Entrevista ao Durvate Mor na imprensa galega

A entrevista tal e como aparece no Novas Galiza, no. 159 (Setembro 2017)

Reproduzimos a continuação o texto completo da entrevista realizada ao nosso Durvate Mor (Arqui-Druida) /|\ Milésio no jornal galego Novas da Galiza.

Este é o texto original que, para a sua publicação em papel na contracapa do número 159 (Setembro 2017) do nomeado mensal, teve que ser editado por questões de espaço e desenho.

Agradecemos ao Novas da Galiza a amável publicação e ao entrevistador, Rubén Melide, o seu interesse e boa disposição.

“A religiosidade popular galega tem bem pouco de católica”
Xoán Milésio, Durvate Mor da IDG
Rubén Melide / Numa terra que através do tempo conservou uma espiritualidade paralela radicalmente diferente do cristianismo oficial, tinha tarde ou cedo que surgir um movimento organizado que fosse diretamente à raiz. É assim que na Galiza de hoje existe a Irmandade Druídica Galaica. Falamos com Xoán Milésio, Durvate Mor da IDG, de diversos aspetos da druidaria galaica.

– Como é que se começa a articular a IDG?

Formalmente nasce no 2011, partindo dumas condições anteriores onde se misturavam convicções e crenças pessoais com um renovado debate sobre o celtismo na nossa terra a raiz de novas investigações. Assim, surge também a necessidade de canalizar um sentimento e organizar as pessoas que o partilham, quando menos oferecer-lhes um lugar de encontro para continuarmos a aprendizagem entre todos e todas.
Esse sentimento era a evidência que, como noutros lugares da Europa, existia na Callaecia uma forma peculiar de ver o mundo, a vida e a morte, uma sensibilidade, uma espiritualidade nativa que como elemento antropológico fulcral necessariamente influiu e influi todo o devir posterior.
Daí, lentamente, a IDG foi madurando até a sua legalização como entidade religiosa em 2015, onde tomou sem vergonha esse adjectivo de “religioso” numa tentativa de exemplificar a seriedade do projecto apesar dos nossos muito humildes números e recursos.
Não esqueçamos, seja dito, que o conceito actual de religião é uma mera construção ocidental que começa no S.XVII e acaba de tomar forma só no S.XIX no ronsel do supremacismo cristão, mas é uma palavra que hoje em dia, nestes contextos, toda a gente percebe como algo minimamente organizado e com vocação de continuidade, e organicamente isso é o que é a IDG.

 

– No vosso web, dizedes nom elaborardes reconstruçons arbitrárias. Porém, ressuscitar, restaurar ou recuperar umha religiom autóctone (quase) desaparecida nom deve ser umha tarefa singela…

É certo que é muito complicado e há quem pense que é impossível, ou até algo de alucinados. Contudo, a verdade é que apesar das informações fragmentadas e da complexidade intrínseca também não é certo que saibamos tanta pouca cousa.
Tem-se dito e feito muito desde o primeiro ressurgir da Druidaria há [300] anos e afortunadamente contamos já com um importante corpo de estudos comparados, que são fundamentais neste tipo de temas.
Digamos que é um trabalho a vários níveis e prolongado no tempo. Começamos por uma análise da nossa própria tradição, entre estudos de antropologia, história, religiosidade popular, etc, que depois podemos contrastar nos mesmos termos com o que sabemos do nosso entorno geográfico natural, que não é outro que a Europa Atlântica.
Pouco a pouco é fascinante descobrir como há certos elementos básicos que encaixam, desde uma determinada ética a uma cosmovisão idêntica. São como peças dum puzzle do que todos temos umas poucas mas onde precisamos pô-las em comum para vermos a imagem completa.

 

– Sempre foi dito que nos territórios herdeiros da antiga Callaecia ficam muitos vestígios da antiga religiosidade pré-cristá, que frequentemente sofreram processos de sincretizaçom. Até que ponto os vossos cultos e formulaçons religiosas bebem destas fontes?

