Imagens dos Maios

Já estão disponíveis algumas fotografias das celebrações dos Maios (Beltaine) deste ano. Podem ver estas imagens e muitas outras na página oficial de Facebook da Irmandade, que é usada – por enquanto e entre outras cousas – a modo de arquivo fotográfico.

É só clicar > AQUI < (acesso aberto/público).

Nota: As fotos das celebrações do Entroido (Imbolc) deste ano não são feitas públicas ao ter-se tratado de rituais privados.

Vêm aí os Maios (Beltaine)

Vêm aí os Maios! pode-se berrar já. A terceira grande celebração do ano após o Magusto (Samain) e o Entroido (Imbolc) é iminente.

Todas e todos somos Natureza. Nos Maios todas e todos somos Verde, mais do que nunca. (Maio da cidade de Ourense, 2009)

Vêm aí os Lumes de Bel (Bel-tené) – o formoso, o belo – e assoma a cabeça a Tarasca do Val, sabendo que chega já de forma definitiva a primavera. Regressam a casa depois dum duro inverno fora os moços do Cório (como os irlandeses fianna), para celebrarem estas datas com o resto do seu Clã.
Como o Magusto (Samain), os Maios supõem um trânsito, o outro fito da divisão da Roda do Ano em duas partes, a mudança definitiva da metade escura do ano à luminosa, de Giamos a Samos. Retoma o lume o seu simbolismo fulcral, leva-se o gado até ele para a sua purificação e saltam homens e mulheres por riba na procura da fertilidade. Invoca-se o calor, a luz, em definitiva o Sol no rito de Alumiar o Pão:

Alumia o pão
Alumia-o bem
Alumia o pão
para o ano que vem

Alumia o pai
cada grão um tolodão
Alumia o filho
cada grão um pão de trigo
Alumia a nai
cada grão um tolodão
Alumia a filha
cada grão um pão de trigo

Maio processional da cidade de Ponte Vedra (2009)

 

É o grande festival da fecundidade, do esplendor da natureza, da fartura. É uma festa de reconstrução e renovação simbolizada também pela morte do deus Maponos pendurado duma árvore, morte temporária pois renasce depois nessa mesma árvore. Assim a Comunidade elabora o Maio, uma figura inteiramente vegetal que representa e centraliza a natureza, a essa árvore se se quer, ou escolhe-se uma árvore que será passeada por moços e moças; mesmo pode-se vestir uma criança como tal. É a árvore pois que traz a vida e a luz durante meio ano, em torno à qual todas e todos cantam e dançam em círculos enquanto o Cório bate as suas espadas junto da Tarasca:

Ergue-te Maio
que tanto dormi-che
que passou o inverno
e ti não o vi-che

 

De acordo com a tradição galaica celebramos os Maios desde a noite do 30 de Abril até o significativo dia 1 de Maio, onde depois da juntança da manhã percorremos o caminho cara um santuário natural com o galho de acabar de confeccionarmos o Maio, acender os lumes, jantar e, em definitiva, desfrutar da alegre protecção de Bel sobre nós e da ajuda de Návia nos nossos cânticos com o repenique das suas águas, sempre precisas para limpar as feridas e completar a ressurreição de Maponos.

As datas de culto, aliás, estendem-se até o dia três, mas neste caso são actividades principalmente pessoais e privadas.

Para mais informações sobre a celebração deste ano – sempre sujeitas à climatologia – contactem sempre.

Beltaine, os Lumes de Bel

Comunicado sobre a destruição no Parque Natural e Santuário das Fragas do Eume

(baixar em .pdf >aqui<)

Passadas só umas horas após a confirmação da extinção efectiva do devastador lume florestal que vem de atacar o coração das Fragas do Eume nos últimos dias, a Irmandade Druídica Galaica lamenta a morte de todos os seres vivos neste santuário e reduto natural sem comparação.
Lembra-se que a Druidaria tem um compromisso íntimo com o ecologismo e a defesa da Natureza, único templo verdadeiro, elemento sagrado fulcral na nossa religião.

As Fragas do Eume são o último grande bosque atlântico galego, um ‘Parque Natural’ e ‘Lugar de Importância Comunitária’ supostamente protegido, um dos melhores bosques clímax da Europa que conta com autênticas e maravilhosas raridades de flora e fauna. A importância somentes biológica das Fragas do Eume é difícil de equiparar e impossível de substituir. O significado religioso para a Irmandade Druídica Galaica desta desgraça é pois análogo a um assassinato e à mais brutal profanação.

