Ataque à Callaecia.

Um resto dos fogos. Fonte: Galiza ContraInfo.

[scroll down for English version]

A nossa terra foi mais uma vez vítima dum ataque terrorista abominável. Desde as Astúrias até Ferrol, Ourense, Vigo e Aveiro, costa e interior, ardeu a Callaecia toda.

Segundo dados oficiais, na Galiza 35.500 hectares foram calcinados no fim de semana, mais uns 12.600 nos dias anteriores, é dizer, um total de 48.100 (uma superfície superior ao tamanho dum país como Andorra). Em todo o território de Portugal foram mais de 200.000 só nas primeiras duas semanas de Outubro (o tamanho dum país como o Luxemburgo).

Com mais de 30 pessoas mortas a norte e sul do Minho, o velho mas conhecido padrão repete-se: quando as condições são favoráveis o lume aparece, sempre, aparentemente planificado em linhas de centos de quilómetros. Quem comete o crime fisicamente conta com toda a informação e toda a infra-estrutura necessária, mas além disso conta com saber-se impune, amparado por uns poderes beneficiários a meio e longo prazo do ecocídio.

Na verdade, existem factores complexos, acidentes genuínos e até imitadores. Contudo, a escala e simultaneidade não podem ser explicadas por simples tolos pirómanos isolados como as autoridades querem-nos fazer crer. De facto, não é só que as leis, acções e respostas oficiais sejam insuficientes ou mal planificadas, mas que historicamente favoreceram essas situações.

Agora, à destruição da Natureza, à morte directa de vida vegetal e animal, vai suceder uma degradação do chão e dos ciclos da terra, com consequências gravíssimas para o modo de vida de inúmeras famílias que, também, podem ter perdido as suas casas, as suas aldeias, a paisagem, refúgio e acougo da sua vida.

Aí nascerão eucaliptos, espécie pirófita daninha para o nosso ambiente que prospera nessas áreas queimadas, espécie que medrou como nunca ajudada por esses incêndios e incentivos económicos desde a implantação das indústrias pasteiras em Ponte Vedra e Aveiro. A relação não é casual.

Arderam jóias do nosso património natural a mantenta, que também é o nosso património cultural, pois a Callaecia não se entende sem a sua Natureza, nem física nem humanamente. Os milhares que ontem saímos às ruas em protesto bem entendemos isso.

Os responsáveis de isto tudo são, então, inimigos da Callaecia, e portanto assim serão tratados.

Para mais insulto, lembramos que hoje dia 17 foi aprovada uma nova lei na Galiza que facilitará a instalação de grandes operações industriais, incluídas de minaria, mesmo em espaços protegidos. Mais que nunca, a manifestação nacional agendada para o domingo 22 toma ainda mais relevância e encorajamos a todos e todas a assistirdes maciçamente.

Pode que os inimigos continuem influindo os centros de poder e decisão, mas vão ter sempre a resposta digna e orgulhosa do Povo consciente e soberano. E abofé, os tempos serão chegados quando o pacto entre as Deidades, Terra e Ser Humano será renovado. Trabalharemos também para isso.

PD. A IDG tem entre os seus objectivos estatutários a defesa íntegra da Natureza e da Galiza/Callaecia, assim como o princípio de Responsabilidade é um dos eixos fundamentais da ética céltica. Se o líder de turno, o responsável do cuidado da terra, é passivo nas suas funções ou mesmo activamente nocivo com as suas acções, esse responsável não pode ser válido e deve ser combatido e substituído.

Lembramos aliás que a Druidaria não é um algo abstracto. Não é uma religião passiva ou contemplativa, nunca o foi, ao estar sempre vencelhada a uma comunidade, a um Povo, aos seus interesses e dignidade. Valorizamos a atitude de “mãos à obra” na melhora do nosso mundo, não a mera teoria ou debates sem mais transcendência.