A religiosidade popular “pseudo-católica” – pouco tem de católico o chamado catolicismo galego, mália lhe pese a Martinho de Dume na sua tomba e aos seus herdeiros – frequentemente codifica crenças anteriores bem pouco cristãs. Isso é factual e é um fenómeno habitual entre religiões em contacto ou quando uma é imposta sobre outra.
O assunto é que essas crenças podem ser peneiradas tentando estabelecer a sua origem cronológica implementando, novamente, uma comparativa directa com outros povos europeus vizinhos. A informação derivada é altamente esclarecedora e, logicamente, de grande valor e utilidade para nós.

 

– A Irmandade partilha os princípios gerais da druidaria, também assumidos por outras comunidades druídicas arredor do mundo. Existe algum tipo de coordenaçom com algumha delas?

Existe na actualidade uma crescente comunicação e partilha fluída e directa entre entidades druídicas sérias, embora respeitando a idiossincrasia e total independência de cada uma delas. Existe, de facto, uma aliança internacional onde a IDG foi convidada a participar e que terá um grande encontro na Lusitânia em 2019. Lá estaremos grupos da Gália, Irlanda, Galiza, Brasil, Lusitânia, Itália, Catalunha, e quem fique ainda por se anotar. [ligação do evento]
Por certo, quando falamos de grupos “sérios” referimo-nos a grupos que observam e respeitam uma série de princípios básicos como por exemplo o não-comercialismo, não-racismo ou sexismo, não-proselitismo, com claro carácter ambientalista e sem interferências ou misturas doutros cultos, sem ecleticismos estranhos.

 

– Achegando-nos ao vosso portal web, vemos que celebrades algumha efeméride civil, como o 25 de julho ou o 8 de março, para além de defenderdes certos princípios políticos e sociais. O que tem a druidaria galaica de religiom política?

Por definição uma religião política são ideologias que pelo seu poder imitam as formas das religiões de estado ou adquirem a sua equivalência. Aí a Druidaria não tem nada de religião política, nem de religião de estado, pois defendemos a laicidade total e integral de qualquer estado ou organismo público.
Ora bem, a Druidaria não é um algo abstracto. Não é uma religião passiva ou contemplativa, nunca o foi, ao estar sempre vencelhada a uma comunidade, a um Povo, aos seus interesses e dignidade. A Druidaria não se entende em isolamento, sem a sua gente e o seu entorno, nem antes nem agora.
Evidentemente essa defesa activa do que consideramos correcto, aquilo que encaixa com os nossos princípios e ideais, pode ser entendida como acção política enquanto todo envolvimento social é política, também por definição. Mas é normal. Seria ilógico pensar que um grupo organizado – por muito pacífico ou apartidário que for, como o nosso – não tentara partilhar o que considera pode ser útil para a sociedade onde está inserido, sempre com uma atitude construtiva.
Por exemplo, se uma pessoa Druidista (crente) sabe de ou observa um acto injusto, já não é só o seu dever “civil” ou moral combate-lo, mas também religioso; se não fizera não seria Druidista. Bom, isto levaria-nos outra vez ao debate de que significa realmente a palavra religião…
Assim, há uma série de efemérides e actividades não religiosas nas que a IDG participa alegremente e que estará sempre disposta a apoiar e difundir. Voltando a uma pergunta anterior, o mesmo acontece com outros grupos druídicos sérios arredor do mundo nos seus respectivos territórios.

 

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Para um Magusto onde comece a esperança. Feliz Ano Novo Celta!

Prévia do derradeiro banquete de Magusto público da IDG (2016). Honra à Casa Florinda que sempre tão bem e tão generosamente nos acolheu.

Na mágica noite do dia de hoje inauguramos o Ano Novo celta. No trânsito do 31 de Outubro ao 1 de Novembro é já popular em muitas partes do mundo celebrar uma festividade eminentemente Druídica, a mais especial de todas.

Bem-vindos e bem-vindas à Noite de Magusto e o seu cheiro a castanha assada, dos sorridentes Calacús, dos Defuntos que nos falam, do gaélico Samhain ou mesmo de Halloween para que toda a gente entenda.

