festa do Magusto (Samhain), por volta do 31 de Outubro e 1 de Novembro.

 

Fonte da Deusa Nábia (romanizada) achada em Braga. Apresenta tamém o nome de Tongoenabiagus (“O dos Juramentos”, um mais que provável epíteto de Lugus)

Nábia /|\
A Excelsa, A Coroada. A Senhora das Águas, dos lagos, lagoas, cachoeiras, rios e regatos, fontes e poços, tamém dos vales e partes baixas dos montes.
A melancólica Deusa Nábia é navegante e marinheira, e com a sua barca acompanha as almas que se dirigem à Alta Casa de Berobreo usando os cursos fluviais, desde o interior até a costa e, se ele o solicitar, até mais alá.
A água é vida, porém recolhe os seres mortos num ciclo contínuo. A água flui desde a coruta dos montes até o fundo do océano, e daí ao Céu à chuva e volta a começar, e com ela tudo. Nábia está presente em todo esse processo ajudando à fertilidade quando é preciso.
Mas a Deusa Nábia tamém recolhe nessas águas que tecem redes na terra os símbolos do pacto de Brigantia: as águas calmas aceitam oferendas humanas e testemunham os encontros e acordos com as Deidades. Nábia atende aí e, em parceria com Berobreo, fai de hospedeira e protectora do local.
O seu nome está em toda parte, seja como Návia, Návea, Ávia, Coventina, Avon, Devon, Deva, etc. De todas as Deidades, Nábia pode que seja a mais familiar e simpática com certos seres especiais associados à água, e disque gosta da cerveja e das flores.
Nábia nom tem umha data fixa para a sua celebraçom.

(Ouvir aqui a cançom dedicada à Deusa Nábia pola banda galaica Sangre Cavallum)

 

Reve /|\
O Do Páramo, O Máximo, O Das Chairas (Baixas e do Além), lugar de encontro entre o alto e o baixo, limiar de mundos, onde comanda. É Senhor da Hierarquia e da Justiça, que nas suas mans é sempre brutalmente imparcial e objectiva. Ele administra toda fortuna e riqueza de forma equânime.
A primeira vista, Reve parece a Deidade mais esquiva, fria e distante, seica mais centrada nos assuntos internos dos Deuses e Deusas que nos humanos e mundanos.
Contudo, Ele é um ponto de encontro, pois reúne características de Berobreo e Cosso, já que comanda tamém sobre o Além e a guerra, e ainda de Larouco, de quem está tam próximo que ocasionalmente podem ser confundidos. Recebe de Brigantia a capacidade de gerir a Soberania quando Ela nom está presente, como é no caso de juízos e decisons importantes que requerem umha resoluçom final e inapelável.
No caso de batalha, o Deus Reve pode que supervisione o ir e vir da gente comum, decidindo implacável quem é digno de ser chamado de Herói ou Heroína e quem nom.
Na antiguidade era umha das Deidades que recebia maiores honras e oferendas, especialmente na Callaecia interior, se calhar polo temor que algumha gente sentia do seu olhar desapaixonado, embora sincero e calmo.
Recebe o nome de Morrígan na Irlanda e ainda os nomes alternativos de Reva e Reua na Galiza.
Reve nom tem umha data fixa para a sua celebraçom.

 

Visão contemporânea da Deusa Cale e os seus atributos
Visom contemporânea da Deusa Cale e os seus atributos

Cale /|\
A Velada, A Moura, A Meiga, A Velha. A Senhora da Callaecia e encarnaçom mesma da granítica Terra que pisamos. Sábia Senhora da Pedra e patrona dos canteiros, plantas e árvores, animais selvagens e seres invisíveis. Amiga de Anu.
Ela tem poder sobre o clima e sobre os bosques, montes e bestas do nosso País. Ela fala cos nossos Devanceiros e Devanceiras e manda recado se figer falta. Cale é velha como o planeta, e antes de Deusa já foi moura e a mais grande das meigas e mencinheiras; talvez por isso seja a Deidade que mais conhece e melhor se relaciona com todos os seres miúdos longe dos nossos sentidos.
Apresenta-se normalmente como umha mulher de avançada idade vestida com saio e pano na cabeça (O Velo), mas isto é porque geralmente só é vista no fim do ano celta, quando já passou os estádios de juventude e madurez longe das vistas. Precisamente, é nessa época depois da Noite de Magusto quando a Deusa Cale trabalha a Terra a eito com o seu sacho até passado o Solstício. Com tanta trabalheira haverá quem pense que está a destroçar, mas realmente remexe o necessário para sementarmos quando chegue a nossa vez. É aí quando, como autêntica protectora, estende o seu saio aconchegante.
Cale colabora com Brigantia em muitos assuntos, e disque a segunda vigia de esguelho a metade luminosa do ano (Samos) enquanto a primeira fai o mesmo com a metade escura (Giamos).
Recebe o nome de Cailleach na Irlanda, Escócia e Ilha de Man.
Celebramo-la principalmente na grande festa do Magusto (Samhain), por volta do 31 de Outubro e 1 de Novembro, e é lembrada no Dia da Terra, o 25 de Julho, festa civil dedicada à Naçom Galega.