Domingo 22 Outubro, 12h, tod*s a Compostela. Difunde com #LeiDepredacionGaliza

[in English]

Attack on Callaecia

Our land has been once again the victim of an abominable terrorist attack. From Asturias to Ferrol, Ourense, Vigo and Aveiro, seaside and inland, the whole Callaecia burned.

According to official figures, 35,500 hectares were calcined during the weekend, plus some 12,600 in previous days. That is to say, a total of 48,100 (an area larger than a country like Andorra). In the entire territory of Portugal they were 200,000 in the first two weeks of October alone (the size of a country like Luxembourg).

With more than 30 dead to the north and south of river Minho, the old but well-known pattern repeats itself: when the conditions are favorable wildfires appear, always, planned in lines of hundreds of kilometers. Those who physically commit this crime apparently have all the information and all the necessary infrastructure. But they also feel untouchable, backed by the medium and long-term beneficiaries of the ecocide.

Indeed, there are complex factors, genuine accidents and even copycats. However, the sheer scale and simultaneity in the origin of the wildfires cannot be explained solely by isolated pyromaniac fools, as the authorities want us to believe. In fact, it is not simply that their official laws, actions and responses are insufficient or poorly planned, but rather they have favoured such situations historically.

Now, to the destruction of Nature, to the direct death of plants and animal life, degradation of the soil and cycles of the land with follow, with grave consequences for the way of life of countless families which may also have lost their homes, villages, the landscape, the refuge and beauty of their lives.

Eucalyptus trees will thrive in these burned areas. This is a pyrophyte species, pernicious for our environment, that has expanded like never before since the apparition of paper-mills in Ponte Vedra and Aveiro and their associated economic incentives. The connection is not accidental.

True jewels of our natural heritage have been destroyed, and that also implies a loss for our cultural heritage, because Callaecia cannot be understood without Her Nature, neither physically nor humanly. The thousands of people who took to the streets yesterday in protest understand this well.

Those responsible for this situation are, then, enemies of Callaecia, and they shall be treated as such.

To add insult to injury, a new law has been passed in Galicia today. This new law will facilitate the installation of large industrial operations, including mining, even in protected areas. More than ever, the national demonstration scheduled for Sunday 22nd becomes even more relevant and we encourage everyone who can to attend.

The enemies may have influence over the centres of power and decision, but they will always be faced with the proud and noble response of the sovereign and conscious People. And surely, they day will come when the covenant between Deities, Land and Human Being will be renewed. We will also work for this.

PS. The IDG lists the integral defense of Nature and Galicia/Callaecia among its statutory objectives. Likewise, the principle of Responsibility is one of the fundamental foundations of Celtic ethics. If the current leaders, the official ‘protectors of the land’, are passive in their duties or even actively harmful with their actions, those leaders cannot be considered valid and must be fought and replaced.

Lest we forget that Druidry is not an abstract issue. It is not a passive or contemplative religion, it never has been, as it is intrinsically linked to a community, to a People, to its interests and dignity. We value a “hands on” attitude in the improvement of our world, not just mere theory or debates without further transcendence.

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No Equinócio de Outono as fachas alumeiam

Arde facha, que é a tua hora.

Como na Primavera, chega amanhã um novo equilíbrio perfeito entre dia e noite, entre luz e escuridão, ainda que desta vez marca-se o lento trânsito cara a metade escura do ano (fica perto o passo de Samos a Giamos). É o Mabon, o Alban Elfed, a Noite do Caçador (quando o Sol é finalmente alcançado antes dum novo renascer), o Lar da Colheita. Em definitiva, o Equinócio de Outono: mais um passo na Roda do Ano marcando uma das festividades menores da Druidaria.

Após a grande celebração da plenitude da colheita na Seitura (Lugnasad), revisa-se agora a finalização dessa colheita farturenta, festeja-se o seu cuidado armazenamento para esta nova jeira que pode ser longa e dura, mas que encaramos com optimismo e gratidão pelo já conquistado e tudo o bom acumulado. Estamos prestes, pois, a caminhar cara o ano novo que há chegar na festa do Magusto (Samain) em poucas semanas.