É a noite quando acabam de abrir de vez as portas do Além (Sídhe) para durante esta temporada podermos finalmente comunicar sem eivas com os que não estão. É o intre concreto e simbólico que marca o fim do ano e o começo dum novo, celebrando-se com uma grande festa onde partilhamos risos, alegria e comida com os nossos Devanceiros e Devanceiras. São, em definitiva, os momentos mais importantes do ano para quem anda os vieiros da Druidaria.

A Roda do Ano completa uma volta inteira, marcando já sem dúvidas a entrada cara o Inverno. Adeus Samos, olá Giamos. É o muito merecido descanso da Terra e a satisfação de termos não só superado mais um ano, senão de estarmos celebrando em comunidade a boa disposição e coragem para seja o que for vem a seguir, sem importar o rigor da estação.

E que boa falta fai esta celebração desta vez, quando vimos de passar uns episódios tão duros na nossa Terra, quando tudo à nossa volta parece ter ficado de patas para o ar…

Deixemos pois que tome Bandua as suas chaves e abra as cancelas do Além, deixando passo a Berobreo e os seus. Longe já do esplendor da luz de Lugus (que morre e dorme placidamente guardado pelo mesmo Bandua) ou da regeneração de Brigantia e posterior apoteose de Bel, é agora decididamente a quenda da Cale (Cailleach) senhora da nossa Terra – completando não só o ciclo de celebrações e deidades do nosso calendário sagrado, senão também o seu próprio. Não olha mais desde um canto, mas sim adquire o protagonismo todo quando, precisamente, deixa de ser nova e linda, quando chega ao seu aparente fim e vira velha e sábia. Será ela, a também senhora da noite, quem facilite o trânsito entre o Aquém e o Além junto de Bandua e Berobreo; será ela quem tome conta das bestas por uma temporada; será ela a que de repente cessará de lembrar-nos a perda que pode supor o passo do tempo para fazer ver que em verdade o que havia era construção, mudança, avanço, com o exemplo da sua própria e pessoal regeneração.

A Cale trabalha agora a Terra com o seu sacho até passado o próximo solstício. E com tanta trabalheira haverá quem pense que está a destroçar, mas realmente remexe o necessário para sementarmos quando chegue a nossa vez. Deixará por uma ocasião de rosmar das outras Deidades para estender o seu saio aconchegante sobre o Cosmos todo.

Estes dias a Galiza está em festa. Não há cidade, vila ou aldeia que não festeje e honre as suas Devanceiras e Devanceiros. Não há recuncho do País que não cheire a castanha assada (alimento favorito no Além, como o leite) e a gente pense no Magusto. Não há lugar onde não fique acesa uma candeia. Não há crianças que não sintam que é noite de troula e vaiam “pedir o pão” (O Migalho) pelas portas. Não há janela sem calacú, as “cabeças cortadas” que protegem o lar. Trespassam-se limiares, assim que ninguém esqueça deixar a sua oferenda de leite na porta da casa para Irusan e os seus, e tomar um chisco de pão ao cruzá-la para fora.

Hoje caem os muros etéreos e seica para-se o tempo. O mar entre mundos vira regato, quase ao alcance da simples vista. Ficamos logo nas mãos da Cale, na companhia dos amigos corvo e gato e baixo o abeiro do teixo, aconchegando-nos ao pé do purificador lume faladoiro do novo ano.

É tempo de Druidaria. Mais do que nunca esta é a nossa festa rachada.

Feliz Magusto! Bom Ano Novo a todos e a todas!

PD. Neste ano a IDG não celebra actos públicos como vinha sendo habitual. A observância será estritamente interna e não existirá actualização via Twitter do transcorrer da noite como noutras ocasiões.

Comida de Magusto. Deixade castanhas e leite nas portas e nos cruzamentos. Haverá quem os aproveite bem...

