Salta a lebre, acouga Brigantia. É a Alvorada da Terra

O animal desta época, a Lebre, nom o é por casualidade. Símbolo de fertilidade, é a encarregada de cuidar do ovo (fruto do ventre – i mbolg) pois Brigantia começa já a ficar cansa… Foto: C. Galliani.

Esta madrugada do 19 ao 20 de Março o Sol deterá-se quando nom o vejamos, tomará fôlegos por um intre na sua viagem enquanto equilibra luzes e trevas. Às 04:49 (norte do Minho; 03:49 no sul) tem lugar o Equinócio de Primavera, quando depois de finalmente alcançar à escuridade o dia dura tanto como a noite.

É o que muitos e muitas denominam Alban Eilir, “A Luz da Terra”, Mean Earraigh, “Meia Primavera”, ou Alban Talamonos, “O Amencer da Terra”; Ostara nos cultos germânicos e wiccanos, o início do ano astrológico para outros.

Nós chamamos-lhe A (Festa da) Alvorada da Terra e é um dos quatro  eventos astronómicos que intercalam as grandes celebraçons religiosas da Roda do Ano , é dizer, o ciclo completo das oito celebraçons da Druidaria combinando quatro maiores (religiosas, com começo no Magusto, em Novembro) e quatro menores (astronómicas: solstícios e equinócios).

Continuamos assim o caminho indicado no Entroido (Imbolc). Vai resultando evidente que a chegada dos Maios (Beltaine) e imparável. A Natureza cumpre os seus ciclos mais umha vez, por muito que haja quem teime em ignorá-la e daná-la. Por fim vai agromando a vida por toda parte; é óbvio e palpável.

Sim, é talvez a Alborada mais estranha das nossas vidas pola situaçom excecional que vivemos com isso do “coronavirus” mas, nom é certo que só afecta a umha das espécies deste planeta? Nom é certo que o mundo e Roda continuam a girar? Nom era assim antes de estarmos nós e nom será ainda depois de nom estarmos?
Reflexionade no paradoxal do bem que fam à Natureza estes dias de pausa humana, quando as cidades calam e os pássaros retornam, quando os fumes desaparecem e podemos ver mais estrelas no céu…

Pensemos pois que apesar das dificuldades e do frio que poida perdurar, a luz e os primeiros verdes e flores nom enganam. Activa-se a fertilidade e maravilhamo-nos de como a planta sabe quando tem que medrar, quando tem que sair do ovo protegido por umha lebre, simbolismo do que significavam os frutos “no ventre” (i mbolg) da Deusa Brigantia, que nom parou de sorrir desde o Entroido.

Renovam-se desta forma as intençons desse Entroido: continua a preparaçom, cuidado e sementado da terra, mas esta já reverdece. Pode-se pôr outra vez a casa em ordem e continuarmos a limpeza, tamém interior, porque com esta luz podemos ver melhor todo recanto escuro, em toda parte, e nom deixarmos nada sem arranjar.

Bom Equinócio de Primavera entom. Recebide a acougante Alban Eilir num agarimoso abraço. Empregade bem o tempo da Mean Earraigh. Espreguiçade-vos com o Alban Talamonos. Acordade com a terra que recebe a sua Alvorada. Luz de carqueixa!

<< Dim que nom falam as plantas, nem as fontes, nem os pássaros,
nem a onda co’s seus rumores, nem c’o seu brilho os astros,
di-no, mas nom é certo, pois sempre quando eu passo,
de mim murmuram exclamam:
Aí vai a tola sonhando
co’a eterna primavera da vida e dos campos
e já bem cedo, bem cedo, terá os cabelos canos,
e vê tremendo, aterecida, que cobre a giada o prado.

Hai brancas na minha cabeça, hai nos prados giada,
mas eu prossigo sonhando, pobre, incurável sonâmbula
co’a eterna primavera da vida que se apaga
e a perene frescura dos campos e as almas,
ainda que os uns esgotam-se e ainda que as outras abrasam.

Astros e fontes e flores, nom murmuredes dos meus sonhos,
sem eles, como admirar-vos nem como viver sem eles? >>

(Rosalia de Castro, 1884)

pagan_easter

PS. Nom deveria fazer falta salientar a importância de nom realizar cultos em grupo nestes dias de recolhimento por causa do alerta sanitário. De facto, a IDG adia mesmo a celebraçom dos Maios (Beltaine) deste ano até novo aviso.
Existe a possibilidade de levarmos a cabo pequenos actos e rituais familiares ou individuais como a limpeza simbólica da casa, acendido de candeias, etc.
Umha vez rematada esta situaçom excepcional voltaremos à normalidade, e aí aguardamos-vos a todos e todas 🙂

 

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Comunicado a Druidistas sobre a situaçom actual em relaçom ao “coronavirus”

A fortaleza dumha comunidade, o civismo dumha sociedade, revela-se quando os tempos nom som fáceis, e nada abana mais os alicerces do nosso ser individual e colectivo que o perigo percebido sobre a nossa própria saúde.
Aliás, aí revela-se tamém a dignidade pessoal de cada um e umha de nós.

