Num novo equinócio de Primavera

Hoje o Sol detem-se sobre as nossas cabeças, toma fôlegos por um intre na sua viagem enquanto equilibra luzes e trevas. Depois de finalmente alcançar à escuridão na sua corrida, hoje o dia dura tanto como a noite e a noite como o dia: é o equinócio da primavera, o que muitos e muitas denominam Alban Eilir, “A Luz da Terra”, Mean Earraigh, “Meia Primavera”, ou Alban Talamonos, “O Amencer da Terra”; Ostara nos cultos germânicos e wiccanos, o início do ano astrológico para outros.

É um dos quatro grandes eventos astronómicos que intercalam as quatro grandes celebrações para completar a Roda do Ano.

Continuamos assim o caminho indicado no Entroido (Imbolc). Vai resultando evidente que a chegada dos Maios (Beltaine) e imparável. A natureza cumpre os seus ciclos mais uma vez, por muito que muitos teimem em ignora-la e danifica-la. Por fim vai agromando a vida por toda parte; é óbvio e palpável. Activa-se a fertilidade e maravilhamos-nos de como a planta sabe quando tem que medrar, quando tem que sair do ovo protegido por uma lebre, simbolismo do que significavam os frutos “na barriga” (i mbolg) da deusa Brigantia, que não parou de sorrir desde o Entroido, e continua.

Renovam-se então as intenções do Entroido: continua a preparação, cuidado e sementado da terra, mas esta já reverdece. Pode-se pôr outra vez a casa em ordem e continuarmos a limpeza, também interior, porque com esta luz podemos ver melhor todo recanto escuro, em toda parte, e não deixarmos nem um canto sem arranjar.

Bom Equinócio da Primavera. Recebide a acougante Alban Eilir num agarimoso abraço. Empregade bem o tempo da Mean Earraigh. Espreguiçade-vos com o Alban Talamonos.

O Entroido (Imbolc) espreguiça-se

Cruz de Brigantia, feita de junco ou palha, representando em verdade a Cruz Solar.

Começa segunda das quatro grandes celebrações do ano, o Entroido (Imbolc), uma celebração de esperança e alegria fortemente vencelhada à deusa Brigantia (Brighid ou Bride), a deusa vitoriosa, mór representante da soberania feminina.

Nos dias a seguir a noite do 31 de Janeiro a 1 de Fevereiro, desenvolve-se este festival percebido como estímulo do crescimento, o acordar da terra, da preparação dessa terra no seu encontro com a primavera, da fertilidade. Vai-se cumprindo o anunciado triunfo sobre o inverno que começou com o ano novo no Magusto (Samain), inverno que se bem ainda não rematou também não foi quem de nos vencer quando bateu mais duro; e mesmo nestes dias quando ainda bate forte!

É o momento então para ajudarmos a terra, pôr os assuntos da casa em ordem, mesmo de fazer uma grande limpeza, de fazer planos e de “plantar” ideias (como no Lugnasad). Muitos animais parem nestas datas e mesmo pode ser considerada como a festa dos bebés. Já diz o refraneiro galego que no 2 de Fevereiro “casam os passarinhos”. Lembra-se, aliás, que o Rei hã renovar os votos com a Terra em breve, na união de soberanos.

A deusa Brigantia – portadora da luz e deusa do fogo, da vitória, da profecia, filosofia, poesia e sanação, patrona de artesãos, pastores e agricultores – guia o Entroido com os seus atributos positivos e fai que, precisamente, acedamos a uma nova época. Eis a raiz do Entroido (ou Entrudo), uma entrada a um tempo alegre mas nada a ver com o “carnavalesco” grosseiro. Brigantia assegura então este trânsito e garante a promessa de renascença feita no solstício. Ela será quem acorde os deuses Bel e Lug chegado o momento, mesmo quem dea à luz e amamente este último se figer falta a partir do dia 2.

O ano já há tempo que começou, mas só agora Brigantia e o ciclo da natureza começam a nos premiar de forma especial pela nossa resiliência. Tudo vira em torno ao Imbolc a partir destes momentos (do velho céltico i mbolg, “na barriga”), este embigo da vida. Albiscamos a sua luz e ficamos confiantes: há que chegar ainda, mas já estamos quase. É tempo de alçar a cabeça e rirmos! :)

A IDG está a desenvolver celebrações privadas nestas datas. 