 

Deidades do Comum
As Deusas e Deuses talvez mais próximos a nós, no dia a dia, na consecuçom dalguns grandes planos mas tamém dos pequenos e diários. Podem até ser um elo de comunicaçom com outras Deidades.

 

Íccona /|\
A Da Terra, A Da Égua Branca, A Grande Égua. Senhora dos Cavalos e todos os equídeos. Senhora e protectora dos Caminhos, Viagens e Comunicaçons. Patrona de todos aqueles e aquelas que falam, partilham, informam, divulgam e comunicam com honestidade, assim como de todas aquelas pessoas que viajam, peregrinam ou transportam algo.
Onde nom chega Nábia por água, chega Íccona por terra para guiar as almas, dacavalo, até o passo mais próximo. Ela recolhe tamém parte do simbolismo da Soberania de Brigantia e exemplifica a responsabilidade de lográ-la, pois a Soberania requer trabalho e sacrifício, montar durante muitas jornadas, até poder ser digno ou digna dela. A Deusa Íccona sempre está em marcha, sempre atenta e pronta para relatar, sempre cavalgando.
Íccona muitas vezes encontra-se com Bandua-Cosso, tanto nos vieiros que transitam como na palavra dada nos pactos e unions, e conversam.
A Irmandade Druídica Galaica está consagrada desde o seu nascimento à Deusa Íccona Loimina, quem aguardamos tenha a bem considerarmo-la como a nossa patrona.
Recebe o nome de Epona na Gália, Étaín ou Édaín na Irlanda e Rhiannon em Gales.
Íccona nom tem umha data fixa para a sua celebraçom, ainda que é sempre lembrada no 11 de Novembro, dia do aniversário da nossa Irmandade.

 

Trebaruna /|\
A Da Casa, A Da Tribo, A Do Secreto. Senhora do Fogar, do mais íntimo. Protectora do privado, das famílias e crianças, das amizades verdadeiras, do património pessoal e colectivo, do lar, dos pensamentos próprios.
Ela move-se bem nas sombras e nos recantos das casas e cidades, prudente e sagaz, como umha presença reconfortante e calmosa quando as nossas justas aspiraçons e trabalho esforçado topam com problemas inesperados. A Deusa Trebaruna pode que seja a Deidade mais próxima aos humanos e humanas, ou quando menos quem mais gosta de estar nas nossas casas e assistir à nossa vida cotiá.
Contudo, que ninguém se leve a engano, pois ainda que geralmente agarimosa, Trebaruna pode ser guerreira dura e implacável com quem atenta contra a tribo ou clã, com quem revela segredos sem justificaçom e atraiçoa confianças, com quem ataca ou desonra a amizade, o fogar ou a família querida.
A Deusa Trebaruna reconhece o valor da discriçom sem por isso cair na desonestidade ou mentira, algo impensável para umha celta. Aliás, precisamente por isso despreza quem os rompe ou quebra umha promessa, igual que Bandua.
Trebaruna nom tem umha data fixa para a sua celebraçom.

(Ouvir aqui a cançom dedicada à Deusa Trebaruna pola banda lusitana Moonspell)

 

Resto de estátua romanizada de Endovélico achada na Lusitânia
Resto de estátua (romanizada) do Deus Endovélico achada na Lusitânia

Endovélico /|\
O Protector, O Muito Bom. Senhor da Medicina, Investigaçom, Segurança e Adivinhaçom, protector local de cidades, vilas e aldeias com um santuário seu presente. Patrom, como Brigantia, de médicos e  sanadoras, de investigadoras e cientistas, além de pessoas que com justiça e honestidade fomentem a paz e se dediquem a salvar, cuidar ou atender outros seres.
O Grande Sábio Endovélico gosta de ficar na casa aguardando as pessoas que requiram do seu conhecimento. Aí, igual que faria Bel, o Deus Endovélico utiliza luz e calor e toda classe de remédios para sanar, para acalmar, para assegurar humanos e animais, dos que gosta imenso.
Se for preciso, Ele acudirá ao mais alto ou ao mais baixo para continuar estudando, procurando fórmulas, encontrando soluçons; é luminoso, mas o seu lar pode estar no mais profundo, agochado entre as rochas, onde pode trabalhar tranquilo e aprender o que fica no escuro e nom toda a gente vê.
Umha vez é visitado, Endovélico pode escolher falar através de sonhos e intuiçons, indicando o que deve ser feito ou aconselhando que caminho deve seguir-se.
Endovélico nom tem umha data fixa para a sua celebraçom.