Comida de Magusto. Deixade castanhas e leite (sem lactosa 😉 ) nas portas e nos cruzamentos. Haverá quem os aproveite bem e guardem esses lugares por nós… Mas cuidado, esta noite é precisamente o único momento quando não se podem apanhar as castanhas!

Convidamos à atenta leitura desde artigo, muito detalhado e bem documentado, e ainda deste outro, explicando e exemplificando como esta celebração continua viva em múltiplas e variadas formas, mas sempre com o mesmo sentimento profundamente druídico. Recomendamos, aliás, completar com este outro, também de interesse. Ainda, para quem poida ler em inglês, um texto explicando o relacionamento entre Magusto-Samhain-Halloween. Disponibilizamos, aliás, um recurso educativo para gente moça.

 

[in English] Magosto, Magusto, Samhain, Halloween… different names for the same period of time which begins with the first scent of roasted chestnuts.

On the ‘Night of the Pumpkins’ or ‘Night of the Dead’ (October 31st – 1st November), as we call it in Galicia, an ancient Celtic festival is celebrated around the world.

Despite the twists and turns of history, we know well that this is a magical time – the most important of the year – as we celebrate the end of a cycle with a grand feast, cherishing the memory of the Ancestors, all those to whom we owe living as we live, knowing what we know, being who we are.

So get ready for winter! Now that the barns are full and we are certain that we’ll spend it in good company. Let the Land take a rest, for the next thing will be the return of light and Spring.

Have a nice one and Happy New Celtic Year!

Click here< to read more about the Magusto/Samhain/Halloween in English, or >here< to know more about the IDG.

 

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Ataque à Callaecia.

Um resto dos fogos. Fonte: Galiza ContraInfo.

[scroll down for English version]

A nossa terra foi mais uma vez vítima dum ataque terrorista abominável. Desde as Astúrias até Ferrol, Ourense, Vigo e Aveiro, costa e interior, ardeu a Callaecia toda.

Segundo dados oficiais, na Galiza 35.500 hectares foram calcinados no fim de semana, mais uns 12.600 nos dias anteriores, é dizer, um total de 48.100 (uma superfície superior ao tamanho dum país como Andorra). Em todo o território de Portugal foram mais de 200.000 só nas primeiras duas semanas de Outubro (o tamanho dum país como o Luxemburgo).

Com mais de 30 pessoas mortas a norte e sul do Minho, o velho mas conhecido padrão repete-se: quando as condições são favoráveis o lume aparece, sempre, aparentemente planificado em linhas de centos de quilómetros. Quem comete o crime fisicamente conta com toda a informação e toda a infra-estrutura necessária, mas além disso conta com saber-se impune, amparado por uns poderes beneficiários a meio e longo prazo do ecocídio.

Na verdade, existem factores complexos, acidentes genuínos e até imitadores. Contudo, a escala e simultaneidade não podem ser explicadas por simples tolos pirómanos isolados como as autoridades querem-nos fazer crer. De facto, não é só que as leis, acções e respostas oficiais sejam insuficientes ou mal planificadas, mas que historicamente favoreceram essas situações.

Agora, à destruição da Natureza, à morte directa de vida vegetal e animal, vai suceder uma degradação do chão e dos ciclos da terra, com consequências gravíssimas para o modo de vida de inúmeras famílias que, também, podem ter perdido as suas casas, as suas aldeias, a paisagem, refúgio e acougo da sua vida.

Aí nascerão eucaliptos, espécie pirófita daninha para o nosso ambiente que prospera nessas áreas queimadas, espécie que medrou como nunca ajudada por esses incêndios e incentivos económicos desde a implantação das indústrias pasteiras em Ponte Vedra e Aveiro. A relação não é casual.

Arderam jóias do nosso património natural a mantenta, que também é o nosso património cultural, pois a Callaecia não se entende sem a sua Natureza, nem física nem humanamente. Os milhares que ontem saímos às ruas em protesto bem entendemos isso.

Os responsáveis de isto tudo são, então, inimigos da Callaecia, e portanto assim serão tratados.

