Assim foi a visita do Francesco Benozzo

Como muitos e muita saberedes, o 30 de Junho foi um dia histórico para nós, pois tivemos a honra de partilhar umha intensa jornada com o ilustre académico, músico e poeta (candidato a Prémio Nobel de Literatura) Francesco Benozzo.

Além desse evento específico, nos dias que partilhamos com o Francesco pudemos desfrutar mais umha vez da sua simpatia, humanidade e sabedoria. Foi um prazer recebe-lo e acompanhá-lo na visita a alguns dos lugares mais emblemáticos desta, muito possivelmente, mais velha parte da Atlantis da que fala.

Imos deixando por cá, entom, o áudio completo da palestra do Prof. Benozzo, intitulada “Os celtas atlânticos da Galiza e o mito da Atlântida: evidência científica para umha velha lenda?” e posterior debate (com desculpas pola pobre qualidade quando se fala desde o público).

Aguardamos poder subir o vídeo completo do seu magnífico e sentido concerto em harpa em breve… 😉

Novamente, um enorme agradecimento às perto de 50 pessoas que, entre umha cousa e outra, estivéstedes na tarde dum sábado de verám participando connosco com a vossa presença, debate, ideias e emoçons. Abofé que ninguém esquecerá esse dia facilmente!

Grande obrigado tamém a toda a boa gente do Centro Social GorgullónA.V. Eduardo Pondal pola disponibilidade e todas as facilidades; assim é tudo muito fácil 🙂

We proudly present the audio of the talkThe Atlantic Galician Celts and the myth of Atlantis: scientific evidence for an ancient legend?‘ by Prof. Francesco Benozzo, in English, with an introduction and translations into Galician.

For more information about him and this special event do not miss this (bilingual) interview.

Francesco Benozzo olha as mágicas Ilhas Cíes na sua visita ao antergo santuário do Facho de Donom.

 

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Entrevista: Benozzo, celtas e… Bowie – Interview: Benozzo, celts and… Bowie

[scroll down for English version] O Professor Francesco Benozzo (Módena, Itália, 1969) visita a Galiza este 30 de Junho para umha muito especial jornada de palestra e concerto na cidade de Ponte Vedra.

Apesar de ser a sua obra poética a base principal para as suas quatro nominaçons consecutivas a Prémio Nobel de Literatura, desta vez o Benozzo mostrará as suas facetas de reconhecido académico e músico aclamado.

Apresentamos agora umha entrevista para ir conhecendo mais o pensamento deste catedrático da Universidade de Bologna, intelectual anarquista e implacável buscador da beleza, tal e como o David Bowie que homenageia.

 

  • A palavra “Atlântida” aparece no título da sua palestra. Nom é isto um simples conto, um mito, um produto da imaginaçom?

Muitos exemplos de diferentes contextos mostram claramente que, desde umha perspectiva etno-filológica, deveríamos ser capazes de considerar qualquer documento como umha pista preciosa na reconstruçom dum sistema de percepçons, e tamém considerar a maneira na que o nosso cérebro foi moldado e “educado” para poder criar imagens e conexons entre elas.

O mito da Atlântida é um “relato”, claro, e precisamente por isso é que é um elemento realmente precioso no que eu chamo discurso científico, particularmente um filológico. Estou convencido da ideia de que os celtas provenhem da Galiza e Norte de Portugal e, como tais, forom assim identificados nas primeiras fontes escritas como os construtores da grande cultura megalítica atlântica. Isto, por sua vez, pode dar resposta (umha das possíveis respostas) à enigmática história da Atlântida narrada por Platom, mas nom só por ele.

O território de Ponte Vedra, por exemplo, guarda fragmentos de informaçom inesperados e decisivos do mito da Atlântida, indicando que este relato tamén lida com a história.

 

  • Com que confiança podemos acudir aos mitos na pesquisa e estudo da pré-história? Som realmente válidos?

Há muitos estudos de caso (poderia citar aqui a minha investigaçom sobre nomes de dialectos e lendas de megálitos nos países celtas) onde a existência dumha lenda ou conto dum antigo mito apoia as conclusons dos arqueólogos, e vice-versa.

Mas para mim, antes de mais nada, é importante mudarmos a nossa ideia estratigráfica dos mitos como pertencentes a umha cosmogonia, seguidos por lendas e depois por contos de fadas. De facto, há umha continuidade ininterrupta que nos permite considerar os etno-textos de hoje como pertencentes a um estrato ainda mais arcaico que os registos escritos de mitos ancestrais. Este é o ponto crucial da filologia moderna entendida como etno-filologia, que afecta assim tamém o nível linguístico de forma decisiva.

