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Para um Magusto onde comece a esperança. Feliz Ano Novo Celta!

Prévia do derradeiro banquete de Magusto público da IDG (2016). Honra à Casa Florinda que sempre tão bem e tão generosamente nos acolheu.

Na mágica noite do dia de hoje inauguramos o Ano Novo celta. No trânsito do 31 de Outubro ao 1 de Novembro é já popular em muitas partes do mundo celebrar uma festividade eminentemente Druídica, a mais especial de todas.

Bem-vindos e bem-vindas à Noite de Magusto e o seu cheiro a castanha assada, dos sorridentes Calacús, dos Defuntos que nos falam, do gaélico Samhain ou mesmo de Halloween para que toda a gente entenda.

É a noite quando acabam de abrir de vez as portas do Além (Sídhe) para durante esta temporada podermos finalmente comunicar sem eivas com os que não estão. É o intre concreto e simbólico que marca o fim do ano e o começo dum novo, celebrando-se com uma grande festa onde partilhamos risos, alegria e comida com os nossos Devanceiros e Devanceiras. São, em definitiva, os momentos mais importantes do ano para quem anda os vieiros da Druidaria.

A Roda do Ano completa uma volta inteira, marcando já sem dúvidas a entrada cara o Inverno. Adeus Samos, olá Giamos. É o muito merecido descanso da Terra e a satisfação de termos não só superado mais um ano, senão de estarmos celebrando em comunidade a boa disposição e coragem para seja o que for vem a seguir, sem importar o rigor da estação.

E que boa falta fai esta celebração desta vez, quando vimos de passar uns episódios tão duros na nossa Terra, quando tudo à nossa volta parece ter ficado de patas para o ar…

Deixemos pois que tome Bandua as suas chaves e abra as cancelas do Além, deixando passo a Berobreo e os seus. Longe já do esplendor da luz de Lugus (que morre e dorme placidamente guardado pelo mesmo Bandua) ou da regeneração de Brigantia e posterior apoteose de Bel, é agora decididamente a quenda da Cale (Cailleach) senhora da nossa Terra – completando não só o ciclo de celebrações e deidades do nosso calendário sagrado, senão também o seu próprio. Não olha mais desde um canto, mas sim adquire o protagonismo todo quando, precisamente, deixa de ser nova e linda, quando chega ao seu aparente fim e vira velha e sábia. Será ela, a também senhora da noite, quem facilite o trânsito entre o Aquém e o Além junto de Bandua e Berobreo; será ela quem tome conta das bestas por uma temporada; será ela a que de repente cessará de lembrar-nos a perda que pode supor o passo do tempo para fazer ver que em verdade o que havia era construção, mudança, avanço, com o exemplo da sua própria e pessoal regeneração.

A Cale trabalha agora a Terra com o seu sacho até passado o próximo solstício. E com tanta trabalheira haverá quem pense que está a destroçar, mas realmente remexe o necessário para sementarmos quando chegue a nossa vez. Deixará por uma ocasião de rosmar das outras Deidades para estender o seu saio aconchegante sobre o Cosmos todo.

Estes dias a Galiza está em festa. Não há cidade, vila ou aldeia que não festeje e honre as suas Devanceiras e Devanceiros. Não há recuncho do País que não cheire a castanha assada (alimento favorito no Além, como o leite) e a gente pense no Magusto. Não há lugar onde não fique acesa uma candeia. Não há crianças que não sintam que é noite de troula e vaiam “pedir o pão” (O Migalho) pelas portas. Não há janela sem calacú, as “cabeças cortadas” que protegem o lar. Trespassam-se limiares, assim que ninguém esqueça deixar a sua oferenda de leite na porta da casa para Irusan e os seus, e tomar um chisco de pão ao cruzá-la para fora.

Hoje caem os muros etéreos e seica para-se o tempo. O mar entre mundos vira regato, quase ao alcance da simples vista. Ficamos logo nas mãos da Cale, na companhia dos amigos corvo e gato e baixo o abeiro do teixo, aconchegando-nos ao pé do purificador lume faladoiro do novo ano.

É tempo de Druidaria. Mais do que nunca esta é a nossa festa rachada.

Feliz Magusto! Bom Ano Novo a todos e a todas!

PD. Neste ano a IDG não celebra actos públicos como vinha sendo habitual. A observância será estritamente interna e não existirá actualização via Twitter do transcorrer da noite como noutras ocasiões.

Comida de Magusto. Deixade castanhas e leite nas portas e nos cruzamentos. Haverá quem os aproveite bem...

