Entrevista com o Prof. Ballester na sua visita de Maios a Pitões

O Prof. Xaverio Ballester, catedrático de Filologia Latina da Universidade de Valência, estará connosco nas VIII Jornadas Galaico-Portuguesas de Pitões das Júnias (Montalegre), onde falará no sábado 11 de Maio.

Com ele, igual que com o Prof. Benozzo anteriormente, teremos a honra de contar com um dos principais investigadores do chamado Paradigma da Continuidade Paleolítica, umha autêntica revoluçom científica multidisciplinar que estabelece um novo modelo de interpretaçom e entendimento das origens das línguas e culturas europeias, com implicaçons diretas até dia de hoje.

Assim, agradecemos ao Prof. Ballester esta pequena entrevista que serve de avanço à sua palestra nas jornadas que, com certeza, será apaixonante.

 

– Que foi o primeiro que o levou a se interessar polo estudo das origens das línguas e culturas ancestrais e como acabou por tratar com temas célticos?

Nom sei exatamente de onde é que vem o meu interesse polo estudo da origem das línguas, ou da língua sem mais, mas reconheço que é o tema do que mais gosto e no que estou mais especializado.
As minhas primeiras lembranças infantis som ilustraçons de livros e figurinhas sobre os nossos devanceiros: celtas e iberos. Depois interessei-me muito pola cousa indo-europeia, mas já de estudante resultou-me impossível aceitar a doutrina tradicional vinda do século dezanove.
O meu primeiro contacto a sério com o mundo céltico foi no curso 1991-92, em Teruel [Aragom] onde se fazia investigaçom, principalmente arqueológica, sobre o mundo celtibérico. Lembro que numha semana revisei tudo o que se conhecia sobre a língua celtibérica; hoje isso já nom seria possível por causa da eclosom de textos e autores disponíveis. Eu vinha dumha bolsa pós-doutoral em Munique, onde tirei proveito para fazer uns cursos de literatura polaca e de lituano. Neste último tive por único companheiro ao grande celtista Kim McCone, quem se ofereceu a dar um seminário sobre as línguas célticas e naturalmente fui convidado. Muito lamentei depois ter perdido aquela oportunidade, mas naquela altura o mundo céltico parecia-me umha cousa ainda mais afastada do que o mundo báltico ou eslávico. Em Teruel eu percebi o meu erro e do perto que tínhamos o céltico, já que a só uns poucos quilómetros começavam a sair textos celtibéricos. Nom podia suspeitar que o céltico fosse algo assim tam próximo.

 

– O seu nome é um dos grandes nomes por trás do Paradigma da Continuidade Paleolítica (PCP) que defende, entre outras cousas, umha origem local, gradual e muito mais antiga do comummente aceitado para as línguas e culturas europeias.
Apesar da crescente acumulaçom de evidências, como é que há tantíssima reticência ao PCP nos círculos académicos convencionais? É realmente um problema estritamente científico?

A minha resposta aqui será necessariamente muito subjetiva, mas sincera. Direi o que realmente acredito: porque os principais defensores do novo paradigma somos espanhóis, franceses, italianos, portugueses… Creio sinceramente que se a nova proposta tiver emergido em inglês nos Estados Unidos ou no Reino Unido a situaçom seria bem diferente.
Infelizmente os problemas científicos, quando menos nas ciências humanas, nom som quase nunca estritamente científicos. Há interesses das grandes corporaçons académicas e de poderosas editoriais. A disciplina da História da Ciência fornece inúmeros exemplos de teorias que foram mesmo ridicularizadas inicialmente porque se opunham à doutrina oficialmente estabelecida, e que posteriormente resultaram corretas. Mas como cientista devo ser otimista, acreditar que mais tarde ou mais cedo há triunfar a razom.
Isto é especialmente verdade para a ciência humanística (ou como quer que se lhe quiser chamar) onde a diferença da física, medicina, química ou tantas outras, nom dispomos do método experimental. Nós só podemos tentar explicar muito mais e melhor. Umha boa teoria deve ser preditiva e produtiva e, em verdade, em trinta anos crescemos espetacularmente nesse sentido, sem mais ajuda do que a razom e a argumentaçom.