Talvez antecipando a chegada dessa grande noite, a tradição galega celebra este equinócio com o lume da chamada Festa das Fachas, outrora popular em todo o País e que oxalá pudera voltar sê-lo. Assim, desde há milénios pega-se fogo a uns fachões de pôla de castinheiro contra a meia noite, enquanto soa a gaita e prepara-se a comida e a bebida, como em toda boa celebração galega.

Com esta despedida, Lugus cai e começa o seu descanso, e nós acougamos com ele. Cale fica avisada. A Cale antes fisicamente esplendorosa declina aparentemente em aspecto, mas oferece graças à sua crescente experiência o seu sábio conselho a quem saber perguntar. Ela será agora quem nos aconchegue do seu próprio frio, vento, neve e chuvas. A aparência de vigor era nela um velo cobrindo o fragor da sua temporária juventude. Mas agora muda, agora toma lentamente o seu poder real.

Atenção, isso sim, pois é também época de juízos e recapitulações. Temos que estar preparados e preparadas de agora endiante para aturar os dias frios e as verdades que serão desveladas no Magusto através das mensagens dos nossos seres queridos. É na escuridão quando melhor se pode albiscar a luz.

Celebremos então a previsão feita no passado para o goze do presente e a confiança no futuro.

Vem onde nós o Outono

Dacavalo do ar;

nos caminhos da fraga

os ouriços já abrem.

Sinto-o chegar contente

da eterna viagem

enredando entre as folhas

estreando friagem

(A.M. Fdes.)

O evento astronómico – ligeiramente mutável cada ano – será às 21h02 a norte do Minho, 20h02 a sul, da Quinta 22 de Setembro.

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O trabalho da Seitura e a pausa necessária

Lugus. Desenho em aquarela por R. Cochón.

A Seitura, um trabalho agrícola que tradicionalmente começa a partir do 25 de Julho, indica-nos claramente que começa a época da ‘Assembleia de Lugus’ (Lugnasad), do luminoso e poderoso protector das criadoras e inventoras, das agricultoras,  de aqueles e aquelas que podem fazer surgir algo que antes não existia, do que coloca ordem no caos e defende os pactos e promessas feitas.

É, pois, o tempo da primeira sega, motivo de ledícia geral, depois da esforçada guarda de Brigantia e Bel e todo o nosso trabalho acumulado. É a quarta e última grande celebração religiosa do ano a seguir o Entroido e os Maios, quando o Magusto reserva-se para o futuro e ainda aproveita-se o verão. Fecha-se a Roda do Ano.

Por fim se pode reunir o Clã em grande festejo para celebrar a luz no esplendor do verão, a colheita dos frutos da Terra que hão de nos alimentar quando o frio vier. Mais uma promessa é cumprida da mão de Lugus, pois a Natureza nunca falha à sua cita. Façamos nós um esforço por estarmos à altura.

É um tempo para reflectirmos sobre o acadado nas nossas vidas e de como foi feito, pensarmos nos nossos planos e estratégias passadas, sabendo que deveremos sementar de novo grão e ideias mais cedo do que tarde. É altura, também, de fixar todo o bom conseguido até o de agora – apresentado da mão de Lugus – de estarmos satisfeitas pelo bom e tomar consciência do desejo de mudança do mau.

Nestas datas unem-se as famílias e os amigos, celebram-se casamentos (de facto teremos duas Uniões de Mãos realizadas pela IDG), brinca-se e há música, arte e competições desportivas, actividades todas das que Lugus é patrão. A Comunidade trabalha junta nessa colheita sempre com um sorriso entre troula e esmorga, arredor duma mesa ou dançando baixo o céu, sem nunca esquecer retornar à Terra parte do que ela nos dá.

