Roteiro da Pantalha, e vão quatro!

Cartaz deste IV Roteiro da Pantalha, 2014

Cartaz deste IV Roteiro da Pantalha, 2014. Vem celebrar o Magusto e o Ano Novo celta! (clica para alargares)

Giamos, a metade escura do ano, é já uma realidade acompanhada por fim do tempo Outonal. A chamada ‘Maré de Magusto’ apanha fôlegos e toda crente Druídica decerto sente a iminente chegada do aninovo celta, a festa do Samain, Halloween, a nossa época de Magusto, nomes todos que não deixam de fazer referência e este tempo tão especial, a principal celebração do ano, quando o ar enche-se de cheiros a castanha assada.

Assim, na sua quarta edição, a A.C. Amigas da Cultura e o colectivo Capitán Gosende organizam um novo Roteiro da Pantalha (nome local da Estadea ou ‘Santa Companha’), após o grande sucesso das edições anteriores (ver, como exemplo, algumas fotos do 2011, 2012 e 2013). Também, como nas outras ocasiões, a Irmandade Druídica Galaica estará presente apoiando esta iniciativa de convívio para conhecermos melhor as antergas tradições da nossa terra e celebrarmos em comunidade.

A noite mais especial – do 31 de Outubro ao 1 de Novembro – começará às 20h com uma caminhada desde a aldeia de Pedre (Cerdedo, Terra de Montes), que rematará com um generoso banquete e sessão de conta-contos participativa na Casa Florinda (Pedre).

Para apontar-se à ceia (18€) ou para dormidas (15€/pessoa, almoço incluído, vagas muito limitadas) é precisa reserva com o próprio estabelecimento (Tlf. 687 742323 / 986 753180; correio-e florindarural@gmail.com).

A simples assistência e a caminhada estão, obviamente, livres de todo custo.

É altamente aconselhado trazer calçado ajeitado para terrenos molhados e irregulares e boa iluminação (tradicional e/ou eléctrica), pois o percurso encontrara-se na mais absoluta escuridão e pode que as condições climáticas não estejam do nosso favor.

 

Importante: Esta actividade acima anunciada tem carácter cultural e celebratório mas não estritamente religioso. Para as/os Caminhantes interessadas/os no rito religioso será preciso contactar directamente com a IDG (idg @ durvate.org). Aquelas/es que não o fizerem e os seus nomes não forem confirmados não poderão participar no ritual da IDG. Um texto de carácter religioso será publicado neste mesmo espaço, aliás, mais próximo da data em questão.

Equinócio de Outono, queimam-se as fachas

A Festa das Fachas, ainda viva em Taboada e no Savinhao.

A Festa das Fachas, ainda viva em Taboada e no Savinhao, a receber o Outono.

Como na Primavera, chega hoje um novo equilíbrio perfeito entre dia e noite, entre luz e escuridão, ainda que desta vez marca-se o trânsito cara a metade escura do ano: passa-se de Samos a Giamos. É o Mabon, o Alban Elfed, a Noite do Caçador (quando o Sol é finalmente alcançado antes dum novo renascer), o Lar da Colheita, em definitiva o Equinócio de Outono, mais um passo na Roda do Ano marcando uma das festividades menores da Druidaria.

Após a grande celebração da plenitude da colheita no Lugnasad, revisa-se agora a finalização dessa seitura farturenta, festeja-se o seu cuidado armazenamento para esta nova jeira que pode ser longa e dura, mas que encaramos com optimismo e gratidão pelo já conquistado e tudo o bom acumulado. Estamos prestes, pois, a caminhar cara o ano novo que há chegar na festa do Magusto (Samain), em poucas semanas.

Talvez antecipando a chegada dessa grande noite, a tradição galega celebra este equinócio com o lume da chamada Festa das Fachas, outrora popular em todo o País e que oxalá pudera voltar se-lo. Assim, prende-se fogo a um fachões de pôla de castinheiro contra a meia noite, enquanto soa a gaita e prepara-se a comida e a bebida, como em toda boa celebração galega.

Com esta despedida, Lug cai e começa o seu descanso, e nós acougamos com ele, guardados todos e todas por Brigantia primeiro e Bel depois. Cailleach fica avisada. A Cailleach antes fisicamente esplendorosa declina aparentemente em aspecto, mas oferece graças à sua crescente experiência o seu sábio conselho a quem saber perguntar. Ela será agora quem nos aconchegue. A aparência de vigor era nela um velo cobrindo a o fragor da sua temporária juventude. Mas agora muda, agora toma lentamente o seu poder real.