As epidemias, pandemias ou crises de saúde pública nom som nada novo. Nom somos as primeiras nem seremos as últimas em defrontar algo como isto agora do “coronavirus” (COVID-19). Mesmo com toda a sua seriedade (que abofé a tem), nem é comparável a outros contextos passados.
E ainda assim, nos dias que vivemos de comunicaçom e informaçom instantânea, podemos assistir a um evento global a tempo real à vez que podemos calibrar, bem ou mal, as reacçons próprias e alheias.

Deste modo, a mesma tecnologia que nos comunica tamém fai com que o tal vírus se propague mais rapidamente, e com ele a possível paranoia. Ora bem, o alarme é justificado polas características da própria doença que nom imos entrar a analisar pois nom nos corresponde, fazendo desde já um chamamento a atendermos as recomendaçons das autoridades sanitárias.

Contudo, voltando ao efeito sobre nós, sim podemos reivindicar mais do que nunca que é precisamente agora quando tudo aquilo que defendemos como Druidistas (crentes na religiom druídica) ou amantes da cultura celta é válido; nom só válido, é fundamental.
Mais do que nunca as “Nove Regras de Conduta” devem ser observadas à risca, primando a solidariedade e a protecçom do grupo sobre o egoísmo, velando pola justiça e com o sentidinho a guiar.

Assim, desde a IDG fazemos um especial chamado a:

  • Ficar na casa agás casos de verdadeira necessidade.
  • Cuidar da higiene com um frequente lavado de maos, uso de desinfectantes, etc, ajudando assim tamém a cuidar de toda pessoa com a que encontremos e proteger os grupos de risco.
  • Nom comprar de forma absurda e indiscriminada nem comida nem outros bens, pois nem vai haver escassez nem se aguarda que vaia haver.
    Arrasando lojas e supermercados só estamos colocando ainda mais pressom sobre quem lá trabalha arriscando o seu bem-estar por nós e privando desses alimentos e bens a outras pessoas.
  • Assistir na distância a pessoas com condiçons psicológicas várias. Umha mensagem ou um telefonema podem ser um bálsamo.
  • Cuidar das nossas mascotes e animais, sabendo que nem podem contagiar-se do vírus nem podem transmiti-lo. Som simples espectadores inocentes neste remoinho.
  • Aproveitar a situaçom para focarmos no realmente essencial na nossa vida e recuperarmos o cerne da nossa coexom. Pode nom haver contacto físico durante uns dias mas certamente pode haver muito calor humano.
  • Aproveitar a situaçom para educar as crianças e jovens nestes valores todos. Este é um caldeiro de forja.

É certo que medramos e fumos educados numha sociedade capitalista doente que no geral só nos ensinou a pensar em nós mesmas, ou em nós primeiro, mas se tantas vezes enchemos a boca com mudarmos esse sistema, a mudança bem pode começar aqui, neste intre, com o nosso agir a cada momento.

Se falharmos quando fai falta, falhamos na essência, falharemos sempre, e nom haverá ritual nem bons propósitos em dias de luz e festa que elimine essa desonra. Lembrade, só temos medo “ao céu cair sobre as nossas cabeças”… e o céu continua fixo lá acima!

Ficade com calma, pois nisto estamos todos e todas e isto passará. Haverá tempo de revisar que fijo cada quem mais à frente, nomeadamente algumhas personalidades políticas claramente confundidas e irresponsáveis, e nom esqueceremos os abusos de poder. A doença nom deveria afectar à nossa memória futura.

Como religiosos confiamos no Deus Endovélico /|\ e na sua ajuda e inspiraçom sobre todos esses homens e mulheres do mundo da medicina que trabalham connosco e para nós. Força!
E força tamém para todas aquelas pessoas que mantenhem os demais serviços básicos em marcha. Bem haja!

Finalmente, indicar que o próximo grande encontro da IDG do festival de Maios (Beltaine) em Pitões das Júnias (Montalegre), que ia ser anunciado para o primeiro fim de semana de Maio, fica adiado. Celebraremos umha juntança quando isto acabar. Iremos informando.

Nunca choveu que nom escampara.

