Noite Nai, noite de luz e confiança

O Apalpador, a tradicional figura do gigante carvoeiro que cuida das crianças e traz presentes para todos e todas.

Em breve passaremos o Solstício de Inverno (23:23 hora oficial galega do dia 21) e com ele ficaremos a um nada da Noite Nai. Eis umha das festividades menores contempladas na Roda do Ano da Druidaria e que incluem solstícios e equinócios, à parte das quatro grandes celebraçons religiosas.

Como tantas cousas aparentemente paradoxais na nossa cultura, continua o frio a sério justo quando a luz do Sol quer fazer o caminho de volta. Aparentemente paradoxais, claro, mas só para quem nom repara nos pequenos detalhes e na maravilha da Natureza.

Mais umha vez, demonstra-se que nom há súbitos fins nem mais confusom da que nós queiramos criar. Antes o contrário, nos rigores do Inverno, na noite mais longa e o dia mais curto, reparamos em que a partir de agora a luz só pode triunfar (embora ainda tenhamos que sobreviver qualquer possível perigo ou adversidade). Curiosamente, a noite de solstício deste ano coincide com um eclipse total de Lua a partir das 4:34…

Parece que o tempo voara desde o Magusto e já queremos alviscar o brilho do Deus Bel nas folhas de acivro e sagrado visco branco, que ainda que está algo longe começou já decidido o seu caminho de retorno da mao da Deusa Brigantia. Ela sim terá muito trabalho em breve…

Aliás, outras tradiçons druídicas celebram esta noite mais longa do ano como sinal do eventual regresso de Bel e ainda de Lugus através de Brigantia, simbolizando a sobrevivência sobre as trevas e lenta chegada da luz. É o enraizamento e gestaçom durante três dias (21+3) do Infante Sol a partir do Ventre Materno, a escuridade da Deusa Anu (Dana ou Danu na Irlanda, Dôn em Gales).

Som as datas da Modranecht ou Matronucta (a Noite Nai), tamém do Meán Geimhridh (‘Meio Inverno’) e Lá an Dreoilín (‘Dia da Carriça’), o dia no que em Éire este pássaro é “preso”, guardado e depois libertado como sinal de continuidade, da passagem definitiva do ano anterior, pois canta sem parar tanto no verám como no inverno sem interrupçom; isto era algo que tamém se fazia na Lourençá, na comarca da Marinha, mas uns dias mais tarde. A Roda gira, a vida continua, os ciclos nom param.

Nestas datas na IDG honramos aos grandes Deus Larouco (o An Dagda irlandês), Deusa Anu (ambas Deidades primeiras e essenciais) e a sua descendente, a Deusa Brigantia.

Seja dito, já que estamos, que trânsitos como o Solstício de Inverno som momentos de extrema importância na tradiçom germânica (festividade de Yule) e nas crenças Wicca, mesmo no calendário chinês (o Dong Zhi ou “chegada do Inverno”) entre outras no mundo. Na Europa outras religions tamém empregarom e adaptarom a posteriori estas datas como marca do trânsito cara a um período de maior esplendor.

Arredor destas datas os e as Caminhantes podemos nos reunir com a nossa gente, família ou Clã (incluídos os que foram para o Além), na confiança de que o futuro sempre há acabar por destruir os gelos da fria temporada.

O Solstício astronómico é em nada, mas as celebraçons continuam. É a época do Apalpador, o gigante da tradiçom galega que virá trazer alegria e diversom às crianças. Queima-se o facho e manifesta-se a Coca numha piscadela cúmplice, deixando-se comer em forma de doce. Adornamos e alumeamos as nossas casas, magnificando o brilho da nova luz à que ajudamos a renascer.

Bom Solstício de Inverno sob a protecçom do visco e o acivro. Que corra a raposa e que cante a carriça! 🙂

 

“Meses do inverno frios
que eu amo a todo amar,
meses dos fartos rios
e o doce amor do lar.
Meses das tempestades,
metáforas da dor
que aflige as mocidades
e as vidas corta em flor.
Chegade, e trás o outono
que as folhas fai chover,
nelas deixade que o sono
eu durma do nom-ser.
E quando o sol formoso
de abril torne a sorrir,
que alumee o meu repouso,
já nom meu me afligir.”

(Rosalia de Castro, Folhas Novas, 1880).

