As jornadas mais galaicas do ano

Cartaz_2015_DTS

Cartaz oficial das IV Jornadas (2015)

Apresentamos o programa definitivo das IV Jornadas das Letras Galego-Portuguesas, no 30 e 31 deste mês em Pitões das Júnias (Montalegre). É com muito orgulho que a IDG apoia este evento, organizado pelo colectivo amigo Desperta do Teu Sono, prolongando dalguma maneira a temporada festiva dos Maios.

Falamos sempre da importância da acção, prática, tomando esta a forma que for, quando e como for possível. Esta é para a IDG, porém, mais uma oportunidade de o demonstrar, participando activamente numa iniciativa que, achamos, traz ao público um debate fundamental para o futuro da Galécia.

A Druidaria não é uma religião simplesmente contemplativa ou solitária, mas requer uma implicação real com o Povo e a Comunidade que diz servir.

As jornadas fazem assim quatro anos de crescente sucesso, sempre centradas em temas de etnografia, antropologia, arqueologia, sociologia, história, geografia, língua, e muitos outros aspectos da nossa antiga cultura comum a norte e sul da “raia”. Neste tempo, estes encontros viraram num autêntico – quase único – foro de debate aberto sobre questões que doutra forma ficariam forçosamente no esquecimento oficial.

Nesta ocasião, como nas anteriores, haverá palestrantes e actividades do mais alto nível. Em detalhe:

 

30 de Maio, Sábado

10h00 Abertura das IV Jornadas das Letras Galego-Portuguesas em Pitões.

– Lúcia Jorge. Presidente da Junta de Freguesia de Pitões das Júnias.

– Orlando Alves. Presidente da Câmara Municipal de Montalegre.

– José Manuel Barbosa. Desperta do Teu Sono.

 

10h30 1º Painel. Moderador: José Manuel Barbosa (DTS).

10h30 Monica O’Reilly: “Myth and Identity. Leabhar Gabhála Éireann: Construction and de-construction of Irish, Galician and Portuguese Gaelic narrative” [com tradução simultânea].

11h30 Xoán M. Paredes: “Sobrevivências da antiga religião galaica e concomitâncias na Europa Atlântica”.

12h30 Marcial Tenreiro: “Mito, realidade e território. Para uma etno-arqueologia jurídica na céltica peninsular”.

13h30 Almoço.

 

16h00 2º Painel. Moderadora: Kátia Pereira (Eco-Museu do Barroso).

16h30 Filme “Cemraiost’abram”, de Mónica Baptista.

17h00 Rafael Quintia (SAGA): Apresentação das Actas das Jornadas dos anos passados.

18h00 Livre.

 

31 de Maio, Domingo

10h00 3º Painel. Moderador: David Teixeira (Vice-Presidente da Câmara Municipal de Montalegre).

10h00 Maria Dovigo: “Lei estranha do herdo. Presença da avó na poesia galega contemporânea. As elegias de Joana Torres”.

11h00 Hugo da Nóbrega: “Identidade toponímica do Norte de Portugal e localização do nome da Gallaecia”.

12h00 Conclusões e postas em comum.

13h00 Almoço.

 

Encerramento

16h00 Visita turística por Pitões das Júnias.

– Visita ao Mosteiro de Pitões das Júnias.

– Visita à Cascata.

– Visita ao Eco-Museu, onde se vai expor a panóplia guerreira dos soldados galaicos por parte do grupo Oinakos Brakaron.

 

O evento está organizado pelo colectivo Desperta do Teu Sono, com a Junta de Freguesia de Pitões das Júnias. Conta também com o apoio e colaboração da Câmara Municipal de Montalegre, Academia Galega da Língua Portuguesa (AGLP), Associaçom Galega da Língua (AGAL), Sociedade Antropológica Galega (SAGA), Eco-Museu do Barroso, grupo de recriação histórica Oinakos Brakaron, Gaiteiros de Pitões das Júnias, e esta vossa Irmandade Druídica Galaica (IDG).