Para mais insulto, lembramos que hoje dia 17 foi aprovada uma nova lei na Galiza que facilitará a instalação de grandes operações industriais, incluídas de minaria, mesmo em espaços protegidos. Mais que nunca, a manifestação nacional agendada para o domingo 22 toma ainda mais relevância e encorajamos a todos e todas a assistirdes maciçamente.

Pode que os inimigos continuem influindo os centros de poder e decisão, mas vão ter sempre a resposta digna e orgulhosa do Povo consciente e soberano. E abofé, os tempos serão chegados quando o pacto entre as Deidades, Terra e Ser Humano será renovado. Trabalharemos também para isso.

PD. A IDG tem entre os seus objectivos estatutários a defesa íntegra da Natureza e da Galiza/Callaecia, assim como o princípio de Responsabilidade é um dos eixos fundamentais da ética céltica. Se o líder de turno, o responsável do cuidado da terra, é passivo nas suas funções ou mesmo activamente nocivo com as suas acções, esse responsável não pode ser válido e deve ser combatido e substituído.

Lembramos aliás que a Druidaria não é um algo abstracto. Não é uma religião passiva ou contemplativa, nunca o foi, ao estar sempre vencelhada a uma comunidade, a um Povo, aos seus interesses e dignidade. Valorizamos a atitude de “mãos à obra” na melhora do nosso mundo, não a mera teoria ou debates sem mais transcendência.

Domingo 22 Outubro, 12h, tod*s a Compostela. Difunde com #LeiDepredacionGaliza

[in English]

Attack on Callaecia

Our land has been once again the victim of an abominable terrorist attack. From Asturias to Ferrol, Ourense, Vigo and Aveiro, seaside and inland, the whole Callaecia burned.

According to official figures, 35,500 hectares were calcined during the weekend, plus some 12,600 in previous days. That is to say, a total of 48,100 (an area larger than a country like Andorra). In the entire territory of Portugal they were 200,000 in the first two weeks of October alone (the size of a country like Luxembourg).

With more than 30 dead to the north and south of river Minho, the old but well-known pattern repeats itself: when the conditions are favorable wildfires appear, always, planned in lines of hundreds of kilometers. Those who physically commit this crime apparently have all the information and all the necessary infrastructure. But they also feel untouchable, backed by the medium and long-term beneficiaries of the ecocide.

Indeed, there are complex factors, genuine accidents and even copycats. However, the sheer scale and simultaneity in the origin of the wildfires cannot be explained solely by isolated pyromaniac fools, as the authorities want us to believe. In fact, it is not simply that their official laws, actions and responses are insufficient or poorly planned, but rather they have favoured such situations historically.

Now, to the destruction of Nature, to the direct death of plants and animal life, degradation of the soil and cycles of the land with follow, with grave consequences for the way of life of countless families which may also have lost their homes, villages, the landscape, the refuge and beauty of their lives.

Eucalyptus trees will thrive in these burned areas. This is a pyrophyte species, pernicious for our environment, that has expanded like never before since the apparition of paper-mills in Ponte Vedra and Aveiro and their associated economic incentives. The connection is not accidental.

True jewels of our natural heritage have been destroyed, and that also implies a loss for our cultural heritage, because Callaecia cannot be understood without Her Nature, neither physically nor humanly. The thousands of people who took to the streets yesterday in protest understand this well.

Those responsible for this situation are, then, enemies of Callaecia, and they shall be treated as such.

To add insult to injury, a new law has been passed in Galicia today. This new law will facilitate the installation of large industrial operations, including mining, even in protected areas. More than ever, the national demonstration scheduled for Sunday 22nd becomes even more relevant and we encourage everyone who can to attend.

The enemies may have influence over the centres of power and decision, but they will always be faced with the proud and noble response of the sovereign and conscious People. And surely, they day will come when the covenant between Deities, Land and Human Being will be renewed. We will also work for this.