 

  • Você tem identificado a Galiza e Norte de Portugal – a velha Callaecia – como o berce da cultura celta. Quando é que podemos começar a falar dos e das celtas como umha cultura bem definida?

Os celtas eram os pescadores da fachada atlântica do Paleolítico tardio e do Mesolítico. Como mostrei em muitos estudos, estamos obrigados a datar a sua etno-gênese por volta de 15.000 anos atrás, no mínimo. Um grande número de elementos do léxico celta só pode ser explicado de maneira plausível dentro dessa estrutura pré-histórica.

 

  • Muitos ligam a cultura celta exclusivamente à língua e, portanto, neglicenciam outros aspectos que definem umha cultura como as crenças e cosmovisom, humor e psicologia, leis e costumes, paisagem cultural e apropriaçom do território, etc.
    Seguindo este razoamento, essas mesmas vozes afirmam que nunca existiu umha verdadeira “cultura celta” ou “civilizaçom” como tal, tam só umha colecçom de línguas inter-relacionadas nalguns territórios vizinhos e vagamente conectados.
    Que é o que pensa disso?

Conheço o problema, mas este é um tipo de linguística que nas últimas décadas, depois dos anos gloriosos quando forneceu amplos conhecimentos sobre diferentes culturas, esqueceu considerar que as línguas som só umha parte – mesmo se frequentemente a mais importante – do que agora chamamos “cultura” (desde umha perspectiva antropológica).

Seica muitos colegas, depois de ficarem “bêbados” com tantos cocktails baseados em teorias laríngeas, abstracçons algébricas e outros combinados tóxicos, esquecerom que por trás das línguas que estudamos havia e há pessoas vivas, e que por trás dos registos escritos e elitistas documentados em fontes antigas havia línguas faladas, transmitidas oralmente, possivelmente desde há milhons de anos.

 

  • Além do seu perfil académico, teremos a fortuna de desfrutar dos seus talentos musicais que já lhe trouxerom fama arredor do mundo. Há aqui umha pergunta obrigada entom: Por quê Bowie?

Porque ele representa dalgum jeito o oposto do que eu represento. Comecei a escrever um livro sobre ele que passeninhamente virou numha confrontaçom com a sua ideia de arte, poesia e o papel dos artistas nas culturas contemporâneas. Contudo, isto como que acabou por transformar-se numha de reflexom autobiográfica sobre a minha poesia e música.

Nunca fora um grande fã do Bowie, mas estudando as suas obras entendi que o que mais me atrai da sua arte é a sua busca obsessiva da beleza. Percebo-o como umha espécie de cavaleiro errante entregado à utopia, em contraste com as derivas da arte contemporânea cara mundos distópicos e percepçons distópicas do mundo.

 

  • Pode falar-nos sobre o processo de adaptar o Bowie a harpa céltica?

Houvo algumhas dificuldades técnicas. Por exemplo, as harpas célticas e bárdicas som instrumentos diatónicos, sem semitons nem meias-notas. Os arranjos e melodias do Bowie muitas vezes lidam exactamente com essas partes intersticiais do espaço musical. Isto significa que tivem que “secar” – se é que posso usar esse verbo – as suas cançons, tentando trabalhar etimologicamente nalguns casos, e depois traze-las outra vez ao seu possível “esquelete essencial”.

Mais do que umha adaptaçom eu diria que foi, e continua sendo, um diálogo.

 

  • Que descobriu nesta nova exploraçom da sua música que nom soubera antes?

Como comentei, nom sabia muito dele antes (e isso mesmo motivou o meu interesse nele). Mas tenho que admitir que, depois de ouvi-lo, estudar as suas entrevistas, ler grande parte das monografias escritas sobre ele, e depois de ter escrito eu um livro sobre ele e gravado um CD inspirado nas suas cançons, sei menos sobre ele do que sabia antes.

A sua arte é ampla e complexa e ainda representa um grande mistério para mim, talvez ainda mais irresolúvel que o mistério da Atlântida.

 

  • Tem explicado no passado como é que se vê a você mesmo como poeta, músico e académico tudo em um só. Como é de importante para umha pessoa tentar nom ser confinada a umha “categoria” de por vida?

