Os Córios: uma chave para compreendermos a nossa “via guerreira”

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Imagem medieval duma “banda de guerreiros”, herdança dos Córios célticos

A “via guerreira” é um elemento frequentemente citado em muitas tradições espirituais e religiosas como exemplo de superação e logro de objectivos através da tenacidade, constância e esforço pessoal. Noutros casos toma um aspecto mais literal como forma de auto-controlo, melhora física e disciplina marcial. Mas, existe algum fundamento para isto tudo no caso galaico?

Alguns autores e autoras relacionam os Córios galegos com os Fianna irlandeses, ainda que o conceito na Galiza é mais difuso por ser, precisamente, mais antigo e ter mudado mais no tempo.

Os Córios são relacionados primeiramente com um corpo de elite ou protector dos Coronos (príncipes locais). São os seus “campeões”, normalmente jovens solteiros entre 14 e 20 anos que teriam, assim, uma mecanismo para curtirem-se como guerreiros, actuando no limite da Lei. Em ocasiões poderiam actuar como uma espécie de comandos ou grupos peculiares, vivendo fora da comunidade, sempre à espera de ordens. A causa disto, e pela sua indumentária e comportamento (rostos pintados, acções nocturnas, estratégias de combate originais e confusas), poderiam ter dado lugar a outra série de nomes e legendas, como por exemplo a Sociedade do Urso ou a Estadea. À vez, estariam muito ligados à Caça Selvagem, ficando nesta altura totalmente associados à imagem dos Fianna da Irlanda.

O professor André Pena cita na sua tese doutoral (2004):

“… organizados em confrarias ou fianna, quem se acaso durante uma parte do ano actuavam localmente como polícia de fronteiras numa espécie de exército permanente, enquanto que durante outra parte do ano, saindo do seu país e penetrando nas terras dos povos vizinhos (fer tar crich=’um homem trás o território’), tal como os Lusitanos descritos por Diodoro (V, 34, 5), entre outras circunstâncias para vingar as mortes (Crith Gablach 72) e homicídios dos seus compatriotas e camaradas perpetradas pelos habitantes doutros territórios, colocavam-se fora da Lei, cometendo roubos nos países inimigos do Túath ao que eles pertenciam, fazendo-se, daquela, com uma dote ou com um pecúlio pessoal que lhe permitira (morgengabe) o acesso a um matrimónio vantajoso.”

Representação medieval dum guerreiro irlandês, membro duma Fianna

Representação medieval dum guerreiro irlandês, membro duma Fianna

Na versão galega estariam dedicados ao Deus Bandua (Ogmios ou Ogma noutras tradições), a testemunha dos juramentos, o da “magia dos laços”, o que “ata” tanto para unir a tribo como para imobilizar os inimigos. Na etimologia figura a raiz Band- da que derivaria banditus, ou bandidos/banda/bandeira. É dizer, o grupo de gente que realiza estas acções, a bandeira que lhes une.

É interessante como este sistema de organização militar há sobreviver como mínimo até a Idade Média, pois era um sistema útil para os poderes locais. De facto, a estrutura sócio-territorial céltica em geral adapta-se mas mantém-se até hoje em dia. A supervivência medieval dos Córios vem reflectida nas referências à aula comitis, embora nessa época tinham já perdido o seu significado não tanto como corpo de elite, mas sim como forma de aprendizagem, de guerreiros e guerreiras dedicadas a uma Deidade em concreto. Contudo, a estrutura fica.

Em relação a esse “endurecimento” ou treino como guerreiros, supõe-se que o Cório estava associado a duas celebrações principais: Magusto (Samhain), quando celebrariam com a comunidade para o dia a seguir partirem ao monte e desaparecerem até os Maios (Beltaine), quando poderiam voltar a se reintegrarem depois do inverno fora. É dizer, as mesmas pautas que a Fianna irlandesa, ainda que se desconhece se permaneciam aquartelados nos ráth dos nobres ou nalgum outro lugar.

Milénios de contacto, comércio, intercâmbio entre gentes que na origem conformaram o mesmo Povo não pode desaparecer na sua totalidade apesar das vicissitudes históricas posteriores. Há, de facto, uma linha de investigação permanentemente aberta e sempre frutífera entre a Galécia e a Irlanda.

