Louvor de ausentes

Honra às Devanceiras (2015)

No Magusto (e não só), quem não está tem sítio e come connosco.

Na Druidaria, como noutras religiões e tradições, fala-se habitualmente dos Devanceiros e Devanceiras (Ancestrais), é dizer, as pessoas que estiveram cá antes do que nós e de como devem ser lembradas e honradas. Em verdade, a Honra às Devanceiras forma parte dos princípios básicos da Druidaria. Também sabemos que a data mais simbólica e significativa para isto é o Magusto, precisamente a época na que estamos quando se escrevem estas linhas.

Mas, quem são exactamente? São membros da nossa família? Do clã mais extenso? Como deve ser interpretado este aspecto da nossa religião?

As Devanceiras são aquelas que já lutavam do nosso lado muito antes de nascermos. São as que fizeram possível estarmos aqui agora, sendo como somos e sabendo o que sabemos. São todas essas gerações que nasceram e morreram, pensaram e criaram, riram e choraram na Terra que pisamos. As que se fundiram com ela para enxergarem a cultura que nos ensina agora a estarmos no Mundo. As que modelaram a paisagem do nosso Lar. São também todas aquelas pessoas que participaram e contribuíram de forma positiva na génese do nosso Povo. São parte da nossa humanidade partilhada numa miríade de linhagens. São os “bons e generosos” que desterraram os “imbecis e escuros” e aos que lhes devemos a decência de seguirmos o seu exemplo. São agora o eco das vozes doutros tempos que falam para nós sábios conselhos quando somos quem de escutar.

Fechade os olhos, tocade e sentide as pedras das velhas casas e castros, pois lá estão milhões de sentimentos, esperanças, vivências, saberes acumulados, jogos de crianças e amores adultos, cumplicidades, planos, conversas ao pé da lareira numa noite qualquer, tudo verdadeiro, tanto como o bater do vosso coração, no mesmo lugar onde antes bateram outros com a mesma força. Esse era o fogar amado dalguém, e agora estades nele.

Na Galécia a presença constante dos que não-estão é um desses elementos fulcrais totalmente integrado no cerne da nossa cultura e sociedade, desde crenças familiares até a própria organização física do nosso território. Há tantíssimas amostras que fartaríamos de as nomear. A continuidade da vida é uma realidade. (a não perder, vídeo “Em Companhia da Morte“)

Eis algumas formas nas que o pensamento druídico foi quem de sobreviver a diferença doutros lugares, pois na Galécia bem se sabe que os mortos podem ser vistos, podem ocupar novos corpos dependendo do momento e do lugar, podem até comer connosco. Contudo, a sua memória sempre deve ser respeitada, desde o estritamente religioso e ritual até o mais pessoal, ou simplesmente pondo em valor a sua herança, atendendo os seus ensinamentos, defendendo o seu (o nosso) património.

Sejamos também nós dignos e dignas dum legado futuro agindo em consequência, com essa Honra toda, com orgulho dos Nossos e Nossas, com agradecimento sem fim pelos milénios de esforçado trabalho e briga, pois graças à sua jeira caminhamos agora cara o futuro. Mostremos também às gerações que hão vir algo do que poidam estar fachendosas.

A responsabilidade é grande, mas temos ajuda.

Saúde a quem nos trouxe e aprendeu!

Um bocado fora de contexto, mas

Um bocado fora de contexto, mas esta imagem mostra como uma família é algo muito mais complicado e extenso do que a gente acredita. Toma aqui, de facto, mais bem o valor dum autêntico clã aberto. Imaginemos então irmos até as origens…

 

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