Façamos pois reflexão sobre quem somos e onde estamos, onde queríamos chegar e aonde queremos ir. Aproveitemos os intres de calma e sossego que nos garante Lugus e a sua eloquente e positiva sabedoria. Pensemos em nós mas não só como indivíduos, senão como parte desse Clã que necessariamente avançará connosco e nós com ele.

Outro ano já virá mais à frente, mas agora toca alçarmos a vista e desfrutar da cálida beleza da vida. O Deus que outorga essa energia toda está presente no seu apogeu; todos e todas nós somos a sua Assembleia e Povo, e esta é a sua festa. Não desrespeitemos o nosso contrato com Ele.

 

Hei de ir à tua seitura

Hei de ir à tua segada

Hei de ir à tua seitura

Que a minha vai-che acabada

* * *

Segador que bem segas
na erva boa
que para segar na má
o tempo che sobra.

Aí vêm os segadores
em busca dos seus amores
depois de segar e segar
na erva.

 

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A Terra que nos sustenta

[republicação] Celebramos outro ano o Dia Nacional da Galiza, o Dia da Pátria, o Dia de Todas e Todos Nós, a simbólica celebração da Terra que nos acovilha, sustenta e dá sentido, a que nos ensinou a estar no mundo.

Hoje unimos-nos à louvança do cenário único onde os nossos devanceiros e devanceiras viraram galegos e galegas. Hoje honramos – é preceito da Druidaria – a quem nos precedeu para podermos estar aqui agora e sermos quem somos.

Hoje celebramos o bom da Terra e da nossa cultura e identidade, e reforçamos a nossa vontade em erradicar tudo aquilo que lhe aflige e dana, com uma soa voz.

Muito especialmente, dos Nove Compromissos presentes na nossa religião hoje o Compromisso com as Raízes, com a Liberdade e com a Independência revelam-se fulcrais em múltiplos sentidos. Fai-se, aliás, um chamamento especial a galegos e galegas em relação a um dos princípios básicos da IDG, que é o da defesa da Terra, pois os tempos que vivemos vem como continua a perigar a sua essência, e a do nosso Povo.

Chega então o momento de enchermos as ruas, fachendosos de nós, cantando o nosso amor pelos “bons e generosos” e nojo pelos “imbecis e escuros”, construindo a berros se for preciso.

Hoje não pode faltar uma insígnia do País em cada casa, em cada recanto, como símbolo comunitário de união e determinação do mais grande Clã.

Sintamos no abeiro da Deusa Cale a ligação em sagrado pacto à espinha do Dragão. Celebremos!

Bom Dia da Galiza!

“Hoje as campás de Compostela anunciam uma festa étnica, filha, talvez, dum culto panteísta, anterior ao cristianismo, que tem por altar a Terra Nai, alçada simbolicamente no Pico Sacro; por cobertura o fanal imenso do Universo; e por candeeiro votivo, o Sol ardente de Julho” (A.D.R. Castelao, Alba de Glória, 1948)

 

NOTA: Esta celebração não-religiosa é de cumprimento voluntário para Caminhantes não-galegos/as mas sim de observância para galegos/as. Iniciados/as na IDG têm deveres específicos para este Dia.

 

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Tempo de Solstício, prelúdio de noite mágica

O Solstício de Verão, o dia mais longo e a noite mais curta do ano, cumpre desta vez a sua passagem astronómica no alvorecer do 21 de Junho (5:24). Ora bem, na nossa tradição a festa da Noite dos Lumes (Alban Hefin, Mean Sámhraidh ou Dia do Meio-Verão), terá lugar como sempre na grande e especial noite do 23 ao 24 de Junho.

Esta aparente disparidade de datas tem a ver com o costume celta de celebrar durante 3 dias, ou que determinados eventos durassem 3 dias. Assim, na noite do 23 celebramos o fim dum breve ciclo que abre em poucas horas (desde o ponto de vista astronómico), e fecha sem problema na noite do 23-24. Há um paralelismo claro com o solstício de inverno e a chamada Noite Nai.