Esta possibilidade é, talvez, a definiçom da própria vida. Acho que todos e todas nos percebemos dentro desta possibilidade aberta e irredutível de agirmos constante e simultaneamente (e entom sermos) diferentes aspectos do que somos. Esta é a única definiçom aceitável de unidade e de ser individual.
Cuido que é crucial olhar para nós mesmos numha perspectiva diferente – e às vezes a partir da perspectiva exatamente oposta – daquela na que vivemos. Lugares, pessoas e indivíduos só vivem dentro doutros lugares, pessoas e indivíduos, nunca ressonância contínua e criativa que dá sentido às cousas.

 

Em verdade nom o sei. Mas a minha verdadeira esperança seria encontrar o Sr. David Bowie enquanto falo sobre a Atlântica, e descobrir o mítico continente perdido enquanto canto e toco as suas cançons.

[English version] Professor Francesco Benozzo (Modena, Italy, 1969) is visiting Galicia on 30th June for a very special event encompassing a talk and a concert in the city of Pontevedra.

Although his four consecutive Nobel Prize for Literature nominations are mainly based on his poetic production, on this occasion he will present his talents as the acclaimed musician and respected academic he is.

Find below an interview to better know the thought of this Professor at the University of Bologna, anarchist intellectual and relentless seeker of beauty, just like the David Bowie he honours.

 

  • The word “Atlantis” features in the title of your talk. Is that not just a tale, a myth, a product of imagination?

A lot of examples from different contexts clearly show that – in an ethno-philological perspective – we should be able to consider any kind of document as a precious clue in the reconstruction of a system of perceptions, and also consider the way in which our brain has been shaped and “educated” in order to create images and connections among them.

The Atlantis myth is a “story”, of course, and just because of that it is a really precious element for what I call a scientific discourse, particularly a philological one. I am persuaded by the idea that the Celts do come from Galicia and North Portugal and, as such, were also identified in the earliest written sources as the builders of the great megalithic Atlantic Culture. This, in turn, can give an answer (one of the possible answers) to the enigmatic story of Atlantis as narrated by Plato, but not only by him.

The territory of Pontevedra, for example, guards unexpected and decisive fragments of information of the myth of Atlantis, indicating that this story also deals with history.

 

  • How reliable can myths be in the actual research and study of pre-history? Are they valid at all?

There are many case studies (I could quote here my research on dialect names and the legends of megaliths in the Celtic countries) where the existence of a legend or the tale of an ancient myth give evidence to the conclusions reached by archaeologists, and vice-versa.

But for me, first of all, it is important to change our stratigraphic idea of myths as ancient tales belonging to a cosmogony, followed by legends and then by fairytales. Actually, there is an uninterrupted continuity that allows us to consider today’s ethno-texts as even more archaic strata than the written records of ancient myths. This is a crucial point of modern philology understood as ethno-philology, thus most definitely affecting the linguistic level as well.

 

  • You have identified Galicia and North Portugal – the old Callaecia – as the cradle of Celtic culture. When can we actually start talking about Celts as a well-defined culture?

The Celts were the late-Paleolithic and Mesolithic fishermen of the Atlantic façade. As I have shown in many studies, we are obliged to date their ethno-genesis at about 15,000 years ago, at least. A great number of elements of the Celtic lexicon can only be plausibly explained within this prehistoric framework.

 

  • Many link Celtic culture exclusively to language, thus neglecting other aspects which define a culture such as beliefs and worldview, humour and psychology, law and customs, cultural landscape and appropriation of the territory, etc.
    Following this reasoning, those same voices claim that there never was a proper “Celtic culture” or “civilisation” as such, just a collection of related languages in some neighbouring and loosely connected territories, both in the past and today.
    What do you think of that?

I know the problem, but this is a kind of linguistics which in the last decades, after the glorious years when it brought a lot of knowledge about different cultures, has forgotten to consider that languages are only a part – even if often the most important – of what we now call “culture” (from an anthropological perspective).

It seems that many colleagues, after getting “drunk” from too many cocktails based on laryngeal theories, algebraic abstractions and other toxic mixes, have forgotten that behind the languages we study there were and there are living people, and that behind the written and elitarian records documented in ancient sources there were spoken languages, orally transmitted, possibly since millions of years ago.

 

  • Other than your academic side, we will be lucky enough to enjoy your musical talents which have brought you fame around the world. Yet, there is a compulsory question here: Why Bowie?

Because he represents in some ways the opposite of what I represent. I started writing a book about him which slowly became a confrontation with his idea of art, poetry and the role of artists in contemporary cultures. Incidentally, this also sort of became an autobiographic reflection about my poetry and my music.

