FAQ

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Perguntas frequentes ou ‘FAQ’ (acrónimo do inglês “frequently asked questions”)

Tens alguma pergunta ou dúvida sobre Druidaria ou a Irmandade Druídica Galaica que não vês aqui? Contacta connosco e iremos melhorando esta página com a tua ajuda.

 

  • Que é a Druidaria?

A Druidaria (‘Druidismo’) é uma religião e filosofia nativa da Europa que tem as suas origens nas crenças dos povos celtas. Para mais informação ver >aqui<.

 

  • Por que Druidaria e não Druidismo?

Ambas formas estão espalhadas e são usadas e entendidas, mas tende-se a perceber o Caminho druídico como algo fluido, que recolhe a prática ademais da crença, uma dedicação, não um algo rígido muitas vezes associado ao sufixo “-ismo”. A mesma dicotomia existe entre os termos em inglês Druidry (a “-aria”) e Druidism (o “-ismo”), onde Druidism foi popularizado em determinada altura mas a nível internacional fala-se normalmente de Druidry.

 

  • Sou crente na Druidaria e concordo com todo o que aqui se diz. Já sou Druida/Druidesa da IDG?

Não. Os títulos de Druida/Druidesa (Durvate ou Durbede) fazem referência a uma categoria sacerdotal. Acorde com a IDG (e não só), por ser crente ou seguidor duma religião ou filosofia um indivíduo não se transforma automaticamente em sacerdote ou sacerdotisa, nem podem ser estes títulos auto-atribuídos. O/A Caminhante deve empreender um processo formal de iniciação. Mas o mais importante é que sejam admitidos como homens e mulheres de saber – inspiradores de confiança – entre a sua Comunidade. A IDG considera este critério de reconhecimento da Comunidade e serviço a ela como fundamental para a posterior consecução do seu programa de estudos e eventual ordenação.

Como dado significativo apontar que os aprendizes de Druidas e Druidesas clássicos dedicavam até vinte anos da sua vida ao estudo e preparação, baixo tutoria estrita, antes de poderem utilizar esse nome. Algumas vezes era mesmo requerido que viajassem e peregrinassem.

 

  • Que significa “Durvate”?

Durvate é uma maneira galaica de chamar aos Druidas e Druidesas. É um nome contemporâneo adaptando a forma antiga Durbede, para assim marcar a distinção temporal.

Esta forma deriva de durbed-, à sua vez surgida a partir dum étimo dru-weyd-; dru, dur e derw significam “árvore” (nomeadamente carvalho) e weyd ou wid “conhecer”, “saber”. Uma Durvate ou Druidesa é assim “a conhecedora do carvalho”, a árvore mais sagrada junto ao teixo.

A forma dru-wid daria na Irlanda druí e na Gália druides, e a variante derw-wid passaria a derwydd em Gales e dorguid na Bretanha. Na Galiza seria dru-weyd- > druwēd > durwēd > durbēd > durbe(t/d)e > dur(b/v)ate.

 

  • Não é a Druidaria uma moda “New Age” ou ecologismo pseudo-espiritual?

A Druidaria é profundamente ecologista (e panteísta), mas não só. A Druidaria tem uma série de princípios éticos com carácter religioso que excedem o estritamente relacionado com o ecologismo, se bem a Natureza e a sua reverência é a fonte de inspiração primordial. Além disso, a Druidaria é uma religião com milhares de anos de antiguidade, e os/as crentes actuais baseiam as suas ideias nesse saber antigo, crenças que na maioria de casos estão perfeitamente definidas e delimitadas; não é um “vale tudo” sem concretização. A Druidaria reconstrucionista, como é o caso da IDG, procura vias de investigação e interpelação próprias na sua história, entorno e saber popular, não numa difusa mistura de ritos é filosofias várias, desleigadas, sem adscrição ou sem aplicação prática.

 

  • É a Druidaria o mesmo que a Wicca ou Wicca Celta?

Não. A Wicca tem a sua própria liturgia, deidades e crenças, que não são as mesmas que as druídicas. A cosmovisão é totalmente diferente. Algumas variantes de Wicca são chamadas de “Céltica” ao incorporarem deuses, deusas e nomes de rituais célticos, mas esta afinidade não deixa de ser puramente denominacional. Mesmo a história – aparição e evolução – de Druidaria e Wicca são muito diferentes, apesar de poder existir uma relação amigável e fluída entre grupos wiccanos e druídicos hoje em dia.

Para mais informação recomendamos a leitura dum artigo que anda pela rede chamado Why Wicca is not Celtic Druidism.