Comida de Magusto. Deixade castanhas e leite (sem lactosa 😉 ) nas portas e nos cruzamentos. Haverá quem os aproveite bem e guardem esses lugares por nós… Mas cuidado, esta noite é precisamente o único momento quando não se podem apanhar as castanhas!

Convidamos à atenta leitura desde artigo, muito detalhado e bem documentado, e ainda deste outro, explicando e exemplificando como esta celebração continua viva em múltiplas e variadas formas, mas sempre com o mesmo sentimento profundamente druídico. Recomendamos, aliás, completar com este outro, também de interesse. Ainda, para quem poida ler em inglês, um texto explicando o relacionamento entre Magusto-Samhain-Halloween. Disponibilizamos, aliás, um recurso educativo para gente moça.

 

[in English] Magosto, Magusto, Samhain, Halloween… different names for the same period of time which begins with the first scent of roasted chestnuts.

On the ‘Night of the Pumpkins’ or ‘Night of the Dead’ (October 31st – 1st November), as we call it in Galicia, an ancient Celtic festival is celebrated around the world.

Despite the twists and turns of history, we know well that this is a magical time – the most important of the year – as we celebrate the end of a cycle with a grand feast, cherishing the memory of the Ancestors, all those to whom we owe living as we live, knowing what we know, being who we are.

So get ready for winter! Now that the barns are full and we are certain that we’ll spend it in good company. Let the Land take a rest, for the next thing will be the return of light and Spring.

Have a nice one and Happy New Celtic Year!

Click here< to read more about the Magusto/Samhain/Halloween in English, or >here< to know more about the IDG.

 

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No Equinócio de Outono as fachas alumeiam

Arde facha, que é a tua hora.

Como na Primavera, chega amanhã um novo equilíbrio perfeito entre dia e noite, entre luz e escuridão, ainda que desta vez marca-se o lento trânsito cara a metade escura do ano (fica perto o passo de Samos a Giamos). É o Mabon, o Alban Elfed, a Noite do Caçador (quando o Sol é finalmente alcançado antes dum novo renascer), o Lar da Colheita. Em definitiva, o Equinócio de Outono: mais um passo na Roda do Ano marcando uma das festividades menores da Druidaria.

Após a grande celebração da plenitude da colheita na Seitura (Lugnasad), revisa-se agora a finalização dessa colheita farturenta, festeja-se o seu cuidado armazenamento para esta nova jeira que pode ser longa e dura, mas que encaramos com optimismo e gratidão pelo já conquistado e tudo o bom acumulado. Estamos prestes, pois, a caminhar cara o ano novo que há chegar na festa do Magusto (Samain) em poucas semanas.

Talvez antecipando a chegada dessa grande noite, a tradição galega celebra este equinócio com o lume da chamada Festa das Fachas, outrora popular em todo o País e que oxalá pudera voltar sê-lo. Assim, desde há milénios pega-se fogo a uns fachões de pôla de castinheiro contra a meia noite, enquanto soa a gaita e prepara-se a comida e a bebida, como em toda boa celebração galega.

Com esta despedida, Lugus cai e começa o seu descanso, e nós acougamos com ele. Cale fica avisada. A Cale antes fisicamente esplendorosa declina aparentemente em aspecto, mas oferece graças à sua crescente experiência o seu sábio conselho a quem saber perguntar. Ela será agora quem nos aconchegue do seu próprio frio, vento, neve e chuvas. A aparência de vigor era nela um velo cobrindo o fragor da sua temporária juventude. Mas agora muda, agora toma lentamente o seu poder real.

Atenção, isso sim, pois é também época de juízos e recapitulações. Temos que estar preparados e preparadas de agora endiante para aturar os dias frios e as verdades que serão desveladas no Magusto através das mensagens dos nossos seres queridos. É na escuridão quando melhor se pode albiscar a luz.

Celebremos então a previsão feita no passado para o goze do presente e a confiança no futuro.

Vem onde nós o Outono

Dacavalo do ar;

nos caminhos da fraga

os ouriços já abrem.

Sinto-o chegar contente

da eterna viagem

enredando entre as folhas

estreando friagem

(A.M. Fdes.)

O evento astronómico – ligeiramente mutável cada ano – será às 21h02 a norte do Minho, 20h02 a sul, da Quinta 22 de Setembro.

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A Terra que nos sustenta

[republicação] Celebramos outro ano o Dia Nacional da Galiza, o Dia da Pátria, o Dia de Todas e Todos Nós, a simbólica celebração da Terra que nos acovilha, sustenta e dá sentido, a que nos ensinou a estar no mundo.