 

– O Prof. Benozzo, seguindo tamém a linha do PCP, afirma que a Gallaecia, o noroeste peninsular, é a origem primeira do todo o celta. De onde é que vem entom o prejuízo em relaçom à celticidade da Galiza?

O meu bom amigo Francesco [Benozzo], extraordinária personalidade no científico e no artístico, é único. Ora bem, eu agora nom seria tam preciso.
Nom há dúvida de que geneticamente a Península Ibérica constitui um dos principais refúgios de populaçom humana na fase mais dura da época glacial. Daqui saiu umha grande quantidade de gente que, graças à pegada genética, sabemos que repovoou grande parte da Europa.
A posiçom actual do PCP, e por isso é um paradigma flexível e nom umha teoria rígida e dogmática nos seus detalhes, é que aquelas pessoas depois serám essencialmente os celtas, isto é, os falantes históricos de línguas célticas. Mas se foi a zona galaica exatamente ou mais bem a cantábrica ou toda a regiom setentrional é algo que, acho, nom estamos ainda em condiçons de precisar. O que sim defendemos com múltiplos e variados argumentos é que, se a nossa proposta for certa, ainda que as falas célticas foram aqui absorvidas polo latim, a Galiza nom teria umha celticidade emprestada, mas genuína, milenar, e obviamente ainda presente em muitos outros aspetos da tradiçom e da cultura.

 

– Seria necessário ou teria sentido a criaçom dumha cátedra de estudos célticos na Galiza?

Cátedra universitária? Em princípio parece umha boa ideia mas… O primeiro é colocarmos em ordem a instituiçom. Se para uns poucos lugares do mais modesto trabalho encontras com um monte de gente em concurso público desde há anos e, em troca, o acesso a funcionário universitário faz-se sem competência e por um sistema onde se valoram cotas, cargos e outros méritos que pouco ou nada tenhem a ver com o científico… Na universidade umha cátedra de “Estudos Célticos” nom garante que vaia haver estudos célticos.
Por exemplo, em Valência criara-se umha muito restritiva cátedra de “Línguas Pré-Romanas da Península Ibérica”, cátedra ad hominem para certo e influente sujeito, muito mais conhecido polos seus pedantes versos que polas suas investigaçons, e depois jamais lecionou nem a primeira aula na matéria. Só em 1998, após a minha incorporaçom a essa mesma universidade, pudemos ministrar um par de cursos. Depois de eu ganhar a cátedra de Filologia Latina em 1994 por concurso público, a universidade atendeu a reclamaçom do candidato local e, seguido dum longo litígio, voltou a oferecer a mesma cátedra, mas esta vez com o mais restritivo perfil de “Latim dos Cristaos”, pois o candidato que o impugnara era sacerdote. Ganhei novamente mas, como nunca existira tal matéria, levo 20 anos sem poder dar essas aulas.
Assim, temo muito que qualquer um com os contactos ajeitados pudera obter facilmente umha cátedra de “Estudos Célticos” para depois usar o seu tempo noutros assuntos. Na actual situaçom acho que criar tal cátedra comportaria um grande risco.

 

– Na sua iminente visita a Pitões vai-nos falar de mitologia… Sem desvelar muito, que podemos aguardar da sua palestra?