Incêndio florestal nas Fragas do Eume (1 Abril 2012)

Arderam oficialmente 370 hectares de 9.126 (extensão total do Parque), mas esta cifra é um grosseiro cálculo sobre plano que não tem em conta a geodésia da zona – entre outras considerações – o qual eleva a superfície queimada a praticamente 2.000 hectares no cerne da vida do bosque , de acordo com estimativas independentes.

Todavia, estes números não explicam os perigos que ameaçavam e continuam a ameaçar o que fica do Parque à margem do lume, um Parque rodeado do sempre interessado monocultivo do depredador eucaliptal, espécie alóctone pirófita que vinha invadindo passeninhamente o lugar de carvalhos (árvore sobranceira do Parque) e castinheiros.
Como fora assinalado por diversos colectivos, parece suspeitosamente conveniente, também, a localização da origem do incêndio na zona da Capela, onde está projectada uma exploração mineira até o de agora paralisada pela presença de tão prezado ecossistema.
Amais, o Povo Galego na rua em concentrações espontâneas e solidárias, vizinhos da zona e a totalidade de associações ambientalistas galegas (e não só) criticam a incompetência administrativa e pouca eficiência dos trabalhos de extinção do fogo, lentos e insuficientes a causa da carência de meios materiais e humanos derivados de recortes orçamentários. Ainda assim, as autoridades políticas responsáveis de tais decisões reconhecem abertamente a intencionalidade do acto, isto é, a confirmação duma acção criminal. Não é casual certamente a aparição do lume no lugar e no momento escolhido, após um período de seca e pouco antes duma anunciada mudança na climatologia que há trazer chuvas e que vem provocando ventos que avivaram as chamas.

Por estes motivos a Irmandade Druídica Galaica acredita que existe:

  • incompetência dos responsáveis políticos actuais, incapazes de resolver de forma ajeitada uma situação de crise pontual.
  • pobre dotação de meios de previsão e extinção de incêndios, sistematicamente atacados nos seus orçamentos e recursos, restando toda a sua efectividade num País onde este tipo de riscos ambientais são uma ameaça constante a dia de hoje.
  • má planificação da política florestal, gestão do ambiente e território, que favorece a percepção da Natureza não como um todo na que nos achamos inseridos/as, senão como desarticuladas ilhas verdes rodeadas de fatalidades à espera de acontecerem.
  • um tramado especulativo, com fins pecuniários, que permite e até favorece este tipo de acontecimentos.
  • falta de visão estratégica a longo prazo considerando a Natureza como uma mera fonte de recursos, não como um recurso nela mesma onde desenvolver actividades sustentáveis e mesmo rendíveis, devidamente regulamentadas e organizadas.
  • um abandono das zonas rurais por parte da população autóctone, outrora garante do cuidado e preservação do entorno; em muitos casos as e os locais encontram eivas administrativas na realização da sua vocação de preservação.
  • desleixo na procura e acusação dos responsáveis materiais.

Em consequência a Irmandade Druídica Galaica demanda:

  1. A protecção efectiva e real da Natureza, no seu sentido mais amplo.
  2. A retribuição (justiça) pelos crimes cometidos dos distintos responsáveis, sejam materiais, ideológicos ou políticos.
  3. A derrogação de todo direito, privilégio, vantagem ou benefício que grupos especulativos ou privados possam tirar desta catástrofe, nomeadamente empresas construtoras, mineiras e madeireiras.
  4. A criação e implantação imediata dum plano integral de recuperação e regeneração do Parque Natural das Fragas do Eume, tarefa com fim a séculos vista mas que precisamente por isso deve ser encetada sem demora.
  5. O desenvolvimento de medidas efectivas para a atracção e fixação de população em áreas rurais, elemento básico duma autêntica sustentabilidade plena.
  6. A eventual erradicação definitiva dos lumes florestais provocados e vigilância constante perante os acidentais.

A Irmandade Druídica Galaica sempre trabalhará e lutará, na medida das suas possibilidades, em fazer cumprir todos estes pontos, da forma e com as ferramentas que tiver ao seu dispor em cada momento. Considera-se um dever não só lógico e ético, senão consonante com os preceitos religiosos e espirituais do nosso Clã.

