Começa o Entroido (Imbolc), tempo de Brigantia

Cruz de Brigantia, feita de junco ou palha, representando em verdade a Cruz Solar.

Cruz de Brigantia, representando em verdade a Cruz Solar.

Chegou a segunda das quatro grandes celebrações do ano, o Entroido (Imbolc), uma celebração de esperança e alegria fortemente vencelhada à Deusa Brigantia (Brighid ou Bride), a deusa vitoriosa, representante-mor da soberania feminina, exemplo perfeito das trindades druídicas na sua própria figura.

Durante esta época desenvolve-se este festival percebido como estímulo do crescimento, o acordar da terra, da preparação dessa terra no seu encontro com a primavera, da fertilidade. Vai-se cumprindo o anunciado triunfo sobre o inverno que começou com o ano novo no Magusto (Samhain), inverno que se bem ainda não rematou também não foi quem de nos vencer quando bateu mais duro; e mesmo nestes dias quando ainda bate forte o temporal!

É o momento então para ajudarmos a terra, pôr os assuntos da casa em ordem, mesmo de fazer uma grande limpeza, de fazer planos e de “plantar” ideias. Muitos animais parem nestas datas e mesmo pode ser considerada como a festa dos bebés. Já diz o refraneiro galego que no 2 de Fevereiro “casam os passarinhos”. Lembra-se, aliás, que o Rei hã renovar os votos com a Terra em breve, na união de soberanos, o pacto sagrado entre o Ser Humano e as Deidades, da mão de Brigantia.

A Deusa Brigantia – portadora da luz e deusa do fogo, da vitória, da profecia e filosofia, poesia e sanação – toma três aspectos: como Lume da Inspiração (patrona da poesia, artes e profecia), como Lume do Lar (patrona da sanação e fertilidade, de pastoras a agricultoras, protectora da casa) e como Lume da Forja (patrona da metalurgia, ferraria e artes marciais, grande guerreira).

A alegria

A alegria do Entroido tradicional: as cores racham o frio. Chama-se por Brigantia, chama-se por Bel. Vêm os Córios e vai-se afugentando a época escura.

A Soberana guia o Entroido com os seus atributos positivos e fai que, precisamente, acedamos a uma nova época. Eis a raiz do Entroido (ou Entrudo), uma entrada a um tempo alegre que em muitos lugares começa já pouco depois de passado o solstício de inverno, mas nada a ver com o “carnavalesco” grosseiro, completamente alheio à nossa tradição [1][2][3][4]. Brigantia assegura então este trânsito e garante a promessa de renascença feita no solstício. Ela será quem acorde os deuses Bel e Lugu chegado o momento, mesmo quem dea à luz e amamente este último se figer falta a partir do dia 2.

O ano já há tempo que começou, mas só agora Brigantia e o ciclo da natureza começam a nos premiar de forma especial pela nossa resiliência. Tudo vira em torno ao Imbolc a partir destes momentos (do velho céltico i mbolg, “no saco” ou “na barriga”), este embigo da vida. Alviscamos a sua luz e ficamos confiantes: há que chegar ainda, mas já estamos quase. É tempo de alçarmos a cabeça e rirmos! :)

O orvalho alimenta tua alma,
O lume novo arreda o inverno,
Da terra brota o teu corpo,
esperta mística do ermo.

Relíquia que futura terra fertiliza,
Sobre ira que leda brua na brisa,
Morre o serão aos nossos olhos,
Renasce Brígida no crisálido sonho.

E na dança do teu mirar
Vejo castros, vejo o mar…
E nos beiços do teu Imbolc
Vejo a arder a lua, vejo gear o sol…

Esperta! No que foi dourado chão,
Esperta! onde tornou gélida a mão,
Voltam as folhas no alto a sombrear,
A verde ultraje da cíclica fraga-nai.

Mileth (com grafia adaptada; reproduzido com permissão)

Tripla Deusa Brigantia, senhora do Entroido (Imbolc). Detentora do fogo pois é protectora (entre outras) das ferreiras que forjam as armas, das poetas que apresentam lumes cerimoniais, e das sanadoras que facilitam o lume do lar. Brigantia fornece também pela criança nascente.