As duas ideias principais que desejo transmitir é que acreditamos saber agora com certeza que muitos dos nossos mitos remontam ao Paleolítico Superior e que, precisamente a Gallaecia, entendida como o quadrante noroeste da antiga Hispânia, conservou notáveis arcaísmos por toda umha série de razons.
Umha grande contribuiçom linguística do chorado mestre Mario Alinei foi mostrar o valor dos dialetos, do rural, humilde e periférico, pois polo seu carácter conservador podiam preservar componentes paleolíticos por exemplos nas suas motivaçons semânticas. Até Alinei acreditava que nestes casos podia-se chegar até época medieval.
Já intuímos que a mitologia, entendida genericamente como um conjunto de crenças, contos, superstiçons, etc, podia remontar igualmente a época paleolítica. Contudo, nom podíamos suspeitar (isto é preditividade) que haveria umha evidência tam clara e maciça (isto é produtividade) e que indiretamente isto tudo constituiria um apoio ao PCP. Quer dizer, os mitos se atualizam e, além disso, misturam-se mais do que as línguas e as línguas mais do que as raças. Assim, se o continuum mitológico, apesar da sua maior contaminaçom, pode se remontar ao Paleolítico, como nom iam poder fazê-lo os continua linguísticos?

 

– Entom, especificamente, como pode contribuir a antiga Gallaecia a esta nova argumentaçom e endossar as posiçons do PCP?

Muitíssimo. Na Gallaecia, temos um amplo observatório de antiquíssimos mitos e crenças, umha reserva extraordinária, com a particularidade de esta tradiçom estar perfeitamente viva para grande parte da populaçom. É um valor 10 no quantitativo e outro 10 no qualitativo.
Resulta que, por causa das suas vicissitudes históricas e da sua localizaçom no “cabo do mundo” do grande continente euro-asiático, a Gallaecia preservou em boas condiçons estádios mais primitivos de muitos mitos primordiais, como esse mesmo que acabo de nomear de “fim do mundo”, e muitos outros.
Disto tudo aguardo poder falar em mais detalhe com os amigos e amigas de Pitões.

 

NOTA: Este texto foi publicado primeiramente em Desperta do Teu Sono (23 Abril 2019).

 

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O celtismo galaico hoje: reportagem e entrevista com o Durvate Mor

O jornal galego em linha Adiante.gal teve a feliz ideia de publicar umha interessantíssima reportagem sobre o celtismo na Galiza recolhendo algunhas das vozes actuais no mundo da investigaçom, divulgaçom e cultura da nossa terra.

O autor do texto, Antom Santos, tentou assim compilar, contrastar e actualizar as posturas e opinions sobre esta questom a dia de hoje, e por isso agradecemos que contara tamém com o Durvate Mor da IDG.

Assim, deixamos aqui a ligaçom à reportagem original, que recomendamos ler com detalhe e atençom, e colocamos a seguir a entrevista entre o Antom e o Xoán que serviu de base para extrair algumhas das citas que lá se colocam.

Bem haja pola difusom!

Entrevista na íntegra:

– Desde a tua experiência no estudo ou relaçom com o celtismo a que conclusom podemos chegar a inícios do século XXI sobre a celticidade da Galiza? Podemos aventurar umha tese forte ou continuamos na indefiniçom?

Na posiçom que defendo, baseada em evidências científicas, considero a Galiza e Norte de Portugal como a origem do celtismo e, portanto, referência primordial no entendimento dessa cultura.

Hai quem enche a boca falando das claras origens “ancestrais”, “pré-cristás” ou “pré-romanas” de inúmeros aspectos do nosso folclore e cultura tradicional, mas rapidamente recorrem a esses eufemismos, evitando o termo “celta”, quando som confrontados com equivalentes inequívocos noutros lugares. Ficam na anedota, na explicaçom isolada do particular, e nom acodem a um modelo de interpretaçom geral, abrangente, dentro do nosso marco geográfico natural que é a Europa atlântica.

Entom, a indubitável continuidade da cultura europeia atlântica já desde o Megalitismo até o de agora é um facto, independentemente do nome. Porém, penso que o adjectivo “celta” é totalmente válido como resumo e identificador facilmente reconhecível de todos os traços que componhem essa cultura específica nesse marco territorial preciso.

 

– Em que medida os avanços académicos e tecnológicos das últimas décadas ratificam ou questionam o dito por clássicos como Murguia ou Cuevilhas?