 

  • É a Druidaria o mesmo que o culto Asatrú ou o Odinismo?

Não. Como no caso da Wicca, são religiões com ritos, crenças, celebrações e panteões diferentes. Ainda que, seja dito, existam certas semelhanças entre o Odinismo e a Druidaria, muitas delas vêm dadas por simplesmente serem ambas as duas tradições europeias denominadas “pagãs” (isto é, autóctones, pré-cristãs).

Houve sim, ao longo do tempo, uma certa comunicação de mitos, lendas e intercâmbio espiritual, nomeadamente entre povos germanos e célticos vizinhos, ou que entraram em contacto; essas influências depois se espalhariam lentamente. No caso da Galiza a chegada dum significativo contingente Suevo no S. V – politicamente muito relevante mas que cedo se “assimilou” – pode que contribuíra com certos elementos das suas crenças à religião preexistente.

Em qualquer caso, tanto daquela como a dia de hoje Druidaria e Odinismo são cousas claramente diferentes.

 

  • Posso ser crente druídico e ainda cristão?

Não. Pode-se repetir o que foi apontado para Wicca e Odinismo.

Druidaria e Cristianismo não têm vínculos além da convivência geográfica e as cristianizações ocorridas no devagar do tempo sobre as expressões religiosas dos povos célticos, incluindo a “conversão” e adaptação de Druidas dentro do seio do Cristianismo à sua chegada à Europa céltica. Desde um ponto de vista teológico são religiões muito diferentes; por exemplo, na Druidaria não existe um único deus supremo, ou criador, nem o conceito de salvação, pecado, revelações, verdades absolutas, santidade, milagres, ou tantos outras crenças e dogmas cristãos. Também na Druidaria o proselitismo é proibido, quando no Cristianismo é recomendado e encorajado. Filosoficamente a Druidaria não partilha com o Catolicismo – por usar o exemplo mais próximo ao caso galego – o papel do ser humano no Mundo e no Cosmos, a sua relação com a divindade ou transcendência, o sentido e significado do culto, a não ordenação de mulheres, o celibato dos sacerdotes, a visão da família, sociedade e sexualidade, etc.

Historicamente o Cristianismo provém de crenças e sucessos acontecidos no Médio Oriente, posteriormente institucionalizados no seio do Império Romano. A Druidaria é uma religião e filosofia autóctones da Europa céltica, com especial relevância na Europa Atlântica, coesa no passado mas não institucionalizada de acordo com os padrões empregados no Cristianismo. Isso só já marca diferenças na aproximação cultural e espiritual a conceitos místicos e transcendentes.

Evidentemente, toda a Europa está familiarizada a dia de hoje com o Cristianismo e esta religião tem uma importante pegada na cultura do continente (e os/as crentes druídicos não são excepção), mas isso não deve ser misturado em referência à crença e fé adquirida de forma voluntária e consciente. Algo diferente é para um cristão o estudar, informar-se e adoptar ou respeitar algumas achegas filosóficas da Druidaria que possa considerar válidas a nível pessoal – ou vice-versa – mas sem por isso mudar as crenças religiosas e pertença formal bem a uma Igreja Cristã ou a uma Ordem, Grupo, Arvoredo, Comunidade ou Irmandade druídica.

 

  • Qual é a visão da Druidaria respeito do sexo e preferências sexuais?

Os Druidas e Druidesas tratam o corpo, relações pessoais e sexualidade com atenção e respeito, a eles/as mesmos/as e aos/às outros/as. O sexo joga com umas energias poderosas a ser estudadas, reverenciadas e desfrutadas. Reverência não deve ser confundida com puritanismo ou excesso de pudor ou vergonha, ou com falta de intensidade. A verdadeira reverência é forte e sensual, com intenção e sentida, à vez que educada e amável. O ser humano integral é só se incorporar todos os elementos do seu ser natural, e isto inclui uma sexualidade sã que conduza a uma maior alegria e bem-estar para todos e todas.

A Druidaria prima a responsabilidade, honra e compromisso dos indivíduos e, portanto, aceita qualquer acordo, prática ou organização afectiva ou familiar que conte com o consentimento maduro e responsável de todos aqueles e aquelas envolvidos/as e que não cause mal a nenhum deles/as.

 

  • Acredita-se na Druidaria no Inferno, pecado, culpa, castigo divino…?