A assistência é totalmente livre e gratuita. Contudo, quem quiser estar em Pitões nesses dias é melhor que reserve comidas e dormidas nos (poucos) estabelecimentos do lugar, ou que procure nas proximidades. A maravilhosa aldeia entre as montanhas galaicas é pequena, e as assistentes bastantes.

Ergue-te Maio!

Os Maios (Beltaine) são chegados. A terceira grande celebração do ano a seguir o Magusto (Samain) e o Entroido (Imbolc) começa esta noite, no passo do 30 de Abril ao 1 de Maio.

As crianças ajudam na confecção do Maio, arredor do qual depois cantam e dançam

As crianças ajudam na confecção dos Maios, decorados aqui com ovos e fruta, arredor dos quais depois dançam e cantam, sempre com letras bem arteiras

Vêm aí os Lumes de Belenus (Bel-tené) – o formoso, o belo, o luminoso – e assoma a cabeça a Tarasca do Val, sabendo que chega já de forma definitiva a consagração da Primavera (tradicionalmente era, aliás, o começo do Verão). Não é casual que seja precisamente agora, neste mês, quando proliferam por todo o País tantas “festas da primavera”.

Regressam a casa depois dum duro inverno fora os moços do Cório (como os irlandeses fianna), para celebrarem estas datas com o resto do seu Clã.

Como o Magusto (Samain), os Maios supõem um trânsito, o outro fito da divisão da Roda do Ano em duas partes, a mudança esta vez da metade escura do ano cara a luminosa, de Giamos a Samos. Retoma o lume guardado por Druidas e Druidesas o seu simbolismo fulcral, leva-se o gado até ele para a sua purificação e saltam homens e mulheres por riba na procura da fertilidade.

Se na Seitura (Lugnasad) preparamos-nos com lume à futura chegada da escuridão, aqui chamamos definitivamente à luz que não para de caminhar cara nós. Invoca-se o bem-estar, os gromos e o calor no rito de Alumiar o Pão, para que a Natureza não se esqueça de nós e dos nossos esforços:

Alumia o pão
Alumia-o bem
Alumia o pão
para o ano que vem

Alumia o pai
cada grão um tolodão
Alumia o filho
cada grão um pão de trigo
Alumia a nai
cada grão um tolodão
Alumia a filha
cada grão um pão de trigo

Como na Seitura, é também bom momento para casamentos e uniões, para desfrutar da sexualidade. É o grande festival da fecundidade, do esplendor da natureza, da fartura, das crianças. É uma festa de reconstrução e renovação. Assim, elabora-se o Maio, uma figura inteiramente vegetal – se calhar com algum ovo que a Lebre já cedeu a pedido de Brigantia depois do equinócio  – que representa e centraliza a Natureza, ou uma árvore se se quer, que será passeada por moços e moças; mesmo pode-se vestir uma criança como tal. É a árvore, pois, que indica a chegada sem falho da vida e da luz durante meio ano, em torno à qual todas e todos cantam e dançam em círculos enquanto o Cório bate as suas espadas junto da Tarasca, espinha do Mundo:

Ergue-te Maio
que tanto dormi-che
que passou o Inverno
e ti não o vi-che

De acordo com a tradição galaica celebramos os Maios desde a noite do 30 de Abril, quando (de forma simbólica) se apanhava nos campos alumiados por fachos, cujas cinzas serviam depois de adubo, até o significativo dia 1 de Maio. Depois da juntança de luta da manhã tentaremos percorrer o caminho cara um santuário natural para acabarmos de confeccionar o Maio, acender os lumes, jantar e, em definitiva, desfrutar da alegre protecção de Belenus que, anovado, viaja arredor do Sol no seu carro de cavalos. Temos ainda a ajuda de Návia nos nossos cânticos com o repenique das suas águas, precisas para limpar as feridas. A tríade deste ano fecha-se com a Deusa Íccona Loimina – embora sempre com um pensamento de agredescimento para Brigantia – por se tiver a bem ajudar na apertura de novos caminhos, ela que sabe e pode protege-lo.