Tripla deusa Brigantia, senhora do Imbolc. Detentora do fogo pois é protectora (entre outras) das ferreiras que forjam as armas, das poetas que apresentam lumes cerimoniais, e das sanadoras que facilitam o lume do lar. Brigantia fornece também pela criança nascente.


Solstício de Inverno

A Roda do Ano leva-nos mais uma vez até o Solstício de Inverno no passo do 21 ao 22 de Dezembro, uma das quatro festividades menores contempladas na Druidaria que incluem solstícios e equinócios e à parte das quatro grandes celebrações religiosas. Teimosamente a natureza demonstra que não há súbitos fins nem mais confusão da que nós queiramos formar. Antes o contrário, nos rigores do duro inverno, na noite mais longa e o dia mais curto, reparamos em que a partir de agora a luz só pode triunfar; é o lento retorno do Sol. Parece que o tempo voara desde o Magusto e já queremos alviscar o brilho de Bel nas folhas de acivro e visco branco, embora ainda estar algo longe.

Aliás, algumas outras tradições druídicas celebram esta noite mais longa do ano como sinal do eventual regresso de Bel, simbolizando a sobrevivência sobre as trevas e passeninha chegada da luz. É o enraizamento e gestação durante três dias do Infante Sol (logo Dagda) a partir do Ventre Materno, a escuridão da Deusa Dana. São as datas da Modranecht ou Matronucta (a ‘Noite Nai’), também do Meán Geimhridh (‘Meio Inverno’) e Lá an Dreoilín (‘Dia da Carriça’), o dia no que em Éire este pássaro é “caçado”, guardado e depois libertado como sinal de continuidade, da passagem definitiva do ano anteior, pois canta sem parar tanto no verão como no inverno sem interrupção. A Roda gira, a vida continua. 

Seja dito, outrossim, que trânsitos como o Solstício de Inverno são datas de extrema importância na tradição germânica (festividade de Yule) e na religião Wicca, mesmo no calendário chinês (o Dong Zhi, ou “chegada do Inverno”), entre outras no mundo. Na Europa outras religiões também empregaram e adaptaram a posteriori estas datas como marca do trânsito cara a um período de maior esplendor.

Arredor destas datas os e as Caminhantes podemos nos reunir com a nossa gente, família ou Clã, na confiança de que o futuro sempre há acabar por destruir os gelos da fria temporada. O Solstício astronómico é hoje à tardinha, mas as celebrações continuam por três ou mais dias. É a época do Apalpador, que virá trazer alegria e diversão às crianças. Queima-se o facho e manifesta-se a Coca ou Tarasca numa piscadela cúmplice, deixando-se “comer” em forma de doce.

Bom Solstício de Inverno. Boa Modranecht. Cálido e refulgente Meán Geimhridh. Que corra a raposa e que cante a carriça!

apalpador_galego

(clicar na imagem para face-la mais grande)

(click > here < for the Apalpador card in English)

Actualizações? Nem sempre aqui

Amigo corvo

Amigo Corvo, sábio e falodoiro, mensageiro de Reva e dos humanos que o saibam entender e respeitar. O Corvo comunica-nos com o Além sem pedir nada em troca.

Quem leve uma temporada seguindo à IDG saberá que nem todas as novidades são apresentadas neste sítio. Esta página publica, de facto, comunicados estacionais, notas de imprensa, artigos e comentários estendidos sobre religião e cultura.

Mas há muita mais actividade por trás da IDG que só pode ser vista se acederdes aos nossos perfis abertos (não faz falta ser membro para poder lê-lo) de Facebook e Twitter.

É aí onde aparece o “dia a dia”, as convocatórias, eventos amigos, críticas, opiniões, diálogos, perguntas e respostas e, não esqueçamos, fotografias. Lá aparecem textos que pela sua temporalidade ou pouca extensão não chegam nunca a serem publicados nesta página.

Assim pois, animamos a “gostar” (quem tiver registo) do nosso Facebook, em http://www.facebook.com/Durvate

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ou simplesmente ir lendo os conteúdos à vez de ignorando os avisos de registo, de preferirdes a vossa intimidade.

Aproveitamos para informar que de forma aleatória alguma publicidade pode aparecer nesta página. Isto é um mecanismo automático imposto pelo nosso fornecedor de internet, ou o “preço” a pagar por dispormos dum espaço gratuito. Portanto, a IDG não apoia nem recomenda a priori nenhum dos produtos ou serviços anunciados, podendo até estar totalmente em contra do seu uso, consumo ou do que representem.