Hoje unimos-nos à louvança do cenário único onde os nossos devanceiros e devanceiras viraram galegos e galegas. Hoje honramos – é preceito da Druidaria – a quem nos precedeu para podermos estar aqui agora e sermos quem somos.

Hoje celebramos o bom da Terra e da nossa cultura e identidade, e reforçamos a nossa vontade em erradicar tudo aquilo que lhe aflige e dana, com uma soa voz.

Muito especialmente, dos Nove Compromissos presentes na nossa religião hoje o Compromisso com as Raízes, com a Liberdade e com a Independência revelam-se fulcrais em múltiplos sentidos. Fai-se, aliás, um chamamento especial a galegos e galegas em relação a um dos princípios básicos da IDG, que é o da defesa da Terra, pois os tempos que vivemos vem como continua a perigar a sua essência, e a do nosso Povo.

Chega então o momento de enchermos as ruas, fachendosos de nós, cantando o nosso amor pelos “bons e generosos” e nojo pelos “imbecis e escuros”, construindo a berros se for preciso.

Hoje não pode faltar uma insígnia do País em cada casa, em cada recanto, como símbolo comunitário de união e determinação do mais grande Clã.

Sintamos no abeiro da Deusa Cale a ligação em sagrado pacto à espinha do Dragão. Celebremos!

Bom Dia da Galiza!

“Hoje as campás de Compostela anunciam uma festa étnica, filha, talvez, dum culto panteísta, anterior ao cristianismo, que tem por altar a Terra Nai, alçada simbolicamente no Pico Sacro; por cobertura o fanal imenso do Universo; e por candeeiro votivo, o Sol ardente de Julho” (A.D.R. Castelao, Alba de Glória, 1948)

 

NOTA: Esta celebração não-religiosa é de cumprimento voluntário para Caminhantes não-galegos/as mas sim de observância para galegos/as. Iniciados/as na IDG têm deveres específicos para este Dia.

 

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As Deidades Galaicas

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À sombra do carvalho tudo fica mais claro

Não se pode falar de “panteão” no mundo celta tal e como é comumente entendido, isto é, com relações estritas entre Deidades com funções específicas ou equivalências directas com panteões doutras religiões. De facto, diferentes tradições célticas apresentam variantes entre Deidades, ainda que as principais são comuns apesar de terem por vezes nomes ou epítetos diferentes.

A forma de entender as nossas Deidades deve ser fluída e flexível. São Deidades que cobrem uma série de funções intercomplementares, onde há uma hierarquia mas não um enfrontamento ou conflito de opostos (como noutras religiões), mesmo nos casos onde as responsabilidades são partilhadas. Algumas Deidades podem ser, em verdade, triplas, multifacetadas. De haver uma possível contradição esta é sempre só aparente, seguramente derivada da pouca familiaridade com o sistema de pensamento e cosmovisão céltica.

O facto é que a maioria de nós crescemos numa sociedade onde o divino disque é misericordioso, amoroso e que exige às crentes sujeição às suas regras em troca da concessão da sua ajuda e apoio. No entanto, na nossa crença devemos atravessar uma porta que exige sacrifício, demolir paredes velhas para começarmos a entender o que o mundo é e qual é o nosso lugar nele. Embora as Deidades nos “acariciem” com boa intenção, o seu toque derruba esses muros que nos rodeiam e que nos impedem entender, e este pode ser um sentimento estranho e até desconcertante. Compreendermos-lhes e compreenderem-nos leva tempo, mas depois tudo adquire sentido pleno.

Desta maneira, apresentamos aqui uma introdução muito resumida e simplificada aos Deuses e Deusas da nossa tradição galaica, feita a partir de dados objectivos conhecidos através da investigação académica mas, sendo a Irmandade Druídica Galaica uma entidade religiosa, feita também em base a interpretações religiosas autónomas.

Lembramos, aliás, a nossa crença na existência individual e específica de cada uma Delas, que não são criações nem hipóstase duma Deidade superior. Assim, as Divindades não estão submetidas a outro Deus/a ou energia consciente superior a Eles/as. Do mesmo jeito, todas Elas são igualmente respeitadas, pelo que são e pelo que representam.

 

Deidades Primeiras
Presentes pelo que sabemos desde o inefável impulso original não-inteligente, causa primeira e matriz de vida. São as mais antigas e poderosas mas também as aparentemente mais reservadas.

 

Imagem do Deus Larouco encontrada na sua serra.