 

As Burgas (Ourense): a Galiza é país da Europa com maior número de termas naturais, só a seguir à Hungria
As Burgas (Ourense): a Galiza é o país da Europa com maior número de termas naturais, só a seguir à Hungria

Bormánico /|\
O Que Ferve, O Borbulhador. Senhor das termas, balneários e águas curativas, assim como dos fermentos, os minerais e o subsolo. Protector e patrom de covas e passadiços, e de quem anda neles.
O Deus Bormánico partilha com Nábia comando sobre algumhas águas, nomeadamente as águas quentes e aquelas que brotam com características especiais, aquelas nom navegáveis ou nom aptas para o trânsito de seres, mais bem com um outro uso específico como a sanaçom e relaxaçom. Partilha tamém, porém, capacidades sanadoras com Endovélico, com quem frequentemente departe nas suas exploraçons das profundezas da Terra e das pedras, minerais e metais.
Disque as suas capacidades transmutadoras favoreceram a apariçom de diversas bebidas, comidas e remédios, fermentados a base de líquido e calor.
Recebe o nome de Bormanus, Moguns ou Mogunus na Gália, Grannus em diversos territórios célticos, e na Galiza e Lusitânia tamém é chamado Borvo ou Bormo.
Bormánico nom tem umha data fixa para a sua celebraçom.

 

Nota final: Existem ainda um feixe de forças sutis, criaturas lendárias e seres chamados “sobrenaturais” (apesar de tal cousa nom ser possível na nossa religiom, onde tudo é parte do mesmo Cosmos e portanto é sempre natural), mas embora tenham um certo poder, influência e autonomia nom entram na categoria de Deidades nem comandam nada se som assim expressamente proibidas por Estas.

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Honra à Terra e à Natureza.
Honra a Quem Nos Quer Mostrar e Aprender.
Honra a Quem Estivo e Ainda Há de Vir.
E Nós, No Meio, Caminhando.
/|\

Dia de orgulho, e combate

Defender o nosso não é delito.
Defender o nosso não é delito

O 17 de Maio deveria ser  um dia de festa na nossa Terra. É até feriado oficial, mas os galegos e galegas bem sabemos que nom é dia de festa. Cada vez mais, este é um dia para lançarmos um berro colectivo na luta pelas nossas tradiçons, cultura e, claro está, língua. Nom deixa de ser o Dia das Letras Galegas.

A IDG lembra que um dos seus principais deveres e prioridades vira arredor da defesa contra todo ataque e agressão sofrida, directa ou indirectamente, física ou virtualmente, literalmente sobre a Terra ou sobre o seu património material e imaterial, onde se encontra a língua, gravemente ameaçada a cada dia que passa.

Este ano engade-se o insulto do juízo a 12 pessoas cujo “delito” foi a defesa activa do seu idioma perante organizaçons e posicionamentos integristas na contra. A história e a campanha circula por toda parte e anima-se a partilhar em redes sociais com o marcador #8f45anos.

Desde a IDG, a nossa mais profunda solidariedade com todos e todas.

É logo a nossa língua um veículo secular de identificaçom colectiva e o elemento em torno ao qual vira grande parte da nossa identidade contemporânea como Povo. É a única língua na que, por exemplo, a IDG realiza os seus ritos, sendo a única língua consequente na prática da Druidaria na Galiza.

A nossa cultura esvai-se à nossa frente e há umha série de compromissos druídicos que nom nos permitem deixar passar isto por alto, nomeadamente o Compromisso com as Raízes, o Compromisso com a Liberdade, o Compromisso com a Independência, o Compromisso com o Conhecimento e o Compromisso com a Verdade.

Assim, a IDG insiste no facto de a Druidaria nom ser uma religiom contemplativa ou passiva, embora o proselitismo religioso sim estiver proibido. Longe disso, o compromisso dum Druida ou Druidesa ou qualquer Caminhante é com o seu Clã, com a sua defesa total, sempre com Honorabilidade e Justiça. A Druidaria nom anula vontades nem individualidades, antes o contrário, o Clã é a uniom de indivíduos livres e determinados, com ideias e convicçons fortes e meditadas, mas que som capazes de pôr essas virtudes ao serviço da Comunidade. Hoje o Clã da IDG revela-se como a Galiza toda, a Treba Mór de todas nós.

Animamos finalmente a tomardes parte – baixo os auspícios de Bel – nas concentraçons e manifestaçons que no 17 de Maio vam sair à rua nas cidades do País. Abofé que membros da IDG estarám presentes (a título individual e pessoal), e ham continuar estando.

Um Povo vivo, uma esperança de futuro.
Um Povo vivo, uma esperança de futuro. Que os lumes de Bel queimem e desfagam toda injustiça.

 

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