Os Maios são uma dessas celebrações populares que mostram à perfeição a continuidade duns costumes e crenças desde a mais remota antiguidade até dia de hoje. Pode que perderam parte do seu significado original e outros foram acrescentados, pode que a maioria da gente não saiba o que está a suceder realmente, mas a tradição tem estas cousas, o fundo perdura, apesar de todas as tentativas de o ocultar ou deturpar.

Belenus está presente, a Natureza está presente, o “axis mundi” está presente, os Córios estão presentes e rodam no sentido da vida, a fertilidade e a alegria estão presentes, e milhares o contemplam e participam nas ruas da Galécia do século XXI. Estamos viv*s e, como sempre fizemos, cantamos e dançamos.

Amanhã é dia de presença nas ruas, por justiça e por festa. Amanhã o País inteiro tinge-se de cor num berro senlheiro. E para quem não conhecera esta festa, eis uma introdução… ;)

As datas de culto, aliás, estendem-se até o dia três e a época dos Maios durante o mês todo, mas neste caso são actividades principalmente pessoais e privadas.

Beltaine, os Lumes de Bel, uma grande e alegre festa em todas as terras célticas

Os Córios: uma chave para compreendermos a nossa “via guerreira”

Imagem

Imagem medieval duma “banda de guerreiros”, herdança dos Córios célticos

A “via guerreira” é um elemento frequentemente citado em muitas tradições espirituais e religiosas como exemplo de superação e logro de objectivos através da tenacidade, constância e esforço pessoal. Noutros casos toma um aspecto mais literal como forma de auto-controlo, melhora física e disciplina marcial. Mas, existe algum fundamento para isto tudo no caso galaico?

Alguns autores e autoras relacionam os Córios galegos com os Fianna irlandeses, ainda que o conceito na Galiza é mais difuso por ser, precisamente, mais antigo e ter mudado mais no tempo.

Os Córios são relacionados primeiramente com um corpo de elite ou protector dos Coronos (príncipes locais). São os seus “campeões”, normalmente jovens solteiros entre 14 e 20 anos que teriam, assim, uma mecanismo para curtirem-se como guerreiros, actuando no limite da Lei. Em ocasiões poderiam actuar como uma espécie de comandos ou grupos peculiares, vivendo fora da comunidade, sempre à espera de ordens. A causa disto, e pela sua indumentária e comportamento (rostos pintados, acções nocturnas, estratégias de combate originais e confusas), poderiam ter dado lugar a outra série de nomes e legendas, como por exemplo a Sociedade do Urso ou a Estadea. À vez, estariam muito ligados à Caça Selvagem, ficando nesta altura totalmente associados à imagem dos Fianna da Irlanda.

O professor André Pena cita na sua tese doutoral (2004):

“… organizados em confrarias ou fianna, quem se acaso durante uma parte do ano actuavam localmente como polícia de fronteiras numa espécie de exército permanente, enquanto que durante outra parte do ano, saindo do seu país e penetrando nas terras dos povos vizinhos (fer tar crich=’um homem trás o território’), tal como os Lusitanos descritos por Diodoro (V, 34, 5), entre outras circunstâncias para vingar as mortes (Crith Gablach 72) e homicídios dos seus compatriotas e camaradas perpetradas pelos habitantes doutros territórios, colocavam-se fora da Lei, cometendo roubos nos países inimigos do Túath ao que eles pertenciam, fazendo-se, daquela, com uma dote ou com um pecúlio pessoal que lhe permitira (morgengabe) o acesso a um matrimónio vantajoso.”

Representação medieval dum guerreiro irlandês, membro duma Fianna

Representação medieval dum guerreiro irlandês, membro duma Fianna

Na versão galega estariam dedicados ao Deus Bandua (Ogmios ou Ogma noutras tradições), a testemunha dos juramentos, o da “magia dos laços”, o que “ata” tanto para unir a tribo como para imobilizar os inimigos. Na etimologia figura a raiz Band- da que derivaria banditus, ou bandidos/banda/bandeira. É dizer, o grupo de gente que realiza estas acções, a bandeira que lhes une.