Imagem do Deus Larouco encontrada na sua serra

Larouco (Crouga) /|\
O Grande Deus, o Pai de Todos, o Bom Deus, o protetor da tribo. Senhor do Conhecimento, da ordem social e dos contratos. Patrão das pessoas sábias e docentes. Possui uma força imensa e está associado à abundância e generosidade da terra.
Os seus grandíssimos poderes representam-se pela enorme maça que porta na sua mão, assim como a sua masculinidade é representada pelo seu grande membro sexual. É guardião também do pote da fartura, de onde surge todo bem e toda Magia. Tudo Nele e com Ele é massivo.
Na tradição galaica está fortemente vencelhado à montanha sagrada do mesmo nome na Serra do Gerês, onde toma residência. Contudo, a sua presença noutros picos pode ser sentida e adquire, nesse caso, o nome de Crouga (como o Crom Cruach da tradição irlandesa). É dizer, Larouco é o nome que lhe damos quando falamos do Deus como tal – até fisicamente – sendo Crouga o seu espírito, a sua presença imaterial longe da sua montanha existente em toda anta ou lugar elevado de poder.
No pan-celtismo é considerado irmão de Bandua-Cosso e consorte de Anu. Recebe os nomes de An Dagda na Irlanda e Sucellus na Gália.
Celebramo-lo principalmente na época do Solstício de Inverno-Noite Nai (21-25 de Dezembro).

 

A "Moura da Pena Furada" (Coirós), representando a Sheela na Gig mais antiga da Europa que, achamos, é uma forma de representar a Deusa Anu

A “Moura da Pena Furada” (Coirós), ou a Sheela na Gig mais antiga da Europa que, achamos, é uma forma de representar a Deusa Anu

Anu /|\
A Grande Nai, A Nobre, A Boa, origem da luz e do dia. É Senhora da Literatura e Senhora e patrona das criaturas invisíveis, dos mouros e das mouras, de todos os seres místicos e de poder.
Por vezes é consorte de Larouco, mas só quando Ela escolhe, como indica a sua residência na  Pena de Anamão da mesma Serra do Gerês: perto, mas separados, como bons e velhos amigos e vizinhos que partilham conversa, experiências e confiança.
Ambos formam um duo peculiar, mas isto não deve ser nunca confundido com ideias posteriores e alheias à nossa tradição como a separação estrita em dous sexos, a dicotomia masculino-feminino, ou assuntos similares. Anu e Larouco podem ser complementares, mas são livres e autónomos em todo momento, e Anu estabelece o início do princípio de independência e Soberania Feminina do que a sua descendente Brigantia será Senhora.
Noutro exemplo, Larouco pode ser Senhor da Magia, mas Anu é a Senhora dos que usam e põem em práctica essa Magia. Uma cousa sem a outra não teria sentido, mas ainda assim são diferentes e cada um manda o que manda, onde Ela decide quem e como.
Recebe os nomes de Dôn em Gales (onde apresenta importantes conotações astronómicas em relação às constelações de Cassiopeia, Corona Borealis e até a Via Láctea) e de Danu ou Dana na Irlanda, onde é a Deusa Nai de todos os Tuatha Dé Dannan.
Celebramo-la principalmente na época do Solstício de Inverno-Noite Nai (21-25 de Dezembro).

 

Deidades de Poder
Antergas figuras de incomensurável autoridade que tentam pôr ordem e mostram virtudes para quem quiser ver e ouvir. Mestres para quem quiser aprender.

 

Tripla deusa Brigantia, portadora da Luz, detentora do fogo pois é patrona, entre outros, dos ferreiros que forjam as armas que hão defender a tribo, dos poetas - Bardos - que apresentam lumes cerimoniais e inspiração, e dos sanadores, que facilitam o lume do lar e o bem-estar.