I had never been a big fan of Bowie, but by studying his works I understood that what attracts me the most in his art is his obsessive search for beauty. I perceive him as some kind of knight errant devoted to utopia, in contrast with the drifts of contemporary art towards dystopic worlds and perceptions of the world.

 

  • Can you tell us about the process of adapting Bowie to Celtic harp?

There were some technical difficulties. For example, Celtic and Bardic harps are diatonic instruments, without semitones and half-notes. Bowie’s arrangements and melodies very often deal exactly with these interstitial parts of the musical space instead. This means I had to “dry up” – if I can use that verb – his songs, trying to work etymologically in some cases, and then bringing them back to their possible “essential skeleton”.

More than an adaptation I would say it was, and continues to be, a dialogue.

 

  • What did you discover in this new exploration of his music that you didn’t know before?

As mentioned, I didn’t know much about him before (and that did trigger my interest in him eventually). But I have to admit that, after listening to him, studying his interviews, reading the most part of monographies written about him, and after writing myself a book about him and recording a CD inspired by his songs, I know less about him than I knew before.

His art is wide and complex and it still represents a great mystery to me, maybe even more unsolvable than the mystery of Atlantis.

 

  • You have explained in the past how you see yourself as being a poet, musician and academic all rolled into one. How important is it for a person to try and not be pigeon-holed in one “category” for life?

This possibility is, maybe, a definition of life itself. I think that everyone perceives himself/herself inside this open-framed and irreducible possibility of constantly and simultaneously acting (and then being) different aspects of what she/he is. This is the only acceptable definition of unity and of individual being.

I find that it is crucial to look at ourselves in a different perspective – and sometimes from the exact opposite perspective – from the one where we are living. Places, people and individuals only live inside other places, people and individuals, in a continuous and creative resonance which gives sense to things.

 

I don’t really know. But my real hope would be to find Mr. David Bowie while talking about Atlantis, and to discover the mythical lost continent while singing and playing his songs.

 

por/by XMP

Galicia and Druidry (TV interview)

What is Druidry? What does it mean to be a “Celt” nowadays? Why is this relevant at all?
Druidry explains the deep spiritual connection between a people and their land, their past and their traditions. Being a Celt in the 21stC is gaining awareness of that ancient heritage and persevering in keeping it alive. Both aspects – Druidry and Celticity – are also a path into the future open to all. It is an example of how a society can embrace ageless but at the same time useful, forward-thinking values, and share them with the world.
Being a Celt is, then, studying, learning, respecting that past, but also reconstructing and living an identity in an educated and reasonable manner, establishing links with akin communities and individuals. Druidry is probably the best option to do that when that fond feeling emanates from the soul and the heart.
It is not only about what was, but what is, and what we want it to be for the times to come.
Welcome, fellow Celts, wherever you may be from.
(More information in English at our specific English page.)

NOTE: This interview is part of  the TV show “Spectacular Spain” (S01 E06), first aired on Channel 5 (UK) on May 5th, 2017. Alex Polizzi talks to Xoán /|\ Milésio (Durvate Mór /Arch-Druid of the IDG). Reproduced here for educational purposes only. Subtitles in Galician-Portuguese by IDG.

 

[GL-PT] O que é a Druidaria? O que significa ser “celta” hoje em dia? Por que isso tudo é relevante em verdade?
A Druidaria explica a profunda conexom espiritual entre um povo e a sua terra, o seu passado e as suas tradiçons. Ser celta no S. XXI significa decatar-se dessa antiga herança e perseverar em mantê-la viva. Ambos aspectos – Druidaria e celticidade – som tamém um caminho para o futuro, aberto a todos e todas. É um exemplo de como umha sociedade pode abraçar valores eternos, mas ao mesmo tempo úteis, progressistas, e compartilhá-los com o mundo.
Ser Celta é, entom, estudar, aprender, respeitar esse passado, mas tamém reconstruir e viver umha identidade de maneira educada e razoável, estabelecendo laços com comunidades e indivíduos afins. A Druidaria é provavelmente a melhor opçom para fazer isso quando esse sentimento fundo emana da alma e do coraçom.
Nom é apenas o que foi, mas o que é, e o que queremos que seja para os tempos vindouros.
Bem-vindos e bem-vindas, amigas celtas, de onde seja que sejades.

NOTA: Esta entrevista é parte do programa de TV “Spectacular Spain” (S01 E06), emitido originalmente em Channel 5 (UK) o 5 de Maio de 2017. Alex Polizzi fala co Xoán /|\ Milésio (Durvate Mór da IDG). Reproduzido aqui apenas para fins educacionais. Legendas em galego-português da IDG.


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