Um Dia de Nosso

Celebramos outro ano o Dia Nacional da Galiza, o Dia da Pátria, o Dia de Todas e Todos Nós, a simbólica celebração da Terra que nos acovilha, sustenta e dá sentido, a que nos ensinou a estar no mundo.

Hoje unimos-nos à louvança do cenário único onde os nossos devanceiros e devanceiras viraram galegos e galegas. Hoje honramos – é preceito da Druidaria – a quem nos precedeu para podermos estar aqui agora e sermos quem somos.

Hoje celebramos o bom da Terra e da nossa cultura e identidade, e reforçamos a nossa vontade em erradicar tudo aquilo que lhe aflige e dana, com uma soa voz.

Muito especialmente, dos Nove Compromissos presentes na nossa religião hoje o Compromisso com as Raízes, com a Liberdade e com a Independência revelam-se fulcrais em múltiplos sentidos. Fai-se, aliás, um chamamento especial a galegos e galegas em relação a um dos princípios básicos da IDG, que é o da defesa da Terra, pois os tempos que vivemos vem como continua a perigar a sua essência, e a do nosso Povo.

Chega então o momento de enchermos as ruas, fachendosos de nós, cantando o nosso amor pelos “bons e generosos” e nojo pelos “imbecis e escuros”, construindo a berros se for preciso.

Hoje não pode faltar uma insígnia do País em cada casa, em cada recanto, como símbolo comunitário de união e determinação do mais grande Clã.

Sintamos no abeiro da Cailleach a ligação em sagrado pacto à espinha do Dragão. Celebremos!

Bom dia da Galiza!

“Hoje as campás de Compostela anunciam uma festa étnica, filha, talvez, dum culto panteísta, anterior ao cristianismo, que tem por altar a Terra Nai, alçada simbolicamente no Pico Sacro; por cobertura o fanal imenso do Universo; e por candeeiro votivo, o Sol ardente de Julho” (A.D.R. Castelao, Alba de Glória, 1948)

 

Esta celebração é de cumprimento voluntário para Caminhantes não-galegos/as mas sim de observância para galegos/as. Iniciados/as na IDG têm deveres específicos para este Dia.

Vocação comunicadora

Torre de Breogão (Corunha), comunicando!

Torre de Breogão (Corunha), (inter-)comunicando!

Os serviços na internet da IDG nasceram com uma vocação de pôr em contacto e fornecer informações a todos aqueles e aquelas interessadas na Druidaria Galaica, um nexo de união virtual para complementar o que sucede no mundo “físico”.

Cada perfil cumpre uma função, e assim como esta página contém a informação mais detalhada e publicações mais extensas, o facebook ou o twitter recolhem uma galeria fotográfica, dão informações do dia a dia, anúncios de eventos, etc.

Agora andamos a experimentar com um perfil em youtube, onde se bem ainda não há material próprio da IDG, recompilamos e organizamos vídeos em diferentes categorias que achamos podem ser de interesse. Há música, história, cultura, crenças, e até um apartado de denúncia.

Em resumo, eis os perfis oficiais da IDG na diferentes plataformas, além desta web alojada em www.durvate.org

Existe também uma conta da IDG em Google+, mas está totalmente em desuso. Para qualquer outra questão é tão simples como contactar connosco :)

We do speak English, in case you want to ask any questions or clarify any aspects regarding the IDG, or Galician Druidry in general.

PD. Aproveitamos para repetir que, de forma aleatória, algumas publicidades podem aparecer nestes perfis. Isto é um mecanismo automático sobre o que não temos controlo. Portanto, a IDG não apoia nem recomenda a priori nenhum dos produtos ou serviços anunciados, podendo até estar totalmente em contra do seu uso, consumo ou do que representem.

Lume! E remédios mencinheiros

O Solstício de Verão, o dia mais longo e a noite mais curta do ano, cumpre desta vez a sua passagem astronómica na tarde do 21 de Junho em território galaico. Ora bem, na nossa tradição a festa da Noite dos Lumes (Alban Hefin, Mean Sámhraidh ou Dia do Meio-Verão), terá lugar como sempre na grande e especial noite do 23 ao 24 de Junho.

Não sendo uma das quatro celebrações religiosas principais do ano (Magusto/Entroido/Maios/Lugnasad) é a mais importante – e sem dúvida a mais sentida popularmente – entre as quatro denominas “menores” (solstícios/equinócios).