A Irmandade Druídica Galaica tende a mão a todas e todos aquelas e aqueles que partilhem esta maneira de entender o País e o Mundo e queiram Caminhar.

Irmandade Druídica Galaica
Galiza, 3 Abril 2012

As nove bênções do bosque sagrado
estejam agora com todas as florestas da Terra,
para o salgueiro das ribeiras
para a aveleira das rochas
para o amieiro dos pântanos
para o bidueiro das fervenças
para o mofo das sombras
para o teixo da resiliência
para o ulmeiro da aba
para o carvalho do Sol
e para todas as árvores e animais que crescem e vivem e respiram
em outeiro, vale e chaira:

Nem machado, nem serra, nem fogo há dana-los
Nem cobiça possui-los
Nem lucro reclama-los
pela graça da pisada do cervo entre nós
a força do javali correndo debaixo de nós
o poder do falcão acima de nós
e a magia do ouveio do lobo arredor de nós.

Sinte…
a paz profunda do regato que corre através das tuas raízes,
a paz profunda do ar através das tuas pólas,
a paz profunda das estrelas que brilham nas tuas folhas.
Que a gaita da floresta seja ouvida mais uma vez
em toda a viva e verde Terra.

(baixar em .pdf >aqui<)

Arde a Terra. Chamamos à sua defesa.

De forma imediata – e antes da publicação de reflexões pormenorizadas sobre a recente vaga de lumes florestais na Galiza e, nomeadamente, a destruição a acontecer agora num dos nossos maiores tesouros naturais e santuário, as Fragas do Eume (+info) – a IDG convida a todas e todos a assistirdes às diversas manifestações de repulsa convocadas hoje (2 Abril) em todo o País, como seguem (segundo últimas informações no momento de publicação):

Betanços: no concelho (20h30).
Compostela: no Obradoiro (20h30).
Corunha: nos Cantons (junto do Obelisco) (20h30).
Ferrol: Praça de Armas (20h).
Foz: diante de Fazenda (20h30).
Lugo: no concelho (20h30).
Pontedeume: no concelho (20h).
Ponte Vedra: na Ferreria (20h30). -> aqui estarão presentes membros da IDG e de organizações amigas.
Ourense: no concelho (Praça Maior) (20h30).
Vigo: no Sereio (20h30).
Vila Garcia de Arousa: Praça Galiza (20h30).

As/os Caminhantes druídicos têm um compromisso íntimo com o ecologismo e a defesa da Natureza, elemento sagrado fulcral na nossa religião. Por isso a IDG fai uma chamada enérgica e decidida à participação nestas acções cívicas de urgência, sabendo que a grande maioria dos tais lumes florestais são intencionados e evitáveis.
Para mais informações sobre as manifestações pode-se visitar o evento criado no facebook (>aqui<).
Lumes não!

No Equinócio da Primavera

Hoje o Sol detem-se sobre as nossas cabeças, toma fôlegos por um intre no seu devagar enquanto equilibra luzes e trevas. Depois de alcançar à escuridão na sua corrida, hoje o dia dura tanto como a noite e a noite como o dia: é o equinócio da primavera, o que muitos e muitas druidistas denominam Alban Eilir, “A Luz da Terra”, Mean Earraigh, “Meia Primavera”, ou Alban Talamonos, “O Amencer da Terra”; Ostara nos cultos germânicos e wiccanos, o início do ano astrológico para outros.

É um dos quatro grandes eventos astronómicos que intercalam as quatro grandes celebrações para completar a Roda do Ano, como fora explicado ao falarmos do solstício de inverno.

Hoje continuamos o caminho indicado no Entroido (Imbolc). Hoje resulta evidente que a chegada dos Maios (Beltaine) e imparável. A natureza cumpre os seus ciclos mais uma vez, por muito que muitos teimem em ignora-la e danifica-la. Por fim agroma a vida por toda parte, é óbvio e omnipresente, sem dúvidas. Activa-se a fertilidade e maravilhamos-nos de como a planta sabe quando tem que medrar, quando há que sair do ovo protegido por uma lebre, o que significavam os frutos “no ventre” da deusa Brigantia, que não parou de sorrir desde o Entroido, e continua…

Renovam-se então as intenções do Entroido: continua a preparação e cuidado da terra, mas esta já reverdece, pode-se pôr outra vez a casa em ordem e fazer limpeza, também de espírito, porque com esta luz podemos ver melhor todo recanto escuro, em toda parte.