PS. The IDG lists the integral defense of Nature and Galicia/Callaecia among its statutory objectives. Likewise, the principle of Responsibility is one of the fundamental foundations of Celtic ethics. If the current leaders, the official ‘protectors of the land’, are passive in their duties or even actively harmful with their actions, those leaders cannot be considered valid and must be fought and replaced.

Lest we forget that Druidry is not an abstract issue. It is not a passive or contemplative religion, it never has been, as it is intrinsically linked to a community, to a People, to its interests and dignity. We value a “hands on” attitude in the improvement of our world, not just mere theory or debates without further transcendence.

No Equinócio de Outono as fachas alumeiam

Arde facha, que é a tua hora.

Como na Primavera, chega amanhã um novo equilíbrio perfeito entre dia e noite, entre luz e escuridão, ainda que desta vez marca-se o lento trânsito cara a metade escura do ano (fica perto o passo de Samos a Giamos). É o Mabon, o Alban Elfed, a Noite do Caçador (quando o Sol é finalmente alcançado antes dum novo renascer), o Lar da Colheita. Em definitiva, o Equinócio de Outono: mais um passo na Roda do Ano marcando uma das festividades menores da Druidaria.

Após a grande celebração da plenitude da colheita na Seitura (Lugnasad), revisa-se agora a finalização dessa colheita farturenta, festeja-se o seu cuidado armazenamento para esta nova jeira que pode ser longa e dura, mas que encaramos com optimismo e gratidão pelo já conquistado e tudo o bom acumulado. Estamos prestes, pois, a caminhar cara o ano novo que há chegar na festa do Magusto (Samain) em poucas semanas.

Talvez antecipando a chegada dessa grande noite, a tradição galega celebra este equinócio com o lume da chamada Festa das Fachas, outrora popular em todo o País e que oxalá pudera voltar sê-lo. Assim, desde há milénios pega-se fogo a uns fachões de pôla de castinheiro contra a meia noite, enquanto soa a gaita e prepara-se a comida e a bebida, como em toda boa celebração galega.

Com esta despedida, Lugus cai e começa o seu descanso, e nós acougamos com ele. Cale fica avisada. A Cale antes fisicamente esplendorosa declina aparentemente em aspecto, mas oferece graças à sua crescente experiência o seu sábio conselho a quem saber perguntar. Ela será agora quem nos aconchegue do seu próprio frio, vento, neve e chuvas. A aparência de vigor era nela um velo cobrindo o fragor da sua temporária juventude. Mas agora muda, agora toma lentamente o seu poder real.

Atenção, isso sim, pois é também época de juízos e recapitulações. Temos que estar preparados e preparadas de agora endiante para aturar os dias frios e as verdades que serão desveladas no Magusto através das mensagens dos nossos seres queridos. É na escuridão quando melhor se pode albiscar a luz.

Celebremos então a previsão feita no passado para o goze do presente e a confiança no futuro.

Vem onde nós o Outono

Dacavalo do ar;

nos caminhos da fraga

os ouriços já abrem.

Sinto-o chegar contente

da eterna viagem

enredando entre as folhas

estreando friagem

(A.M. Fdes.)

O evento astronómico – ligeiramente mutável cada ano – será às 21h02 a norte do Minho, 20h02 a sul, da Quinta 22 de Setembro.

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O trabalho da Seitura e a pausa necessária

Lugus. Desenho em aquarela por R. Cochón.

A Seitura, um trabalho agrícola que tradicionalmente começa a partir do 25 de Julho, indica-nos claramente que começa a época da ‘Assembleia de Lugus’ (Lugnasad), do luminoso e poderoso protector das criadoras e inventoras, das agricultoras,  de aqueles e aquelas que podem fazer surgir algo que antes não existia, do que coloca ordem no caos e defende os pactos e promessas feitas.

É, pois, o tempo da primeira sega, motivo de ledícia geral, depois da esforçada guarda de Brigantia e Bel e todo o nosso trabalho acumulado. É a quarta e última grande celebração religiosa do ano a seguir o Entroido e os Maios, quando o Magusto reserva-se para o futuro e ainda aproveita-se o verão. Fecha-se a Roda do Ano.