Recuperação parcial do Facho de Donom

Réplicas das aras a serem repostas.

Réplicas das aras a serem repostas. Na da esquerda pode-se ler Deo Lari Bero Breo (Deus Lar [das Ánimas] da Alta Casa).

O famoso santuário do Deus Berobreo – um dos principais lugares de peregrinação da Galiza na antiguidade – vai saindo do seu abandono. É uma boa notícia numa época onde a destruição do nosso património e outros assuntos desafortunados pareceriam ser já o habitual, embora houvera pequenos acenos de alegria.

Nomeadamente, foram colocadas réplicas de três das lindas aras que lá estiveram numa altura. Estamos a falar do Facho de Donom, na comarca do Morraço, na costa sul-oeste da Galiza, onde foram achadas umas 174 aras com dedicações a Berobreo, o que fai com que seja a deidade nativa com maior número de ex-votos da Península Ibérica. Muitas delas tinham oferendas rituais.

Porém, isto não é de estranhar tendo em conta o que Berobreo representa: é o Deus dos mortos, quem te acolhe no trânsito com um sorriso e sempre de braços abertos. Ele comunica o aqui e o Além e o seu nome não significa outra cousa senão “Senhor da Alta Casa (dos Mortos)”, que também aparece como Vestio Alonieco (“O Hospedeiro do Além” ou “Hospedeiro Alimentador”), lembrando neste delicado momento, e com mais sentido que nunca, um elemento absolutamente fundamental da cultura céltica: a hospitalidade. É como Donn (“Rico em Hóspedes”) na Irlanda, o chefe dos (galaicos) Filhos de Mil, o nome que recebe lá e quem disse antes de morrer “à minha casa viredes todos depois da vossa morte”.

Berobreo

Representação de Berobreo, sob o epíteto Vestio Alonieco, encontrado em 1944 em Louriçám (Co. Ponte Vedra). Agora em “exibição” no Museu Provincial.

O Facho é uma atalaia privilegiada, cara o mar, pois a água é sempre lugar de encontro e de trânsito cara o Além; no oceano mora o Senhor dos Mortos. Desde aí podemos divisar as Ilhas Cies e Ons a um lado e outro (ilhas, a paragem de almas onde ficamos temporariamente cegos – não está permitido ver – já que aprenderíamos o caminho a esse Além), onde imos todos e todas quando a vida neste mundo remata e desde onde, confiados, embarcamos outra vez da sua mão até o destino final. Berobreo está no paraíso das Cies e Ons, aonde podemos chegar desde o promontório da praia da Lançada, está nos outos cantís de Teixido olhando a Irlanda ao norte, mas… a sua casa é Donom.

Já em Outubro, tinha-se recuperado a zona do bem-intencionado ainda que errado costume dos visitantes erguerem milhadoiros, isto é, pequenos montes de pedras marcando o seu passo mas que, em realidade, o que fazem é erosionar, danar e misturar os restos que lá se encontram e criar uma paisagem irreal e descontextualizada. Propõe-se agora a criação dum centro de interpretação e um certo controlo sobre as visitas, o que imediatamente fai-nos lembrar o Projecto Nemeton de protecção dos lugares sagrados (assinado pela IDG e outras associações), no que usamos daquela uma imagem do santuário como representativa.

Santuário do Facho de Donom, consagrado ao deus Berobreo

Alto do santuário do Facho de Donom (Co. Morraço).

O primeiro uso conhecido do Santuário do Facho de Donom estima-se entre os séculos X e IX AEC, a finais da Idade do Bronze, e pode-se encontrar também um castro do S. IV AEC (Berobriga) e ainda uma construção religiosa do S. IV EC. Contudo, existe com certeza muito trabalho arqueológico por fazer nesta zona declarada BIC (‘Bem de Interesse Cultural’) que só nos poderia dar ainda mais surpresas e alegrias, algo que pelo momento não é contemplado por falta de orçamento.

As autoridades políticas falam, isso sim, do “potencial turístico” do enclave, o qual não está mal pois poderia ajudar a pagar pela sua manutenção e futuros trabalhos de investigação, mas tampouco estaria de mais explicar o verdadeiro significado de tal especial ponto da nossa geografia sagrada, e protege-lo e respeita-lo em consequência.