É assim a celebração do trânsito ao verão que nos levará cara o Lugnasad, uma mudança de estação e um novo lento caminho cara a metade escura da Roda do Ano. Vai rematando a época dos Maios e tudo arde numa êxtase festiva. Por isso, mais do que nunca, o lume em forma de cacharelas comunitárias viram elemento fulcral alumiando a meia-noite, dissipando as trevas e criando um perfeito dia sem fim, um último berro de luz, poder e fertilidade. Decoram-se os chãos com flores, enchem-se as ruas de elementos vegetais, despedindo aos poucos ao bom do brilhante Bel, dando as boas vindas ao luminoso Lugus, que em nada completará a sua entrada.

noitelumescorunha

Centos, milheiros… O País inteiro vive a noite mágica de forma alegre e popular.

Junto do Magusto e os Maios esta é a terceira das denominadas noites mágicas do ano, onde disque as meigas andam à solta. É bom momento então para apanharmos ervas mencinheiras assim como banhar-nos no mar e recolher a Flor da I-áuga (o primeiro reflexo do Sol na superfície das fontes), com a permissão das Xanas no novo abrente, cousas todas que hão centrar os rituais para as nossas sanações e purificações.

Como cada ano, preparade-vos logo para acender e cuidar o lume do vosso Clã, uma fogueira tão alta e brilhante que dea luz às próprias estrelas, lume que depois haverá que saltar para eliminar todo mal. Preparade-vos para partilhar a comida e recuperar forças antes de ir apanhar as ervas e água mágicas, para tomar o banho de mar na noite que é dia, e aguardar ainda assim pelo raiar do Sol que lembrará que sempre há voltar.

 

Noite dos Lumes, alegre / menina, vai-te lavar

apanharás água do pássaro / antes de que o Sol raiar

Irás arrente do dia / a água fresca catar

da água do passarinho / que saúde che há de dar

Corre menina, vai-te lavar / alá na fonte te hás de lavar

e a fresca água desta alborada / cor de cereixa che tem que dar

Se arraiar, se arrairá / todas as meigas levará;

já arraiou, já arraiou / todas as meigas levou.

Uma tradição bem antiga e profundamente enraizada, embora a maioria da gente a conheça com um nome falso

Uma tradição bem antiga e profundamente enraizada na nossa cultura, embora a maioria da gente a conheça com um nome falso.

 

 

Todas as palavras são poucas

O rural, fonte de cultura

O rural, fonte de cultura (vista geral de Pitões das Júnias)

Já de volta das IV Jornadas das Letras Galego-Portuguesas, um simples “obrigado” não chega para expressar as nossas sensações, emoções, e agradecimento às e aos organizadores (colectivo Desperta do Teu Sono e Junta de Freguesia de Pitões das Júnias-Concelho de Montalegre) e outras entidades apoiantes, assim como a todos e todas as assistentes, palestrantes e o povo de Pitões.

Em verdade, estes dias marcam um lindo convívio e um debate ao mais alto nível, absolutamente único na nossa terra. Assim também, as actas das edições anteriores (recém saídas do prelo e já disponíveis para o público), constituem de facto um resumo das mais avançadas e actualizadas investigações sobre o celtismo galaico, relações transfronteiriças e cultura galega-portuguesa dos últimos anos.

Foi uma honra para a IDG poder estar nesse lugar maravilhoso, aprendendo muito e até colaborando com um relatório. Foi, abofé, uma honra partilhar muitos bons momentos e risos com tanta boa gente. Pois é, não seria céltico realizar uma juntança, por muito sério que for o tema, sem um bocado de humor e uns bons “banquetes rituais”!

A quem não pudera acudir dizer só que nós mesmas debecemos já por umas quintas jornadas, mas se calhar antes disso pode haver ainda outras actividades… Ficade atent*s!

Mais outra vez: Bem haja! /|\

Leia aqui a crónica institucional, e aqui a de Desperta do Teu Sono. Ainda, um lindo texto sobre as jornadas e reflexões pessoais de uma das palestrantes.

PD. Disponibilizamos imagens da época de Maios, incluídas algumas fotografias destas Jornadas, através do nosso perfil no Facebook.

As jornadas mais galaicas do ano

Cartaz_2015_DTS

Cartaz oficial das IV Jornadas (2015)

Apresentamos o programa definitivo das IV Jornadas das Letras Galego-Portuguesas, no 30 e 31 deste mês em Pitões das Júnias (Montalegre). É com muito orgulho que a IDG apoia este evento, organizado pelo colectivo amigo Desperta do Teu Sono, prolongando dalguma maneira a temporada festiva dos Maios.