A Deusa Brigantia, exemplo paradigmático da trifuncionalidade céltica

Brigantia /|\
A Alta, A Elevada, Senhora da Soberania, A Tríplice Chama, portadora da luz e Deusa do Fogo e da vitória. Toma três aspectos: como Lume da Inspiração (patrona da poesia, artes, filosofia e profecia), como Lume do Lar (patrona da medicina e fertilidade, de pastoras a agricultoras, protectora da casa) e como Lume da Forja (patrona da metalurgia, ferraria e artes marciais, grande guerreira).
É patrona de todos esses aspectos assim como das alturas em geral (sejam montanhas, castros no alto ou pensamentos elevados), dos e das Durvates, gado e animais domésticos, assim como dos poços e fontes sagradas.
Todo poder deve ser regulado por Brigantia. Ela não exerce essa Soberania directamente, mas ordena sobre quem a recebe ou não, quem é digno ou digna de ser chamado “rei” ou “rainha”. Ela marca o sagrado pacto entre o ser humano e a Terra. Quem não respeitar isto não poderá ser nunca a melhor líder e as humanas teremos sempre governantes ruins. Seguramente este é um dos motivos pelo que muitos lugares da nossa Terra foram nomeados na sua honra.
Brigantia assegura o trânsito entre Inverno e Primavera e garante a promessa de renascença feita no Solstício de Inverno. Ela será quem acorde os Deuses Bel (o seu ocasional consorte) e Lugus chegado o momento, mesmo quem amamente este último se figer falta.
No pan-celtismo considera-se filha de Larouco e Anu.
Recebe o nome de Brigid na Irlanda, Brìde na Escócia e Brigindũ na Gália.
Celebramo-la na época do Solstício de Inverno-Noite Nai (21-25 de Dezembro) mas, principalmente, na sua grande festa do Entroido (Imbolc), por volta do 1 de Fevereiro.

(Ouvir aqui a canção dedicada à Deusa Brigantia pela banda galaica Mileth)

 

Lugus. Desenho em aquarela por R. Cochón.

O Deus Lugus, visto por um membro da IDG

Lugus /|\
O Luminoso, O Esplendoroso, O Radiante. É o jovem, belo, atlético e extremadamente hábil guerreiro com a sua mágica lança (O Do Longo Braço) e outras fantásticas armas. Apresenta uma triplicidade associado ao Sol, ao Céu e às Treboadas, onde comanda tronos e lôstregos.
É patrão, como Brigantia, das artes e do artesanato, mas também dos desportos, da actividade física, das criadoras e inventoras, de todos aqueles e aquelas que podem fazer surgir algo que antes não existia, da lei, da verdade e dos juramentos, dos que colocam ordem no caos e defendem os pactos e promessas feitas.
Lugus emana uma sensação de poder e eloquente sabedoria, de reconfortante e cálida calma. Ele preside e guarda o grande Oinakos (assembleia ou juntança) do verão, desfrutando à vez das competições desportivas e favorecendo o convívio e os casamentos. Em verdade, gosta de qualquer Oinakos feito com honestidade.
Recebe o nome de Lugh na Irlanda, Lley Llaw Gyffes em Gales e também Lugus na Gália.
Celebramo-lo principalmente na sua grande festa da Seitura (Lughnasadh), por volta do 1 de Agosto.

 

Figura do Deus Bandua achada no concelho de Bande

Figura do Deus Bandua achada no concelho de Bande

Bandua – Cosso /|\  
O Que Ata, O Que Une, pois com os seus laços mágicos o Deus Bandua sela as promessas e une os clãs e as pessoas. Através desses laços formalizam-se os pactos mas estabelece-se também a intercomunicação, o relacionamento, sendo tudo isto fundamental para a prosperidade de qualquer grupo. Ele fai a chamada perante uma causa comum, convocando a todos e todas sob a sua bandeira.
Bandua é patrão da eloquência e domina a magia, fazendo cumprir o dito bem apelando aos princípios fundamentais da ética céltica (Honra, Responsabilidade e Compromisso) com a sua convincente palavra, ou bem forçando com a sua atadura. Ou ambas cousas.
Mas cuidado, pois quando falemos de conflito toma o nome de Cosso, o Deus a quem têm como patrão os guerreiros e guerreiras. Então, Ele percorre sem parar os caminhos, vigilante na noite, preparado para a caça de cabeças se for preciso… Em qualquer caso, é o mais formidável e temido guerreiro e na batalha imobilizará os seus inimigos com a sua amarra invisível.
Bandua-Cosso é uma Deidade dual, tanto que por vezes pode apresentar-se como homem e outras como mulher.
No pan-celtismo é considerado irmão de Larouco. Recebe o nome de Ogma na Irlanda e Ogmios na Gália.
Bandua não tem uma data fixa para a sua celebração.