Não. A Druidaria acredita na responsabilidade dos nossos actos. Não há castigos nem recompensas, e por tanto aí reside a liberdade do ser humano: fazer ao sentir que tem que ser feito, não esperando nada em troques. É fácil ser bom quando se tem medo dum possível castigo ou se anseia um possível prémio. Mas um/a Crente fai o que tem que fazer porque assim o sente na sua responsabilidade, esse é o seu compromisso com o Clã, a sua palavra e acções são a sua honra.

A Druidaria não acredita na relação directa e automática entre acção negativa e castigo, mas sim na retribuição, isto é, em desfazer o possível mal feito por  um/a mesmo/a, restaurar a ordem, repor a harmonia. Não há pior castigo que a desonra, é dizer, fazer o que não se deve.

 

  • Não é o politeísmo uma volta atrás face o monoteísmo?

Existe a ideia infundada no mundo ocidental de que o politeísmo é uma fase “primitiva” e intermédia na evolução religiosa, proveniente do ainda mais “rústico” animismo, e que só pode acabar por culminar no “evoluído” monoteísmo, que à sua vez sempre conta com um ente criador supremo e externo ao resto do Cosmos. Isto acompanha-se frequentemente com o perverso axioma que equipara a evolução do pensamento religioso com o grau de evolução ou progresso cultural da sociedade a tratar.

Esta visão linear da religião é, sem embargo, falsa, e em absoluto partilhada noutras culturas, sistemas de crenças ou religiões. Por exemplo, a religião tradicional do Japão é o Xintoísmo, claramente animista, religião que os nipónicos não definem como tal senão como “espiritualidade”; eis um simples exemplo de como podem mudar os critérios e formas de ver as cousas.

A forma linear de perceber a espiritualidade e religião no mundo ocidental está fortemente influenciada por uns determinados cultos e crenças dominantes, mesmo supremacistas, sem mais reflexão nas camadas populares sobre questões místicas ou religiosas, como a possibilidade deste politeísmo ser a expressão de diversos aspectos da Natureza, por citar somente um ponto de interesse. Isto chega a influir mesmo nos chamados ateus, categoria claramente ocidental na acepção corrente, que muitas vezes surgem como reacção à pressão e abafo monoteísta, não a uma falta de espiritualidade ou, por exemplo, sentimento de conexão panteísta.

 

  • Qual é a diferença entre adorar e reverenciar a Natureza?

A Druidaria é panteísta (e monista) e portanto percebe a Natureza, o Cosmos, como um Todo, onde nada é sobrenatural nem estranho, como muito desconhecido a dia de hoje e mesmo isso pode mudar no tempo. E por suposto onde tudo está interrelacionado.

Uma forma de explicar então essa diferença entre adorar e reverenciar é dizer que sendo nós parte dum Todo esse Todo não pode existir sem nós, por minúsculos que nos poidamos considerar às vezes, pois o Todo estaria logo carente duma parte, muito pequena na grande escala, talvez, mas absolutamente necessária para a total completude. Aí surge o abraio do indivíduo – a hierofania se se prefere – quando abre os olhos a essa Natureza maravilhosa perante nossa, esse sentimento inefável de conexão e pertença, do mais geral até o mais pequeno, essa certidão espiritual ao saber que todo forma parte dum mesmo processo que há marcar o nosso Caminho. Aparece aí então um sensação de reverência, de satisfação ao compreender em parte (na nossa parte) essa Natureza, de recolocar-mo-nos nela. E não temos medo nem vergonha então de proclamar quão bela é e o orgulho de formarmos parte dela: reverenciamos-la. Orgulhamos-nos, sim, positivamente. Sentimos à vez paz e energia, acougo e poder. Aí fai-se presente o Imbás ou Awen (inspiração) druídico.

Pois, imaginemos a roda dum carro: forma parte desse carro, mas seria absurdo da roda “adorar” o resto do carro. Mas sim pode gabar, reconhecer, o bem que funciona esse carro, a cor linda que tem, o seguro que é quanto pouco consome, a importância que têm o um para o outro, pois sem o carro a roda não seria grande cousa, e sem a roda o carro não poderia circular. Deste jeito, nós reverenciamos a Natureza, respeitamos-la e protegemos-la, mesmo gabamos-nos dela, mas se somos parte intrínseca dela seria ridículo “adorar” uma parte de nós mesmos, não sim? Mas nada de mau em dar-mo-nos umas palavras de fôlegos! e partilharmos com a Comunidade as alegrias e formosura da vida.

 

  • Onde é que se celebram os cultos? Posso assistir a alguma “igreja” druídica?