Por fim se pode reunir o Clã em grande festejo para celebrar a luz no esplendor do verão, a colheita dos frutos da Terra que hão de nos alimentar quando o frio vier. Mais uma promessa é cumprida da mão de Lugus, pois a Natureza nunca falha à sua cita. Façamos nós um esforço por estarmos à altura.

É um tempo para reflectirmos sobre o acadado nas nossas vidas e de como foi feito, pensarmos nos nossos planos e estratégias passadas, sabendo que deveremos sementar de novo grão e ideias mais cedo do que tarde. É altura, também, de fixar todo o bom conseguido até o de agora – apresentado da mão de Lugus – de estarmos satisfeitas pelo bom e tomar consciência do desejo de mudança do mau.

Nestas datas unem-se as famílias e os amigos, celebram-se casamentos (de facto teremos duas Uniões de Mãos realizadas pela IDG), brinca-se e há música, arte e competições desportivas, actividades todas das que Lugus é patrão. A Comunidade trabalha junta nessa colheita sempre com um sorriso entre troula e esmorga, arredor duma mesa ou dançando baixo o céu, sem nunca esquecer retornar à Terra parte do que ela nos dá.

Façamos pois reflexão sobre quem somos e onde estamos, onde queríamos chegar e aonde queremos ir. Aproveitemos os intres de calma e sossego que nos garante Lugus e a sua eloquente e positiva sabedoria. Pensemos em nós mas não só como indivíduos, senão como parte desse Clã que necessariamente avançará connosco e nós com ele.

Outro ano já virá mais à frente, mas agora toca alçarmos a vista e desfrutar da cálida beleza da vida. O Deus que outorga essa energia toda está presente no seu apogeu; todos e todas nós somos a sua Assembleia e Povo, e esta é a sua festa. Não desrespeitemos o nosso contrato com Ele.

 

Hei de ir à tua seitura

Hei de ir à tua segada

Hei de ir à tua seitura

Que a minha vai-che acabada

* * *

Segador que bem segas
na erva boa
que para segar na má
o tempo che sobra.

Aí vêm os segadores
em busca dos seus amores
depois de segar e segar
na erva.

 

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A Terra que nos sustenta

[republicação] Celebramos outro ano o Dia Nacional da Galiza, o Dia da Pátria, o Dia de Todas e Todos Nós, a simbólica celebração da Terra que nos acovilha, sustenta e dá sentido, a que nos ensinou a estar no mundo.

Hoje unimos-nos à louvança do cenário único onde os nossos devanceiros e devanceiras viraram galegos e galegas. Hoje honramos – é preceito da Druidaria – a quem nos precedeu para podermos estar aqui agora e sermos quem somos.

Hoje celebramos o bom da Terra e da nossa cultura e identidade, e reforçamos a nossa vontade em erradicar tudo aquilo que lhe aflige e dana, com uma soa voz.

Muito especialmente, dos Nove Compromissos presentes na nossa religião hoje o Compromisso com as Raízes, com a Liberdade e com a Independência revelam-se fulcrais em múltiplos sentidos. Fai-se, aliás, um chamamento especial a galegos e galegas em relação a um dos princípios básicos da IDG, que é o da defesa da Terra, pois os tempos que vivemos vem como continua a perigar a sua essência, e a do nosso Povo.

Chega então o momento de enchermos as ruas, fachendosos de nós, cantando o nosso amor pelos “bons e generosos” e nojo pelos “imbecis e escuros”, construindo a berros se for preciso.

Hoje não pode faltar uma insígnia do País em cada casa, em cada recanto, como símbolo comunitário de união e determinação do mais grande Clã.

Sintamos no abeiro da Deusa Cale a ligação em sagrado pacto à espinha do Dragão. Celebremos!

Bom Dia da Galiza!