 

Escultura frequentemente utilizada para representar o Deus Bel

Talha frequentemente utilizada para mostrar o Deus Bel

Bel /|\
O Brilhante, o Refulgente, O Formoso, O Belo. O Deus da Luz e patrão da música é um dos Deuses mais antigos. Como Lugus, Bel também comanda o Sol e mais as estrelas, e ainda com maior intensidade. Nomeadamente comanda os ciclos dos dias, das luas e dos anos, fazendo girar a Roda do Ano e com ela fazendo avançar o tempo humano (a roda e o carro – no que atravessa o Céu – são alguns dos seus símbolos).
Às vezes pode aparecer acompanhado por Brigantia, a sua consorte ocasional, com quem partilha entre outras cousas o seu aprecio por fontes e poços sagrados, águas sanadoras e medicina em geral, assim como pelo lume purificador (Os Lumes de Bel).
Ele protege a Natureza e a Terra, garante o seu esplendor e fertilidade cíclica continuando o trabalho de Brigantia. O Deus Bel favorece a sexualidade e as uniões, a fartura e alegria das festas e celebrações. O seu trabalho é esforçado e a sua responsabilidade é muita, mas também é-o a alegria dos seus frutos, combinando e equilibrando esse par de dever-lecer.
Recebe o nome de Belenus na Gália, Beil na Irlanda, Bile na Escócia e Balor em Gales.
Celebramo-lo principalmente na sua grande festa dos Maios (Beltaine), por volta do 1 de Maio.

 

Berobreo

Representação do Deus Berobreo encontrada em Louriçám (Ponte Vedra) sob o epíteto Vestio Alonieco

Berobreo /|\
O Da Alta Casa, O Hospedeiro, O Que Alimenta, Senhor do Mar, do Além e da Morte. Patrão da hospitalidade, Berobreo vai-te acolher, e vai-te acolher bem, de braços abertos e com amplo sorriso. Se tiveste Honra, nada temas.
Desde o alto do Facho de Donom, o seu grande santuário, ou desde qualquer península, praia, atalaia ou cabo significante como A Lançada ou Teixido, pode olhar as ilhas da nossa costa, escala prévia das almas que depois da sua peregrinação cara o solpor hão descansar um pouco. Em breve, porém, começam da sua mão a viagem à outra vida, pois Ele tem as chaves dos labirintos gravados em pedra que abrem as portas comunicantes dos mundos – em ambas direcções – e levam também até a sua residência no fundo do mar.
O Deus Berobreo conhece esses e outros caminhos pouco transitados, mas que isto não confunda ou arrepie a ninguém pois Ele é um anfitrião excepcional, de exuberante generosidade. Por certo, o mesmo demandará de uma boa ou bom celta, pois poucas cousas mais desonrosas há que ser ruim com as tuas hóspedes e visitantes, ou ser uma convidada desagradecida.
Recebe o nome de Donn na Irlanda (“O Escuro”, devanceiro directo do povo gaélico da Ilha).
Celebramo-lo principalmente na sua grande festa do Magusto (Samhain), por volta do 31 de Outubro e 1 de Novembro.

 

Nábia /|\
A Excelsa, A Coroada. A Senhora das Águas, dos lagos, lagoas, cachoeiras, rios e regatos, fontes e poços, também dos vales e partes baixas dos montes.
A melancólica Deusa Nábia é navegante e marinheira, e com a sua barca acompanha as almas que se dirigem à Alta Casa de Berobreo usando os cursos fluviais, desde o interior até a costa e, se ele o solicitar, até mais alá.
A água é vida, porém recolhe os seres mortos num ciclo contínuo. A água flui desde a coruta dos montes até o fundo do océano, e daí ao Céu à chuva e volta a começar, e com ela tudo. Nábia está presente em todo esse processo ajudando à fertilidade quando é preciso.
Mas a Deusa Nábia também recolhe nessas águas que tecem redes na terra os símbolos do pacto de Brigantia: as águas calmas aceitam oferendas humanas e testemunham os encontros e acordos com as Deidades. Nábia atende aí e, em parceria com Berobreo, fai de hospedeira e protectora do local.
O seu nome está em toda parte, seja como Návia, Návea, Ávia, Coventina, Avon, Devon, Deva, etc. De todas as Deidades, Nábia pode que seja a mais familiar e simpática com certos seres especiais associados à água, e disque gosta da cerveja e das flores.
Nábia não tem uma data fixa para a sua celebração.

(Ouvir aqui a canção dedicada à Deusa Nábia pela banda galaica Sangre Cavallum)

 