Atenção, isso sim, pois é também época de juízos e recapitulações; temos que estar preparados e preparadas a partir de agora para aturar os dias frios e as verdades que serão desveladas no Magusto através das mensagens dos nossos seres queridos.

Celebremos então a previsão feita no passado para o goze do presente e a confiança no futuro.

Vem onde nós o Outono

Dacavalo do ar;

nos caminhos da fraga

os ouriços já abrem.

Sinto-o chegar contente

da eterna viagem

enredando entre as folhas

estreando friagem

(A.M. Fdes.)

O Gato

Há quem não associe directamente a figura do gato com o celtismo ou a Druidaria, mas o certo é que este animal também tem o seu papel na nossa cultura e religião, como em tantas outras crenças e mitologias do mundo. Este é o segundo texto da série ‘Natureza Céltica‘. gato_celta

Em perspectiva histórica, o gato é pelo geral um animal benéfico à vez que enigmático. Na Galiza, um bom gato é sempre apreciado por ser protector do grão e das colheitas, controlador de pestes, útil nas casas. O gato fai isso tudo sem pedir nada em troca, se calhar só algum mimo e um bocado de comida.

Mas o gato pode parecer apresentar algumas ambiguidades, desde o ponto de vista humano, claro.

Já foi associado à guarda do Além, como um ser que ajuda a controlar as suas fronteiras. Igualmente, foi ligado à adivinhação do futuro, mediante a observação dos seus movimentos e comportamento.

O relato céltico talvez mais relevante tem a ver com o Rei dos Gatos na Irlanda, Irusan, um gato gigantesco – “até do tamanho duma vaca” – a meio caminho entre criatura e deidade. Irusan tem uma fermosa pelagem de cor preta, com uma parte branca no peito, e a sua presença e toda ela majestosa e poderosa, sentado no trono da sua grande e profunda cova. Um dia, Senchan, o Bardo Mór da Irlanda, burlou-se dele num poema, para depois nunca mais ser visto…

Assim, Irusan aparece como defensor implacável dos seus congéneres felinos e da sua honra, e múltiplas histórias relatam como quando um gato é respeitado este devolve o trato de forma generosa, até protegendo as casas de invisíveis criaturas malignas. Ora bem, se acontece como com o gato que convidou a caminhantes partilhar a sua mesa e que tentaram logo roubar-lhe, então encontrarão só a morte.

Irusan é muito provavelmente o gato conhecido na Escócia como Cat Sìth (Gato do Além), alguém também a ser tratado com precaução, mas que na noite do Magusto (Samain) visita as casas na procura de leite, benzendo a quem lhe deixar algum para beber. As lendas do Cat Sìth espalharam depois pelo resto da Ilha até entrar a formar parte do folclore popular, conhecido sob o genérico ‘Rei dos Gatos’.

Definitivamente, não se quer ter o gato como inimigo, pois Cuchulain ou até o mesmíssimo Rei Artur tiveram que lutar contra eles nalguma altura com grande perigo para as suas vidas.

Contudo, o gatkoguregatonao forma parte dos exemplos dos ciclos da vida e morte druídica, como o poder dum meigo ou meiga se transformar em gato até oito vezes, ficando dessa forma definitivamente na novena (alguém lembra o das “nove vidas do gato”?); ou a transmutação duma princesa em gato um ano, cisne noutro e, finalmente, em lontra, fechando também um círculo em base três, com uma combinação de animais a ser analisada.

Porém, não é tão estranho que toda esta funda carga simbólica e aparente ambiguidade, somado à pura ignorância médica e intolerância e superstição religiosa, derivara numa visão muito negativa deste animal durante a Idade Média e mais alá.

Temos, pois, que retomar esta figura, lembrar a Irusan e o seu calmo orgulho, aprendendo que a acção é sempre fulminante mas justa, só fruto de agravo ou provocação, nunca gratuita ainda que pareça exagerada, e que o respeito tem que ser ganhado. Uma vez feito isto, tudo o bom virá a seguir.

 

De casamentos, ritos e espectáculos

Ao longo do tempo, a IDG tem recebido petições para a celebração de “casamentos celtas”. Na maior parte das vezes isto é feito com um interesse honesto, tentando marcar uma ocasião especial com um detalhe de respeito perante o nosso legado cultural. Contudo, a celebração de “vodas celtas” parece estar na moda a maneira de espectáculo ou divertimento, despojado em grande medida do seu significado real (mesmo adaptando ao S. XXI) e, por suposto, religioso.

Claddagh

O símbolo de Claddagh, normalmente apresentado num anel, representa o amor, lealdade e amizade. É um presente muito frequente entre desposantes ou simplesmente entre amigos muito chegados. As suas origens conhecidas o situam em Galway (Irlanda), zona de forte conexão galaica.