É interessante como este sistema de organização militar há sobreviver como mínimo até a Idade Média, pois era um sistema útil para os poderes locais. De facto, a estrutura sócio-territorial céltica em geral adapta-se mas mantém-se até hoje em dia. A supervivência medieval dos Córios vem reflectida nas referências à aula comitis, embora nessa época tinham já perdido o seu significado não tanto como corpo de elite, mas sim como forma de aprendizagem, de guerreiros e guerreiras dedicadas a uma Deidade em concreto. Contudo, a estrutura fica.

Em relação a esse “endurecimento” ou treino como guerreiros, supõe-se que o Cório estava associado a duas celebrações principais: Magusto (Samhain), quando celebrariam com a comunidade para o dia a seguir partirem ao monte e desaparecerem até os Maios (Beltaine), quando poderiam voltar a se reintegrarem depois do inverno fora. É dizer, as mesmas pautas que a Fianna irlandesa, ainda que se desconhece se permaneciam aquartelados nos ráth dos nobres ou nalgum outro lugar.

Milénios de contacto, comércio, intercâmbio entre gentes que na origem conformaram o mesmo Povo não pode desaparecer na sua totalidade apesar das vicissitudes históricas posteriores. Há, de facto, uma linha de investigação permanentemente aberta e sempre frutífera entre a Galécia e a Irlanda.

Talvez, no futuro, a IDG possa abrir uma “via guerreira”, sob auspícios de Bandua e, claro está, de Brigantia (patrona das artes marciais, entre outras cousas) e ainda Reua…

Estas informações, embora originais da IDG, foram primeiramente publicadas em espanhol (com permissão) num artigo da amiga Hermandad Druida Dun Ailline.

Uma grandiosa entrada na Primavera

A primavera entra da mão do eclipse.

Este ano a Primavera entra da mão dum eclipse solar.

Hoje o Sol detém-se sobre as nossas cabeças, toma fôlegos por um intre na sua viagem enquanto equilibra luzes e trevas. Este ano pode que lhe custe um bocado mais, por causa de um sempre espectacular eclipse solar, onde a Galiza será um dos melhores lugares da Europa continental para o observar. E ainda, nas horas de entrada oficial da Primavera, veremos uma “Super Lua“, com o qual desfrutaremos de três fantásticos eventos astronómicos em poucas horas.

Contudo, depois de finalmente alcançar à escuridão na sua corrida, hoje o dia dura tanto como a noite e a noite como o dia: é o equinócio da Primavera, o que muitos e muitas denominam Alban Eilir, “A Luz da Terra”, Mean Earraigh, “Meia Primavera”, ou Alban Talamonos, “O Amencer da Terra”; Ostara nos cultos germânicos e wiccanos, o início do ano astrológico para outros.

É um dos quatro grandes eventos astronómicos que intercalam as quatro grandes celebrações para completar a Roda do Ano.

Continuamos assim o caminho indicado no Entroido (Imbolc). Vai resultando evidente que a chegada dos Maios (Beltaine) e imparável. A natureza cumpre os seus ciclos mais uma vez, por muito que muitos teimem em ignorá-la e daná-la. Por fim vai agromando a vida por toda parte; é óbvio e palpável. Activa-se a fertilidade e maravilhamos-nos de como a planta sabe quando tem que medrar, quando tem que sair do ovo protegido por uma lebre, simbolismo do que significavam os frutos “no ventre” (i mbolg) da Deusa Brigantia, que não parou de sorrir desde o Entroido, e continua.

Renovam-se então as intenções do Entroido: continua a preparação, cuidado e sementado da terra, mas esta já reverdece. Pode-se pôr outra vez a casa em ordem e continuarmos a limpeza, também interior, porque com esta luz podemos ver melhor todo recanto escuro, em toda parte, e não deixarmos nem um canto sem arranjar.