“Hoje as campás de Compostela anunciam uma festa étnica, filha, talvez, dum culto panteísta, anterior ao cristianismo, que tem por altar a Terra Nai, alçada simbolicamente no Pico Sacro; por cobertura o fanal imenso do Universo; e por candeeiro votivo, o Sol ardente de Julho” (A.D.R. Castelao, Alba de Glória, 1948)

 

NOTA: Esta celebração não-religiosa é de cumprimento voluntário para Caminhantes não-galegos/as mas sim de observância para galegos/as. Iniciados/as na IDG têm deveres específicos para este Dia.

 

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Tempo de Solstício, prelúdio de noite mágica

O Solstício de Verão, o dia mais longo e a noite mais curta do ano, cumpre desta vez a sua passagem astronómica no alvorecer do 21 de Junho (5:24). Ora bem, na nossa tradição a festa da Noite dos Lumes (Alban Hefin, Mean Sámhraidh ou Dia do Meio-Verão), terá lugar como sempre na grande e especial noite do 23 ao 24 de Junho.

Esta aparente disparidade de datas tem a ver com o costume celta de celebrar durante 3 dias, ou que determinados eventos durassem 3 dias. Assim, na noite do 23 celebramos o fim dum breve ciclo que abre em poucas horas (desde o ponto de vista astronómico), e fecha sem problema na noite do 23-24. Há um paralelismo claro com o solstício de inverno e a chamada Noite Nai.

Não sendo uma das quatro celebrações religiosas principais do ano seguindo a Roda do Ano, é sem dúvida uma das mais sentidas popularmente entre as quatro denominas “menores” (solstícios/equinócios),

É assim a celebração do trânsito ao verão que nos levará cara uma nova Seitura (Lugnasad), uma mudança de estação e um novo lento caminho cara Giamos, a metade escura. Vai rematando a época dos Maios (Beltaine) e tudo arde numa êxtase festiva. Por isso, mais do que nunca, o lume em forma de cacharelas comunitárias viram elemento fulcral alumiando a meia-noite, dissipando as trevas e criando um perfeito dia sem fim, um último berro de luz, poder e fertilidade. Decoram-se os chãos com flores, enchem-se as ruas de elementos vegetais, despedindo aos poucos ao bom do brilhante Bel, dando as boas vindas ao luminoso Lugus, que em nada completará a sua entrada. Esta é a noite quando “a sardinha molha o pão”, reunindo três símbolos dos três reinos ou domínios celtas: O Mar (sardinha), a Terra (pão) e o Céu (lume).

noitelumescorunha

Centos, milheiros… O País inteiro vive a noite mágica de forma alegre e popular.

Junto do Magusto e os Maios esta é a terceira das denominadas noites mágicas do ano, onde disque as meigas andam à solta. É bom momento então para apanharmos ervas mencinheiras assim como banhar-nos no mar e até recolher a Flor da I-áuga (o primeiro reflexo do Sol na superfície das fontes), com a permissão das Xanas de Nábia no novo abrente, cousas todas que hão centrar os rituais para as nossas sanações e purificações.

Como cada ano, preparade-vos logo para acender e cuidar o lume do vosso Clã, uma fogueira tão alta e brilhante que dea luz às próprias estrelas, lume que depois haverá que saltar para eliminar todo mal. Preparade-vos para partilhar a comida e recuperar forças antes de apanhar as ervas e água mágicas, para tomar o banho de mar na noite que é dia, e aguardar ainda assim pelo raiar do Sol que lembrará que sempre há voltar.

 

Noite dos Lumes, alegre / menina, vai-te lavar

apanharás água do pássaro / antes de que o Sol raiar

Irás arrente do dia / a água fresca catar

da água do passarinho / que saúde che há de dar

Corre menina, vai-te lavar / alá na fonte te hás de lavar

e a fresca água desta alborada / cor de cereixa che tem que dar

Se arraiar, se arrairá / todas as meigas levará;

já arraiou, já arraiou / todas as meigas levou.

Uma tradição bem antiga e profundamente enraizada, embora a maioria da gente a conheça com um nome falso

Uma tradição bem antiga e profundamente enraizada na nossa cultura, embora a maioria da gente a conheça com um nome falso.

 

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