Vem o frio, mas também a luz

Serra do Larouco nevada,

Serra do Larouco nevada. Estas montanhas recebem o nome do grande Deus Larouco (An Dagda), ainda que a casa da Deusa nai Anu (Danu) não fica longe. (Foto F. Ribeiro)

Não para de girar a Roda do Ano, caminho do Solstício de Inverno numas horas, no passo do 21 ao 22 de Dezembro. Esta é uma das quatro festividades menores contempladas na Druidaria que incluem solstícios e equinócios, à parte das quatro grandes celebrações religiosas.

Como tantas cousas aparentemente paradoxais na nossa cultura, vai começar o frio a sério justo quando a luz do Sol quer fazer o caminho de volta. Aparentemente paradoxais, claro, mas só para quem não repara na maravilha da natureza.

Mais uma vez, esta natureza demonstra que não há súbitos fins nem mais confusão da que nós queiramos criar. Antes o contrário, nos rigores do duro inverno, na noite mais longa e o dia mais curto, reparamos em que a partir de agora a luz só pode triunfar. É o passeninho retorno de Lugu. Parece que o tempo voara desde o Magusto e já queremos alviscar o brilho de Bel nas folhas de acivro e visco branco, embora ainda estar algo longe.

Aliás, algumas outras tradições druídicas celebram esta noite mais longa do ano como sinal do eventual regresso de Bel, simbolizando a sobrevivência sobre as trevas e lenta chegada da luz. É o enraizamento e gestação durante três dias do Infante Sol (logo Larouco – An Dagda) a partir do Ventre Materno, a escuridão da Deusa Anu (Dana ou Danu). São as datas da Modranecht ou Matronucta (a ‘Noite Nai’), também do Meán Geimhridh (‘Meio Inverno’) e Lá an Dreoilín (‘Dia da Carriça’), o dia no que em Éire este pássaro é “caçado”, guardado e depois libertado como sinal de continuidade, da passagem definitiva do ano anterior, pois canta sem parar tanto no verão como no inverno sem interrupção; isto era algo que também se fazia na Lourençá, na Marinha, mas uns dias mais tarde. A Roda gira, a vida continua.

Nesta data na IDG honramos ao Deus Larouco, Deusa Anu (deidades primeiras e essenciais) e a sua filha, Deusa Brigantia. É, de facto, das muitas poucas vezes que Larouco e Anu podem ser nomeados.

Seja dito, outrossim, que trânsitos como o Solstício de Inverno são datas de extrema importância na tradição germânica (festividade de Yule) e na religião Wicca, mesmo no calendário chinês (o Dong Zhi, ou “chegada do Inverno”), entre outras no mundo. Na Europa outras religiões também empregaram e adaptaram a posteriori estas datas como marca do trânsito cara a um período de maior esplendor.

Arredor destas datas os e as Caminhantes podemos nos reunir com a nossa gente, família ou Clã (incluídos os que foram para o Além), na confiança de que o futuro sempre há acabar por destruir os gelos da fria temporada. O Solstício astronómico é hoje a última hora, mas as celebrações continuam. É a época do Apalpador, que virá trazer alegria e diversão às crianças. Queima-se o facho e manifesta-se a Coca ou Tarasca numa piscadela cúmplice, deixando-se “comer” em forma de doce.

Bom Solstício de Inverno. Que corra a raposa e que cante a carriça! E que ninguém esqueça os cartões conmemorativos feitos pela IDG para esta época do ano :)

“Meses do inverno frios
que eu amo a todo amar,
meses dos fartos rios
e o doce amor do lar.
Meses das tempestades,
metáforas da dor
que aflige as mocidades
e as vidas corta em flor.
Chegade, e trás o outono
que as folhas fai chover,
nelas deixade que o sono
eu durma do não-ser.
E quando o sol formoso
de abril torne a sorrir,
que alumee o meu repouso,
já não meu me afligir.”

(Rosalia de Castro, Folhas Novas, 1880).