Bom Equinócio da Primavera. Recebide a acougante Alban Eilir num agarimoso abraço. Empregade bem o tempo da Mean Earraigh. Espreguiçade-vos com o Alban Talamonos.

Curso formativo “Santuários da Galiza”

A IDG fai-se eco do curso “Os Santuários Celtas da Galiza”, a decorrer estes dias, organizado pela Associação Profissional de Guias da Galiza (APIT), com o apoio e assessoria científica do Instituto Galego de Estudos Célticos (IGEC| The association of professional tourist guides in Galicia (APIT) is hosting a course on Galicia’s Celtic santuaries and sacred sites, aimed at providing tourism professionals with the basic understanding of Celtic culture, religion and some of its major landmarks in Galician territory. This course is validated by the Galician Institute for Celtic Studies (IGEC).

Deste jeito, a APIT pretende pôr em valor o nosso legado céltico como marca de identidade e elemento cultural de alto interesse para possíveis visitantes à nossa Terra. A correcta formação dos guias turísticos é entendida como fundamental para poder explicar com exactidão o que o/a potencial viageiro/a está a ver, o porque do que está a sentir. Em palavras do vozeiro e vice-presidente da APIT, Suso Martínez:

Portalém, Monte do Seixo, será visitada no domingo 26.

“Queremos que todo aquele ou aquela que sinta a conexão céltica tenha que fazer uma peregrinação à Galiza uma vez na sua vida, aos seus santuários milenares, pois esta também é ‘Terra Santa’, muito seguramente a mais sacra da Céltia”.

Porém, preocupados com o rigor histórico e com a informação que os guias profissionais possam empregar, a APIT conta em todo momento com a colaboração do IGEC, ocupado em desenvolver a parte formativa destas actividades. Isto só já vem demonstrar o cuidado, a sensibilidade e labor de dignificação cultural que acompanha este curso, chamando à geografia sagrada do País pelo seu nome e aprofundando no seu conhecimento desde uma perspectiva de respeito.

Assim, completada no fim de semana passado a introdução teórica e primeira saída de campo aos lugares da Torre da Corunha, Pena Molexa e Caminho de Teixido (entre outros), neste próximo fim de semana (25-26 Fevereiro) estão agendadas visitas no sábado a Buriz (Guitiriz), Croio das Penas de Rodas (Outeiro de Rei), Pena Moura de Donalbai (Begonte) e, no domingo, ao Facho Donom (Cangas do Morraço) e à montanha sagrada do Monte do Seixo.

Para mais informação e imagens visitem o programa na página oficial da APIT e o seu perfil em facebook.

 

Actualização: Eventos já concluídos. Resumos das jornadas na página do IGEC: Parte I e Parte II.

 

Membros da IDG participam nestas jornadas a título estritamente individual. A IDG não tem nenhum tipo de relação formal tanto com a APIT como com o IGEC, se bem muitas informações e cordiais experiências pessoais possam ser partilhadas entre os seus membros de forma privada. 

Vem aí o Entroido (Imbolc)

Começa a época da segunda das quatro grandes celebrações do ano, o Entroido (Imbolc), uma celebração de esperança e alegria fortemente vencelhada à deusa Brigantia (Brighid ou Bride), a deusa vitoriosa, a grande soberana feminina.

Nos dias a seguir esta noite do 31 de Janeiro a 1 de Fevereiro desenvolve-se este festival percebido como estímulo do crescimento, o acordar da terra, da preparação dessa terra ao seu encontro com a primavera, da fertilidade. Cumpriu-se o anunciado triunfo sobre o inverno que começou com o ano novo no Magusto (Samain), inverno que se bem ainda não rematou também não foi quem de nos vencer. É o momento então para ajudarmos a terra, pôr os assuntos da casa em ordem, mesmo de fazer uma grande limpeza, de fazer planos e de “plantar” ideias (quase como no Lugnasad). Muitos animais parem nestas datas e mesmo pode ser considerada como a festa dos bebés. Também diz o refraneiro galego que no 2 de Fevereiro “casam os passarinhos”. Lembra-se, aliás, que o Rei hã renovar os votos com a Terra em breve…

A deusa Brigantia – portadora da luz e deusa do fogo, da vitoria, da profecia, filosofia, poesia e sanação, patrona de artesãos, pastores e agricultores – guia o Entroido com os seus atributos positivos e fai que, precisamente, “entremos” numa nova época. Eis a raiz do Entroido (ou Entrudo), uma entrada a um tempo alegre mas nada a ver com o “carnavalesco“. Brigantia assegura então este trânsito e garante a promessa de renascença feita no solstício. Ela será quem acorde os deuses Bel e Lug chegado o momento, mesmo quem o amamente se figer falta.