Não sendo uma das quatro celebrações religiosas principais do ano seguindo a Roda do Ano, é sem dúvida uma das mais sentidas popularmente entre as quatro denominas “menores” (solstícios/equinócios),

É assim a celebração do trânsito ao verão que nos levará cara uma nova Seitura (Lugnasad), uma mudança de estação e um novo lento caminho cara Giamos, a metade escura. Vai rematando a época dos Maios (Beltaine) e tudo arde numa êxtase festiva. Por isso, mais do que nunca, o lume em forma de cacharelas comunitárias viram elemento fulcral alumiando a meia-noite, dissipando as trevas e criando um perfeito dia sem fim, um último berro de luz, poder e fertilidade. Decoram-se os chãos com flores, enchem-se as ruas de elementos vegetais, despedindo aos poucos ao bom do brilhante Bel, dando as boas vindas ao luminoso Lugus, que em nada completará a sua entrada. Esta é a noite quando “a sardinha molha o pão”, reunindo três símbolos dos três reinos ou domínios celtas: O Mar (sardinha), a Terra (pão) e o Céu (lume).

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Centos, milheiros… O País inteiro vive a noite mágica de forma alegre e popular.

Junto do Magusto e os Maios esta é a terceira das denominadas noites mágicas do ano, onde disque as meigas andam à solta. É bom momento então para apanharmos ervas mencinheiras assim como banhar-nos no mar e até recolher a Flor da I-áuga (o primeiro reflexo do Sol na superfície das fontes), com a permissão das Xanas de Nábia no novo abrente, cousas todas que hão centrar os rituais para as nossas sanações e purificações.

Como cada ano, preparade-vos logo para acender e cuidar o lume do vosso Clã, uma fogueira tão alta e brilhante que dea luz às próprias estrelas, lume que depois haverá que saltar para eliminar todo mal. Preparade-vos para partilhar a comida e recuperar forças antes de apanhar as ervas e água mágicas, para tomar o banho de mar na noite que é dia, e aguardar ainda assim pelo raiar do Sol que lembrará que sempre há voltar.

 

Noite dos Lumes, alegre / menina, vai-te lavar

apanharás água do pássaro / antes de que o Sol raiar

Irás arrente do dia / a água fresca catar

da água do passarinho / que saúde che há de dar

Corre menina, vai-te lavar / alá na fonte te hás de lavar

e a fresca água desta alborada / cor de cereixa che tem que dar

Se arraiar, se arrairá / todas as meigas levará;

já arraiou, já arraiou / todas as meigas levou.

Uma tradição bem antiga e profundamente enraizada, embora a maioria da gente a conheça com um nome falso

Uma tradição bem antiga e profundamente enraizada na nossa cultura, embora a maioria da gente a conheça com um nome falso.

 

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Alguém morreu para estarmos aqui

Cartaz: Paco Boluda, para uma edição anterior.

[Republicamos um texto, com modificações, lembrando uma data especial na nossa história] No estudo e recuperação da nossa religião nativa e história antiga muitas vezes encontramos com o problema das fontes ou referências originais. Às vezes é pela mesma natureza da transmissão do conhecimento na nossa tradição, às vezes pela ocultação intencionada a mãos de terceiras pessoas, às vezes pela simples destruição dessas fontes  e dados. Às vezes é um bocado tudo.

Sabemos que houve uma infeliz quebra nessa transmissão directa da nossa tradição, embora sim ficara bem viva a nível folclórico e popular, plenamente integrada em inúmeros aspectos da cultura e psicologia galaica actual. Desconfiade, contudo, de quem pretenda afirmar uma linhagem ininterrupta; isso nunca vai ser certo.

Desde a IDG termamos na procura de vias de investigação e interpelação sérias na redescoberta da nossa história e herdança, reconstruindo o possível e interpolando o necessário, mas evitando fantasias e autocomplacências. É, por definição, um trabalho muito lento e complicado, mas abofé gratificante.

