Alguém morreu para estarmos aqui

Cartaz: Paco Boluda, para umha ediçom anterior.

[Republicamos um texto, com modificaçons, lembrando umha data especial na nossa história]

No estudo e recuperaçom da nossa religiom nativa e história antiga muitas vezes encontramos com o problema das fontes ou referências originais. Às vezes é pola mesma natureza da transmissom do conhecimento na nossa tradiçom, às vezes pola ocultaçom intencionada a maos de terceiras pessoas, às vezes pola simples destruiçom dessas fontes e dados. Às vezes é um pouco tudo.

Sabemos que houve umha infeliz quebra nessa transmissom directa da nossa tradiçom, embora sim ficara bem viva a nível folclórico e popular, plenamente integrada em inúmeros aspectos da cultura e psicologia galaica actual. Desconfiade, contudo, de quem pretenda afirmar umha linhagem ininterrupta; isso nunca vai ser certo.

Desde a IDG termamos na procura de vias de investigaçom e interpelaçom sérias na redescoberta da nossa história e herdança, reconstruindo o possível e interpolando o necessário, mas evitando fantasias e autocomplacências. É, por definiçom, um trabalho muito lento e complicado, mas abofé gratificante.

Assim, é certo que tamém encontramos agradáveis surpresas, como um pedaço de informaçom aqui ou acolá que ajuda a conhecermos melhor os nossos Devanceiros e Devanceiras. É o caso do facto que podemos comemorar hoje 9 de Junho, quando teve lugar há 23 séculos (no 137 AEC) a grande batalha de proporçons formidáveis – onde o Povo Galaico luitou até a morte pola sua liberdade contra as tropas do Império Romano na foz do rio Douro, lá na cidade de Cale (actual Porto).

Esta efeméride perfeitamente documentada acaba por desmontar falsos mitos como a alegada falta de unidade ou desorganizaçom galaica, como se esta terra tivera sido tam só um lugar selvagem e individualista prestes a ser “civilizado”. Antes o contrário, eis aqui mais um exemplo da já sabida conexom e inter-relacionamento entre as diferentes tribos galaicas, lusitanas e, até, diferentes povos célticos da Europa Ocidental. Roma pagou cara a sua ousadia na Callaecia.

As crónicas falam de 50.000 mortos, 6.000 prisioneiros, da valentia galaica mas tamém da inteligência e astúcia romana… Tem que ser, pois foram escritas polo invasor e os exageros sempre ficam épicos, mas os números e a mensagem que transmitem nom eram cativos.

Em qualquer caso, esse foi o dia que marcou o princípio do fim dumha época, mas com certeza foi tamém um momento fulcral na história quando as nossas ancestrais ensinaram-nos com o seu sacrifício tingido de sangue quanto é que importa esta Terra e tudo o que há nela, e até que ponto estavam dispostas a defendê-la.

Depois chegaria o Dia do Medúlio – 115 anos mais tarde (nalguma altura do 22 AEC); geraçons de resistência – se calhar um momento ainda mais simbólico mas de localizaçom incerta. Foi quando “com sangue quente e [vermelha] /  mercamos o direito / à livre honrada chouça” (R. Cabanillas, En pe!, 1917). Mas isso é umha outra história…

Honra aos Heróis e Heroínas, gentes sem as quais hoje nom estaríamos cá nem saberíamos o que sabemos. Honra a Bandua e Cosso, que lá estava activo e presente lutando do nosso lado nas suas duas formas, e por ajudar-nos a lembrar agora.

E hoje, a luita continua.

PS. A Honra é um elemento fundamental da Druidaria.

Cartaz do Paco Boluda para a ediçom de 2018

 

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Louvor de ausentes

Honra às Devanceiras (2015)
No Magusto (e nom só), quem nom está tem sítio e come connosco.

Na Druidaria, como noutras religions e tradiçons, fala-se habitualmente dos Devanceiros e Devanceiras (Ancestrais), é dizer, as pessoas que estiveram cá antes do que nós e de como devem ser lembradas e honradas. Em verdade, a Honra às Devanceiras forma parte dos princípios básicos da Druidaria. Tamém sabemos que a data mais simbólica e significativa para isto é o Magusto, precisamente a época na que estamos quando se escrevem estas linhas.

Mas, quem som exactamente? Som membros da nossa família? Do clã mais extenso? Como deve ser interpretado este aspecto das nossas crenças?

As Devanceiras som aquelas que já lutavam do nosso lado muito antes de nascermos. Som as que fizeram possível estarmos aqui agora, sendo como somos e sabendo o que sabemos. Som todas essas geraçons que nasceram e morreram, pensaram e criaram, riram e choraram na Terra que pisamos. As que se fundiram com ela para enxergarem a cultura que nos ensina agora a estarmos no Mundo. As que modelaram a paisagem do nosso Lar. Som tamém todas aquelas pessoas que participaram e contribuíram de forma positiva na génese do nosso Povo. Som parte da nossa humanidade partilhada numha miríade de linhagens. Som os “bons e generosos” que desterraram os “imbecis e escuros” e aos que lhes devemos a decência de seguirmos o seu exemplo. Som agora o eco das vozes doutros tempos que falam para nós sábios conselhos quando somos quem de escutar.

Fechade os olhos, tocade e sentide as pedras das velhas casas e castros, pois lá estám milhons de sentimentos, esperanças, vivências, saberes acumulados, jogos de crianças e amores adultos, cumplicidades, planos, conversas ao pé da lareira numha noite qualquer, tudo verdadeiro, tanto como o bater do vosso coraçom, no mesmo lugar onde antes bateram outros com a mesma força. Esse era o fogar amado dalguém, e agora estades nele.

Na Galécia a presença constante dos que nom-estám é um desses elementos fulcrais totalmente integrado no cerne da nossa cultura e sociedade, desde crenças familiares até a própria organizaçom física do nosso território. Há tantíssimas amostras que fartaríamos de as nomear. A continuidade da vida é umha realidade (Relacionado: a nom perder, vídeo “Em Companhia da Morte“).

Eis algumhas formas nas que o pensamento druídico foi quem de sobreviver a diferença doutros lugares, pois na Galécia bem se sabe que os mortos podem ser vistos, podem ocupar novos corpos dependendo do momento e do lugar, podem até comer connosco. Contudo, a sua memória sempre deve ser respeitada, desde o estritamente religioso e ritual até o mais pessoal, ou simplesmente pondo em valor a sua herança, atendendo os seus ensinamentos, defendendo o seu (o nosso) património.

Sejamos tamém nós dignos e dignas dum legado futuro agindo em consequência, com essa Honra toda, com orgulho dos Nossos e Nossas, com agradecimento sem fim pelos milénios de esforçado trabalho e briga, pois graças à sua jeira caminhamos agora cara o futuro. Mas mostremos tamém às geraçons que ham vir algo do que poidam estar fachendosas, pois nós seremos as suas Devanceiras; sejamos merecedoras do seu apreço.

A responsabilidade é grande, mas temos ajuda.

Saúde a quem nos trouxe e aprendeu!

Um bocado fora de contexto, mas
Um bocado fora de contexto, mas esta imagem mostra como umha família é algo muito mais complicado e extenso do que a gente acredita. Toma aqui, de facto, mais bem o valor dum autêntico clã aberto. Imaginemos entom irmos até as origens…

 

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