Bom Magusto. Feliz Ano Novo

Senhora Cailleach no seu terceiro passo: nem moça nem adulta, mas velha rosmona e sábia, apoiada no seu sacho e vestindo o seu saio quando abrem as portas do Além, começa o ano e vai frio, vento e chuva.

No trânsito do 31 de Outubro ao 1 de Novembro milhões de pessoas arredor do mundo celebram uma tradição druídica, uma festa celta, fixada já popularmente nesta data. É a Noite de Magusto, de Samain (que alguns chamam de Halloween), dos Calacús, chegou o Samónios. É a noite quando acabam de abrir de vez as portas do Além (Sídhe) para durante três dias podermos finalmente comunicar sem eivas com os/as que não estão graças aos corvos da deusa Reva, que voam alegres e a vontade. É o intre concreto e simbólico que marca o fim do ano e o começo dum novo, celebrando-se tanto religiosamente como com uma grande festa onde é tão importante a comunhão com os nossos devanceiros e devanceiras como rir e ficar ledo/a. Entre hoje e amanhã são, em definitiva, os momentos mais importantes do ano para os/as Caminhantes da Drudaria.

A Roda do Ano completa uma volta inteira, marcando já sem dúvidas a entrada cara o Inverno. É o merecido descanso da Terra e a satisfação de termos não só superado mais um ano, senão de encontrar-mo-nos celebrando em Comunidade a boa disposição e coragem para seja o que for vem a seguir, sem importar o rigor da estação.

Toma Bandua as suas chaves e abre as cancelas do Além, deixando passo a Berobreo e os seus. Longe já do esplendor da luz de Lug (que morre e dorme placidamente guardado pela mesma Bandua), ou da regeneração de Brigantia e posterior apoteose de Bel, é agora decididamente a quenda da Cailleach - senhora da nossa Terra – completando não só o ciclo de celebrações e deidades do nosso calendário sagrado, senão também o seu próprio. Não olha mais desde um canto, mas adquire o protagonismo todo quando, precisamente, deixa de ser nova e linda, quando chega ao seu aparente fim, o fim do ano, e vira em velha mas sábia. Será ela, a também senhora da noite, a que facilite o trânsito entre aqui e o Além junto a Bandua e Berobreo; será ela quem tome conta das bestas por uma temporada; será ela a que de repente cessará de lembrar-nos a perda que pode supor o passo do tempo para fazer ver que em verdade o que havia era construção, mudança, avanço, com o exemplo da sua própria e pessoal regeneração.

corvinhoA Cailleach trabalha agora a Terra com o seu sacho até passado o próximo solstício. E com tanta trabalheira haverá quem pense que está a destroçar, mas realmente remexe o necessário para sementarmos quando chegue a nossa vez. Deixará por uma ocasião de rosmar das outras deidades para, como autêntica nai, estender o seu saio aconchegante sobre o Cosmos todo.

Estes dias a Galiza está em festa. Não há cidade, vila ou aldeia que não festeje e honre as suas devanceiras e devanceiros. Não há recuncho do País que não cheire a castanha assada (alimento favorito no Além) e a gente pense no Magusto. Não há lugar onde não fique acesa uma candeia. Não há janela sem calacú, as “cabeças cortadas” que protegem o lar. Não há crianças que não sintam que é noite de troula e vaiam “pedir o pão” pelas portas.

Hoje caem os muros etéreos e seica para-se o tempo. O mar entre mundos vira regato, quase ao alcance da simples vista. Ficamos logo nas mãos da Cailleach, na companhia do amigo corvo e baixo o abeiro do teixo.

É tempo de Druidaria; mais do que nunca esta é a nossa festa rachada.

Feliz Magusto! Bom Ano Novo a todos e a todas! Nós abofé que estaremos celebrando.

Baixar cartão comemorativo aqui

Baixar cartão comemorativo do Magusto 2013

Para mais informação sobre as origens, história e outras interpretações desta celebração na Gallaecia recomenda-se a leitura deste artigo (em galego) ou um artigo em inglês publicado na revista Celtic Guide (vol. 2, issue 11, November 2013, pp. 44-45).

Preparando o Magusto e o ‘Roteiro da Pantalha’

Cartaz da já terceira edição do 'Roteiro da Pantalha'. Vem celebrar o Magusto e o Ano Novo connosco!