Talvez, no futuro, a IDG possa abrir uma “via guerreira”, sob auspícios de Bandua e, claro está, de Brigantia (patrona das artes marciais, entre outras cousas) e ainda Reua…

Estas informações, embora originais da IDG, foram primeiramente publicadas em espanhol (com permissão) num artigo da amiga Hermandad Druida Dun Ailline.

Uma grandiosa entrada na Primavera

A primavera entra da mão do eclipse.

Este ano a Primavera entra da mão dum eclipse solar.

Hoje o Sol detém-se sobre as nossas cabeças, toma fôlegos por um intre na sua viagem enquanto equilibra luzes e trevas. Este ano pode que lhe custe um bocado mais, por causa de um sempre espectacular eclipse solar, onde a Galiza será um dos melhores lugares da Europa continental para o observar. E ainda, nas horas de entrada oficial da Primavera, veremos uma “Super Lua“, com o qual desfrutaremos de três fantásticos eventos astronómicos em poucas horas.

Contudo, depois de finalmente alcançar à escuridão na sua corrida, hoje o dia dura tanto como a noite e a noite como o dia: é o equinócio da Primavera, o que muitos e muitas denominam Alban Eilir, “A Luz da Terra”, Mean Earraigh, “Meia Primavera”, ou Alban Talamonos, “O Amencer da Terra”; Ostara nos cultos germânicos e wiccanos, o início do ano astrológico para outros.

É um dos quatro grandes eventos astronómicos que intercalam as quatro grandes celebrações para completar a Roda do Ano.

Continuamos assim o caminho indicado no Entroido (Imbolc). Vai resultando evidente que a chegada dos Maios (Beltaine) e imparável. A natureza cumpre os seus ciclos mais uma vez, por muito que muitos teimem em ignorá-la e daná-la. Por fim vai agromando a vida por toda parte; é óbvio e palpável. Activa-se a fertilidade e maravilhamos-nos de como a planta sabe quando tem que medrar, quando tem que sair do ovo protegido por uma lebre, simbolismo do que significavam os frutos “no ventre” (i mbolg) da Deusa Brigantia, que não parou de sorrir desde o Entroido, e continua.

Renovam-se então as intenções do Entroido: continua a preparação, cuidado e sementado da terra, mas esta já reverdece. Pode-se pôr outra vez a casa em ordem e continuarmos a limpeza, também interior, porque com esta luz podemos ver melhor todo recanto escuro, em toda parte, e não deixarmos nem um canto sem arranjar.

Bom Equinócio da Primavera. Recebide a acougante Alban Eilir num agarimoso abraço. Empregade bem o tempo da Mean Earraigh. Espreguiçade-vos com o Alban Talamonos.

 

Dizem que não falam as plantas, nem as fontes, nem os pássaros,

nem a onda com os seus rumores, nem com o seu brilho os astros,

dizem-no, mas não é certo, pois sempre quando eu passo,

de mim murmuram exclamam:

Aí vai a tola sonhando

com a eterna primavera da vida e dos campos

e já bem cedo, bem cedo, terá os cabelos canos,

e vê tremendo, aterecida, que cobre a giada o prado.

 

Hai brancas na minha cabeça, hai nos prados giada,

mas eu prossigo sonhando, pobre, incurável sonâmbula

com a eterna primavera da vida que se apaga

e a perene frescura dos campos e as almas,

ainda que os uns esgotam-se e ainda que as outras abrassam.

 

Astros e fontes e flores, não murmuredes dos meus sonhos,

sem eles, como admirarvos nem como viver sem eles?

(Rosalia de Castro, 1884)

A Terra veste as cores da Primavera.  Foto: S. Lourenço Sueiro.

A Terra veste as cores da Primavera.
Foto: S. Lourenço Sueiro.

No Dia da Mulher

druidesa

“O Visco”. Gravura de Druidesa mostrando o visco cortado, a planta mais sagrada. Virginie Demont-Breton (1895).