Celebrações, saúdos… e cartões!

apalpador2014

Antevisão – Preview

[scroll for English version] Achega-se o Solstício, o ‘Meio Inverno’, um dos múltiplos nomes que pode receber. Em breve aparecerá um texto falando em concreto sobre esta celebração e a sua importância na Druidaria mas, por enquanto, queremos disponibilizar uns cartões celebratórios desta época.

Bem sabemos que esta é uma temporada tradicionalmente familiar, de lembrança da gente que está longe, onde circulam mensagens, telefonemas e… ainda cartas e cartões comemorativos. É por isto que oferecemos uma alternativa druídica para quem quiser.

Os cartões podem-se baixar nas ligações a seguir em formato A4 (mais grande) e A5 (dous por página). São pequenos pdf prestes para a sua impressão a dupla cara (de preferência em cartolina), com o que depois só há que dobrar ou recortar um bocado e depois dobrar.

– – –

[in English] The Solstice is coming, the ‘Mid Winter’, one of its multiple names. A new article about this and its significance for Druidry will be published shortly. In the meantime, we are pleased to provide some celebratory cards for this season.

We know well this is a traditional time for family, for remembering those who are far, a time when messages, phone calls and… yes, good old regular cards are exchanged with profusion. That is why we offer this Galician-Druidic alternative to whoever might be interested.

The cards can be downloaded from the links below in two formats: A4 (bigger) or A5 (two per page). They are small pdfs ready to be printed on both sides (preferibly on quality paperboard), so you only have to cut it out (if necessary) and fold it.

Tamanho A4 (página inteira) em galego-português.

A4 size (full page) in English.

Tamanho A5 (dous por página) em galego-português.

A5 size (two per page) in English.

Como tudo neste sítio, o seu uso é livre, sob licença Creative Commons 3.0 – Like everything else in this site, its use is free, under a Creative Commons 3.0 license.

 

Vai-te logo meu neno / minha neninha,

marcha agora para a caminha,

que vai vir o Apalpador

a apalpar-che a barriguinha.

Amanhã é dia de cachela

que haverá grande nevadara

e vai vir o Apalpador

com uma mega de castanhas.

Por aquela cemba

já vem relumbrando

o senhor Apalpador

para dar-vos o guinaldo

(Popular)

Teoria e prática da cultura

Tripla escada helicoidal, no Museu do Povo Galego, numa mistura de arquitectura e simbologia ancestral.

Tripla escada helicoidal, no Museu do Povo Galego, numa mistura de arquitectura (S. XVII) e simbologia ancestral.

Vem de se realizar na cidade de Ponte Vedra o “Culturgal“, ou grande feira da Cultura Galega, com um grande sucesso apesar de todas as dificuldades e o panorama pessimista que defronta a nossa cultura. Mas, o que é isso da cultura para nós, crentes druídicas? Vejamo-lo de forma muito breve.

A cultura (desde a música até a língua, passando por tudo o demais) e não só o legado dum povo, mas o elo de união de todos os seus integrantes através da história. Que seríamos como humanos sem essa continuidade? Onde ficaria o princípio druídico básico e inescusável da honra e respeito pelos devanceiros e devanceiras? Ou um dos Nove Compromissos druídicos, como é o Compromisso com as Raízes?

A desaparição forçada e acelerada da nossa cultura – como foi o caso desde o S. XX para a Galiza – implica uma série de desajustes sociais e psicológicos bem tangíveis e sérios que dificultam, por exemplo e para dar um caso muito prático, a auto-organização política e territorial, que leva a (mais exemplos) o deterioro ambiental, pobreza relativa estrutural, etc.

É dizer, todo colectivo humano não consciente do seu passado e que não compreenda, embora seja de forma elementar o por quê dos seus hábitos e costumes, está destinado a um mau fim.

O orgulho pela cultura própria deve ser entendido, pois, nesse conhecimento e nessa adaptação das tradições e saber acumulado ao mundo que vivemos, para conduzi-lo onde queremos, como sabemos, como a nossa única forma digna de estarmos nesse mundo.

Noutros lugares talvez não precisem relembrar o passado, nós por desgraça sim, assim como colocá-lo em valor.