Falamos sempre da importância da acção, prática, tomando esta a forma que for, quando e como for possível. Esta é para a IDG, porém, mais uma oportunidade de o demonstrar, participando activamente numa iniciativa que, achamos, traz ao público um debate fundamental para o futuro da Galécia.

A Druidaria não é uma religião simplesmente contemplativa ou solitária, mas requer uma implicação real com o Povo e a Comunidade que diz servir.

As jornadas fazem assim quatro anos de crescente sucesso, sempre centradas em temas de etnografia, antropologia, arqueologia, sociologia, história, geografia, língua, e muitos outros aspectos da nossa antiga cultura comum a norte e sul da “raia”. Neste tempo, estes encontros viraram num autêntico – quase único – foro de debate aberto sobre questões que doutra forma ficariam forçosamente no esquecimento oficial.

Nesta ocasião, como nas anteriores, haverá palestrantes e actividades do mais alto nível. Em detalhe:

 

30 de Maio, Sábado

10h00 Abertura das IV Jornadas das Letras Galego-Portuguesas em Pitões.

– Lúcia Jorge. Presidente da Junta de Freguesia de Pitões das Júnias.

– Orlando Alves. Presidente da Câmara Municipal de Montalegre.

– José Manuel Barbosa. Desperta do Teu Sono.

 

10h30 1º Painel. Moderador: José Manuel Barbosa (DTS).

10h30 Monica O’Reilly: “Myth and Identity. Leabhar Gabhála Éireann: Construction and de-construction of Irish, Galician and Portuguese Gaelic narrative” [com tradução simultânea].

11h30 Xoán M. Paredes: “Sobrevivências da antiga religião galaica e concomitâncias na Europa Atlântica”.

12h30 Marcial Tenreiro: “Mito, realidade e território. Para uma etno-arqueologia jurídica na céltica peninsular”.

13h30 Almoço.

 

16h00 2º Painel. Moderadora: Kátia Pereira (Eco-Museu do Barroso).

16h30 Filme “Cemraiost’abram”, de Mónica Baptista.

17h00 Rafael Quintia (SAGA): Apresentação das Actas das Jornadas dos anos passados.

18h00 Livre.

 

31 de Maio, Domingo

10h00 3º Painel. Moderador: David Teixeira (Vice-Presidente da Câmara Municipal de Montalegre).

10h00 Maria Dovigo: “Lei estranha do herdo. Presença da avó na poesia galega contemporânea. As elegias de Joana Torres”.

11h00 Hugo da Nóbrega: “Identidade toponímica do Norte de Portugal e localização do nome da Gallaecia”.

12h00 Conclusões e postas em comum.

13h00 Almoço.

 

Encerramento

16h00 Visita turística por Pitões das Júnias.

– Visita ao Mosteiro de Pitões das Júnias.

– Visita à Cascata.

– Visita ao Eco-Museu, onde se vai expor a panóplia guerreira dos soldados galaicos por parte do grupo Oinakos Brakaron.

 

O evento está organizado pelo colectivo Desperta do Teu Sono, com a Junta de Freguesia de Pitões das Júnias. Conta também com o apoio e colaboração da Câmara Municipal de Montalegre, Academia Galega da Língua Portuguesa (AGLP), Associaçom Galega da Língua (AGAL), Sociedade Antropológica Galega (SAGA), Eco-Museu do Barroso, grupo de recriação histórica Oinakos Brakaron, Gaiteiros de Pitões das Júnias, e esta vossa Irmandade Druídica Galaica (IDG).

A assistência é totalmente livre e gratuita. Contudo, quem quiser estar em Pitões nesses dias é melhor que reserve comidas e dormidas nos (poucos) estabelecimentos do lugar, ou que procure nas proximidades. A maravilhosa aldeia entre as montanhas galaicas é pequena, e as assistentes bastantes.

Ergue-te Maio!

Os Maios (Beltaine) são chegados. A terceira grande celebração do ano a seguir o Magusto (Samain) e o Entroido (Imbolc) começa esta noite, no passo do 30 de Abril ao 1 de Maio.

As crianças ajudam na confecção do Maio, arredor do qual depois cantam e dançam

As crianças ajudam na confecção dos Maios, decorados aqui com ovos e fruta, arredor dos quais depois dançam e cantam, sempre com letras bem arteiras

Vêm aí os Lumes de Belenus (Bel-tené) – o formoso, o belo, o luminoso – e assoma a cabeça a Tarasca do Val, sabendo que chega já de forma definitiva a consagração da Primavera (tradicionalmente era, aliás, o começo do Verão). Não é casual que seja precisamente agora, neste mês, quando proliferam por todo o País tantas “festas da primavera”.