No Dia Internacional da Mulher (Trabalhadora) – 8 de Março – a IDG acode ao seu chamado social nesta importante data, apoiando o que nela se honra e reivindica, como é a luta pela igualdade das mulheres, os seus direitos plenos e empoderamento na sociedade actual, lembrando e criticando o seu silenciamento secular.

Por desgraça, a institucionalização desta ocasião tende a ocultar muitos dos problemas reais por trás duma cortina de falsa “equiparação” ou “avanços”. Abofé que alguns sim se têm produzido, mas não sem grande esforço e longe ainda duma situação ideal. Fica muito, aliás, no caminho à frente, por isso apelamos à constante vigilância contra a violência machista, discriminação laboral, controlo do corpo, segregação nos estudos e desportos… e tantas outras chagas que continuam a afectar, limitar e empobrecer a vida das mulheres galaicas e do mundo.

Contudo, e com diversos eventos acontecendo no país, não podemos deixar de achar significativo que esta data se encontre ainda baixo a influência do Entroido (Imbolc), e portanto de Brigantia, a Deusa vitoriosa, aquela que estende ou retira a soberania, o poder, à sua vontade. No Druidismo Galaico acreditamos, como exemplifica a sua figura, que toda mulher é (deve ser!) livre nas suas escolhas, igual que Brigantia: ferreira e guerreira, soberana e sanadora, nai se quiser. Deixemos pois que esta grande Deusa possa nos ajudar de agora endiante, recordando o papel fulcral da mulher nas sociedades célticas de antano, as mais avançadas neste aspecto na sua época.

Neste dia, a IDG ratifica de entre os Nove Compromissos Druídicos o Compromisso com a Humanidade, o Compromisso com a Independência e o Compromisso com a Liberdade, e evoca de entre as Nove Virtudes célticas a virtude da Justiça.

Bom dia então, irmãs, com mais um passo cara um futuro melhor.

 

Nota: Na nossa tradição a mulher pode atingir o grau sacerdotal máximo de Durvate (Druidesa), seguindo o mesmo processo que qualquer homem.

Começa o Entroido (Imbolc), tempo de Brigantia

Cruz de Brigantia, feita de junco ou palha, representando em verdade a Cruz Solar.

Cruz de Brigantia, representando em verdade a Cruz Solar.

Chegou a segunda das quatro grandes celebrações do ano, o Entroido (Imbolc), uma celebração de esperança e alegria fortemente vencelhada à Deusa Brigantia (Brighid ou Bride), a deusa vitoriosa, representante-mor da soberania feminina, exemplo perfeito das trindades druídicas na sua própria figura.

Durante esta época desenvolve-se este festival percebido como estímulo do crescimento, o acordar da terra, da preparação dessa terra no seu encontro com a primavera, da fertilidade. Vai-se cumprindo o anunciado triunfo sobre o inverno que começou com o ano novo no Magusto (Samhain), inverno que se bem ainda não rematou também não foi quem de nos vencer quando bateu mais duro; e mesmo nestes dias quando ainda bate forte o temporal!

É o momento então para ajudarmos a terra, pôr os assuntos da casa em ordem, mesmo de fazer uma grande limpeza, de fazer planos e de “plantar” ideias. Muitos animais parem nestas datas e mesmo pode ser considerada como a festa dos bebés. Já diz o refraneiro galego que no 2 de Fevereiro “casam os passarinhos”. Lembra-se, aliás, que o Rei hã renovar os votos com a Terra em breve, na união de soberanos, o pacto sagrado entre o Ser Humano e as Deidades, da mão de Brigantia.

A Deusa Brigantia – portadora da luz e deusa do fogo, da vitória, da profecia e filosofia, poesia e sanação – toma três aspectos: como Lume da Inspiração (patrona da poesia, artes e profecia), como Lume do Lar (patrona da sanação e fertilidade, de pastoras a agricultoras, protectora da casa) e como Lume da Forja (patrona da metalurgia, ferraria e artes marciais, grande guerreira).

A alegria

A alegria do Entroido tradicional: as cores racham o frio. Chama-se por Brigantia, chama-se por Bel. Vêm os Córios e vai-se afugentando a época escura.

