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Defender o sagrado

Reproduzimos a continuação um artigo de opinião publicado originalmente em Diário Liberdade (12 Janeiro 2017). Esta é uma breve reflexão do nosso Durvate Mor sobre a visão religiosa/espiritual de temas de actualidade, o seu tratamento nos mídia e certos preconceitos ocidentais ainda presentes até nos círculos mais progressistas.

 

A vida, a liberdade, a terra e a natureza, os nossos direitos, a justiça social, os seres queridos… Poderíamos fazer uma lista de tudo aquilo sagrado para nós, tudo aquilo ao que nunca renunciaríamos e defenderíamos com todas as nossas forças, tudo aquilo com que nos importamos e até nos define como pessoas no seu exercício ou na sua mera defesa. Não é para menos, é sagrado.

Não vamos entrar agora em etimologias do “sagrado” além da obviedade de que é palavra bastante anterior ao cristianismo. Isto é importante para o que vem a seguir.

Nos últimos tempos tem havido um certo seguimento informativo dos graves acontecimentos ocorridos no território Sioux de Standing Rock (Dacota do Norte e do Sul, EUA). Isto é, a tentativa de construção dum oleoducto na zona – considerada sagrada e de alto valor ecológico – levou à mais grande revolta nativa norte-americana desde o S.XIX e à sua repressão com brutal força, ainda que parece que os poderes de turno achantaram por enquanto perante a valente e decidida resistência.

Contudo, um facto interessante a ser analisado é parte do tratamento dessas notícias: É frequente encontrarmos referências na imprensa generalista a essa sacralidade dos lugares defendidos, às crenças dos povos nativos, mesmo às suas profecias, etc. Dito doutra forma, o elemento simbólico-religioso é tomado com naturalidade, como mais uma parte da campanha cívica e política, um elemento indissociável dessas culturas. Dá-se como natural, incluindo na mídia de esquerda, habitualmente cauta com estes temas, a correlação cultura-espiritualidade.

“Defender o sagrado não é delito”, lia-se. “A água é vida”, berravam entre porrada e porrada. “Tronçaremos a serpe preta”, desafiavam. “Pelas nossas raízes e pelas nossas sementes”, orgulhavam-se.

Poderíamos imaginar algo similar aqui? Que sucederia se na defesa dum bem natural, cultural ou patrimonial galego alguém insistira na sua “sacralidade” mais alá do retórico como um dos seus elementos definitórios?

Pois, quando aparecem tais palavras nas nossas coordenadas o primeiro que vem à mente seguramente é a catedral de Compostela e algum bispo ou similar, não é? Nesse caso, a verdadeira pergunta deveria ser se o cristianismo infligiu assim tanto dano que não somos capazes de distinguirmos entre uma série de assuntos.

Não gosto, mas na Galiza actual religião ainda equivale a cristianismo – nomeadamente catolicismo apostólico romano – mesmo para as pessoas ateias (uma outra ideia estritamente abraâmica-ocidental tal e como é comumente entendida). É dizer, muitas das nossas referências e comportamentos adquiridos são essencialmente católicos, directa ou indirectamente, e por isso é tão complicado rachar com a sua subliminal influência: medos, pecados, patriarcados, imperialismos, supremacismos e auto-limitações pessoais. Normalmente é mais fácil mudar de convicções políticas que descristianizar-se por inteiro.

Isto deriva também em interpretações erradas ou em ignorarmos realidades que condicionam a nossa percepção das religiões em geral (organizadas ou não), ou da espiritualidade, que são cousas diferentes. Por poder até pode haver espiritualidade ateia. A sério. Desde o Xintoísmo até o Vipassana (mindfulness para os hipsters), o panteísmo científico ou o que dizia Carl Sagan. Só temos que desfazer-nos do nosso condescendente eurocentrismo e catolicismo social durante um tempinho. O conselho também é para aplicar se algum dia realmente sonhamos com ser País acolhedor e integrador doutras gentes e culturas.

Os Sioux não estão isentos de cristianismo, por suposto, mas não perderam assim tanto o elo com a sua tradição íntima, e o protestantismo é tão variado e relativamente recente que não lhes deu feito. Claro, é como nós com o “nosso” peculiar catolicismo, seja dito, equivalente a um falar espanhol de sete vogais e gheada(*).

Desculpas. Divago.

Que aconteceria pois se além da defesa de algo porque é justo e lógico acrescentáramos um valor emocional, puramente subjectivo e vizinho da crença aborígene? Se na protecção do nosso procuramos sempre uma acumulação de razões e forças, porquê renunciarmos a todos os ângulos e ferramentas vindas de vozes amigas? Limitaríamos a livre consciência? Que se passaria, em definitiva, se formos tão agudos como a Grande Nação Sioux e utilizáramos todas as armas surpresa ao nosso dispor? A reacção abofé que seria interessante de observar.