As montanhas do Courel, desde onde desce o Apalpador (tamém chamado Pandigueiro) cada Inverno com os seus presentes e castanhas.

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‘And the Apalpador must come’… Will he bring you presents?

The Apalpador or Pandigueiro

As the Winter Solstice (21st December) and Noite Nai (‘Mother Night’, 24th) approach, millions of children (and not only!) eagerly await for their presents. But… who is bringing them?

It is commonly agreed that the infamous Santa Claus is a 19th century commercial and Christianised revision of a number of European tales. Most of these old stories, however, involve some sort of good-natured large bearded man bringing goods or presents, although he could sometimes be accompanied or complemented by not so benevolent creatures (see the Central European Krampus, for example).

So whether it is the Slavic Ded Moroz, the Icelandic Jólasveinarnir, the Basque Olentzero, the Scandinavian Nisse or Tomte, or the Catalan Tió, different pre-Christian celebratory figures marked the passing of the cold and rainy Solstice on a positive note.

Needless to say, along the Atlantic shores we can also find our own Galician Apalpador or Pandigueiro.

This is a figure which was almost forgotten and reduced to just some specific areas in Galicia. Yet, fortunately, it has been extensively researched and promoted since 2006, first thanks to a single individual (José André Lôpez) and shortly after thanks to the tireless work of a number of cultural associations such as PGL-AGAL, Gentalha do Pichel or Fundaçom Artábria, to name a few.

Here is a video collecting the once fading words of our Elders (‘And the Apalpador must come’ – in Galician):

Today the Apalpador is present in most Galician schools, media and shops, demonstrating that it is indeed possible to recover and preserve our ancient heritage.

The Courel Mountains, home of the Apalpador

So legend says that this giant red-bearded coalman(*) comes down from the Courel mountains and visits every house during Noite Nai. He makes sure all children are happy and well fed by gently feeling their tummies while they are asleep. Then, according to tradition, the Apalpador leaves a handful of chestnuts and maybe some small present.

Lest we forget that the chestnut is a Galician symbol for the Magusto (Samhain) period, and it is also said to be the most valued delicacy in the Além (The Beyond; The Land of the Dead). On the other hand, when presents are given these are simple, where the sentimental value is to outweigh any possible economical value.

In any case, the Apalpador is seen as an eminently positive figure, able to “bless” the household. He is the perfect embodiment of the Druidic Noite Nai, when we celebrate in community the eventual triumph of the light even in the most extreme conditions, and we gather the final strength for the harshest of all seasons.

The Apalpador is not our only popular symbol for this period, but sure is a favourite among the young ones, and that is no wonder. May he bring you joy too! 🙂

The Apalpador song (traditional):

(*) Some recollections do mention the Apalpadora, in the femenine, but they are a minority.

PS. A text about the Noite Nai will be published shortly (in Galician).

[GL] Este é um texto explicativo da figura do Apalpador em língua inglesa para todas aquelas pessoas que nom entendem o galego. Para mais informaçom em galego visite-se, por exemplo, esta ligaçom. Em breve sairá publicado o texto próprio da Noite Nai.

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Cousas (rarinhas) que se dim sobre a Druidaria – (Slightly weird) things said about Druidry

Nom sabemos o que é este invento televisivo, mas um Druida seguro que nom – We don’t know what this TV fabrication is, but sure it is not a Druid

Falamos já sobre alguns equívocos comuns relacionados com o Povo Celta mas… nom é verdade que há ocasions onde podemos ouvir cousas um pouco estranhas sobre a própria Druidaria? Imos tentar resolver aqui algo disso (muitos destes temas som tratados tamém no nosso apartado de ‘perguntas frequentes’).

We have already discussed some common misconceptions about the Celtic People but… isn’t it true that one can sometimes hear somewhat strange things about Druidry itself? Here we try to solve some of that (many of these topics are also covered in our FAQ section).

 

A Druidaria é umha filosofia, umha forma de vida
É isso e muito mais. A Druidaria (ou “Druidismo”) é umha forma de percebermos o mundo através dumha determinada tradiçom e pensamento; é umha forma de relacionamento através dumha série de valores e sentido da justiça. E é umha religiom.
Entendamos que o conceito actual de religiom é umha construçom ocidental que começa no século XVII e acaba de tomar forma no XIX. É portanto umha ideia relativamente nova mas que pode ser aplicável à Druidaria entendida como grupos organizados estáveis arredor dum sistema de crenças. Nem mais nem menos.
A religiom céltica ou druídica está reconhecida oficialmente no Reino Unido, República da Irlanda, Estados Unidos de América, Canadá e Estado Espanhol, e está em vias de reconhecimento noutras jurisdiçons.