Alarmam-nos detalhes já não só em relação ao aguardado rigor histórico, onde poderiam se debater algumas interpretações mas nunca as datas, senão a cousas mais concretas como meros interesses económicos, a ingenuidade de quem pensa estar em presença dum autêntico druida ou druidesa, ou a contradições enormes, como supostos ritos patrocinados por uma sociedade de caçadores.

Explicando um bocado estes aspectos, desde a IDG considera-se que todo rito a serviço do Clã deve ser gratuito (além de despesas óbvias), ou que um druida ou druidesa que se chame tal deve ser alguém aclamado pelo seu próprio Clã, com uma filiação demonstrável e/ou reconhecido por ordens druídicas reputadas. Igualmente, todas as entidades druídicas oficiais do Estado (e não só) barram da prática da Druidaria no seu seio a quem se dedicar à chamada “caça desportiva”, medida que a IDG também adere, com o que resulta bem estranho que alegadas celebrações druídicas contem com esse tipo de patrocínios. Por último, indicar que o Lugnasad (Seitura) deve começar com o calor do mês de Agosto, época dos casamentos, não quase trinta dias depois…

Fica tudo na boa se os supostos oficiantes e participantes são conscientes destas considerações e entendem a tal festa como simplesmente isso, um teatro sem mais, mas que ninguém se iluda: não é Druidaria e portanto não deveriam usar nem os seus nomes, nem as suas deidades, nem parte da sua parafernália.

Devemos indicar, mais uma vez, que a IDG é ante todo uma agrupação religiosa, não um simples grupo de recriação histórica ou associação cultural. Por isso, e com todo respeito, a IDG só pode ajudar a organizar tais ritos se as pessoas forem Caminhantes druídicas demonstráveis ou, no seu caso, pessoas que aceitaram os preceitos da Druidaria e se formaram nela, entendendo o que um casamento significa, ou se mesmo é aconselhável ou necessário; na maior parte dos casos não é, devido à carga patriarcal de influência cristã que enchoupa tudo na nossa sociedade actual e que demora ser eliminada.

Lug brinca, o Clã celebra

Agora sim, depois duns pequenos problemas informáticos com os que Lug nos teve a brincar (assim como com o tempo), podemos encetar de cheio esta a sua época, que já começáramos a desfrutar em plena natureza galaica.

O trigo da primeira seitura, utilizado como símbolo do Lugnasad. Este é o grão aguardado que devemos preservar e empregar com justiça e siso, para o benefício comum.

O trigo é utilizado como símbolo do Lugnasad. Este é o grão aguardado que devemos preservar e empregar com justiça e siso, para o benefício comum.

Chegou com este mês a época da ‘Assembleia de Lugh’, o mês do luminoso e poderoso protector dos criadores e inventores, dos agricultores,  de aqueles e aquelas que podem fazer surgir algo que antes não existia. É o tempo da primeira seitura, motivo de ledícia geral, depois da esforçada guarda de Brigantia e Bel e todo o nosso trabalho acumulado. É a quarta e última grande celebração do ano a seguir o Entroido e os Maios, quando o Magusto reserva-se para o futuro e ainda sente-se longe o inverno e a mudança de ciclo.

Por fim se pode reunir o Clã em grande festejo para celebrar o poder do Sol, da luz no esplendor do verão, da colheita dos frutos da Terra que hão de nos alimentar quando o frio vier. Mais uma promessa é cumprida, pois a Natureza nunca falha à sua cita. Façamos nós um esforço por estarmos à altura.

É um tempo para reflectirmos sobre o acadado nas nossas vidas e de como foi feito, pensarmos nos nossos planos e estratégias passadas, sabendo que deveremos sementar de novo grão e ideias mais cedo do que tarde. É altura, também, de fixar todo o bom conseguido até o de agora – apresentado da mão de Lugh – de estarmos satisfeitos pelo bom e tomar consciência do desejo de mudança do mau.

Nestas datas unem-se as famílias e os amigos, celebram-se os casamentos do ano, brinca-se e há música e competições desportivas. A Comunidade trabalha junta nessa colheita sempre com um sorriso entre troula e esmorga, arredor duma mesa ou dançando baixo o céu, sem nunca esquecer retornar à Terra parte do que ela nos dá.

Façamos pois reflexão sobre quem somos e onde estamos, onde queríamos chegar e aonde queremos ir. Aproveitemos os intres de calma e sossego que nos garante Lugh e a sua eloquente e positiva sabedoria. Pensemos em nós mas não só como indivíduos, senão como parte desse Clã que necessariamente avançará connosco e nós com ele.