Cuido que ratificariam o peso que eles mesmos davam ao nosso passado celta, confirmariam a existência dumha civilizaçom como tal, como lhe chamou Cuevilhas. Mas, como pioneiros que eram, trabalhavam com o conhecimento e técnicas da sua época e eram, logicamente, vítimas de determinadas ideias do seu momento como por exemplo a perspectiva “invasionista”, onde os celtas seriam um povo fundamentalmente guerreiro que desde o centro da Europa ocuparia o resto do continente de leste a oeste, mais ou menos violentamente. Essa é umha visom já totalmente desbotada pois agora vai-se defendendo tudo o contrário.

De facto, tivo que chegar o século XXI para começarmos a relacionar e combinar as descobertas linguísticas, arqueológicas e genéticas produzidas até entom de forma independente. Essa acumulaçom de conhecimento explode a partir do ano 1996 com a primeira apresentaçom da chamada Teoria (agora Paradigma) da Continuidade Paleolítica, que se consagra a partir do 2000 graças às provas vindas do campo da genética.

Gente como Murguia, Pedraio ou Cuevilhas teriam adorado saber o que sabemos agora, e abofé actualizariam as suas posturas. Mas claro, tamém chegamos aonde estamos por pessoas como eles. Na sua honra está o estudo honesto do celtismo desde umha perspectiva cada vez mais séria, mais científica, abrindo caminhos. E o trabalho continua.

 

– Como estudioso e divulgador da religiom galaica, em que medida podemos relacionar o que sabemos dos nossos deuses antigos com a religiosidade doutros países da Europa atlántica?

Na comparança das figuras e funçons das Deidades, representaçons artísticas, sincronicidade dos calendários, combinado com os princípios éticos e filosóficos transmitidos nas tradiçons, contos e lendas, observamos um fio condutor entre todos os povos celtas, umha base original forte e decididamente comum. Aí encaixa perfeitamente o que imos sabendo da religiom galaica pois, mais umha vez, muito possivelmente aqui estivera a origem do resto.

Podem mudar nomes, epítetos, podem-se encontrar agora cultos deturpados ou sincretizados, mas o impulso primeiro, o ensinamento profundo, a sensibilidade, é sempre a mesma. Somos espelhos na história.

Aliás, é aceitado que se bem no mundo céltico nom existia umha unidade política, sim existia umha unidade institucional, quer dizer, umha lei e umhas crenças comuns perfeitamente definidas e estáveis. Noutras palavras, cada tribo ou grupo poderia ter os seus próprios interesses económicos ou de poder, mas todos respondiam a uns mesmos códigos legais, éticos e obviamente religiosos.

 

– Além dum celtismo ‘arqueológico’, ou de evidências genéticas de movimentos de populaçom da Galiza para o norte, poderíamos falar dumha espécie de celtismo ‘antropológico’? Refiro-me a elementos da cultura material que pervivírom até a industrializaçom, tradiçons, festejos, e (a risco de cair o idealismo) traços de carácter.

Sem dúvida, e para mim isso é fundamental porque representa a cultura viva, o nosso dia a dia percebido através dum prisma único e particular. Quanto mais se aprofunda no estudo antropológico comparado com o resto da Europa atlântica mais evidente resulta isto tudo.

Hai realmente tantos exemplos, grandes e pequenos, que resulta patente que nom podem ser explicados de maneira individual. Dumha matriz comum vam ficando restos aqui e acolá, desde a “Solta do Rei Charlo” (a carriça) na Lourençá, que encontra um paralelo directo manifestamente celta no “Dia da Carriça” irlandês, até toda a ampla temática do relacionamento com a morte e o Além, incluindo elementos como a famosa Estadea ou Santa Companha. É um sem fim.

Falando de carácter, e por colocar outro exemplo, o genuíno humor galego é irlandês, a retranca, volta ser um espelho quase perfeito.

 

– Semelha que um tipo de celtismo literário-cultural, que nasce no romantismo, tivo certo sucesso na construçom da identidade galega contemporánea. A que se deve o êxito?