Bom Equinócio da Primavera. Recebide a acougante Alban Eilir num agarimoso abraço. Empregade bem o tempo da Mean Earraigh. Espreguiçade-vos com o Alban Talamonos.

 

Dizem que não falam as plantas, nem as fontes, nem os pássaros,

nem a onda com os seus rumores, nem com o seu brilho os astros,

dizem-no, mas não é certo, pois sempre quando eu passo,

de mim murmuram exclamam:

Aí vai a tola sonhando

com a eterna primavera da vida e dos campos

e já bem cedo, bem cedo, terá os cabelos canos,

e vê tremendo, aterecida, que cobre a giada o prado.

 

Hai brancas na minha cabeça, hai nos prados giada,

mas eu prossigo sonhando, pobre, incurável sonâmbula

com a eterna primavera da vida que se apaga

e a perene frescura dos campos e as almas,

ainda que os uns esgotam-se e ainda que as outras abrassam.

 

Astros e fontes e flores, não murmuredes dos meus sonhos,

sem eles, como admirarvos nem como viver sem eles?

(Rosalia de Castro, 1884)

A Terra veste as cores da Primavera.  Foto: S. Lourenço Sueiro.

A Terra veste as cores da Primavera.
Foto: S. Lourenço Sueiro.

No Dia da Mulher

druidesa

“O Visco”. Gravura de Druidesa mostrando o visco cortado, a planta mais sagrada. Virginie Demont-Breton (1895).

No Dia Internacional da Mulher (Trabalhadora) – 8 de Março – a IDG acode ao seu chamado social nesta importante data, apoiando o que nela se honra e reivindica, como é a luta pela igualdade das mulheres, os seus direitos plenos e empoderamento na sociedade actual, lembrando e criticando o seu silenciamento secular.

Por desgraça, a institucionalização desta ocasião tende a ocultar muitos dos problemas reais por trás duma cortina de falsa “equiparação” ou “avanços”. Abofé que alguns sim se têm produzido, mas não sem grande esforço e longe ainda duma situação ideal. Fica muito, aliás, no caminho à frente, por isso apelamos à constante vigilância contra a violência machista, discriminação laboral, controlo do corpo, segregação nos estudos e desportos… e tantas outras chagas que continuam a afectar, limitar e empobrecer a vida das mulheres galaicas e do mundo.

Contudo, e com diversos eventos acontecendo no país, não podemos deixar de achar significativo que esta data se encontre ainda baixo a influência do Entroido (Imbolc), e portanto de Brigantia, a Deusa vitoriosa, aquela que estende ou retira a soberania, o poder, à sua vontade. No Druidismo Galaico acreditamos, como exemplifica a sua figura, que toda mulher é (deve ser!) livre nas suas escolhas, igual que Brigantia: ferreira e guerreira, soberana e sanadora, nai se quiser. Deixemos pois que esta grande Deusa possa nos ajudar de agora endiante, recordando o papel fulcral da mulher nas sociedades célticas de antano, as mais avançadas neste aspecto na sua época.

Neste dia, a IDG ratifica de entre os Nove Compromissos Druídicos o Compromisso com a Humanidade, o Compromisso com a Independência e o Compromisso com a Liberdade, e evoca de entre as Nove Virtudes célticas a virtude da Justiça.

Bom dia então, irmãs, com mais um passo cara um futuro melhor.

 

Nota: Na nossa tradição a mulher pode atingir o grau sacerdotal máximo de Durvate (Druidesa), seguindo o mesmo processo que qualquer homem.

Começa o Entroido (Imbolc), tempo de Brigantia

Cruz de Brigantia, feita de junco ou palha, representando em verdade a Cruz Solar.

Cruz de Brigantia, representando em verdade a Cruz Solar.

Chegou a segunda das quatro grandes celebrações do ano, o Entroido (Imbolc), uma celebração de esperança e alegria fortemente vencelhada à Deusa Brigantia (Brighid ou Bride), a deusa vitoriosa, representante-mor da soberania feminina, exemplo perfeito das trindades druídicas na sua própria figura.