Cartaz desta terceira edição do ‘Roteiro da Pantalha’. Vem celebrar o Magusto e o Ano Novo celta connosco! (clica para alargares)

Por terceiro ano consecutivo a A.C. Amigas da Cultura e o colectivo Capitán Gosende organizam mais um Roteiro da Pantalha (nome local da Estadea ou ‘Santa Companha’), após o sucesso das edições anteriores.  Também, como nas outras ocasiões, a Irmandade Druídica Galaica estará presente apoiando esta iniciativa de convívio para conhecermos melhor as antergas tradições da nossa terra e celebrarmos em comunidade o ano novo e a época de Magusto (Samain), que começa em breve.

A noite mais especial do ano – do 31 de Outubro ao 1 de Novembro – começará às 20h com uma caminhada desde a aldeia de Pedre (Cerdedo, Terra de Montes) até o santuário de Serrápio e volta, e rematará com um generoso banquete e sessão de conta-contos  participativa na Casa Florinda (Pedre). Para apontar-se à ceia (18€) ou para dormidas (15€/pessoa, almoço incluído, vagas muito limitadas) é precisa reserva com o próprio estabelecimento (Tlf. 687 742323 / 986 753180; correio-e florindarural@gmail.com). A simples presença e a caminhada estão, obviamente, livres de todo custo.

É altamente aconselhado trazer calçado ajeitado para terrenos molhados e irregulares e boa iluminação (tradicional e/ou eléctrica), pois o percurso encontrara-se na mais absoluta escuridão e pode que as condições climáticas não estejam do nosso favor.

Importante: Esta actividade acima anunciada tem carácter cultural e celebratório mas não estritamente religioso. Para as/os Caminhantes interessadas/os no rito religioso será preciso contactar directamente com a IDG (idg @ durvate.org). Aquelas/es que não o fizerem e os seus nomes não forem confirmados não poderão participar no ritual da IDG. Um texto de carácter religioso será publicado neste mesmo espaço, aliás, mais próximo da data em questão.

 

A mão trás do facho de lume

'Olimpo Celta' ardendo (11 Setembro 2013)

‘Olimpo Celta’ ardendo (11 Setembro 2013)

O Nuveiro, gigante das montanhas, espreguiça-se. Hoje é o primeiro dia de boa chuva, Outono real, na nossa Terra. Por desgraça a água chega algo tarde de mais para evitar os crimes cometidos contra Ela neste passado, seco e quente verão. Os ciclos da natureza não atendem à mesquinhez humana, às vis acções provocadas e permitidas que permitem que se consuma uma parte fundamental do nosso património mais querido e sagrado: a nossa Natureza.

Como acontecera no ano anterior com um dos nossos grandes santuários, as Fragas do Eume (facto sobre o qual a IDG pronunciou-se energicamente), este ano os lumes devastaram novamente o País, atingindo de forma especialmente simbólica o Monte Pindo, o também conhecido popularmente como Olimpo Celta. Só essa denominação dá para fazer entender e transmitir não só a importância natural do lugar, senão o significado religioso do mesmo.

Ora bem, como a imensa maioria dos incêndios produzidos na nossa Terra cada ano – que representam o 30% do Estado Espanhol no que nos achamos tristemente inseridos – estes incêndios não são simplesmente evitáveis enquanto à disposição de mais ou menos meios materiais, senão que por provocados são também evitáveis indo à raiz do problema: a especulação e interesses criados. A intencionalidade é clara, os culpáveis também.

pindoqueimando

Arde o mais sagrado, o que é de todos/as para benefício de poucos/as.

Por tudo isto apoiamos e fazemos nosso o comunicado emitido com urgência pela Asociación Monte Pindoler completo aqui – assim como fazemos um chamamento à participação no roteiro organizado para o sábado 28 de Setembro e na grande manifestação nacional contra os lumes que no 6 de Outubro sairá da Alameda de Compostela às 12h. Ambos actos contarão, abofé, com uma assistência maciça.

Lembra-se que a Druidaria tem um compromisso íntimo com o ecologismo e a defesa da Natureza, único templo verdadeiro, elemento sagrado fulcral na nossa religião. Lembra-se, aliás, que a Irmandade Druídica Galaica tem também um compromisso firme com a protecção e defesa da Terra Galaica, isto é, a defesa contra todo ataque e agressão sofrida, directa ou indirectamente, física ou virtualmente, literalmente sobre a Terra ou sobre o seu património material e imaterial. A Druidaria não é uma religião contemplativa ou passiva, ainda que alguém assim mal o pudera perceber por não ser agressiva na sua presença ou difusão (está-nos estritamente proibido, por exemplo, o proselitismo).

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