Isso é algo frequentemente explicado como umha procura de referentes dignificadores da nossa história e personalidade nacional num período determinado, pois já sabemos que a historiografia espanhola tradicional sempre tentou o possível para fazer-nos de menos em todas as frontes. Logo tem sentido a reacçom correctora.

Logicamente, nesse processo a potência do celtismo tinha que agromar dalgumha forma embora fora exageradamente adornado, romantizado, idealizado e tomado no começo com bastante pouco rigor. Mas a sua “descoberta” foi motivo de orgulho, é claro.

Contudo, isso encetou a possibilidade de lidar com um tema quase esquecido a níveis populares mas é que, em verdade, praticamente toda a história galega estava esquecida fora dalguns eruditos.

 

– Como um dos protagonistas da popularizaçom do nosso património, qual pensas que é o papel do elemento celta (mítico ou nom) à hora de fazer que tantos galegos se volquem ao interesse polo próprio? É central ou perdeu peso em favor dumha identidade mais volcada a outras achegas (galaicos, suevos, reino medieval)?

Para mim o elemento celta é consubstancial à Galiza, umha cousa nom pode ser entendida sem a outra. É factual. No conhecimento das nossas origens, evoluçom e história o celtismo nom pode ser simplesmente ignorado. O seu papel é fulcral, pois sem ele a nossa compreensom e interpretaçom da Galiza ficaria eivada.

Temos pois que reclamar isso sem medo na reconstruçom da nossa identidade completa, sem recortes nem saldos, onde evidentemente encontramos outras muitas achegas de enorme importância. Mas tudo soma, nada é incompatível pois isso tudo deriva em nós.

Seja dito que tristemente nalguns sectores este tema continua sendo quase que um tabu, umha palavra maldita, quando deveria ser tratado e investigado com total normalidade.

 

– Crês que a paixom militante ou política que está por trás de parte do celtismo alimenta ou deteriora a pesquisa ‘objectiva’?

Sim, e isto conecta com o que acabo de dizer: falta normalidade. É como o tema da língua, onde é preciso que seja vista como um património colectivo, um bem comum a proteger e potenciar por cima de qualquer tendência, partidismo ou inclinaçom, nom algo para ser usado quando toca num sentido ou noutro por interesses espúrios.

A pesquisa objectiva do celtismo, ou de qualquer aspecto da nossa história, cultura e sociedade, deveria ser (repito-me) normalizada. O debate deveria fluir com vontade construtiva, trabalhando juntos em novas achegas a partir do que já foi feito.

Entenda-se-me bem, foi essa paixom e o trabalho nas margens (quando nom vindo directamente desde fora das nossas fronteiras) o que permitiu que o celtismo chegara até aqui umha vez ridicularizado nas aulas galegas, mas eu adoraria que nom fora precisa tanta “paixom militante” na procura dumha divulgaçom sensata, seja no celtismo, na língua ou no que for. Dito doutro jeito, hai muito trabalho a fazer para andarmos às voltas com lérias que deveriam estar superadas. É cansativo, umha perda de tempo valiosíssimo.

 

– Que lhe dirias à gente que caricaturiza o druidismo actual como umha impostura ou umha extravagáncia (mesmo no campo galeguista)?

Que rejeitaram as daninhas apariçons grotescas e desinformadas nos mídia e que foram à raiz da chamada “renascença druídica”, um movimento que tem já 300 anos e que se bem agromou entre as brétemas do romantismo do que falávamos antes, tem evoluído e madurado muitíssimo à par dos avanços académicos.

Apliquemos aqui novamente o que é normal noutros lugares: se antes do cristianismo havia umhas crenças nativas nestas terras, quais eram? eram comuns? que nome recebem habitualmente? por que nom reclamarmos entom o que tamém é nosso sem vergonha?