Regressam a casa depois dum duro inverno fora os moços do Cório (como os irlandeses fianna), para celebrarem estas datas com o resto do seu Clã.

Como o Magusto (Samain), os Maios supõem um trânsito, o outro fito da divisão da Roda do Ano em duas partes, a mudança esta vez da metade escura do ano cara a luminosa, de Giamos a Samos. Retoma o lume guardado por Druidas e Druidesas o seu simbolismo fulcral, leva-se o gado até ele para a sua purificação e saltam homens e mulheres por riba na procura da fertilidade.

Se na Seitura (Lugnasad) preparamos-nos com lume à futura chegada da escuridão, aqui chamamos definitivamente à luz que não para de caminhar cara nós. Invoca-se o bem-estar, os gromos e o calor no rito de Alumiar o Pão, para que a Natureza não se esqueça de nós e dos nossos esforços:

Alumia o pão
Alumia-o bem
Alumia o pão
para o ano que vem

Alumia o pai
cada grão um tolodão
Alumia o filho
cada grão um pão de trigo
Alumia a nai
cada grão um tolodão
Alumia a filha
cada grão um pão de trigo

Como na Seitura, é também bom momento para casamentos e uniões, para desfrutar da sexualidade. É o grande festival da fecundidade, do esplendor da natureza, da fartura, das crianças. É uma festa de reconstrução e renovação. Assim, elabora-se o Maio, uma figura inteiramente vegetal – se calhar com algum ovo que a Lebre já cedeu a pedido de Brigantia depois do equinócio  – que representa e centraliza a Natureza, ou uma árvore se se quer, que será passeada por moços e moças; mesmo pode-se vestir uma criança como tal. É a árvore, pois, que indica a chegada sem falho da vida e da luz durante meio ano, em torno à qual todas e todos cantam e dançam em círculos enquanto o Cório bate as suas espadas junto da Tarasca, espinha do Mundo:

Ergue-te Maio
que tanto dormi-che
que passou o Inverno
e ti não o vi-che

De acordo com a tradição galaica celebramos os Maios desde a noite do 30 de Abril, quando (de forma simbólica) se apanhava nos campos alumiados por fachos, cujas cinzas serviam depois de adubo, até o significativo dia 1 de Maio. Depois da juntança de luta da manhã tentaremos percorrer o caminho cara um santuário natural para acabarmos de confeccionar o Maio, acender os lumes, jantar e, em definitiva, desfrutar da alegre protecção de Belenus que, anovado, viaja arredor do Sol no seu carro de cavalos. Temos ainda a ajuda de Návia nos nossos cânticos com o repenique das suas águas, precisas para limpar as feridas. A tríade deste ano fecha-se com a Deusa Íccona Loimina – embora sempre com um pensamento de agredescimento para Brigantia – por se tiver a bem ajudar na apertura de novos caminhos, ela que sabe e pode protege-lo.

Os Maios são uma dessas celebrações populares que mostram à perfeição a continuidade duns costumes e crenças desde a mais remota antiguidade até dia de hoje. Pode que perderam parte do seu significado original e outros foram acrescentados, pode que a maioria da gente não saiba o que está a suceder realmente, mas a tradição tem estas cousas, o fundo perdura, apesar de todas as tentativas de o ocultar ou deturpar.

Belenus está presente, a Natureza está presente, o “axis mundi” está presente, os Córios estão presentes e rodam no sentido da vida, a fertilidade e a alegria estão presentes, e milhares o contemplam e participam nas ruas da Galécia do século XXI. Estamos viv*s e, como sempre fizemos, cantamos e dançamos.

Amanhã é dia de presença nas ruas, por justiça e por festa. Amanhã o País inteiro tinge-se de cor num berro senlheiro. E para quem não conhecera esta festa, eis uma introdução… ;)

As datas de culto, aliás, estendem-se até o dia três e a época dos Maios durante o mês todo, mas neste caso são actividades principalmente pessoais e privadas.