Outro ano já virá mais à frente, mas agora toca alçarmos a vista e desfrutar da cálida beleza da vida. O Deus que outorga essa energia toda está presente no seu apogeu; todos e todas nós somos a sua Assembleia e Povo, e esta é a sua festa.

Hei de ir à tua seitura

Hei de ir à tua segada

Hei de ir à tua seitura

Que a minha vai-che acabada

* * *

Segador que bem segas
na erva boa
que para segar na má
o tempo che sobra.

Aí vêm os segadores
em busca dos seus amores
depois de segar e segar
na erva.

O Nosso Dia

Hoje é o Dia Nacional da Galiza, o Dia da Pátria, o Dia de Todas e Todos Nós, a celebração da Terra que nos acovilha, sustenta e dá sentido, a que nos ensinou a estar no mundo.

Hoje unimos-nos à louvança do cenário único onde os nossos devanceiros e devanceiras viraram galegos e galegas. Hoje honramos – é preceito da Druidaria – a quem nos precedeu para podermos estar aqui agora e sermos quem somos.

Hoje celebramos o bom da Terra e da nossa cultura e identidade, e reforçamos a nossa vontade em erradicar tudo aquilo que lhe aflige e dana. Isto é algo que não pudemos fazer como deveria ter sido feito no ano passado, quando um horror em forma de acidente – embora com responsáveis – truncou a nossa alegria. Assim, neste novo 25 de Julho teremos que fazer tudo o que deve ser feito com o duplo de forças ainda.

Muito especialmente, dos Nove Compromissos presentes na nossa religião hoje o Compromisso com as Raízes, com a Liberdade e com a Independência revelam-se fulcrais em múltiplos sentidos. Fai-se, aliás, um chamamento especial a galegos e galegas em relação a um dos princípios básicos da IDG, que é o da defesa da Terra, pois os tempos que vivemos vem como nunca antes perigar a sua essência, e a do nosso Povo.

Chega então o momento de enchermos as ruas, fachendosos de nós, cantando o nosso amor pelos bons e generosos e nojo pelos imbecis e escuros.

Hoje não pode faltar uma insígnia do País em cada casa, em cada recanto, como símbolo comunitário de união e determinação do mais grande Clã.

Sintamos no abeiro da Cailleach a ligação em sagrado pacto à espinha do Dragão. Celebremos!

Bom dia da Galiza!

Esta celebração é de cumprimento voluntário para Caminhantes não-galegos/as mas sim de observância para galegos/as. Protectores/as e ordenados/as na IDG têm deveres específicos para este Dia.

De sexualidade e liberdade

O dia 28 de Junho é o dia internacionalmente reconhecido como ‘Dia do Orgulho LGTB‘, comemorando uma data já histórica que remonta à chamada ‘Rebelião de Stonewall‘, em 1969. lgtb

Tem-se perguntado à IDG qual é a sua postura, e portanto da linha de religião druídica galaica que representa, perante as questões de sexo, gênero e sexualidade. Achamos que a resposta é muito simples dentro da lógica mesma das nossas crenças, baseadas na liberdade e responsabilidade. Assim aparece explicado nas FAQ/Perguntas Frequentes, sob o cabeçalho “Qual é a visão da Druidaria respeito do sexo e preferências sexuais?“, com esta resposta:

Os Druidas e Druidesas tratam o corpo, relações pessoais e sexualidade com atenção e respeito, a eles/as mesmos/as e aos/às outros/as. O sexo joga com umas energias poderosas a ser estudadas, reverenciadas e desfrutadas. Reverência não deve ser confundida com puritanismo ou excesso de pudor ou vergonha, ou com falta de intensidade. A verdadeira reverência é forte e sensual, com intenção e sentida, à vez que educada e amável. O ser humano integral é só se incorporar todos os elementos do seu ser natural, e isto inclui uma sexualidade sã que conduza a uma maior alegria e bem-estar para todos e todas.
A Druidaria prima a responsabilidade, honra e compromisso dos indivíduos, e por tanto aceita qualquer acordo, prática ou organização afectiva ou familiar que conte com o consentimento maduro e responsável de todos aqueles e aquelas envolvidos/as e que não cause mal a nenhum deles/as.

Pode-se acrescentar, de forma mais clara, que desde a IDG acreditamos que ninguém, nem indivíduo nem instituição, tem potestade nem nada a dizer sobre as escolhas pessoais de indivíduos livres e conscientes, de acordo com os nossos preceitos mais básicos, e que é necessário fazermos esforços para rachar com a sociedade patriarcal (portanto injusta) na que vivemos.
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