E repetimos, a cultura é algo muito abrangente, desde a forma de habitar o espaço físico que vivemos à língua que falamos, e isso é o que está a perder o nosso Povo sem escolha consciente. Não fiquem nunca unicamente com o aspecto “folclorista” ou “nostálgico”.

Porém, estudemos a nossa história, viajemos pela nossa geografia, conheçamos as nossas gentes, falemos a nossa língua, vivamos e partilhemos a nossa cultura com o mundo e fiquemos sendo melhores pessoas. Exija-mos ser 100% galegos e galegas sem complexos, em toda parte, a todas horas, todos os dias do ano.

Comunicado conjunto de Ordens e Irmandades

Desde a IDG tinha-se alertado para o uso não só desrespeitoso da nossa religião, mas para o especialmente preocupante uso crematístico da mesma. Se daquela vez aconteceu no nosso país, é agora a quenda duma “feira esotérica internacional” na Catalunha. Se daquela vez recibemos o apoio e simpatia de Ordens e Irmandades amigas, desta agimos conjuntamente expressando o nosso rejeitamento formal. logos

Assim, as quatro Ordens e Irmandades do Estado Espanhol acordamos e assinamos um comunicado unitário que pode ser baixado em formato pdf >aqui<, e que transcrevemos a continuação na íntegra no nosso idioma:

 

<< A Asociación Religiosa Druida Fintan, de Tradição Druídica Reconstrucionista Gala e com número de Registo 2127-SG/A; a Hermandad Druida Dun Ailline, de Tradição Druídica Reconstrucionista Irlandesa e com número de Registo 2854-SG/A; a Irmandade Druídica Galaica, de Tradição Druídica Reconstrucionista Galaica e em trâmites de legalização, e a Orden Druida Mogor, de Tradição Druídica Britânica e também em trâmites de legalização, perante o evento lúdico “Casamento Celta Druídico”, a se celebrar em Barcelona os próximos dias 28, 29 e 30 de Novembro [2014 ]dentro da “Feria Esotérica Magic Internacional”, manifestam de maneira rotunda o seu profundo rejeitamento do que consideram a banalização duma Cerimónia Religiosa própria da nossa Confissão.

É por isto que a totalidade das Ordens e Irmandades de Crença Druídica do Estado Espanhol (legalizadas e em processo de legalização) e em representação, em definitiva, de todos e todas as nossas crentes, que conformam a Comunidade Druídica, acordamos o seguinte comunicado conjunto:

“A Comunidade de Crentes Druídicos do Estado Espanhol sente-se profundamente indignada pelo que considera uma notável falta de respeito cara as nossas crenças e cerimónias por parte da organização da Feria Esotérica Magic Internacional.

Consideramos que o rito que denominam “União de Mãos”, é dizer, os Esponsais Druídicos, é uma Cerimónia Religiosa e, como tal, só tem sentido dentro da dita crença. Ninguém organiza esponsais católicos, protestantes, evangelistas, judeus, islâmicos, etc como uma simples manifestação lúdica, contudo sim são realizados supostos casamentos druídicos sem se considerar sequer o concurso ou parecer das instituições religiosas próprias da dita crença. Mais uma vez, constatamos que as religiões minoritárias que não formam parte do establishment que fornece o ‘Notório Arraigo’ são ignoradas nos seus mais elementares direitos.

Manifestamos que é lamentável que se tomem as crenças minoritárias como propiciatórias para extravagâncias e negócios, dado que o facto de alguém participar em ritos pouco comuns, atraídos pelo seu arcaísmo, o seu mistério ou a sua vistosidade deixa bons dividendos aos seus organizadores.

Uma boda, seja da crença que for, é um acto religioso próprio duma crença que deve oficiar um sacerdote ou sacerdotisa ordenada de dita crença sob as estruturas organizativas da tal crença (no nosso caso, das Ordens ou Irmandades Druídicas). Isso não pode escapar do entendimento de ninguém. É por isso que a Comunidade de Crentes Druídicos quer deixar bem claros certos aspectos:

1. Os Esponsais Druídicos, como toda Cerimónia Religiosa ou Espiritual, deve se realizar pelos Sacerdotes Consagrados e reconhecidos para o culto pelas Associações Religiosas de dita crença que estão reconhecidas no Registo de Entidades Religiosas do Ministério de Justiça do Estado Espanhol.