O ano já há tempo que começou, mas só agora Brigantia e o ciclo da natureza começam a nos premiar de forma especial pela nossa resiliência. Tudo vira em torno ao Imbolc agora (do velho gaélico i mbolg, “na barriga”), este embigo da vida. Albiscamos a sua luz e ficamos confiantes; há que chegar ainda, mas já estamos quase. É tempo de alçar a cabeça e rirmos! :)

A IDG está a desenvolver celebrações privadas nestas datas. Num senso estrito as celebrações religiosas do Imbolc começam na noite do 31 de Janeiro e rematam na noite do 2 de Fevereiro, mas as festividades podem celebrar-se uns dias antes ou depois deste praço.

Tripla deusa Brigantia, senhora do Imbolc. Detentora do fogo pois é protectora (entre outros) dos ferreiros que forjam as armas, dos poetas que apresentam lumes cerimoniais, e dos sanadores que facilitam o lume do lar. Brigantia fornece também pela criança nascente.


O Corvo

Primeiro texto da série ‘Natureza Céltica‘ dedicado ao simbolismo e significado do Corvo no mundo céltico e na Druidaria, nestes nove días da Lua de Brigantia – ‘Lua Janeira’ – que começam hoje.

Os corvídeos em geral são animais a tratar com cuidado, frequentemente percebidos com uma mistura de respeito e receio. Há quem mesmo lhes tenha medo.

É certo que em ocasiões o Corvo é visto como animal associado à guerra, ao deus Bandua ou à deusa chamada Reua (na Galiza) ou Morrígan (na Irlanda), pois é habitual que Corvos sobrevoem os campos de batalha, erigindo-se nos olhos e testemunhas das deidades. Mas também é certo que simbolizam habilidade, astúcia e inteligência. O Corvo é um transmissor, um comunicador. Mais que isso, o Corvo é o mensageiro entre o nosso mundo e o Além quando as portas entre ambos lugares estão formalmente fechadas (normalmente porque não são as datas propícias ou não se executa o rito ajeitado). Ao Corvo pode-se-lhe pedir que transmita mensagens a quem está Lá, e o Corvo pode trazer mensagens de Lá, tenhamos-lo pedido nós ou não. E o Corvo quando fai isto fai-no sem pedir nada em troca, eis uma mostra de bondade, pois longe de ser tétrico ou lúgubre o Corvo demonstra com normalidade o natural dos trânsitos entre lugares e tempos, com ida e volta, sem mais. Poderia ser negativo um animal cuja contraparte vegetal é o sabugueiro?

O Corvo no seu conhecimento – por saber como mover-se entre este mundo e o Além, por poder tratar indistintamente connosco e com aqueles que nos pensamos já ficaram atrás – indica como aprender do passado, como extrair lições desse passado mas sem apegar-se a ele. O Corvo no seu voo ri das fronteiras, das limitações e do tempo, de tudo aquilo que nos consideramos infranqueável. O Corvo fai como quer quando quer. O Corvo expressa a liberdade individual, o individualismo podem dizer alguns, pois dispõe sempre dos recursos necessários para levar à frente os seus planos sem ajuda de mais ninguém. E se alguém não gostar da sua atitude, o Corvo não se importa. Deveria importar-se com as opiniões de outros? Mais ainda, quem ousa ou a quem se lhe passaria pola cabeça amolar um Corvo?

Se fixas o seu olhar verás como o Corvo nem é mau, mas um velhinho brincalhão. É só que pode chegar aonde nós não podemos e muitas das vezes sabe mais do que nós sabemos dalgumas cousas; brinca, logo, connosco. Trata bem do Corvo, já que todo dano a um Corvo é um grave delito na Druidaria. Quem sabe, talvez assim poidas ganhar a sua confiança algum dia, mas lembra: o Corvo continuará a fazer a sua vontade quando lhe apetecer, e ele aguardará o mesmo de ti. Se algum dia um Corvo quiser falar contigo e partilhar os seus segredos… considera-te então afortunado/a, e ouve bem o que diz. A sua voz pode soar dura no princípio se não estás afeito/a, mas é só porque diz verdades.