Hoje em dia existem muitos grupos sérios, de reputaçom impecável e com umhas trajectórias bem definidas e consolidadas em todo o mundo. Na Galiza e Norte de Portugal, por exemplo, a Irmandade Druídica Galaica fai a sua apariçom pública em 2011 e em 2015 é legalizada como entidade religiosa oficial. Em todos estes anos tem estabelecido contactos com grupos afins a nível internacional criando umha rede de investigaçom, partilha e amizade, graças à qual a Galiza está já considerada como umha peça fundamental na tradiçom druídica.

Assim, a essa gente diria-lhe tamém que abandonara os seus prejuízos, a poder ser a coberta cultural cristá que nos rodeia (mesmo os ateus), e que perguntara directamente e decidira depois quem é um “alucinado” e quem nom.
 

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Entrevista ao Durvate Mor na imprensa galega

A entrevista tal e como aparece no Novas Galiza, no. 159 (Setembro 2017)

Reproduzimos a continuação o texto completo da entrevista realizada ao nosso Durvate Mor (Arqui-Druida) /|\ Milésio no jornal galego Novas da Galiza.

Este é o texto original que, para a sua publicação em papel na contracapa do número 159 (Setembro 2017) do nomeado mensal, teve que ser editado por questões de espaço e desenho.

Agradecemos ao Novas da Galiza a amável publicação e ao entrevistador, Rubén Melide, o seu interesse e boa disposição.

“A religiosidade popular galega tem bem pouco de católica”
Xoán Milésio, Durvate Mor da IDG
Rubén Melide / Numa terra que através do tempo conservou uma espiritualidade paralela radicalmente diferente do cristianismo oficial, tinha tarde ou cedo que surgir um movimento organizado que fosse diretamente à raiz. É assim que na Galiza de hoje existe a Irmandade Druídica Galaica. Falamos com Xoán Milésio, Durvate Mor da IDG, de diversos aspetos da druidaria galaica.

– Como é que se começa a articular a IDG?

Formalmente nasce no 2011, partindo dumas condições anteriores onde se misturavam convicções e crenças pessoais com um renovado debate sobre o celtismo na nossa terra a raiz de novas investigações. Assim, surge também a necessidade de canalizar um sentimento e organizar as pessoas que o partilham, quando menos oferecer-lhes um lugar de encontro para continuarmos a aprendizagem entre todos e todas.
Esse sentimento era a evidência que, como noutros lugares da Europa, existia na Callaecia uma forma peculiar de ver o mundo, a vida e a morte, uma sensibilidade, uma espiritualidade nativa que como elemento antropológico fulcral necessariamente influiu e influi todo o devir posterior.
Daí, lentamente, a IDG foi madurando até a sua legalização como entidade religiosa em 2015, onde tomou sem vergonha esse adjectivo de “religioso” numa tentativa de exemplificar a seriedade do projecto apesar dos nossos muito humildes números e recursos.
Não esqueçamos, seja dito, que o conceito actual de religião é uma mera construção ocidental que começa no S.XVII e acaba de tomar forma só no S.XIX no ronsel do supremacismo cristão, mas é uma palavra que hoje em dia, nestes contextos, toda a gente percebe como algo minimamente organizado e com vocação de continuidade, e organicamente isso é o que é a IDG.

 

– No vosso web, dizedes nom elaborardes reconstruçons arbitrárias. Porém, ressuscitar, restaurar ou recuperar umha religiom autóctone (quase) desaparecida nom deve ser umha tarefa singela…

É certo que é muito complicado e há quem pense que é impossível, ou até algo de alucinados. Contudo, a verdade é que apesar das informações fragmentadas e da complexidade intrínseca também não é certo que saibamos tanta pouca cousa.
Tem-se dito e feito muito desde o primeiro ressurgir da Druidaria há [300] anos e afortunadamente contamos já com um importante corpo de estudos comparados, que são fundamentais neste tipo de temas.
Digamos que é um trabalho a vários níveis e prolongado no tempo. Começamos por uma análise da nossa própria tradição, entre estudos de antropologia, história, religiosidade popular, etc, que depois podemos contrastar nos mesmos termos com o que sabemos do nosso entorno geográfico natural, que não é outro que a Europa Atlântica.
Pouco a pouco é fascinante descobrir como há certos elementos básicos que encaixam, desde uma determinada ética a uma cosmovisão idêntica. São como peças dum puzzle do que todos temos umas poucas mas onde precisamos pô-las em comum para vermos a imagem completa.