2. O oficiante da pseudo-cerimónia não é um sacerdote druida ordenado e está fora de toda linha druídica regular. Não está reconhecido em nenhum país e não pode apresentar nenhuma credencial como sacerdote druida consagrado por nenhuma Ordem europeia.

3. O facto certo de não todas as Ordens no seu seio contemplarem o Druidismo como religião estruturada, e o manterem como espiritualidade, não implica por isso que não devam observar-se ou terem-se em conta as observações expostas no primeiro ponto.

4. Não podemos interpretar o nomeado evento como uma representação de carácter recreacionista já que em nenhum momento é aclarado por parta da organização da Magic Internacional que a actuação proposta não tem nenhum tipo de validade sacramental e que os oficiantes não têm nenhum tipo de qualificação sacerdotal, é dizer, não é um druida consagrado. Cremos que isso tudo no seu conjunto provoca uma grande confusão na gente, e achamos que a organização brinca com dita ambiguidade, já que dar a entender às pessoas interessadas que participam numa autêntica cerimónia religiosa é muito conveniente em termos empresariais.

Em consequência, manifestamos a nossa mais clara repulsa perante as “uniões” agendadas para o evento Magic Internacional já que as mesmas constituem uma grave ofensa para o sentimento religioso de muitas pessoas que têm no Druidismo as suas crenças espirituais.”

Em Vacarisses [Catalunha], 19 de Novembro 2014.

Asociación Religiosa Druida Fintan – Nº 2127-SG/A R.E.R

Hermandad Druida Dun Ailline Nº 2854-SG/A R.E.R

Irmandade Druídica Galaica – em trâmites de legalização

Orden Druida Mogor – em trâmites de legalização >>

O original (em espanhol) foi publicado primeiro >aqui<.

Que Íccona Loiminna o espalhe como quiser e melhor entender /|\

- – -

Actualização 28 Novembro

Este comunicado provocou a resposta dos organizadores, que foi publicada nesta ligação (em espanhol; parte laranja).

Desde a IDG, enviamos um correio-e precisando a nossa postura que achamos encerra pela nossa parte este capítulo. Foi como segue (parte central traduzida ao nosso idioma):

<<1. A IDG não tem intenção de perseguir a ninguém em particular, senão indicar algo que ao nosso ver é oferecido sob um epígrafe enganoso (“casamento celta druídico” / “união de mãos”) e sob uma focagem que consideramos muito desafortunada (“actividade lúdica” numa feira “esotérica”). Figemos exactamente o mesmo este passado Agosto a respeito dumas denominadas “bodas celtas” massivas.

2. Consideramos que existe um fim crematístico pois é uma actividade englobada num evento comercial de rango superior que se beneficia da sua inclusão. Isso, para nós, invalida por completo qualquer rito supostamente religioso, sem entrar sequer em se alguém particular – que nem conhecemos – cobra ou paga, o qual tornaria ainda mais grave o assunto.

3. Aceitaríamos sem maior problema uma conversa sobre Druidaria e a nossa forma de vê-la (ainda que nunca queremos fazer nada que semelhe proselitismo), mas duvidamos de o factor distância o permitir. Evidentemente, nunca seria num meio de comunicação pelos condicionantes que estes impõem; teria que se realizar num foro ajeitado com calma e tempo, e deveria sempre contar com quantos mais interessados/as melhor.

4. Obviamente, estamos no nosso direito de expressarmos a nossa opinião livremente, igual que Vc a sua, assim como qualquer pessoa que nos ler ou ouvir está no seu direito de nos fazer caso ou tudo o contrário. Simplesmente, que cada um/a tire as suas conclusões.>>

Cheira a castanha de Magusto, é o Ano Novo

Senhora Cailleach no seu terceiro passo: nem moça nem adulta, mas velha rosmona e sábia, apoiada no seu sacho e vestindo o seu saio quando abrem as portas do Além, começa o ano e vai frio, vento e chuva.