Corvos

Natureza céltica

Eu sou o falcão sobre o rochedo,
Eu sou uma gota dourada do Sol,
Eu sou a mais bela das flores,
Eu sou um javarim fachendoso,
Eu sou um salmão na lagoa,
Eu sou a arte do poeta e a palavra de conhecimento
(Amergin, Druida e Bardo dos Milésios)

Esta página e as suas ramificações – em Facebook e Twitter – pretendem funcionar como referência e via de comunicação dos e das Caminhantes da IDG e, por extensão, da Comunidade druídica galaica. Isto implica que resida aqui também uma labor de divulgação da cultura céltica e forma de entender a vida sob a perspectiva da Druidaria, para quem quiser ler.

Deste jeito, um dos primeiros e mais óbvios passos é escrebar (meditar) e redescobrir aspectos concretos e visíveis da Natureza, como as árvores ou os animais, já que a Natureza, entendida como a totalidade do Cosmos, é o cerne de toda a filosofia e religião druídica.

Se bem até é popularmente conhecido que as plantas e árvores em geral, e algumas em particular, estão sempre presentes e são especialmente importantes na Druidaria, há quem tende a esquecer a relevância do significado dos animais e mesmo a existência de ‘animais guia’ para cada pessoa, às vezes presentes como manifestações directas das próprias deidades. De facto, alguns nomes tribais derivam destes animais guia, protectores de cada Clã. Os animais na Druidaria não são simplesmente ‘parte da paisagem’ ou ‘mais uma cousa’ desse todo da Natureza, antes pelo contrário, constituem como as árvores um elemento fulcral a ser estudado. Lembre-se, por exemplo, que de acordo com a religião druídica pode existir transmutação de ou para um animal (não de ou para uma árvore) e isto é considerado perfeitamente normal, embora não habitual.

Assim, aos poucos, quase que a modo de “artigos temáticos”, fará-se uma breve apresentação aberta de quem é quem, como se associam e que representam diferentes animais, e não só, na nossa cultura e religião.

Cavalos

No Solstício de Inverno

Há na Druidaria galaica quatro celebrações anuais sobranceiras bem conhecidas: o Magusto (Samain) em Novembro, o Entroido (Imbolc) em Fevereiro, os Maios (Beltaine) em Maio e o Lugnasad em Agosto. Porém, a chamada “Roda do Ano” completa-se com com outros tantos eventos astronómicos observados e muito seguramente celebrados em terras célticas desde antergo; estes são os solstícios e equinócios.

De acordo com a IDG estes eventos não estão associados a deidades fixas e, se bem relevantes, não têm o rango de importância das quatro festividades antes nomeadas. Mas achega-se a noite do Solstício de Inverno – oficialmente no trânsito do 21 ao 22 de Dezembro – quando os dias começam desde então a crescer. Arredor destas datas os e as Caminhantes podemo-nos reunir com a nossa gente, família ou Clã, aguardando o lento mas firme renascer do Sol, na lembrança e confiança de que o futuro sempre há acabar por destruir os gelos da fria temporada que apenas começou.

Aliás, algumas outras tradições druídicas celebram esta noite mais longa do ano como sinal do eventual regresso de Belenos, simbolizando a sobrevivência sobre as trevas e passeninha chegada da luz. É o enraizamento e gestação durante três dias do Infante Sol (logo Dagda) a partir do Ventre Materno, a escuridade da Deusa Dana. São as datas da Modranecht ou Matronucta (a ‘Noite Nai’), também do Meán Geimhridh (‘Meio Inverno’) e Lá an Dreoilín (‘Dia da Carriça’)

Seja dito outrossim que trânsitos como o Solstício de Inverno são datas de extrema importância na tradição germânica (festividade de Yule) e na religião Wicca, mesmo no calendário chinês (o Dong Zhi, ou “chegada do Inverno”), entre outras no mundo. Na Europa outras religiões também empregaram a posteriori estas datas como marca do passo cara a um período de maior esplendor.

Observemos e reverenciemos pois a continuidade da Natureza nos seus ciclos e alegremo-nos com a própria luz que a partir de agora colhe renovadas forças.

Bom Solstício de Inverno. Boa Modranecht. Cálido e refulgente Meán Geimhridh.

Seguir

Get every new post delivered to your Inbox.