As actividades druídicas não precisam necessariamente de templos ou construções similares pois a poder ser são realizadas em contornos naturais. Procura-se abeiro ajeitado em caso de condições atmosféricas adversas e, ainda assim, tenta-se que haja sempre elementos naturais presentes.

É certo que existiam por toda Europa templos druídicos, mas estes eram lugares de reunião no estilo do indicado anteriormente: locais para facilitarem a juntança do Clã em caso de o exterior ser impraticável, ou simplesmente por motivos logísticos. Havia, de facto, diversidade nas formas e tamanhos.

 

  • Que relação há entre Druidaria e magia? Há algo de “esotérico” ou “ritual” em tudo isto?

Na Druidaria há uma parte de iniciação, de ordenação de aqueles e aquelas que queiram aceder ao sacerdócio. Desde esse ponto de vista um leigo pode perceber este aparente secretismo como “esotérico”, mas não deixa de ser uma parte que simplesmente não é pública. Os próprios ritos podem resultar rechamantes a alguém que nunca tenha visto ou participado em cerimónias druídicas, mas isso aconteceria com qualquer outra religião ou culto minoritário.

Por outra parte, a magia é entendida como a capacidade de provocar mudanças nas nossas vidas para nos ajudarem a atingir os nossos objectivos, reforçando a nossa auto-estima e potenciando as nossas capacidades. O rito mágico é parte do que para outras religiões pode ser a oração ou a meditação: uma maneira de formalizar a intencionalidade de ser e fazer, de canalizar a conexão espiritual com o Cosmos. Isto não é algo sobrenatural, longe disso, é uma forma de tentar encontrar nuns rituais e práticas aceitados e conhecidos por todos e todas uma sistematização da vontade de apreender mais da realidade, da Natureza, duma forma íntima.

Assim, o rito é também percebido como uma forma de contacto e harmonização, connosco e com a Terra; uma forma reconhecível, simples, clara e de fácil repetição de conduzir e visualizar esse compromisso.

 

  • A reencarnação não era cousa de Budistas e Hindus?

Não só. Os/as antigos/as celtas acreditavam firmemente na reencarnação, entendida como a transmigração da alma dum ente físico a outro (algo muito presente na cultura popular galega), até o ponto de deixarem dívidas e contratos para arranjarem “na próxima vida”. Isso também fazia delas/es destemidas/os guerreiras/os. Contudo, não todos os/as crentes druídicos/as actuais acreditam na reencarnação, ou não sem matizes.

Por descontado, na IDG não cremos no conceito “oriental” da reencarnação tão de moda nos nossos dias e assumido quase que sem mais por todo/a aquel/a que diz acreditar nela. Não achamos que as vicissitudes da nossa vida actual se desenvolvam consequentemente à Lei Kármica, é dizer, não cremos que as cousas sucedam como consequência duma outra vida nem pago duma suposta culpa, nem tampouco como oposição vital (isto é, ir mudando de estilos de vida em cada reencarnação para experimentar todas as experiências vitais), nem que a reencarnação noutro ser não-humano suponha uma “regressão”. A perspectiva druídica da reencarnação baseia-se num processo de aprendizagem, mas também de liberdade de escolha, mesmo para reencarnar.

 

  • Defende a Druidaria uma volta à antiguidade? É contrária à ciência e ao progresso?

Não. A Druidaria de hoje está formada por gente de hoje. Os Druidas e Druidesas do S.XXI vão de carro, ouvem música rock e mesmo usam Internet (!). A nossa tradição ensina muitas lições que vêm de antergo e a Druidaria como religião está baseada em ensinamentos milenares; eis um grande prémio e sorte, o podermos aceder a toda esta sabedoria acumulada. Mas a Druidaria não ficou parada no tempo, nem pretende uma volta a um passado romântico ideal, que também nunca foi tal. A Druidaria evoluiu em muitos aspectos assim como evoluímos os e as crentes druídicas. O que não fai a Druidaria a respeito do passado é esquecer o muito e bom que tem esse passado para ensinar, a honra que devemos aos nossos Devanceiros e Devanceiras como criadoras e transmissoras do saber, e o que dos erros desse passado também podemos aprender.

A Druidaria considera a ciência, de facto, como imprescindível para um melhor entendimento da história e da Natureza e, em consequência, para um melhor conhecimento da própria Druidaria. Quanto mais preciso e definitivo o saber científico mais precisa e acertada a nossa percepção da realidade e, portanto, melhor entenderemos os processos que relacionam o Ser Humano com o resto do Cosmos que reverenciamos. Lembremos que na raiz da própria palavra Druida situa-se o saber/conhecimento, e a ciência é uma ferramenta fundamental para atingi-lo.