A grande e mágica noite já está aqui! No trânsito do 31 de Outubro ao 1 de Novembro milhões de pessoas em todo o mundo celebram uma tradição druídica, uma festa celta, fixada já popularmente nesta data. É a Noite de Magusto, dos Calacús, de Samain (que alguns chamam de Halloween).

É a noite quando acabam de abrir de vez as portas do Além (Sídhe) para durante três dias podermos finalmente comunicar sem eivas com quem não estão graças aos corvos da deusa Reva, que voam alegres e a vontade. É o intre concreto e simbólico que marca o fim do ano e o começo dum novo, celebrando-se tanto religiosamente como com uma grande festa onde é tão importante a comunhão com os nossos devanceiros e devanceiras como o riso e a alegria. Entre hoje e amanhã são, em definitiva, os momentos mais importantes do ano para os/as Caminhantes da Drudaria.

A Roda do Ano completa uma volta inteira, marcando já sem dúvidas a entrada cara o Inverno. É o merecido descanso da Terra e a satisfação de termos não só superado mais um ano, senão de encontrar-mo-nos celebrando em Comunidade a boa disposição e coragem para seja o que for vem a seguir, sem importar o rigor da estação. Que chova! O milho já está apanhado.

Toma Bandua as suas chaves e abre as cancelas do Além, deixando passo a Berobreo e os seus. Longe já do esplendor da luz de Lug (que morre e dorme placidamente guardado pela mesma Bandua), ou da regeneração de Brigantia e posterior apoteose de Bel, é agora decididamente a quenda da Cailleach - senhora da nossa Terra – completando não só o ciclo de celebrações e deidades do nosso calendário sagrado, senão também o seu próprio. Não olha mais desde um canto, mas sim adquire o protagonismo todo quando, precisamente, deixa de ser nova e linda, quando chega ao seu aparente fim, o fim do ano, e vira em velha mas sábia. Será ela, a também senhora da noite, a que facilite o trânsito entre aqui e o Além junto a Bandua e Berobreo; será ela quem tome conta das bestas por uma temporada; será ela a que de repente cessará de lembrar-nos a perda que pode supor o passo do tempo para fazer ver que em verdade o que havia era construção, mudança, avanço, com o exemplo da sua própria e pessoal regeneração.

Irusan e os seus estão muito presentes esta ano.

Irusan e os seus estão presentes esta ano.

A Cailleach trabalha agora a Terra com o seu sacho até passado o próximo solstício. E com tanta trabalheira haverá quem pense que está a destroçar, mas realmente remexe o necessário para sementarmos quando chegue a nossa vez. Deixará por uma ocasião de rosmar das outras deidades para, como autêntica nai, estender o seu saio aconchegante sobre o Cosmos todo.

Estes dias a Galiza está em festa. Não há cidade, vila ou aldeia que não festeje e honre as suas devanceiras e devanceiros. Não há recuncho do País que não cheire a castanha assada (alimento favorito no Além) e a gente pense no Magusto. Não há lugar onde não fique acesa uma candeia. Não há janela sem calacú, as “cabeças cortadas” que protegem o lar. Não há crianças que não sintam que é noite de troula e vaiam “pedir o pão” pelas portas. E esta ano, ainda, não esqueceremos colocar o leite à porta para Irusan e os seus, muito especialmente presentes esta vez.

Hoje caem os muros etéreos e seica para-se o tempo. O mar entre mundos vira regato, quase ao alcance da simples vista. Ficamos logo nas mãos da Cailleach, na companhia dos amigos corvo e gatos e baixo o abeiro do teixo.

É tempo de Druidaria. Mais do que nunca esta é a nossa festa rachada.

Feliz Magusto! Bom Ano Novo a todos e a todas! Nós abofé que estaremos celebrando.

Baixar cartão comemorativo aqui

Baixar cartão comemorativo do Magusto 2014

Convidamos à atenta leitura deste artigo, explicando e exemplificando como esta celebração continua viva em múltiplas e variadas formas, mas sempre com o mesmo sentimento, profundamente druídico. Recomendamos, aliás, completar com este outro.

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