Reve /|\
O Do Páramo, O Máximo, O Das Chairas, lugar de encontro entre o alto e o baixo, limiar de mundos, onde comanda. É Senhor da Hierarquia e da Justiça, que nas suas mãos é sempre brutalmente imparcial e objectiva. Ele administra toda fortuna e riqueza de forma equânime.
A primeira vista, Reve parece a Deidade mais esquiva, fria e distante, seica mais centrada nos assuntos internos dos Deuses e Deusas que nos humanos e mundanos.
Contudo, Ele é um ponto de encontro, pois reúne características de Berobreo e Cosso, já que comanda também sobre o Além e a guerra, e ainda de Larouco, de quem está tão próximo que ocasionalmente podem ser confundidos. Recebe de Brigantia a capacidade de gerir a Soberania quando Ela não está presente, como é no caso de juízos e decisões importantes que requerem uma resolução final e inapelável.
No caso de batalha, o Deus Reve pode que supervisione o ir e vir da gente comum, decidindo implacável quem é digno de ser chamado de Herói ou Heroína e quem não.
Na antiguidade era uma das Deidades que recebia maiores honras e oferendas, especialmente na Callaecia interior, se calhar pelo temor que alguma gente sentia do seu olhar desapaixonado, embora sincero e calmo.
Recebe o nome de Morrígan na Irlanda e ainda os nomes alternativos de Reva e Reua na Galiza.
Reve não tem uma data fixa para a sua celebração.

 

Visão contemporânea da Deusa Cale e os seus atributos

Visão contemporânea da Deusa Cale e os seus atributos

Cale /|\
A Velada, A Moura, A Meiga, A Velha. A Senhora da Callaecia e encarnação mesma da granítica Terra que pisamos. Sábia Senhora da Pedra e patrona dos canteiros, plantas e árvores, animais selvagens e seres invisíveis. Amiga de Anu.
Ela tem poder sobre o clima e sobre os bosques, montes e bestas do nosso País. Ela fala com os nossos Devanceiros e Devanceiras e manda recado se figer falta. Cale é velha como o planeta, e antes de Deusa já foi moura e a mais grande das meigas e mencinheiras; talvez por isso seja a Deidade que mais conhece e melhor se relaciona com todos os seres miúdos longe dos nossos sentidos.
Apresenta-se normalmente como uma mulher de avançada idade vestida com saio e pano na cabeça (O Velo), mas isto é porque geralmente só é vista no fim do ano celta, quando já passou os estádios de juventude e madurez longe das vistas. Precisamente, é nessa época depois da Noite de Magusto quando a Deusa Cale trabalha a Terra a eito com o seu sacho até passado o Solstício. Com tanta trabalheira haverá quem pense que está a destroçar, mas realmente remexe o necessário para sementarmos quando chegue a nossa vez. É aí quando, como autêntica protectora, estende o seu saio aconchegante.
Cale colabora com Brigantia em muitos assuntos, e disque a segunda vigia de esguelho a metade luminosa do ano (Samos) enquanto a primeira fai o mesmo com a metade escura (Giamos).
Recebe o nome de Cailleach na Irlanda, Escócia e Ilha de Man.
Celebramo-la principalmente na grande festa do Magusto (Samhain), por volta do 31 de Outubro e 1 de Novembro, e é lembrada no Dia da Terra, o 25 de Julho, festa civil dedicada à Nação Galega.

 

Deidades do Comum
As Deusas e Deuses talvez mais próximos a nós, no dia a dia, na consecução dalguns grandes planos mas também dos pequenos e diários. Podem até ser um elo de comunicação com outras Deidades.

 

Íccona /|\
A Da Terra, A Da Égua Branca, A Grande Égua. Senhora dos Cavalos e todos os equídeos. Senhora e protectora dos Caminhos, Viagens e Comunicações. Patrona de todos aqueles e aquelas que falam, partilham, informam, divulgam e comunicam com honestidade, assim como de todas aquelas pessoas que viajam, peregrinam ou transportam algo.
Onde não chega Nábia por água, chega Íccona por terra para guiar as almas, dacavalo, até o passo mais próximo. Ela recolhe também parte do simbolismo da Soberania de Brigantia e exemplifica a responsabilidade de lográ-la, pois a Soberania requer trabalho e sacrifício, montar durante muitas jornadas, até poder ser digno ou digna dela. A Deusa Íccona sempre está em marcha, sempre atenta e pronta para relatar, sempre cavalgando.
Íccona muitas vezes encontra-se com Bandua-Cosso, tanto nos vieiros que transitam como na palavra dada nos pactos e uniões, e conversam.
A Irmandade Druídica Galaica está consagrada desde o seu nascimento à Deusa Íccona Loimina, quem aguardamos tenha a bem considerarmo-la como a nossa patrona.
Recebe o nome de Epona na Gália, Étaín ou Édaín na Irlanda e Rhiannon em Gales.
Íccona não tem uma data fixa para a sua celebração, ainda que é sempre lembrada no 11 de Novembro, dia do aniversário da nossa Irmandade.