 

  • Ser crente da Druidaria implica mudar as minhas relações com as outras pessoas? Devo-me relacionar só com outros/as crentes?

Não, em absoluto, não tens porque mudar nada. A Druidaria não implica isolamento ou deixar a tua vida anterior e a tua gente. De facto, ninguém che deve dizer com quem podes estar ou não, quem é a tua amiga ou não, como lidas com a tua família ou não. Isso é sempre cousa tua. É mais, a Druidaria implica-se no mundo no que vive, quer melhorá-lo, é uma religião com sentido de serviço. A Druidaria não promove, por exemplo, o ascetismo e a reclusão afastada do mundo; no caso de alguém quiser – no uso da sua liberdade – retirar-se para viver a sua particular Druidaria ou uma determinada experiência, isto seria sempre um facto pontual e temporário. Praticar as crenças druídicas não implica a exclusividade nas relações com as pessoas que poidam ser crentes ou não.

 

  • Sendo uma religião autóctone europeia e fortemente vencelhada a um antigo povo europeu, está a Druidaria reservada só para determinadas etnias ou nações? ou para pessoas de determinados lugares ou que falem determinadas línguas?

Não. A crença druídica não está fechada a nenhum grupo nem pessoa por causa de origem, língua, sexo, etnia, etc. A filosofia e sentimento religioso transcendem as circunstâncias esporádicas do indivíduo. Os laços entre crentes druídicos baseia-se na aceitação duma determinada ética, visão da Natureza e forma de viver a religião. Ajuda enormemente, isso sim, conhecer as origens e história da religião professada, e dos povos que a criaram e mantiveram viva, para poder perceber melhor a comunhão entre Terra, Ser Humano e Druidaria.

Ora bem, cada um/a deve encontrar o grupo druídico com o que melhor sintoniza, pois cada um oferece certas peculiaridades. A IDG considera, por exemplo, que o seu caminho é válido para os seus membros e entende que tem significado pleno na Galécia (Galiza+Norte Portugal), o qual não implica que outros caminhos não poidam ser igualmente válidos para diversos indivíduos ou colectivos. De igual maneira, entende-se como uma visão desde e para a Galécia, nem melhor nem pior, mas que simplesmente afunde as suas raizeiras numa espiritualidade já bem familiar para galaicas e galaicos.

 

  • Como posso formar parte da IDG? ser um/a Caminhante “oficial”?

Como é explicado no apartado de filiação, a IDG é uma associação religiosa fortemente vencelhada à sua Terra. Por este motivo, considera-se como algo lógico ter algum tipo de relação com a Galiza (ou por extensão a Galécia) seja familiar, vivencial, pessoal, emocional, etc. Para crentes sem este tipo de conexão a IDG pode estender as suas simpatias, mas recomendaria a procura dum grupo mais próximo, um Clã onde realmente possa pôr em prática as suas crenças de forma plena.

Dada essa primeira condição, o/a candidata deverá ratificar a sua conformidade com os Estatutos e Regulamento Interno da IDG e completar um questionário ou entrevista pessoal, depois da qual entrará num período de prova. Nesse tempo a pessoa valorará se é que se sente confortável no seio da IDG e, também, dará para ver se essa pessoa em verdade acredita nos preceitos da IDG, respeita a sua organização e partilha as suas visões e objectivos.

Obviamente, não é preciso ser Caminhante para ser simplesmente crente da Druidaria.  Um/a Caminhante da IDG é uma pessoa que vai um passo além, adquirindo um decidido compromisso pessoal e prático – mãos à obra – na ajuda diária à IDG, alguém que quer mesmo aprender a senda espiritual da Druidaria Galaica representada pela IDG, talvez face um eventual sacerdócio.

Os e as Crentes druídicas em geral não têm que dar o seu nome para nada nem se alistarem em rem. A IDG tentará sempre estender os seus serviços e ajuda igualmente.

 

  • Pode a IDG fazer um rito para mim? Posso talvez casar numa “cerimónia celta”?

A IDG tem entre os seus princípios básicos assistir aos e às Crentes, o que inclui oferecer ritos, ajudando à melhora pessoal e espiritual. Ora bem, isto é feito sob um prisma estritamente religioso para Crentes sinceros e sérios. Portanto, a IDG poderá satisfazer as petições de celebrações ou cerimónias (ritos de passo, união de mãos, etc) se for logisticamente possível e uma vez comprovado o compromisso da gente.