Irmandade Druídica Galaica

PS. A IDG fica “aberta” por via telemática (redes sociais ou correio-e) para qualquer consulta, pedido de ajuda, acompanhamento espiritual, etc.

Entroido de Brigantia, calor de inverno

Ousilhão (Vinhais, Bragança), 2018. Foto de A. Marín retirada dum perfil público Facebook.

No 1 de Fevereiro formaliza-se a segunda das quatro grandes celebraçons do ano celta, o Entroido (Imbolc), umha celebraçom de esperança e alegria fortemente vencelhada à Deusa Brigantia (Brighid ou Bride), a Deusa vitoriosa, principal representante da soberania feminina, exemplo perfeito das trindades druídicas na sua própria figura.

Na tradiçom galaica disque o Entroido (Entruido ou Entrudo) começou já o 1 de Janeiro (passados os fastos da Noite Nai) e ainda que é certo que nalguns lugares já levam dias preparando e até celebrando, será durante esta próxima época depois do 1 de Fevereiro na que se desenvolva em todas partes este festival percebido como purificaçom da terra e primeiro estímulo do crescimento, a preparaçom limiar da terra no futuro encontro com a primavera.

Vai-se cumprindo o anunciado triunfo sobre a escuridade que começou com o Ano Novo celta no Magusto (Samhain – 1 Novembro), num inverno que se bem ainda nom rematou tamém nom é quem de nos vencer quando bate mais duro, e Brigantia ajuda-nos com os seus atributos e ferramentas.

É o momento entom para a regeneraçom, para ajudarmos a terra, colocar os assuntos da casa em ordem, mesmo de fazer umha grande limpeza, fazer planos e “plantar” ideias. Muitos animais parem nestas datas e mesmo pode ser considerada como a festa dos bebés. Já diz o refraneiro galego que “no 2 de Fevereiro casam os passarinhos“.

Lembra-se, aliás, que o Rei ha renovar os votos com a Terra, na uniom de soberanos, o pacto sagrado entre o Ser Humano e as Deidades da mao de Brigantia. Como diz o antropólogo R. Quintia:

“[O Entroido galego é o] que melhor conserva o significado simbólico das vodas rituais que se celebravam em toda Europa no final de ciclo festivo da Invernia e a essência das sociedades de moços solteiros [Córios]”

A Deusa Brigantia – A Alta, A Elevada, A Tríplice Chama, Senhora da Soberania, portadora da água, da luz e Deusa do Fogo – toma três aspectos: como Lume da Inspiraçom (patrona da poesia, artes, filosofia e profecia), como Lume do Lar (patrona da medicina e fertilidade, de pastoras a agricultoras, protectora da casa com ajuda da Deusa Trebaruna) e como Lume da Forja (patrona da metalurgia, ferraria e artes marciais, grande guerreira).

A alegria
A alegria do Entroido tradicional: as cores racham o frio. Chama-se por Brigantia, chama-se por Bel. Venhem os Córios e vai-se afugentando a época escura.

A Soberana guia o Entroido com os seus atributos positivos e fai que, precisamente, acedamos a umha nova época. Eis a raiz da palavra Entroido, entrar, umha entrada a um tempo alegre que em muitos lugares começa já pouco depois de passado o Solstício de Inverno, mas nada a ver com o “carnavalesco” grosseiro, completamente alheio à nossa tradiçom. Brigantia assegura assim este trânsito e garante a promessa de renascença feita no solstício. Ela será quem acorde depois o refulgente Deus Bel.

O ano já há tempo que começou, mas agora Brigantia e o ciclo da natureza começam a nos premiar de forma especial pola nossa resiliência. Tudo vira em torno ao Imbolc a partir destes momentos (do velho céltico i mbolg, “no saco” ou “na barriga”), este embigo da vida. Alviscamos a sua luz e ficamos confiantes: há que chegar ainda, mas já estamos quase. É tempo de alçarmos a cabeça e rirmos! 🙂

E na dança do teu mirar
Vejo castros, vejo o mar…
E nos beiços do teu Imbolc
Vejo a arder a lua, vejo gear o sol

Mileth (com grafia adaptada; reproduzido com permissom)

Tripla Deusa Brigantia, Senhora do Entroido (Imbolc). Detentora do fogo pois é protectora (entre outras) das ferreiras que forjam as armas, das poetas que apresentam lumes cerimoniais, e das sanadoras que facilitam o lume do lar. Brigantia fornece tamém pola criança nascente.

 

As cores
Abre-se o verde, racham as cores. Vai frio, mas tamém luz. Foto: R. Quintia (Facebook)

 

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