 

Trebaruna /|\
A Da Casa, A Da Tribo, A Do Secreto. Senhora do Fogar, do mais íntimo. Protectora do privado, das famílias e crianças, das amizades verdadeiras, do patrimônio pessoal e colectivo, do lar, dos pensamentos próprios.
Ela move-se bem nas sombras e nos recantos das casas e cidades, prudente e sagaz, como uma presença reconfortante e calmosa quando as nossas justas aspirações e trabalho esforçado topam com problemas inesperados. A Deusa Trebaruna pode que seja a Deidade mais próxima aos humanos e humanas, ou quando menos quem mais gosta de estar nas nossas casas e assistir à nossa vida cotiá.
Contudo, que ninguém se leve a engano, pois ainda que geralmente agarimosa, Trebaruna pode ser guerreira dura e implacável com quem atenta contra a tribo ou clã, com quem revela segredos sem justificação e atraiçoa confianças, com quem ataca ou desonra a amizade, o fogar ou a família querida.
A Deusa Trebaruna reconhece o valor da discrição sem por isso cair na desonestidade ou mentira, algo impensável para uma celta. Aliás, precisamente por isso despreza quem os rompe ou quebra uma promessa, igual que Bandua.
Trebaruna não tem uma data fixa para a sua celebração.

(Ouvir aqui a canção dedicada à Deusa Trebaruna pela banda lusitana Moonspell)

 

Resto de estátua romanizada de Endovélico achada na Lusitânia

Resto de estátua (romanizada) do Deus Endovélico achada na Lusitânia

Endovélico /|\
O Protector, O Muito Bom. Senhor da Medicina, Investigação, Segurança e Adivinhação, protector local de cidades, vilas e aldeias com um santuário seu presente. Patrão, como Brigantia, de médicos e  sanadoras, de investigadoras e cientistas, além de pessoas que com justiça e honestidade fomentem a paz e se dediquem a salvar, cuidar ou atender outros seres.
O Grande Sábio Endovélico gosta de ficar na casa aguardando as pessoas que requiram do seu conhecimento. Aí, igual que faria Bel, o Deus Endovélico utiliza luz e calor e toda classe de remédios para sanar, para acalmar, para assegurar humanos e animais, dos que gosta imenso.
Se for preciso, Ele acudirá ao mais alto ou ao mais baixo para continuar estudando, procurando fórmulas, encontrando soluções; é luminoso, mas o seu lar pode estar no mais profundo, agochado entre as rochas, onde pode trabalhar tranquilo e aprender o que fica no escuro e não toda a gente vê.
Uma vez é visitado, Endovélico pode escolher falar através de sonhos e intuições, indicando o que deve ser feito ou aconselhando que caminho deve seguir-se.
Endovélico não tem uma data fixa para a sua celebração.

 

As Burgas (Ourense): a Galiza é país da Europa com maior número de termas naturais, só a seguir à Hungria

As Burgas (Ourense): a Galiza é o país da Europa com maior número de termas naturais, só a seguir à Hungria

Bormánico /|\
O Que Ferve, O Borbulhador. Senhor das termas, balneários e águas curativas, assim como dos fermentos, os minerais e o subsolo. Protector e patrão de covas e passadiços, e de quem anda neles.
O Deus Bormánico partilha com Nábia comando sobre algumas águas, nomeadamente as águas quentes e aquelas que brotam com características especiais, aquelas não navegáveis ou não aptas para o trânsito de seres, mais bem com um outro uso específico como a sanação e relaxação. Partilha também, porém, capacidades sanadoras com Endovélico, com quem frequentemente departe nas suas explorações das profundezas da Terra e das pedras, minerais e metais.
Disque as suas capacidades transmutadoras favoreceram a aparição de diversas bebidas, comidas e remédios, fermentados a base de líquido e calor.
Recebe o nome de Bormanus, Moguns ou Mogunus na Gália, Grannus em diversos territórios célticos, e na Galiza e Lusitânia também é chamado Borvo ou Bormo.
Bormánico não tem uma data fixa para a sua celebração.

 

Nota final: Existem ainda um feixe de forças sutis, criaturas lendárias e seres chamados “sobrenaturais” (apesar de tal cousa não ser possível na nossa religião, onde tudo é parte do mesmo Cosmos e portanto é sempre natural, só que ainda não o conhecemos ou não o conhecemos bem), mas embora tenham um certo poder, influência e autonomia não entram na categoria de Deidades nem comandam nada se são assim expressamente proibidos por Estas.

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Honra à Terra e à Natureza.
Honra a Quem Nos Quer Mostrar e Aprender.
Honra a Quem Estivo e Ainda Há de Vir.
E Nós, No Meio, Caminhando.
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