A IDG não realizará ritos religiosos para ou como parte de eventos meramente lúdicos ou com fins crematísticos, ou para simples pessoas “curiosas”. Tem-se mesmo publicado algo sobre esta “cultura do espectáculo” que desde a IDG criticamos.

 

  •  Cobra-se por algo? Não sera isto um negócio ou um “tira-dinheiros”?

Não, em absoluto.

A IDG não é só uma organização sem fins lucrativos, senão que consideramos que a espiritualidade e a religião não devem ser nunca usadas para esse tipo de cousas. Temos falado publicamente sobre estes temas muitas vezes.

Igualmente, a IDG defende a laicidade do Estado e dos poderes públicos a todos os níveis e em toda parte. Por isto, a IDG nunca procurou, procura ou procurará ajudas, subvenções ou privilégios económicos públicos, igual que rejeita que outras entidades religiosas tenham tais privilégios. A prática religiosa pode estar organizada e oficializada, mas cada organização deve contar só com os seus próprios recursos. Acreditamos que tudo o demais é política interesseira e ingerência que só leva a lugares escuros, intransigentes e perigosos, a uma distorção da realidade e continuação de sinistras relações de poder. Nós termamos do nosso.

Assim, para podermos fazer frente aos gastos que sim temos (material de culto, custos de internet, viagens, obra social, planos de futuro que requerem certo investimento, pago a artistas, etc) disponibilizamos a venda de algum material – escrupulosamente seleccionado – assim como aceitamos doações. Mas isto é algo totalmente livre e até anónimo, à vontade de quem quiser dar e como quiser dar.

Porém, a IDG não pede nenhum tipo de quotas dos seus e das suas Caminhantes, pois isto significaria que a pertença formal à nossa Irmandade estaria condicionada a um determinado pagamento regular, algo totalmente contrário à nossa forma de entender a espiritualidade e que criaria (quer sim quer não) uma relação económico-contratual. Os serviços ao Clão são também totalmente gratuitos.

 

  • Por que a organização e hierarquias?

Para não nos fragmentarmos e perdermos no decorrer da história. As sociedades célticas antigas viviam ordenadas de acordo com a sua realidade, no seu tempo e lugar, o que lhes permitia aos Druidas e Druidesas de então actuar, estruturar os ensinamentos e transmitir a tradição de determinada maneira. Mas no dia de hoje é precisa uma nova organização fluida adaptada à sociedade na que estamos inseridos/as para nos pôr em contacto umas com as outras e caminharmos juntos/as. A Druidaria precisa dessa organização interna para poder ter recursos e possibilidade de compreender melhor as suas próprias origens e planificar o seu futuro, sem que isto leve à construção duma estrutura rígida e inflexível.

A hierarquia interna da IDG expressa o grau de compromisso com a Irmandade em termos de tempo, empenho e conhecimentos. A hierarquia reflecte, aliás, a visão que tem o Clã da IDG e do seu dinamismo. A hierarquia não se trata duma questão de “obediência cega”, mas sim de reconhecimento por aqueles e aquelas com experiência e devoção, aqueles e aquelas a quem se lhes confia o funcionamento administrativo e ajuda e guia no desenvolvimento pessoal.

 

  • Como é que se organiza a Druidaria? Há alguma instituição central? Há um líder mundial?

A Druidaria é organizada normalmente em Ordens, Irmandades, Arvoredos (Groves) e Grupos de Reunião (Gorseddau), sendo independentes tanto em hierarquia como em tradição druídica, embora mantendo sempre uns mínimos comuns, e adoitam estar centrados cada um na sua realidade e condições objectivas. Por exemplo, a visão neste respeito da IDG vem explicada >aqui<.

Podem existir Arvoredos ou grupos dependentes duma outra Ordem ou Irmandade. Tais grupos seguem a estrutura e normas impostas pela Ordem Nai.

Não existe portanto uma “Igreja Druídica” unificada, nem uma Arqui-Druida Suprema. Não existe um líder de todos os Druidas e Druidesas. As distintas organizações soem escolher um chefe de grupo, muitas vezes por motivos administrativos, mas não existe a figura dum líder carismático e infalível ao que mostrar submissão. Ora bem, isto não impede que ouçamos com especial atenção e honremos as figuras dos chefes de cada grupo druídico, ou que aceitemos determinados Druidas e Druidesas como relevantes, sábios, cujas mensagens nos cheguem e ajudem mais, ou reconheçamos a sua valia na direcção do grupo.