Beltaine, os Lumes de Bel, uma grande e alegre festa em todas as terras célticas

Os Córios: uma chave para compreendermos a nossa “via guerreira”

Imagem

Imagem medieval duma “banda de guerreiros”, herdança dos Córios célticos

A “via guerreira” é um elemento frequentemente citado em muitas tradições espirituais e religiosas como exemplo de superação e logro de objectivos através da tenacidade, constância e esforço pessoal. Noutros casos toma um aspecto mais literal como forma de auto-controlo, melhora física e disciplina marcial. Mas, existe algum fundamento para isto tudo no caso galaico?

Alguns autores e autoras relacionam os Córios galegos com os Fianna irlandeses, ainda que o conceito na Galiza é mais difuso por ser, precisamente, mais antigo e ter mudado mais no tempo.

Os Córios são relacionados primeiramente com um corpo de elite ou protector dos Coronos (príncipes locais). São os seus “campeões”, normalmente jovens solteiros entre 14 e 20 anos que teriam, assim, uma mecanismo para curtirem-se como guerreiros, actuando no limite da Lei. Em ocasiões poderiam actuar como uma espécie de comandos ou grupos peculiares, vivendo fora da comunidade, sempre à espera de ordens. A causa disto, e pela sua indumentária e comportamento (rostos pintados, acções nocturnas, estratégias de combate originais e confusas), poderiam ter dado lugar a outra série de nomes e legendas, como por exemplo a Sociedade do Urso ou a Estadea. À vez, estariam muito ligados à Caça Selvagem, ficando nesta altura totalmente associados à imagem dos Fianna da Irlanda.

O professor André Pena cita na sua tese doutoral (2004):

“… organizados em confrarias ou fianna, quem se acaso durante uma parte do ano actuavam localmente como polícia de fronteiras numa espécie de exército permanente, enquanto que durante outra parte do ano, saindo do seu país e penetrando nas terras dos povos vizinhos (fer tar crich=’um homem trás o território’), tal como os Lusitanos descritos por Diodoro (V, 34, 5), entre outras circunstâncias para vingar as mortes (Crith Gablach 72) e homicídios dos seus compatriotas e camaradas perpetradas pelos habitantes doutros territórios, colocavam-se fora da Lei, cometendo roubos nos países inimigos do Túath ao que eles pertenciam, fazendo-se, daquela, com uma dote ou com um pecúlio pessoal que lhe permitira (morgengabe) o acesso a um matrimónio vantajoso.”

Representação medieval dum guerreiro irlandês, membro duma Fianna

Representação medieval dum guerreiro irlandês, membro duma Fianna

Na versão galega estariam dedicados ao Deus Bandua (Ogmios ou Ogma noutras tradições), a testemunha dos juramentos, o da “magia dos laços”, o que “ata” tanto para unir a tribo como para imobilizar os inimigos. Na etimologia figura a raiz Band- da que derivaria banditus, ou bandidos/banda/bandeira. É dizer, o grupo de gente que realiza estas acções, a bandeira que lhes une.

É interessante como este sistema de organização militar há sobreviver como mínimo até a Idade Média, pois era um sistema útil para os poderes locais. De facto, a estrutura sócio-territorial céltica em geral adapta-se mas mantém-se até hoje em dia. A supervivência medieval dos Córios vem reflectida nas referências à aula comitis, embora nessa época tinham já perdido o seu significado não tanto como corpo de elite, mas sim como forma de aprendizagem, de guerreiros e guerreiras dedicadas a uma Deidade em concreto. Contudo, a estrutura fica.

Em relação a esse “endurecimento” ou treino como guerreiros, supõe-se que o Cório estava associado a duas celebrações principais: Magusto (Samhain), quando celebrariam com a comunidade para o dia a seguir partirem ao monte e desaparecerem até os Maios (Beltaine), quando poderiam voltar a se reintegrarem depois do inverno fora. É dizer, as mesmas pautas que a Fianna irlandesa, ainda que se desconhece se permaneciam aquartelados nos ráth dos nobres ou nalgum outro lugar.

Milénios de contacto, comércio, intercâmbio entre gentes que na origem conformaram o mesmo Povo não pode desaparecer na sua totalidade apesar das vicissitudes históricas posteriores. Há, de facto, uma linha de investigação permanentemente aberta e sempre frutífera entre a Galécia e a Irlanda.

Talvez, no futuro, a IDG possa abrir uma “via guerreira”, sob auspícios de Bandua e, claro está, de Brigantia (patrona das artes marciais, entre outras cousas) e ainda Reua…

Estas informações, embora originais da IDG, foram primeiramente publicadas em espanhol (com permissão) num artigo da amiga Hermandad Druida Dun Ailline.

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