Durante esta época desenvolve-se este festival percebido como estímulo do crescimento, o acordar da terra, da preparação dessa terra no seu encontro com a primavera, da fertilidade. Vai-se cumprindo o anunciado triunfo sobre o inverno que começou com o ano novo no Magusto (Samhain), inverno que se bem ainda não rematou também não foi quem de nos vencer quando bateu mais duro; e mesmo nestes dias quando ainda bate forte o temporal!

É o momento então para ajudarmos a terra, pôr os assuntos da casa em ordem, mesmo de fazer uma grande limpeza, de fazer planos e de “plantar” ideias. Muitos animais parem nestas datas e mesmo pode ser considerada como a festa dos bebés. Já diz o refraneiro galego que no 2 de Fevereiro “casam os passarinhos”. Lembra-se, aliás, que o Rei hã renovar os votos com a Terra em breve, na união de soberanos, o pacto sagrado entre o Ser Humano e as Deidades, da mão de Brigantia.

A Deusa Brigantia – portadora da luz e deusa do fogo, da vitória, da profecia e filosofia, poesia e sanação – toma três aspectos: como Lume da Inspiração (patrona da poesia, artes e profecia), como Lume do Lar (patrona da sanação e fertilidade, de pastoras a agricultoras, protectora da casa) e como Lume da Forja (patrona da metalurgia, ferraria e artes marciais, grande guerreira).

A alegria

A alegria do Entroido tradicional: as cores racham o frio. Chama-se por Brigantia, chama-se por Bel. Vêm os Córios e vai-se afugentando a época escura.

A Soberana guia o Entroido com os seus atributos positivos e fai que, precisamente, acedamos a uma nova época. Eis a raiz do Entroido (ou Entrudo), uma entrada a um tempo alegre que em muitos lugares começa já pouco depois de passado o solstício de inverno, mas nada a ver com o “carnavalesco” grosseiro, completamente alheio à nossa tradição [1][2][3][4]. Brigantia assegura então este trânsito e garante a promessa de renascença feita no solstício. Ela será quem acorde os deuses Bel e Lugu chegado o momento, mesmo quem dea à luz e amamente este último se figer falta a partir do dia 2.

O ano já há tempo que começou, mas só agora Brigantia e o ciclo da natureza começam a nos premiar de forma especial pela nossa resiliência. Tudo vira em torno ao Imbolc a partir destes momentos (do velho céltico i mbolg, “no saco” ou “na barriga”), este embigo da vida. Alviscamos a sua luz e ficamos confiantes: há que chegar ainda, mas já estamos quase. É tempo de alçarmos a cabeça e rirmos! :)

O orvalho alimenta tua alma,
O lume novo arreda o inverno,
Da terra brota o teu corpo,
esperta mística do ermo.

Relíquia que futura terra fertiliza,
Sobre ira que leda brua na brisa,
Morre o serão aos nossos olhos,
Renasce Brígida no crisálido sonho.

E na dança do teu mirar
Vejo castros, vejo o mar…
E nos beiços do teu Imbolc
Vejo a arder a lua, vejo gear o sol…

Esperta! No que foi dourado chão,
Esperta! onde tornou gélida a mão,
Voltam as folhas no alto a sombrear,
A verde ultraje da cíclica fraga-nai.

Mileth (com grafia adaptada; reproduzido com permissão)

Tripla Deusa Brigantia, senhora do Entroido (Imbolc). Detentora do fogo pois é protectora (entre outras) das ferreiras que forjam as armas, das poetas que apresentam lumes cerimoniais, e das sanadoras que facilitam o lume do lar. Brigantia fornece também pela criança nascente.

Recuperação parcial do Facho de Donom

Réplicas das aras a serem repostas.

Réplicas das aras a serem repostas. Na da esquerda pode-se ler Deo Lari Bero Breo (Deus Lar [das Ánimas] da Alta Casa).