A Soberana guia o Entroido com os seus atributos positivos e fai que, precisamente, acedamos a uma nova época. Eis a raiz do Entroido (ou Entrudo), uma entrada a um tempo alegre que em muitos lugares começa já pouco depois de passado o solstício de inverno, mas nada a ver com o “carnavalesco” grosseiro, completamente alheio à nossa tradição [1][2][3][4]. Brigantia assegura então este trânsito e garante a promessa de renascença feita no solstício. Ela será quem acorde os deuses Bel e Lugu chegado o momento, mesmo quem dea à luz e amamente este último se figer falta a partir do dia 2.

O ano já há tempo que começou, mas só agora Brigantia e o ciclo da natureza começam a nos premiar de forma especial pela nossa resiliência. Tudo vira em torno ao Imbolc a partir destes momentos (do velho céltico i mbolg, “no saco” ou “na barriga”), este embigo da vida. Alviscamos a sua luz e ficamos confiantes: há que chegar ainda, mas já estamos quase. É tempo de alçarmos a cabeça e rirmos! :)

O orvalho alimenta tua alma,
O lume novo arreda o inverno,
Da terra brota o teu corpo,
esperta mística do ermo.

Relíquia que futura terra fertiliza,
Sobre ira que leda brua na brisa,
Morre o serão aos nossos olhos,
Renasce Brígida no crisálido sonho.

E na dança do teu mirar
Vejo castros, vejo o mar…
E nos beiços do teu Imbolc
Vejo a arder a lua, vejo gear o sol…

Esperta! No que foi dourado chão,
Esperta! onde tornou gélida a mão,
Voltam as folhas no alto a sombrear,
A verde ultraje da cíclica fraga-nai.

Mileth (com grafia adaptada; reproduzido com permissão)

Tripla Deusa Brigantia, senhora do Entroido (Imbolc). Detentora do fogo pois é protectora (entre outras) das ferreiras que forjam as armas, das poetas que apresentam lumes cerimoniais, e das sanadoras que facilitam o lume do lar. Brigantia fornece também pela criança nascente.

Recuperação parcial do Facho de Donom

Réplicas das aras a serem repostas.

Réplicas das aras a serem repostas. Na da esquerda pode-se ler Deo Lari Bero Breo (Deus Lar [das Ánimas] da Alta Casa).

O famoso santuário do Deus Berobreo – um dos principais lugares de peregrinação da Galiza na antiguidade – vai saindo do seu abandono. É uma boa notícia numa época onde a destruição do nosso património e outros assuntos desafortunados pareceriam ser já o habitual, embora houvera pequenos acenos de alegria.

Nomeadamente, foram colocadas réplicas de três das lindas aras que lá estiveram numa altura. Estamos a falar do Facho de Donom, na comarca do Morraço, na costa sul-oeste da Galiza, onde foram achadas umas 174 aras com dedicações a Berobreo, o que fai com que seja a deidade nativa com maior número de ex-votos da Península Ibérica. Muitas delas tinham oferendas rituais.

Porém, isto não é de estranhar tendo em conta o que Berobreo representa: é o Deus dos mortos, quem te acolhe no trânsito com um sorriso e sempre de braços abertos. Ele comunica o aqui e o Além e o seu nome não significa outra cousa senão “Senhor da Alta Casa (dos Mortos)”, que também aparece como Vestio Alonieco (“O Hospedeiro do Além” ou “Hospedeiro Alimentador”), lembrando neste delicado momento, e com mais sentido que nunca, um elemento absolutamente fundamental da cultura céltica: a hospitalidade. É como Donn (“Rico em Hóspedes”) na Irlanda, o chefe dos (galaicos) Filhos de Mil, o nome que recebe lá e quem disse antes de morrer “à minha casa viredes todos depois da vossa morte”.

Berobreo

Representação de Berobreo, sob o epíteto Vestio Alonieco, encontrado em 1944 em Louriçám (Co. Ponte Vedra). Agora em “exibição” no Museu Provincial.