Em resumo, como crente de algo minoritário entre o minoritário (por muito enxebre e genuinamente galaico que for), e decididamente distante do cristianismo, posso defender o meu sagrado?

Nativos e nativas somos, em qualquer caso, duma cultura ancestral que confiava na terra e sonhava com as estrelas e o mar.

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(*) Nota para pessoas não-galegas: Fenómenos fonéticos próprios da fala galega que são conservados mesmo na fala em espanhol, isto é, falar espanhol com sotaque e entonação tipicamente galega.

 

Artigo em pdf >aqui< (50 kB)

É oficial – It’s official

IDG_oficial

Detalhe da inscrição no R.E.R.

Depois dum longo processo, podemos comunicar que a Irmandade Druídica Galaica é já uma entidade religiosa oficial, registada legalmente com Ministério de Justiça (espanhol) que é, para o nosso caso, a autoridade de turno competente em território galego para estes assuntos.

Assim, com o número de registo 022549, a IDG passa a contar com personalidade jurídica própria, atribuições e protecção legal a nível internacional. Aliás, pode-se dizer que – já não são desde um ponto meramente simbólico – a Druidaria é uma crença oficial e legalmente estabelecida em território galego[1].

After a long administrative process, we can now announce that the ‘Pan-Galician Druidic Fellowship’ is an official religious association. With registration number 022549, the IDG acquires full legal status and protection. Druidry is, therefore, an officially and legally established belief in Galician territory.

Houve debate sobre a necessidade ou não de darmos este passo, esta formalidade administrativa que publicamente nos apresenta perante o poder estabelecido. Contudo, a conclusão foi que os benefícios da tal “legalização”, não como associação cultural nem nada parecido, senão como grupo religioso formal, não só enviaria uma poderosa mensagem, senão que protegeria – quando menos no papel – a nossa prática pública e direitos dos nossos e nossas Caminhantes, tanto ou tão pouco como qualquer outra religião ou crença.

A IDG via a luz pública no Magusto de 2011 com a vocação de pôr em contacto e fornecer informações a todos aqueles e aquelas interessadas na Druidaria Galaica, actuando como um simples nexo de união virtual. Desde aquela, a IDG foi muito lenta e humildemente, mas também com passo firme, crescendo de forma natural – com certeza que sob o olhar da Deusa Íccona Loimina. Foi em Março de 2015 quando os seus estatutos e outros documentos relevantes foram depositados perante Notário e formalizados como parte de um Documento Público, passo requerido para depois serem imediatamente apresentados no tal Ministério, onde a IDG foi inscrita no último dia do mês de Junho. A notícia chegou até nós só a finais de Julho, completando um parêntese entre Bel e Lugus, entre luz e luz, com solstício no meio, dando-nos ainda mais um motivo de celebração nesta Seitura.

Porém, isto não significa que a IDG vaia mudar a sua forma de operar, nem vai afectar as nossas crenças nem valores, nem como nos relacionamos com o resto. Este facto simplesmente acrescenta a capacidade de podermos defender as nossas ideias e princípios estabelecidos nos nossos estatutos, se for preciso, com todas as ferramentas existentes ao nosso alcance dada a conjuntura histórica. Continuaremos como sempre, passeninhamente, no percurso seguido até o momento, sem mais.

Relacionado com isto, e se bem existe uma protecção internacional como foi comentado, é certo que administrativamente este reconhecimento da nossa religião nativa é plenamente válido na totalidade do actual Estado Espanhol, onde a Galiza fica inserida, mas não na metade do velho território galaico que fica dentro do Estado Português. Trabalharemos para no futuro poder fazer com que a IDG e toda pessoa que quiser praticar a Druidaria Galaica não tenha que pensar de que lado da “raia” está.

Por último, queremos fazer público o nosso grande agradecimento a duas organizações amigas: a Hermandad Druida Dun Ailline e a Orden Druida Fintan, ambas da Catalunha, e nomeadamente às suas Arqui-Druidesas, Marta Seanoir Rifennid Vey e Esther Euentia, pelo seu inestimável apoio desde o começo e ajuda desinteressada. Abofé que figeram a nossa vida mais fácil! 🙂

Que Íccona Loimina continue a nos sorrir. A ela nos consagramos na nossa criação, com ela continuamos cavalgando.

 

[1] Definição de Druidaria segundo o “Observatorio del Pluralismo Religioso” espanhol (actualizado no 27/09/2015).