O famoso santuário do Deus Berobreo – um dos principais lugares de peregrinação da Galiza na antiguidade – vai saindo do seu abandono. É uma boa notícia numa época onde a destruição do nosso património e outros assuntos desafortunados pareceriam ser já o habitual, embora houvera pequenos acenos de alegria.

Nomeadamente, foram colocadas réplicas de três das lindas aras que lá estiveram numa altura. Estamos a falar do Facho de Donom, na comarca do Morraço, na costa sul-oeste da Galiza, onde foram achadas umas 174 aras com dedicações a Berobreo, o que fai com que seja a deidade nativa com maior número de ex-votos da Península Ibérica. Muitas delas tinham oferendas rituais.

Porém, isto não é de estranhar tendo em conta o que Berobreo representa: é o Deus dos mortos, quem te acolhe no trânsito com um sorriso e sempre de braços abertos. Ele comunica o aqui e o Além e o seu nome não significa outra cousa senão “Senhor da Alta Casa (dos Mortos)”, que também aparece como Vestio Alonieco (“O Hospedeiro do Além” ou “Hospedeiro Alimentador”), lembrando neste delicado momento, e com mais sentido que nunca, um elemento absolutamente fundamental da cultura céltica: a hospitalidade. É como Donn (“Rico em Hóspedes”) na Irlanda, o chefe dos (galaicos) Filhos de Mil, o nome que recebe lá e quem disse antes de morrer “à minha casa viredes todos depois da vossa morte”.

Berobreo

Representação de Berobreo, sob o epíteto Vestio Alonieco, encontrado em 1944 em Louriçám (Co. Ponte Vedra). Agora em “exibição” no Museu Provincial.

O Facho é uma atalaia privilegiada, cara o mar, pois a água é sempre lugar de encontro e de trânsito cara o Além; no oceano mora o Senhor dos Mortos. Desde aí podemos divisar as Ilhas Cies e Ons a um lado e outro (ilhas, a paragem de almas onde ficamos temporariamente cegos – não está permitido ver – já que aprenderíamos o caminho a esse Além), onde imos todos e todas quando a vida neste mundo remata e desde onde, confiados, embarcamos outra vez da sua mão até o destino final. Berobreo está no paraíso das Cies e Ons, aonde podemos chegar desde o promontório da praia da Lançada, está nos outos cantís de Teixido olhando a Irlanda ao norte, mas… a sua casa é Donom.

Já em Outubro, tinha-se recuperado a zona do bem-intencionado ainda que errado costume dos visitantes erguerem milhadoiros, isto é, pequenos montes de pedras marcando o seu passo mas que, em realidade, o que fazem é erosionar, danar e misturar os restos que lá se encontram e criar uma paisagem irreal e descontextualizada. Propõe-se agora a criação dum centro de interpretação e um certo controlo sobre as visitas, o que imediatamente fai-nos lembrar o Projecto Nemeton de protecção dos lugares sagrados (assinado pela IDG e outras associações), no que usamos daquela uma imagem do santuário como representativa.

Santuário do Facho de Donom, consagrado ao deus Berobreo

Alto do santuário do Facho de Donom (Co. Morraço).

O primeiro uso conhecido do Santuário do Facho de Donom estima-se entre os séculos X e IX AEC, a finais da Idade do Bronze, e pode-se encontrar também um castro do S. IV AEC (Berobriga) e ainda uma construção religiosa do S. IV EC. Contudo, existe com certeza muito trabalho arqueológico por fazer nesta zona declarada BIC (‘Bem de Interesse Cultural’) que só nos poderia dar ainda mais surpresas e alegrias, algo que pelo momento não é contemplado por falta de orçamento.

As autoridades políticas falam, isso sim, do “potencial turístico” do enclave, o qual não está mal pois poderia ajudar a pagar pela sua manutenção e futuros trabalhos de investigação, mas tampouco estaria de mais explicar o verdadeiro significado de tal especial ponto da nossa geografia sagrada, e protege-lo e respeita-lo em consequência.

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