 

– Sempre foi dito que nos territórios herdeiros da antiga Callaecia ficam muitos vestígios da antiga religiosidade pré-cristá, que frequentemente sofreram processos de sincretizaçom. Até que ponto os vossos cultos e formulaçons religiosas bebem destas fontes?

A religiosidade popular “pseudo-católica” – pouco tem de católico o chamado catolicismo galego, mália lhe pese a Martinho de Dume na sua tomba e aos seus herdeiros – frequentemente codifica crenças anteriores bem pouco cristãs. Isso é factual e é um fenómeno habitual entre religiões em contacto ou quando uma é imposta sobre outra.
O assunto é que essas crenças podem ser peneiradas tentando estabelecer a sua origem cronológica implementando, novamente, uma comparativa directa com outros povos europeus vizinhos. A informação derivada é altamente esclarecedora e, logicamente, de grande valor e utilidade para nós.

 

– A Irmandade partilha os princípios gerais da druidaria, também assumidos por outras comunidades druídicas arredor do mundo. Existe algum tipo de coordenaçom com algumha delas?

Existe na actualidade uma crescente comunicação e partilha fluída e directa entre entidades druídicas sérias, embora respeitando a idiossincrasia e total independência de cada uma delas. Existe, de facto, uma aliança internacional onde a IDG foi convidada a participar e que terá um grande encontro na Lusitânia em 2019. Lá estaremos grupos da Gália, Irlanda, Galiza, Brasil, Lusitânia, Itália, Catalunha, e quem fique ainda por se anotar. [ligação do evento]
Por certo, quando falamos de grupos “sérios” referimo-nos a grupos que observam e respeitam uma série de princípios básicos como por exemplo o não-comercialismo, não-racismo ou sexismo, não-proselitismo, com claro carácter ambientalista e sem interferências ou misturas doutros cultos, sem ecleticismos estranhos.

 

– Achegando-nos ao vosso portal web, vemos que celebrades algumha efeméride civil, como o 25 de julho ou o 8 de março, para além de defenderdes certos princípios políticos e sociais. O que tem a druidaria galaica de religiom política?

Por definição uma religião política são ideologias que pelo seu poder imitam as formas das religiões de estado ou adquirem a sua equivalência. Aí a Druidaria não tem nada de religião política, nem de religião de estado, pois defendemos a laicidade total e integral de qualquer estado ou organismo público.
Ora bem, a Druidaria não é um algo abstracto. Não é uma religião passiva ou contemplativa, nunca o foi, ao estar sempre vencelhada a uma comunidade, a um Povo, aos seus interesses e dignidade. A Druidaria não se entende em isolamento, sem a sua gente e o seu entorno, nem antes nem agora.
Evidentemente essa defesa activa do que consideramos correcto, aquilo que encaixa com os nossos princípios e ideais, pode ser entendida como acção política enquanto todo envolvimento social é política, também por definição. Mas é normal. Seria ilógico pensar que um grupo organizado – por muito pacífico ou apartidário que for, como o nosso – não tentara partilhar o que considera pode ser útil para a sociedade onde está inserido, sempre com uma atitude construtiva.
Por exemplo, se uma pessoa Druidista (crente) sabe de ou observa um acto injusto, já não é só o seu dever “civil” ou moral combate-lo, mas também religioso; se não fizera não seria Druidista. Bom, isto levaria-nos outra vez ao debate de que significa realmente a palavra religião…
Assim, há uma série de efemérides e actividades não religiosas nas que a IDG participa alegremente e que estará sempre disposta a apoiar e difundir. Voltando a uma pergunta anterior, o mesmo acontece com outros grupos druídicos sérios arredor do mundo nos seus respectivos territórios.

 

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