Druidry is a philosophy, a way of life
It is that, and much more. Druidry (or “Druidism”) is a way for us to perceive the world through a specific tradition and thought; it is a way to relate to one another through a series of values and sense of justice. And it is a religion.
Do bear in mind that the current concept of religion is a western construction from the 17thC, only to crystallise in the 19th. It is therefore a relatively new idea, although it can be applied to Druidry, understood as stable organised groups within a belief system. No more, no less.
Celtic or Druidic religion is officially recognised in the United Kingdom, Republic of Ireland, United States of America, Canada and the Spanish State, and it is in the process of being recognised in other jurisdictions.

 

A Druidaria nom tem dogmas
A Druidaria séria tem uns preceitos muito claros e específicos, o qual por definiçom som dogmas, por muita má imprensa que tenha esta palavra (como acontece com “religiom”).
Há crenças bem estabelecidas, normas e regras. Nom é um vale tudo sem concretizaçom ou um conjunto abstrato de ideias de inspiraçom “New Age”. Doutra maneira a Druidaria nom teria mantido a sua coerência interna e servido como elemento de coesom na antiga Europa durante tantos séculos. Dito doutro jeito, sem um elevado grau de “ortodoxia” a Druidaria nom poderia ter servido como espinha dorsal da civilizaçom céltica durante tanto tempo em tam diversos lugares.

Druidry has no dogmas
Serious Druidry has a set of very clear and specific tenets which, by definition, are dogmas, regardless of the bad press this word may have (same as with “religion”).
There are well establised beliefs, norms and rules. It is not a shapeless something where anything goes, nor an abstract construct of “New Age”-inspired ideas. Otherwise Druidry would not have held its internal coherence and served as the element of cohesion of ancient Europe for many centuries. In other words, without a high degree of “orthodoxy” Druidry could not have been as the backbone of Celtic Civilisation for such a long time in so many different places.

 

A Druidaria é umha espiritualidade da Natureza
Claro, e tamém honra os Devanceiros e Devanceiras (Ancestrais), reverencia as Deidades, trabalha no dia a dia polo bem da comunidade, luita contra as injustiças sociais, contra o maltrato animal, contra o sexismo, racismo, etc.
Nom é umha religiom passiva ou contemplativa, nunca o foi, ao estar sempre vencelhada ao seu povo, à sua adaptaçom e progresso.
As pessoas crentes nom podem limitar-se a dar passeios polos bosques, cantar cançons de maos dadas e abraçar árvores, que está muito bem e fai-se, mas nom só.

Druidry is Nature spirituality
Of course, and it also honours the Ancestors, reveres the Deities, works for the good of the community on a daily basis, fights against social injustice, against animal abuse, against sexism, racism, etc.
It is not a passive or contemplative religion, it never was, since it has always been linked to its People, to its adaptation and progress.
Druidic practitioners cannot be limited to walks in the forest, singing songs while holding hands and hugging trees, which is all good, but not only.

 

A Druidaria é um caminho pessoal
Cada pessoa vive a Druidaria dumha forma íntima e única, e se bem por vezes toda a gente precisa dum tempo de introspeçom pessoal, nunca há que esquecer que a Druidaria é social, comunitária, onde os laços do clã, da tribo, das famílias, dos amigos e amigas som fundamentais. Sem isso nom pode haver Druidaria.
Umha sociedade celta está formada por indivíduos livres e independentes, mas que contribuem ao bem comum com a sua força, ideias e trabalho.

Druidry is a personal path
Each person lives Druidry in a unique and intimate way, and even if sometimes we all need a time for personal introspection, it must not forgotten that Druidry is social, communitarian, where the bonds of clan, tribe, families and friends are paramount. Without that there cannot be Druidry.
A Celtic society is made up of free and independent individuals, but individuals who contribute to the common good with their strength, ideas and work.