O Facho é uma atalaia privilegiada, cara o mar, pois a água é sempre lugar de encontro e de trânsito cara o Além; no oceano mora o Senhor dos Mortos. Desde aí podemos divisar as Ilhas Cies e Ons a um lado e outro (ilhas, a paragem de almas onde ficamos temporariamente cegos – não está permitido ver – já que aprenderíamos o caminho a esse Além), onde imos todos e todas quando a vida neste mundo remata e desde onde, confiados, embarcamos outra vez da sua mão até o destino final. Berobreo está no paraíso das Cies e Ons, aonde podemos chegar desde o promontório da praia da Lançada, está nos outos cantís de Teixido olhando a Irlanda ao norte, mas… a sua casa é Donom.

Já em Outubro, tinha-se recuperado a zona do bem-intencionado ainda que errado costume dos visitantes erguerem milhadoiros, isto é, pequenos montes de pedras marcando o seu passo mas que, em realidade, o que fazem é erosionar, danar e misturar os restos que lá se encontram e criar uma paisagem irreal e descontextualizada. Propõe-se agora a criação dum centro de interpretação e um certo controlo sobre as visitas, o que imediatamente fai-nos lembrar o Projecto Nemeton de protecção dos lugares sagrados (assinado pela IDG e outras associações), no que usamos daquela uma imagem do santuário como representativa.

Santuário do Facho de Donom, consagrado ao deus Berobreo

Alto do santuário do Facho de Donom (Co. Morraço).

O primeiro uso conhecido do Santuário do Facho de Donom estima-se entre os séculos X e IX AEC, a finais da Idade do Bronze, e pode-se encontrar também um castro do S. IV AEC (Berobriga) e ainda uma construção religiosa do S. IV EC. Contudo, existe com certeza muito trabalho arqueológico por fazer nesta zona declarada BIC (‘Bem de Interesse Cultural’) que só nos poderia dar ainda mais surpresas e alegrias, algo que pelo momento não é contemplado por falta de orçamento.

As autoridades políticas falam, isso sim, do “potencial turístico” do enclave, o qual não está mal pois poderia ajudar a pagar pela sua manutenção e futuros trabalhos de investigação, mas tampouco estaria de mais explicar o verdadeiro significado de tal especial ponto da nossa geografia sagrada, e protege-lo e respeita-lo em consequência.

Vem o frio, mas também a luz

Serra do Larouco nevada,

Serra do Larouco nevada. Estas montanhas recebem o nome do grande Deus Larouco (An Dagda), ainda que a casa da Deusa nai Anu (Danu) não fica longe. (Foto F. Ribeiro)

Não para de girar a Roda do Ano, caminho do Solstício de Inverno numas horas, no passo do 21 ao 22 de Dezembro. Esta é uma das quatro festividades menores contempladas na Druidaria que incluem solstícios e equinócios, à parte das quatro grandes celebrações religiosas.

Como tantas cousas aparentemente paradoxais na nossa cultura, vai começar o frio a sério justo quando a luz do Sol quer fazer o caminho de volta. Aparentemente paradoxais, claro, mas só para quem não repara na maravilha da natureza.

Mais uma vez, esta natureza demonstra que não há súbitos fins nem mais confusão da que nós queiramos criar. Antes o contrário, nos rigores do duro inverno, na noite mais longa e o dia mais curto, reparamos em que a partir de agora a luz só pode triunfar. É o passeninho retorno de Lugu. Parece que o tempo voara desde o Magusto e já queremos alviscar o brilho de Bel nas folhas de acivro e visco branco, embora ainda estar algo longe.

Aliás, algumas outras tradições druídicas celebram esta noite mais longa do ano como sinal do eventual regresso de Bel, simbolizando a sobrevivência sobre as trevas e lenta chegada da luz. É o enraizamento e gestação durante três dias do Infante Sol (logo Larouco – An Dagda) a partir do Ventre Materno, a escuridão da Deusa Anu (Dana ou Danu). São as datas da Modranecht ou Matronucta (a ‘Noite Nai’), também do Meán Geimhridh (‘Meio Inverno’) e Lá an Dreoilín (‘Dia da Carriça’), o dia no que em Éire este pássaro é “caçado”, guardado e depois libertado como sinal de continuidade, da passagem definitiva do ano anterior, pois canta sem parar tanto no verão como no inverno sem interrupção; isto era algo que também se fazia na Lourençá, na Marinha, mas uns dias mais tarde. A Roda gira, a vida continua.