Assim, é certo que também encontramos agradáveis surpresas, como uma pedaço de informação aqui ou acolá que ajuda a conhecermos melhor os nossos Devanceiros e Devanceiras. É o caso do facto que podemos comemorar hoje 9 de Junho, quando teve lugar há 2154 anos (no 137 AEC) a grande batalha de proporções formidáveis – onde o Povo Galaico lutou até a morte pela sua liberdade contra as tropas do Império Romano na foz do rio Douro, lá na cidade de Cale (actual Porto).

Esta efeméride perfeitamente documentada acaba por desmontar falsos mitos como a alegada falta de unidade ou desorganização galaica, como se esta terra tivera sido tão só um lugar selvagem e individualista prestes a ser “civilizado”. Antes o contrário, eis aqui mais um exemplo da já sabida conexão e inter-relacionamento entre as diferentes tribos galaicas, lusitanas e, até, diferentes povos célticos da Europa Ocidental.

As crónicas falam de 50.000 mortos, 6.000 prisioneiros, da valentia galaica mas também da inteligência e astúcia romana… Tem que ser, pois foram escritas pelo invasor e os exageros sempre ficam épicos, mas os números e a mensagem que transmitem não eram cativos.

Em qualquer caso, esse foi o dia que marcou o princípio do fim duma época, mas com certeza foi também um momento fulcral na história quando as nossas ancestrais ensinaram-nas com o seu sacrifício tingido de sangue quanto é que importa esta Terra e tudo o que há nela, e até que ponto estavam dispostas a defendê-la.

Depois chegaria o Dia do Medúlio – 115 anos mais tarde (nalguma altura do 22 AEC); gerações de resistência – se calhar um momento ainda mais simbólico mas de localização incerta. Foi quando “com sangue quente e [vermelha] /  mercamos o direito / à livre honrada chouça” (R. Cabanillas, En pe!, 1917). Mas isso é uma outra história…

Honra aos Heróis e Heroínas, gentes sem as quais hoje não estaríamos cá nem saberíamos o que sabemos. Honra a Bandua e Cosso, que lá estava activo e presente lutando do nosso lado nas suas duas formas, e por ajudar-nos a lembrar agora.

PD. A Honra é um elemento fundamental da Druidaria.

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Na defesa do nosso património

Petróglifo do Pedroso (Compostela, Galiza). Foto: Leon F Cabeiro (CC) BY 2.0

Nasce a Rede do Património Cultural Galego, um projecto colaborativo de mais de 50 entidades (entre elas já a IDG) que procura a coordenação e apoio mútuo na defesa do dito património nacional.

É certo que uma das eivas habituais no tecido associativo popular galego, vital e dinâmico por uma parte, é a sua fragmentação e dispersão por outra. Porém, os resultados das entidades “muito louvados nas suas áreas de acção, não sempre transcendem nem são avondo visíveis a nível galego […] É preciso dota-las dum instrumento que lhes permita operar naqueles ámbitos administrativos […] que são de difícil acesso“.

Assim, sem perda da sua total independência e continuando o trabalho até o de agora realizado, a Rede visará facilitar a intercomunicação e coordenar esforços perante a destruição diária do nosso legado cultural.

Com ecos do que no seu momento foi para nós o Projecto Nemeton, ou nas linhas estabelecidas na Defesa do Sagrado, a Irmandade Druídica Galaica tentará sempre contribuir positivamente nesta nova casa comum ao pê de, entre outras, a As. ecoloxista ADEGA, A.C. Colectivo A Rula, Mariña Patrimonio, Sociedade Antropolóxica Galega, A.C. Cultura do País, os portais patrimoniogalego.net e Historia de Galicia, As. para a Defensa do Patrimonio Cultural Galego, C.S. Gentalha Do Pichel, etc. Foram elas as que encetaram o caminho há já vários meses e que agora vê a luz.