Podem-se encontrar, isso sim, diferentes alianças ou associações de grupos druídicos independentes, que procuram um bem ou objectivos comuns. Mas mesmo aí cada entidade conserva a sua total autonomia além dos pontos básicos pactuados livremente.

 

  • Existe algum livro ou escritos sagrados?

Não. Na Druidaria não existem livros sagrados, nem escrituras reveladas, nem ordens gravadas na pedra. O que prima na Druidaria – como em geral na cultura céltica – é o pluralismo, embora tendo uma série de princípios filosóficos, éticos e crenças comuns. Os livros sagrados levariam a Druidaria a uma excessiva rigidez e detalhe à letra. Os escritos, como esta página, são vistos unicamente como vias de comunicação e transmissão de certos conhecimentos. Como curiosidade dizer que toda a tradição druídica antiga era eminentemente de carácter oral.

 

  • Que representa o logótipo da IDG?

O nosso logótipo representa a união entre um símbolo Druídico moderno reconhecido por todos e todas os e as crentes da Druidaria no mundo, e um símbolo céltico também muito conhecido, mas desta vez na sua variante galega. O primeiro é o Awen, os três “pauzinhos” (em verdade raios) verdes. O segundo é o tríscele ou xabúcia azul.

Awen significa inspiração em galês (como Imbás em irlandês), e é o nome desse símbolo – criado no S.XVIII – representando três raios de luz que caem de acima. O número três é de grande importância na Druidaria pois toda realidade é percebida em tríades, sejam deidades, os três passos do Sol (alvorada, meio-dia e sol-pôr), os três Reinos clássicos (Terra, Água e Céu), os três componentes do ser humano (corpo, mente e espírito), as três estações clássicas (primavera, verão e inverno), as três etapas da vida (nascimento e infância, maturidade e plenitude, velhice e morte), etc.

O tríscele ou xabúcia é um símbolo sagrado comum em muitas culturas arredor do mundo desde a mais remota antiguidade. No caso galego também encerra o significado da tríade antes nomeado, com atenção aos três passos do Sol, que caminha pelo Céu: morre e renasce sem fim, de Oeste a Este, do mundo dos mortos ao dos vivos, e volta a começar (de aí o sentido de giro no que é representado). O tríscele na Galiza tem sempre um papel protector, benéfico, de ajuda e guia mesmo no trânsito ao Além (sentido de giro de Este a Oeste nesse caso).

As cores verde e azul foram escolhidas por representarem Terra (verde), Água e Céu (azul), onde os mesmos raios viram verdes na sua descida nessa complementaridade e comunicação entre todos os elementos. São, aliás, as cores da psique céltica tradicional, associadas à protecção, boa sorte e bons agoiros, fartura, beleza e esperança.

 

  • Por que “Galaica” e não “Galega”?

Quando se fala de adscrição territorial as formas “galega” ou “galego” são associadas frequentemente só ao território actual da denominada “comunidade autónoma de Galicia” [sic]. Mas tradicionalmente o termo galaico – principalmente dentro do campo dos estudos célticos – abrange bem à antiga Gallaecia céltica como mesmo ao Reino Galego medieval, que ultrapassam com muito os limites actuais da tal comunidade autónoma.

Para a IDG, então, o termo galaico transcende esses limites administrativos, e fai referência a territórios não-oficialmente “galegos” mas que partilham connosco língua, cultura, história e, de forma sobranceira baixo o nosso prisma, uma espiritualidade comum. Assim, o campo de acção da IDG é a actual Galiza, Norte de Portugal (com extensão matizada além Douro até o Mondego) e zonas limítrofes orientais da Galiza onde seja solicitada voluntariamente a presença ou atenção da IDG.

É por isto, por exemplo, que na tradução ao inglês ‘galaico’ vire pan-Galician (pan-Galego).

 

  • Havia realmente Druidas e Druidesas na Galiza?

Sim.

– Primeiro por pura lógica geográfica: O território galaico nunca foi uma excepção no seu entorno sócio-cultural Atlântico-Europeu, com o que leva interagindo e tendo uma relação directa desde o período Megalítico. Porém, a cultura céltica e a sua religião, elemento coesionador fulcral, também não foram estranhos, antes o contrário. Dentro dessas expressões de espiritualidade aparecem já os Druidas e Druidesas, figuras de saber e poder pan-Célticas.

– Segundo pela existência nos âmbitos religioso, espiritual, filosófico, comportamental (psicológico), cultural, etnográfico, folclórico e lendário galaico de elementos claramente célticos (isto é, em consonância directa com outros territórios célticos), chamados normalmente de “pré-romanos” como eufemismo.