Nesta data na IDG honramos ao Deus Larouco, Deusa Anu (deidades primeiras e essenciais) e a sua filha, Deusa Brigantia. É, de facto, das muitas poucas vezes que Larouco e Anu podem ser nomeados.

Seja dito, outrossim, que trânsitos como o Solstício de Inverno são datas de extrema importância na tradição germânica (festividade de Yule) e na religião Wicca, mesmo no calendário chinês (o Dong Zhi, ou “chegada do Inverno”), entre outras no mundo. Na Europa outras religiões também empregaram e adaptaram a posteriori estas datas como marca do trânsito cara a um período de maior esplendor.

Arredor destas datas os e as Caminhantes podemos nos reunir com a nossa gente, família ou Clã (incluídos os que foram para o Além), na confiança de que o futuro sempre há acabar por destruir os gelos da fria temporada. O Solstício astronómico é hoje a última hora, mas as celebrações continuam. É a época do Apalpador, que virá trazer alegria e diversão às crianças. Queima-se o facho e manifesta-se a Coca ou Tarasca numa piscadela cúmplice, deixando-se “comer” em forma de doce.

Bom Solstício de Inverno. Que corra a raposa e que cante a carriça! E que ninguém esqueça os cartões conmemorativos feitos pela IDG para esta época do ano :)

“Meses do inverno frios
que eu amo a todo amar,
meses dos fartos rios
e o doce amor do lar.
Meses das tempestades,
metáforas da dor
que aflige as mocidades
e as vidas corta em flor.
Chegade, e trás o outono
que as folhas fai chover,
nelas deixade que o sono
eu durma do não-ser.
E quando o sol formoso
de abril torne a sorrir,
que alumee o meu repouso,
já não meu me afligir.”

(Rosalia de Castro, Folhas Novas, 1880).

Celebrações, saúdos… e cartões!

apalpador2014

Antevisão – Preview

[scroll for English version] Achega-se o Solstício, o ‘Meio Inverno’, um dos múltiplos nomes que pode receber. Em breve aparecerá um texto falando em concreto sobre esta celebração e a sua importância na Druidaria mas, por enquanto, queremos disponibilizar uns cartões celebratórios desta época.

Bem sabemos que esta é uma temporada tradicionalmente familiar, de lembrança da gente que está longe, onde circulam mensagens, telefonemas e… ainda cartas e cartões comemorativos. É por isto que oferecemos uma alternativa druídica para quem quiser.

Os cartões podem-se baixar nas ligações a seguir em formato A4 (mais grande) e A5 (dous por página). São pequenos pdf prestes para a sua impressão a dupla cara (de preferência em cartolina), com o que depois só há que dobrar ou recortar um bocado e depois dobrar.

– – –

[in English] The Solstice is coming, the ‘Mid Winter’, one of its multiple names. A new article about this and its significance for Druidry will be published shortly. In the meantime, we are pleased to provide some celebratory cards for this season.

We know well this is a traditional time for family, for remembering those who are far, a time when messages, phone calls and… yes, good old regular cards are exchanged with profusion. That is why we offer this Galician-Druidic alternative to whoever might be interested.

The cards can be downloaded from the links below in two formats: A4 (bigger) or A5 (two per page). They are small pdfs ready to be printed on both sides (preferibly on quality paperboard), so you only have to cut it out (if necessary) and fold it.

Tamanho A4 (página inteira) em galego-português.

A4 size (full page) in English.

Tamanho A5 (dous por página) em galego-português.

A5 size (two per page) in English.

Como tudo neste sítio, o seu uso é livre, sob licença Creative Commons 3.0 – Like everything else in this site, its use is free, under a Creative Commons 3.0 license.

 

Vai-te logo meu neno / minha neninha,

marcha agora para a caminha,

que vai vir o Apalpador

a apalpar-che a barriguinha.

Amanhã é dia de cachela

que haverá grande nevadara

e vai vir o Apalpador

com uma mega de castanhas.

Por aquela cemba

já vem relumbrando

o senhor Apalpador

para dar-vos o guinaldo

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