Reproduzimos literalmente a continuação a primeira declaração conjunta, onde se convida outras entidades afins à participação:

  1. O território galego concentra umha ingente quantidade de bens culturais materiais e imateriais. Som o legado da intensa ocupaçom e uso do território por comunidades humanas desde o princípio dos tempos e a testemunha viva e real das bases da cultura e identidade do nosso país, herdança que queremos preservar.

  2. Este legado constitui, na atualidade, umha enorme fonte de riqueza de muitos tipos: humana, social, cultural e económica. Junto à sua preservaçom como dever por parte das geraçons que se consideram herdeiras desse legado para o futuro, a sua dinamizaçom abre novas oportunidades à nossa sociedade en numerosos âmbitos, constituindo-se como umha das fontes de riqueza com mais possibilidades e, ao mesmo tempo, mais sustentável no nosso território.

  3. Na Galiza existem numerosos movimentos culturais cidadans que exercem umha constate atividade, de base local ou comarcal, de defesa do devandito património, também da sua dinamizaçom, com umha grande eficácia no controlo e vigilância da contorna imediata. Os resultados, muito louvados nas suas áreas de açom, nom sempre transcendem nem som abondo visíveis a nível galego.

  4. Porém, ainda que os danos ao património sempre som locais (a um bem concreto, num momento concreto) tanto a legislaçom como as políticas de património cultural ou as grandes problemáticas (setor florestal, grandes infraestruturas, marco jurídico…) transcendem esse âmbito e condicionam, já que logo, a capacidade de atuaçom de muitas entidades locais. É preciso dota-las dum instrumento que lhes permita operar naqueles âmbitos administrativos (comunidade autónoma, Estado, Uniom Europeia) que som de difícil aceso para umha pequena entidade e na que esta pode exercer um papel pouco representativo.

  5. Na atualidade volve-se viver um interesse por parte de pessoas e grupos da sociedade civil por cuidar o património cultural, participar ativamente na sua preservaçom e gestom. Nom há dúvida de que o papel da Internet, conectando a indivíduos antes ilhados em diferentes lugares e partilhando informaçom, problemáticas e soluçons, incentiva este novo ativismo. A Internet adapta-se com facilidade às estruturas associativas galegas, horizontais, descentralizadas e sem umha hierarquia sólida

  6. Os escassos orçamentos que destinam as Administraçons ao património cultural, as profundas transformaçons da sociedade e das economias rurais e as mudanças legislativas promovidas recentemente pola Administraçom galega estam a afetar de jeito crítico ao nosso património cultural. É o momento de dar um passo que permita enfrentar estes novos desafios, sempre desde o respeito à idiossincrasia das entidades locais e comarcais do país.

  7. Propom-se uma ferramenta conjunta de coordinaçom das asociaçons locais/comarcais e outras de âmbito galego (que também assinam), todas elas de defesa do património, para se dirigir às autoridades, organismos ou entidades pertinentes a prol da salvaguarda do nosso património cultural.

  8. As entidades que assinam este documento comprometem-se a criar sistemas de comunicaçom horizontal, de livre adesom, sem hierarquias, aos que se podam incorporar outras organizaçons com o fim de adesom aos termos nos que se redige o presente documento.

  9. A mecânica de trabalho inicial será o trabalho conjunto e a elaboraçom de iniciativas decididas pola rede que tenham um claro fim de defesa e/ou posta em valor do património cultural e que pola sua natureza ou dimensom precisem dumha escala superior à de cada umha das entidades. Nenhuma organizaçom poderá atuar em nome da Rede e nos casos que se acade unanimidade nomeara-se umha representaçom e aclarando em toda a documentaçom que entidades formam parte dumha iniciativa concreta.

  10. As organizaçons que assinam esta Declaraçom mantêm a sua independência e autonomia e comprometem-se a encetar o caminho cara a criaçom dumha estrutura de coordinaçom de entidades do património.