– Terceiro pela existência de epigrafia documentando o conhecimento e presença de tais figuras, nomeadamente na Gallaecia Bracarensis. Por exemplo, inscrições mostrando a evolução do termo proto-Céltico:

druwid– “sacerdote, druida” (cf. Matasovic)

durwid– (metátese de /r/ em contacto com /u/ ou /w/, cf. Matasovic s. v. *tawr-)

durbid– (cf. PIE *tawr- > PClt *tarw- > OIr. tarb “touro”; esta última evolução dá-se também na inscrição a MARTI TARBUCELI, de Braga, AE 1983, 562).

E posteriormente a forma galaica durbed– [de aí posteriormente Durvate] surgida seguramente a partir dum étimo dru-weyd

Algumas inscrições conhecidas são:

D(IS) M(ANIBUS) S(ACRUM) / POS(UIT) IULI/A QUTI FI/LIO IULIO / FAUSTO {A} / AN(N)OR(UM) XXXIII / ET DURBE/DI(A)E NEP/TI SU(A)E CA/RISSIM{E}/IS MEIS (Vigo: HEp-15, 00307)

CELEA / CLOUTI / DEO D/URBED/ICO EX V/OTO A(NIMO) [L(IBENS?)] (Guimarães: AE 1984, 00458)

LADRONU[S] / DOVAI BRA[CA]/RUS CASTEL[LO] / DURBEDE(NSE) [H]IC / SITUS ES[T] / AN(N)O/RU[M] XXX(?) / [S(IT) T(IBI)] T(ERRA) L(EVIS) (AE 1984, 458)

Onde DURBEDIE é um antropónimo feminino, é dizer, Druidesa (Druwidyā), DURBEDE um lugar nalgures perto de Braga (druwidī), e DEO DURBEDICO um epíteto “ao deus dos druidas” ou “ao deus druídico” (Druwid-ik-).

– Quarto pela constância em período histórico de, alo menos, dous Druidas devidamente “convertidos” em Bispos:

Primeiramente Prisciliano (S. IV), eventualmente assassinado pelas suas “tendências pagãs” já que defendia, entre outras cousas, a igualdade entre mulheres e homens, a abolição da escravidão, o direito ao casamento de membros do clero, a utilização da dança e música nas liturgias, o animismo, o contacto com a natureza e celebração de liturgias nela, o emanacionismo, a eliminação da hierarquia na instituição religiosa onde foi inscrito, instituição que eventualmente empreenderia acções punitivas contra ele e acabaria executando por “herege” e “bruxo”. Mas a influência Priscilianista perdurou por muito, e a sua figura é vivamente lembrada até época actual.

Em segundo lugar Mailoc (S.VI), líder espiritual e político da colónia britã estabelecida no norte da Galiza por emigrantes célticos que abandonaram a Ilha de Bretanha (actual Grã-Bretanha) e Armórica (actual Bretanha continental), fugindo das invasões germânicas. O seu legado e o da sua Comunidade ainda perdura nessas zonas do País.

 

  • Por que ‘escrevedes’ de forma tão estranha?

Em verdade escrevemos em “galego“, respeitando formas verbais e vocabulário típicos da Galiza, mas utilizando a grafia internacional da nossa língua seguindo um modelo reintegracionista em base ao critério da AGAL e AGLP. Entendemos o reintegracionismo linguístico como mais uma forma de recuperarmos parte da nossa tradição esquecida e negada, de redescobrirmos a nossa história e herdança, à vez de nos resituarmos no lugar que nos corresponde no mundo por nós mesmos/as.

Não somos só galegos/as, ainda que sim na maioria. O termo “galaico” inclui o norte de Portugal, entre outras áreas, como foi explicado acima, e a nossa escolha ortográfica permite-nos comunicar sem dificuldade tanto a norte como a sul do Rio Minho, e mesmo através do Oceano.

Para lusofalantes não-galegos/as que poidam ter dificuldades com tal ou qual palavra recomendamos o uso do dicionário electrónico Estraviz.

 

– – – /|\ – – –

 

Un agraiment especial a l’Orden Druida Fintan (Catalunya) per l’ajuda en l’elaboració d’aquestes perguntes freqüents, permitint adaptacions de part del seu propi FAQ.

2 responses to this post.

  1. Posted by Serrador on 16/02/2015 at 22:00

    Genial. Aclarou-me muitas cousas. Obrigado, amigos!

    Responder

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