 

A Druidaria é ‘paganismo’ ou ‘neo-paganismo’
Ainda que esses termos podem resultar intuitivos na nossa sociedade identificando crenças pré-cristás, em realidade som altamente imprecisos e até insultantes.
Nom existe umha religiom “pagã” como tal, sendo usada a palavra como um genérico onde incluir crenças totalmente heterogéneas. Aliás, este termo vem imposto historicamente desde umha perspetiva supremacista, englobando aí toda espiritualidade ou crença nom-abraâmica (isto é, nom cristá, muçulmana ou judaica) de forma pejorativa.
Assim, a Druidaria é umha religiom nela mesma, sem necessidade dumha categoria superior.

Druidry is ‘paganism’ or ‘neo-paganism’
Although those terms can seem intuitive in our society as they identify pre-christian beliefs, they are in fact quite imprecise and even insulting.
There is no “pagan” religion as such. This word is used as a generic where to include totally miscellaneous beliefs. Moreover, this term has historically been imposed from a supremacist perspective, encompassing any non-abrahamic spiritualities and beliefs (that is, not Christian, Muslim or Jewish) in a pejorative manner.
Thus, Druidry is a religion in itself, with no need for a higher category.

 

Quem segue a Druidaria é Druida ou Druidesa
Esses som títulos que fam referência a umha categoria sacerdotal. Como é óbvio, por ser crente ou seguidor dumha religiom ninguém atinge automaticamente tal status, nem podem ser estes títulos auto-atribuídos sem mais.
Para ser Druida/Druidesa (o que na IDG chamamos Durvate) deve-se empreender e superar um processo formal de estudo e iniciaçom, onde estas pessoas devem ser aceitadas como homens e mulheres de saber entre a sua comunidade e pares, ficando assim ao serviço da tal comunidade.
As pessoas que som simplesmente crentes podem denominar-se Druidistas.

Those who follow Druidry are Druids
These are titles referring to a priestly category. Naturally, being a believer or follower of a religion does not automatically grant anybody such a status, nor can these titles be self-attributed in a whim.
In order to become a Druid (what we call Durvate at IDG) candidates must embark on and complete a formal process of study and initiation, where they must be accepted as men and women of knowledge amongst their community and peers, therefore remaining in the service of said community.
People who are simply believers may be called Druidists.

 

O povo celta era um povo sábio e harmonioso, assim como os seus Druidas e Druidesas
Havia um pouco de tudo, como em toda parte. O povo celta ancestral (embora relativamente avançado) nom era perfeito, assim como nom o eram os seus líderes políticos e espirituais, que eram tam humanos como nós.
Dito isto, igual que nós sabemos agora cousas que eles nom sabiam, eles sabiam cousas que nós desconhecemos e que nom nos viria mal descobrir… E nessas andamos.
Abofé que temos muito e bom que aprender e muito que actualizar e adaptar à nossa fracassada sociedade contemporânea. Só esse processo é já um desafio vital fascinante.

The Celts were a wise and harmonious people, as were their Druids
There was a bit of everything, like anywhere else. The ancient Celts (although relatively advanced) were not perfect, the same as their political and spiritual leaders, who were as human as we are.
Having said that, and just like we now know things they did not know, they did know things we are unaware of and that would do us good… And that is what we are up to.
Sure we have a lot of good stuff to learn and lots to update and adapt to our contemporary failed society. That process alone is a fascinating life challenge in itself.

 

Os cultos transcorriam na Natureza, onde moravam os Druidas e Druidesas
A maioria morava bem no centro das vilas, porta com porta com o rei, rainha ou líder de turno. Um Druida/Druidesa nom era útil nem podia cumprir o seu serviço ao seu povo se andava sempre na floresta apanhando ervas ou meditando em isolamento permanente.
Para os cultos existiam espaços sagrados delimitados, assim como autênticos templos de diferentes formas e tamanhos que chegavam a acolher centenas de assistentes, sem que por isto deixara de haver ritos em espaços mais agrestes.

Cults took place in Nature, where the Druids lived
Most of them lived right in the centre of the town, next door to the king, queen or whoever. Druids were not useful and could not perform their duties if they were at the forest picking up herbs all day or meditating in permanent isolation.
In relation to cults, there were marked sacred spaces as well as true temples with different shapes and sizes, capable of accommodating hundreds of attendants. This does not exclude other rites from taking place in wilder settings.

Verdade, mas nom só – True, but not only 😉

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